Organizadores do Livro:   Raquel Faria Scalco   Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Camila Teixeira Heleno  Virgin a Martins  Fonseca     Créditos da foto da Capa do Livro:   Glauco José Umbelino     Arte da Capa do Livro:   Hiago Patrick da Silva Moreira              PERSPECTIVAS INTERDISCIPLINARES EM TURISMO:   DEBATES NA  UFVJM                         Diamantina/MG .  2023.   Essa obra está licenciada  com  uma Licença Creative Commons  Atribuição  ­ Não Comercial  4.0  Internacional  (CC  ­  BY  ­  NC).  Para  ver  uma  cópia  desta  licença  visite  https://creativecommons.org/l icenses/by ­nc ­nd/4.0/  Qualquer parte desta publicação pode  ser reproduzida, desde que  citada a  fonte e  sem  fins  comerciais.                              SUMÁRIO     Prefácio ...................................................... .................... .............. 5  Rodrigo Burkowiski     Apresentação  ...................................................... .................... ..... 13  Raquel Faria Scalco; Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão     Projeto interdisci plinar de incentivo à leitura: K renak, questões ambientais e turismo   18  Raquel Faria Scalco; Camila Teixeira Heleno     Avaliações externas do  Curso de T urismo da   UFVJM : autoconhecimento para a  melhoria contínua da qualidade  ...................................................... ...... 41  Valéria Rodrigues Neves; Virginia Martins Fonseca; Ana Flávia Andrade de Figueiredo    Resultados  da avaliação: perfil e percepção dos participantes do ENADE   2018 do Curso  de Turismo da   UFVJM   ...................................................... .................. 66  Valéria Rodrigues Neves; Virginia Martins Fonseca; Ana Flávia Andrade de Figueiredo    Condições de trabalho no turismo e assédio moral: reflexões para a pesqui sa   ................ 84  Ana Paula Ribeiro Manduca; Georgina Maria Véras Motta; Camila Teixeira Heleno    A regulamentação da profissão de turismólogo  ............................................. 99  Raquel Faria Scalco     Seres em T rânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica   ...................................................... .................... ............. 117  Ricardo Vinicius C. dos Santos Carvalho; Gabriel Farias Alves Correia     Turismo e metaverso: da crítica sociológica a s u a aplicação na atividade turística   ...... 144  Alan Faber do Nascimento     Como transformar um destino turístico convencional em inteligente sem gastar muito?   Análise exploratória de D iamantina/ MG   ..................................................... 159  Hugo Rodrigues de Araújo; Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão; Ramon Duarte  Araújo    Arte, astrologia e   turismo: uma nova proposta de A stroturismo   ................................ 181  Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani     A produção do queijo minas artesanal e o turismo  ..................................... 198  Cleube Andrade Boari; Cynthia Regina Fonte Boa Pinto     SOBRE OS AUTORES  ...................................................... ................ 211      Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___   5    PREFÁCIO     Rodrigo Burkowski   Universidade  Federal de Ouro Preto – UFOP    rodrigo@ufop.edu.br    Há quase duas décadas, dei início à minha  carreira  na Universidade Federal de Ouro  Preto  como  professor assistente.  A  lembrança do  concurso e da quantidade aproximada de  candidatos permanece, embora  com o avanço do tempo, a precisão dos  números do passado  tenda a escapar, a menos que tenhamos registrado essas memórias além de  nossos próprios  corpos.  Éramos,  naquela  ocasião, apenas  quatro  ou  cinco  candidatos,  todos  recém ­mestres.  Naquele período, a obtenção de um diploma de mestrado era uma ra idade, e a perspectiva de  um doutorado parecia um sonho distante.    Naquele  limiar de  século XXI, o Brasil  viveu a expansão  vertiginosa dos  cursos de  Turismo  por  todo  o  país.  Mais  de  setecentos  cursos  foram  criados  nesse  período,  com  a  maioria esmagadora pertencente a instituições particulares  que , como o  tempo demonstrou,  não tinham grande comprometimento com a produção científica do Turismo , tampouco com o  reconhecimento da profissão ou mesmo o desenvolvimento de um mercado para os bacharéis  em  Tur ismo.  Exceções  existiam, como  algumas  PUC´s  (em  especial  a  de  Campinas),  a  Anhembi ­Morumbi (SP), a Newton Paiva (MG), Positivo (PR) e algumas poucas outras.  As  Universidades  Federais  também  ingressaram  nesse  cenário,  estabelecendo  programas  de  Turismo. Em  Minas Gerais, surgiram os cursos na UFOP, UFJF, UFMG e , posteriormente , na  UFVJM.    Com forte pressão e oportunismo do setor privado, os instrumentos para autorização e  renovação de autorização de cursos eram, para não correr risco de processo,  um pouco mais  flexíveis. O  foco era  na autorização,  na  fiscalização das  condições iniciais para abertura do  curso. Depois de autorizado, o  controle era brando e  carecia de instrumentos  que  só  foram  criados em 2004. Esse  novo  instrumento, diferente do antigo Provão, inclui  uma avaliação  qualitativa  do  curso  (para  além  da  quantitativa)  e  permite  aos  gestores  corrigirem  e  melhorar em  os  curso s .  Os  dados  e  desdobramentos  desta  ferramenta  são  apresentados  e  discutidos nos três primeiros capítulos desta coletânea.    Essa expan são mal planejada da oferta de cursos de turismo inundou o mercado  com  profissionais ávidos por aplicar o conhecimento adquirido ao longo dos 4 anos de curso. Mas  Prefácio  Rodrigo Burkowski   ____________________________________________________________ 6    que conhecimento é esse? O que ele agrega de valor para as organizações? Na linguagem do  merc ado, qual seu diferencial competitivo?    Considerando  a existência de  mais de  setecentos  cursos,  uma  conta  simples  aponta  para mais de 20.000 profissionais sendo colocados por ano em um mercado que, 30 anos após  a  criação do primeiro  curso de Turismo  na extinta  Universidade  Anhembi ­Morumbi, ainda  não reconhece os valores e ganhos que este profissional pode agregar às empresas e a órgãos  públicos.  Nos  capítulos  quatro  e  cinco  as  pesquisadoras  traçam  as  consequências  deste  excesso  de  profissionais  e  os  danos  q ue  a  falta  de  regulamentação/  reconhecimento  da  profissão produz em  um  setor estruturante, gerador de muitos empregos e base para  novos  modelos de desenvolvimento, como explorado nos capítulos finais da coletânea.   Os organizadores desta coletânea, Raquel F aria Scalco, Guilherme Fortes Drummond  Chicarino Varajão, Camila Teixeira Heleno e Virgínia Martins Fonseca  foram muito  felizes  na estruturação da presente obra. Os cincos primeiros capítulos apresentam, mesmo não sendo  o objetivo principal do livro , um raio­x de um triplo movimento e suas contradições.   O primeiro é a crise contemporânea pelo qual as instituições de ensino superior estão  vivendo.  Acelerada  pela  pandemia,  essas  organizações  enfrentam  uma  certa  crise  de  identidade  no momento em que parcela  s ignificativa da  sociedade  não mais reconhece  nelas  um  espaço  legítimo  para  transformação  da  sociedade.  Os  jovens  questionam  e  são  questionados  sobre  a  validade  de,  no  caso  de  IES  que  não  estão  localizadas  em  grandes  centros,  terem  que  mudar  de  cidade,  investir  escassos  recursos  financeiros  ao  invés  de  permanecerem em  suas  cidades e  cursarem  uma  faculdade EAD. A apatia  captada e exposta  no capítulo um e dois é reflexo deste momento.   O segundo é o amadurecimento do conhecimento sobre Turismo no Brasil. Há qu inze  anos tínhamos eventos, como o Congresso Brasileiro de Turismo, organizado pela Associação  Brasileira de Turismo,  que  contavam  com  mais  de 5.000 participantes.  Autores brasileiros  pioneiros  neste  campo,  como  Mário  Carlos  Beni,  Doris  Ruschman,  Célia  Dia s,  Miriam  Rejowski,  Emanuel  Castelli,  Bayard  Do  Coutto  Boiteux,  Indio  do  Espirito  Santo,  Miguel  Bahl, José Manoel Gândara, Marutschka Martini Moesch dentre outros, eram quase popstar.  Todavia, o  foco de boa parte da academia, dos alunos e dos egressos daquel  época, era  na  expansão  de  cursos  de  graduação  e  consultoria,  com  pouco  foco  no  desenvolvimento  científico do turismo e reconhecimento do valor do turismólogo. Assim como os cursos foram  fechando, os grandes eventos acadêmicos foram diminuindo e alguns  extintos. Se por um lado  houve este movimento de retração, o país  começa a presenciar a expansão da pós­graduação  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 7    na área de Turismo, com a criação de diversos cursos. Os primeiros mestrados em Turismo no  Brasil surgiram na Universidade de São Paulo (1993 ­ Público) e na Universidade do Vale do  Itajaí (1997 ­ Privado). A plataforma da CAPES (órgão do governo federal que regula a pós­ graduação)  aponta  que,  ntre 2011  e 2015,  havia 13  cursos  no  país.  Outros  cursos  foram  criados  posteriormente , entre 2016 e 2020, evidenciando  um  crescimento dessa  oferta  com  valorização  no ambiente acadêmico. O mais recente é o  curso de Turismo e Patrimônio da  Universidade Federal de Ouro Preto, cuja atividade começou em 2021.  O terceiro é uma síntese dos movimentos anteriores q ue desvaloriza o ensino superior ,  mas , por meio dele (em especial da pós­gradução), gera novos sentidos e saberes para o curso  de  Turismo.  Há  uma  expansão  das  fronteiras  do  conhecimento  da área,  levantando  novas  questões e apontando  soluções  para  um  mercad o  crescente. Esse  novo  mercado é marcado  pelo  uso  intensivo de  tecnologia,  provocando  rupturas  na  forma  tradicional de  viabilizar  o  Turismo.  Booking,  Airbnb,  Uber,  Eatwithme,  Maxmilhas,  Ifriend,  Onfly , entre  outras , são  produtos  de  estudantes  ou  recém ­form ados  (não  necessariamente  em  Turismo)  que  enxergaram, na junção do turismo e tecnologia, algo que poderia transformar a sociedade.  Os  capítulos  desta  obra  percorrem , então, um  interessante  caminho.  Refletem  de  maneira crítica sobre o curso de Turismo da Un iversidade Federal do Vale do Jequitinhonha e  Mucuri e apontam novas direções para o mercado de trabalho. Isso é extremamente necessário  e urgente, no momento em que estudos do IBGE e do Ibre­FGV apontam que quem estudou  mais  no  país  foi  o  que  mais  teve  queda  nos  rendimentos  e  na  qualidade de emprego  nos  últimos dez anos 1. Com isso, refletir sobre as práticas de ensino, as formas de gestão e difusão  do  conhecimento e  compreender os  limites (se é que existem) e as  lacunas  que a academia  pode preencher, é uma das principais contribuições da presente obra.    O  primeiro  capítulo  desta  coletânea  aborda  um  desafio  crucial  que  afeta  diversas  universidades:  c omo  podemos  fomentar  a  produção  científica  em  um  contexto  no  qual  os  futuros pesquisadores parecem estar lend o cada vez menos? Como colocar o aluno no centro  do processo de ensino ­aprendizagem? Através do projeto interdisciplinar "Incentivo à Leitura:  Krenak, Questões  Ambientais e Turismo", as autoras Raquel Faria Scalco e Camila Teixeira  Heleno delineiam  uma abo rdagem  cativante para revalorizar o ato de  ler e para promover a  interdisciplinaridade.  As  docentes  inovam  ao  adotar  uma  abordagem  interdisciplinar  envolvendo 27 disciplinas, destacando o potencial dessa abordagem como  catalisador de um                                           1  https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2023/09/04/internas_economia,1556463/brasileiro­mais ­ escolarizado ­ve ­renda­desabar­e­cai ­na ­informalidade.shtml   Prefácio  Rodrigo Burkowski   ____________________________________________________________ 8    pensamento crítico  no âmbito do Turismo. Além disso, empregam uma variedade de métodos  para amplificar o impacto do projeto.  No  segundo  capítulo , "Avaliações  Externas  do  Curso  de  Turismo  da  UFVJM:  autoconhecimento  para  a  melhoria  contínua  da  qualidade ",  as  autoras  Valéria  Rodrigues  Neves, Virginia Martins Fonseca e Ana Flávia Andrade de Figueiredo exploram o processo de  credenciamento, avaliação e recredenciamento do  curso. Peter Drucker,  uma das referências  em administração, afirmou que só é possível gerenciar aquilo que se pode mensurar. Portanto,  discutir  esse  processo  não  apenas  através  de  reconhecimento,  mas  também  por  meio  da  divulgação dos resultados, demonstra uma postura audaciosa por parte do curso e possibilita  uma  vigilância  social das ações dos agentes públicos. Dessa  forma, ao prover a  comunidade  acadêmica e a sociedade com informações atualizadas ­ um verdadeiro diagnóstico do estado  atual do curso  ­, é possível orientar o planejamento, ajustando e redirecionando esforços.  O  terceiro  capítulo,  intitulado  "Resulta dos  da  avaliação:  perfil  e  percepção  dos  participantes  do  ENADE  2018  do  Curso  de  Turismo  da  UFVJM ",  elaborado  por  Valéria  Rodrigues Neves, Virginia Martins Fonseca e Ana Flávia Andrade de Figueiredo, surge como  um desdobramento do capítulo precedente. Dura nte a realização do ENADE, os alunos devem  preencher  um  questionário. Esse  instrumento  serve de base  para a  reflexão apresentada  no  artigo. O texto entrelaça os dados do questionário com os resultados obtidos  na avaliação de  2018  e  enfatiza  o  papel  das  novas  tecnologias  em  estimular  a  participação  ativa  dos  estudantes.  Além  disso,  reforça  a  contribuição  fundamental  dos  docentes  na  construção  coletiva do curso e no aprimoramento dos indicadores, tanto quantitativos quanto qualitativos.    “As  condições  de  trabalho  no  Turismo  e  o  Assédio  Moral:  Reflexões  para  a  pesquisa ”, de  Ana Paula Ribeiro Manduca, Georgina Maria Véras  Motta e Camila Teixeira  Heleno , é o quarto  capítulo desta  obra. Neste  capítulo  as  autoras, e deve­se  frisar  que  são  autoras , pois as mulheres  são as maiores  vítimas de abusos e assédios  no Turismo, levantam  as  características  comuns  do  trabalho  no  turismo,  bem  como  as  dificuldades  relativas  à  ausência  de  regulamentação  que  dificultam  tanto  a  proteção  dos  direitos  do  trabalhador  quanto a identif icação de que  na relação com o turista e, mesmo  com a organização, podem  ocorrer práticas abusivas, visto que muitas são socialmente aceitas, camufladas/ocultas  sob o  véu da excelência (p. 90). Para as autoras, a regulamentação das  ACTs e da profissão, bem  como a necessidade de o Brasil ser signatário da Convenção 190 da OIT, seria uma forma de  diminuir esses crimes.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 9     Um dos temas mais discutidos  na academia, apesar de ter perdido força nos últimos  10 anos, “A regulamentação da profissão de turismólogo”, de Raquel Faria Scalco , é o quinto  artigo desta  coletânea. Um dos expoentes da não regulamentação da profissão é o renomado  professor  Luiz  Gonzaga  Godoi  Trigo.  A  autora  corrobora  as  ideias  do  pesquisador,  que  destaca  a  necessidade  maior  de  reconhecimento  mercadológico  e  social  da  profissão  de  turismólogo , do  que  de  fato  da  regulamentação  em  si.  Particularmente,  a  despeito  da  “tendência global à desregulamentação no cenário neoliberal, os desdobramentos econômicos e  sociais desse processo ” (p.110), entendo  ser  necessária a  luta pela regulamentação mesmo  que  como  bandeira  da  profissão.  Compartilho  que  o  mercado  não  irá  permitir  essa  regulamentação e que ela, por si só, não irá melhorar o Turismo no país. Contudo, já tivemos  um breve momento em que projetos da  área de  turismo,  financiados  pela  CEF pediam  um  parecer  de  um  profissional  de  Turismo  e  esse é  um  caminho  interessante. Por  fim,  como  apontado no texto, mesmo sem o reconhecimento, temos que lutar por políticas educacionais,  políticas  públicas  amplas  e  responsáveis,  planejamento  de  longo  prazo,  valorização  da  ciência , dentre outros para a consolidação da profissão.     Como  apontado,  esse  primeiro  bloco  versa  sobre  um  aspecto  mais  estrutural  dos  cursos  de  Turismo  no  Brasil  e , em  especial , do  curso  da  UFVJM.  Os  próximos  capítulos  avançam em áreas de atuação do profissional de Turismo,  sejam elas atuais ou perspectivas  futuras.     O capitulo 6, “Seres em trânsito: Cidadania, Turismo e Renda em uma perspectiva organizacional crítica”, de Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho e Gabriel Farias Alves  Correia, enfatiza a necessidade de reorientar o turismo em direção à cidadania, reconhecendo  a diversidade de experiências  humanas e direitos.  A discussão aborda a atual  sociedade de  desempenho,  onde  o  turismo , muit as  vezes , se  torna  uma  ferramenta de exclusão,  ligada à  disponibilidade de renda. Questiona­se se o turismo está preparado para transformar espaços  em  lugares  para  todos  ou  apenas  para  aqueles  com  renda  disponível.  A  reflexão  conclui  destacando  a  importânc ia  de  um  movimento  conjunto  entre  Estudos  Organizacionais  e  Turismo para reforçar os direitos de todos os indivíduos em sua busca pela experiência plena  do mundo.    Um dos  temas  que  mais  despertou  a  atenção da  sociedade  nos últimos  3  anos,  o  Metaverso , é  o tema  disc utido em “Turismo e Metaverso: da  crítica  sociológica  a  uso  crescente do metaverso na indústria do turismo”, e suscita diversas preocupações. Uma delas  se relaciona ao  fato de que grandes empresas do  setor estão predominantemente investindo  Prefácio  Rodrigo Burkowski   ____________________________________________________________ 10    nesse  espaço, o que pode  conduzir a  uma maior  concentração monopolista.  A diferenciação  em relação ao passado está na fusão, aquisição e incorporação de empresas turísticas por parte  das  gigantes  tecnológicas,  o  que  potencialmente  agravaria  as  desigualdades  nos  fluxos  turísticos globais. Isso poderia favorecer os destinos  com recursos  financeiros e tecnológicos  para promover ações físicas e digitais, prejudicando as comunidades de países periféricos que  buscam o desenvolvimento do turismo.   Além disso, apesar da  n oção de  um  turismo  sem impactos, é  sabido que a  natureza  imaterial  desse  capitalismo  virtual  pode  resultar  na  transformação  de  países  menos  desenvolvidos  em  depósitos  de  resíduos  eletrônicos,  criando  um  dilema  entre  a  pressão  internacional pela proteção ambiental e a absorção de danos ambientais causados pelos países  mais  industrializados.  Isso  se  agrava  pela  precarização  do  trabalho  em  formas  virtuais  e  digitais,  levando à extinção de empregos  tradicionais  no  turismo,  ao  surgimento  de  novas  funções e à necessidade de  competências e qualificações diferentes para os profissionais do  setor,  o  que,  por  sua  vez,  pode  resultar  em  aumento  do  desemprego,  infor malidade  e  problemas de saúde física e mental dos trabalhadores do turismo.   Por fim, para os turistas, há o risco de manipulação algorítmica, uma vez que o uso de  óculos  3D  no  metaverso  pode  ser  ainda  mais  viciante do  que  os  dispositivos  tradicionais,  como  smartphones e  tablets, afetando a  saúde mental e  contribuindo para problemas  como  ansiedade e depressão.  Essas questões  atualizam  críticas  previamente  dirigidas  ao  turismo  convencional, que  se baseia  fortemente  no  consumo de imagens, agora potencializadas pela  transformação dos sentidos humanos no metaverso.   Destinos  turísticos  inteligentes  é  o  que  nos  trazem  os  autores  Hugo  Rodrigues  de  Araújo,  Guilherme  Fortes  Drummond  Chicarino  Varajão  e  Ramon  Duarte  Araújo ,  no  8º  capítulo, “Como transformar um destino turístico convencional em inteligente  sem  gastar  muito?  Análise exploratória de Diamantina/MG ”. O texto aborda o conceito de "inteligente"  na  era digital,  relacionando­o  a diferentes  contextos,  como  cidades,  infraestruturas  físicas,  tecnologias  e  economia.  Em  cidades  inteligentes,  busca ­se  otimizar  recursos  e  melhorar  a  qualidade de vida. Em infraestruturas físicas, promove ­se a integração de tecnologias, como a  Internet  das  Coisas.  No  turismo,  busca ­se  aprimorar  experiências  e  a  cocriação.  O  texto  também destaca a importância de parcerias, governança eficiente e tecnologias acessíveis para  implementar soluções  de turismo inteligente, exemplificadas no caso de Diamantina.    Astroturismo  é  a  inovação  desenvolvida  por  Maria  Cláudia  Almeida  Orlando  Magnani. O capitulo 9, “Arte, astrologia e Turismo: Uma nova proposta de astroturismo” Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 11    discute uma pesquisa em andamento  sobre representações da astrologia em igrejas no Brasil e  a possibilidade de encontrar mais exemplos não identificados até o momento. O astroturismo,    visto em diversos países, oferece benefícios,  como promover a  conscientização  sobre o  uso  sustentável da  Terra, valorizar o meio ambiente, proporcionar uma experiência encantadora de  observação  do  céu,  impulsionar  economias  locais  e  oferecer  acesso  ao  conhecimento  científico. Nesse contexto, a pesquisa propõe uma nova abordagem que conecta a astrologia à  arte e à religião, integrando­a  o turismo cultural e religioso.   As  representações da  astrologia e dos  símbolos  do  zodíaco  no  contexto  cristão  são  vistas  como  motivos  de  admiração  e  encantamento.  Embora  sejam  comuns  em  países  europeus e na Itália católica desde a Idade Média, foram encontradas apenas duas igrejas  no  Brasil  que apresentam esses elementos.  Isso demonstra  como esses  temas  têm  uma energia  duradoura que transcende diferentes tempos e lugares.   O texto também destaca a conexão entre arte e astrologia, ambos ocupando um espaço  intermediário entre a atitude mágica e a racionalidade. Ambos  compartilham a dualidade de  serem ao mesmo tempo ciência e idolatria, atendendo à necessidade humana de se comunicar  com o transcendente e de prever eventos futuros pa ra enfrentá­los.   A  pesquisa  sugere  que  toda  essa  riqueza  de  elementos  pode  ser  explorada  pelo  turismo, valorizando a cultura, o patrimônio, a compreensão histórica da ciência e da religião,  a  arquitetura  e  a  arte  visual.  Além  disso,  o  astroturismo  pode  proporcionar  satisfação  psicológica e espiritual aos turistas, promovendo a integração e a sustentabilidade cultural.  Portanto,  a  pesquisa  busca  ressignificar  a  astrologia  como  parte  do  turismo,  destacando  seu potencial para enriquecer as experiências dos  vis itantes e preservar aspectos  culturais significativos.   O  derradeiro  artigo é do  professor  Cleube  Andrade  Boari  e  da  professora  Cynthia  Regina Fonte Boa Pinto e discute “A produção do queijo artesanal e o turismo”. O  texto  aborda o potencial da produção rural associada ao turismo , em Minas Gerais, destacando o  reconhecimento  internacional  do  estado  por  sua  rica  cultura  gastronômica,  incluindo  itens  como  cachaça,  quitutes,  quitandas,  cervejas  artesanais  e  vinho  mineiro.  A  combinação da  produção  rural  de  alimentos  especiais  com  o  turismo  beneficia  turistas,  visitantes  e  produtores, sendo uma tendência mundial.   Na  Serra  da  Canastra,  a  Rota  do  Queijo,  impulsionada  pelo  potencial  turístico  da  região,  associativismo  e  qualidade do  queijo,  atrai  visitantes  e  gera  imp ctos  positivos.  A  manutenção  das  ações  e  a  avaliação  dos  resultados  ao  longo  de  mais  de  dez  anos  de  Prefácio  Rodrigo Burkowski   ____________________________________________________________ 12    implementação  da  rota  são  essenciais  para  desenvolver  novas  estratégias  e  melhorar  a  infraestrutura,  como  acesso  e  comunicação,  para  potencializar  ainda  m ais  a  produção  associada ao turismo.   Em  Diamantina,  parcerias  com  instituições  de  ensino  e  fomento  à  produção  e  ao  turismo podem apoiar atividades em queijarias que já recebem turistas e em outras que ainda  não o fazem. É importante garantir a qualidade dos produtos,  como queijos, e promover  leis  que  estimulem  o  pleno  desenvolvimento  da  produção  associada  ao  turismo  em  diferentes  unidades rurais  produtivas,  como  vinícolas,  cervejarias e  fazendas de produtos  como mel e  azeite.  O texto conclui que, embora haj a um longo caminho para o pleno reconhecimento da  produção queijeira em Minas Gerais, várias iniciativas, como as mencionadas, têm acelerado  esse  processo.  O  sucesso  dos  queijos  mineiros,  atestado  por  diversas  premiações  internacionais, reflete o aumento  c onstante do turismo  no estado, e a associação eficaz entre  atividade turística e produção rural é uma tendência promissora em Minas Gerais.  Os leitores desta obra têm a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre os cursos  de Turismo,  sobre a profissão de turismólogo e sobre inovações  no mercado turístico que  se  aplicam não apenas a UFVJM , mas a todas as IES. A UFOP e A UFVJM, apesar dos 400km  que as separam, possuem vínculos que precisam ser aprofundados. Para além da admiração do  excelente  trabalho  que  o corpo docente  v em desenvolvendo (uso  consciente da  tecnologia,  envolvimento  político  para  além da  instituição, entre  outros)  urge  pensar  novas  formas de  conectar essas cidades patrimônios.    A existência de cursos de turismo  nestas  localidades é um instrum ento para melhoria  da  qualidade  de  vida  da  região  (e  do  país), mas  o  quadro  apresentado  na  obra  inspira  cuidados , pois a continuidade dos cursos de turismo (não apenas da UFVJM) demandam um  esforço coletivo para resgatar o valor do ensino  superior, geração de inovação e melhoria da  qualidade de vida dos trabalhadores do setor.   A título de fechamento deste prefácio, meu doutorado foi feito no norte de Minas e , na  ocasião, tive bastante  contato  com o Parque Nacional Grande Sertão Veredas e outras áreas  protegidas  da  região. Para  conhecer  mais  sobre  a  região  acabei  relendo  o “Grande  Sertão  Veredas”, de Guimarães Rosa, com o qual finalizo e desejo a todos uma boa leitura.   “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende” (Guimarães Rosa, 1994).  Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___       APRESENTAÇÃO     Raquel Faria Scalco   Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri  – UFVJM   raquel.scalco@ufvjm.edu.br     Guilherme Fortes Drummond  Chicarino Varajão   Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri  – UFVJM   guilhermefdcv@ufvjm.edu.br       O livro “Perspectivas interdisciplinares  em  Turismo: debates  na UFVJM ” é fruto de  um Projeto de Extensão desenvolvido  no âmbito do Curso de Turismo da Universidade  Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), entre março de 2022 e fevereiro de  2023,  intitulado “Ciclo  de  debates  do  Curso  de  Turismo  da  UFVJM:  construção  de  conhecimento,  divul gação  científica  e  estreitamento  dos  laços  entre  a  universidade  e  a  comunidade externa”. Este  projeto  foi  coordenado  pelos  professores  Guilherme  Varajão  e  Raquel  Scalco  e  contou  com  a  participação de  mais  onze  docentes  do  curso.  Teve  como   propósito promove r debates, palestras e seminários abordando temas emergentes do turismo e  resultados  de  projetos  de  pesquisa,  extensão  e  ensino,  visando  a divulgação  científica  e  a  formação de pessoas.   Essas atividades  vêm  sendo desenvolvidas  no Curso de Turismo desde  se tembro  de 2020, tendo iniciado, primeiramente, de maneira remota, em  função do isolamento  social  imposto  pela  pandemia  da  COVID ­19,  e,  a  partir  de  2022,  de  maneira  preferencialmente  presencial.  Tal  iniciativa  foi  gestada  pelo  grupo  de  professores,  visando  maior  integração  entre docentes e discentes, de modo a propiciar maior envolvimento dos estudantes  com  o  curso  e  como  estratégia  de  ensino  capaz  de  contribuir  para  a  redução  da  evasão  na  universidade.  A avaliação dos estudantes e professores  sobre essas ações  têm  sido bastante  positivas,  contando  com  a  participação  da  maior  parte  de  nossos  discentes,  bem  como  atingindo expressivo público pela transmissão de muitas delas via canal do Youtube Turismo  ConsCiência 2. Ademais,  um importante resultado desse projet o foi a publicação de um livro,  intitulado “Turismo ConsCiência: diálogos em tempos de pandemia” (MAGNANI et. al., 2021),  apresentando  uma  coletânea  com  dez  capítulos  redigidos  a  partir  das  temáticas  apresentadas nos  seminários, webinários e palestras que  ocorreram no âmbito destes projetos  de extensão, entre 2020 e 2021.                                           2 https://www.youtube.com/channel/UCH1atWgPvaddDF8VENH46eg   Apresentação   Raquel Faria Scalco   Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   _____________________________________________________________ 14    Entende ­se que essa iniciativa traz ganhos expressivos ao Curso de Turismo, não  só por causar impacto positivo na formação de nossos estudantes, mas também por trabalhar a  interdisciplinar idade  no  curso  de  turismo,  a  indissociabilidade  entre  ensino,  pesquisa  e  extensão, a interação dialógica da comunidade acadêmica com a sociedade, além de contribuir  com  a transformação  social da região onde a  universidade está inserida. Esses aspectos  são  apontados  como  diretrizes  importantes  para  o  desenvolvimento  de  ações  de  extensão,  de  acordo com a Política Nacional de Extensão Universitária (FORPROEXC, 2012).  Mediante a avaliação positiva de discentes e docentes do curso sobre a pertinência  da  continui dade do  projeto em 2022, adotou­se  como estratégia a  realização de atividades  mensais do projeto,  com palestras presenciais articuladas por professores do  curso,  com ou  sem a participação de convidados externos. Ressalta­se que foi realizada uma enquete co m os  alunos  para  que  os  mesmos  pudessem  propor  temas  de  interesse  a  serem  abordados  nos  diálogos interdisciplinares.  Ao  todo  foram  realizados  14  encontros,  sendo  quatro  online  pelo  Canal  do  Youtube Turismo ConsCiência, e 10 de maneira presencial, que se al ternaram entre a Ágora  do Centro de Humanidades da Faculdade Interdisciplinar em Humanidades do Campus JK, o  hall do Núcleo de Estudos Avançados em Turismo e o auditório da Associação Comercial de  Diamantina (ACID). A  seguir estão elencados, em ordem  crono lógica de realização, o título  dos  encontros,  os  palestrantes  e  moderadores  envolvidos,  além de especificar  os  locais  de  realização dos encontros ligados a esse projeto.      Seres em trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva crítica     Apresentação: Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho (Banco Central do Brasil)     Moderação: Gabriel Farias Alves Correia (UFVJM)    Local: YouTube  (https://youtu.be/bSJ9YDQLWsw )      Mercado de  trabalho,  currículo  e  networking  no   turismo:  o  papel  do  estágio  na  formação  acadêmica     Apresentação: Guilherme F. D. C. Varajão (UFVJM)    Local: Auditório da Associação Comercial de Diamantina.       Produção associada ao turismo: o caso dos queijos artesanais de Diamantina     Apresentação: Cleube Boari (UFVJM) e Leandro Assis (APRODIA)     Moderação: Cynthia Fonte Boa (UFVJM)    Local: Auditório da Associação Comercial de Diamantina.       Assédio moral no trabalho     Apresentação:  Georgina  Maria  Véras  Motta  (UFMG)  e  Ana  Paula  Ribeiro  Manduca  (UFMG)     Moderação: Camila Heleno (UFVJM)     Local: YouTube  (https://www.youtube.com/live/nA2CIWdlQ7s )      Como transformar um destino turístico convencional em inteligen te?   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 15      Apresentação: Bárbara Blaudt Rangel (Ministério do Turismo)    Moderação: Hugo Araujo (UFVJM)    Local: YouTube  (https://www.youtube.com/live /bgYugj­9Ln4 )      Ideias para adiar o fim do mundo: debate     Moderação: Docentes do Curso de Turismo (UFVJM)     Local: Ágora do Centro de Estudos em Humanidades da FIH, Campus JK.       Creditação da extensão universitária     Apresentação: Virginia Martins Fonseca (UFVJM)     Local: Núcleo de Estudos Avançados em Turismo.       Regulamentação da profissão de turismólogo     Apresentação: Raquel Faria Scalco (UFVJM)     Local: Núcleo de Estudos Avançados em Turismo.       Parcerias para o uso público em áreas protegidas     Apresentação: Virginia Martins Fonseca (UFVJM) e Raquel Faria Scalco (UFVJM)      Local: Núcleo de Estudos Avançados em Turismo.       Turismo no metaverso     Apresentação: Alan Faber Nascimento (UFVJM) e Guilherme F. D. C. Varajão (UFVJM)    Local: Núcleo de Estudos Avançados em Turismo.       Ciclo   de Debates: ENADE Turismo     Apresentação: Valéria Rodrigues Neves (UFVJM)    Moderação: Ana Flávia Figueiredo (UFVJM) e Virginia Martins Fonseca (UFVJM)    Local: YouTube  (https://youtu.be/pyRGhEvguwY )      Conferência patrimônio ­territorial e dinâmicas  urbano ­rurais na  América Latina e Caribe     Apresentação: Everaldo Batista Costa (UNB)    Local: Ágora do Centro de Estudos em Humanidades da FIH, Campus JK.       Projeto interdisciplinar de incentivo à leitura: diálogos sobre o livro 'A vida não é útil'     Apresentação: Discentes e docentes do Curso de Turismo     Moderação: Docentes do Curso de Turismo (UFVJM)     Local: Ágora do Centro de Estudos em Humanidades da FIH       Arte, Astrol ogia e Turismo: uma  nova proposta de astroturismo     Apresentação: Maria Cláudia Magnani (UFVJM)     Local: Campus JK.     Os encontros  foram eminentemente organizados pelos docentes da UFVJM, mas  cinco  eventos  contaram  com  participantes  de  outras  instituições  de  en sino,  ou  órgãos  públicos.  A participação de palestrantes de outras  cidades e instituições  foi  facultada pelos  encontros em formato de webinário, pelo canal do YouTube. Devido à facilidade de acesso e  disponibilidade  para  assistir de  modo  assíncrono,  as  transmissões  pelo  YouTube  contaram  com maior número de visualizações, se comparado com os eventos presenciais.   Apresentação   Raquel Faria Scalco   Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   _____________________________________________________________ 16    Ao  todo,  considerando os 14 encontros,  houve 511 registros de presença 3. 90%  dos participantes  foram estudantes de graduação da UFVJM e apenas 6%  foram de pessoas  externas à universidade. Percebe­se, desse modo, que o principal público  foi os discentes do  próprio  Curso de Turismo, a despeito de profissionais  ligados  ao  turismo e do público em  geral terem tido a possibilidade de se beneficiar da propost .  O evento presencial que teve maior número de participantes foi “Produção associada ao turismo: o caso dos queijos artesanais de Diamantina”, que contou com 53 pessoas. Considerando os quatro eventos online, 68 pessoas assistiram de maneira síncrona o  w ebinário “Como transformar um destino turístico convencional em inteligente?”.   Ao final do projeto surgiu, mais uma vez, a ideia de se publicar os resultados das  atividades realizadas por meio do presente e­book, no  sentido de disponibilizar este material  gratuita e rapidamente para discentes, docentes e para a comunidade em geral. Destaca­se que  nem  todas  as  atividades  e  temáticas  abordadas  nos  referidos  encontros  adaptavam ­se  à  proposta do presente  livro, aos prazos  sugeridos para a redação, ou  não  houve interesse por  parte  de  alguns  apresentadores,  o  que  justifica  um  menor  número  de  capítulos  quando  comparado  ao  número  de  encontros  que  ocorreram  no  período  de  vigência  do  projeto.  Ressalta ­se que um dos temas abordados nos encontros foi dividido em dois c apítulos, dada a  complexidade do assunto e  uma  vez  que as autoras apresentaram grande riqueza de dados,  fazendo  uma  análise  bastante  completa  da  questão  da  avaliação  do  ENADE  no  curso  de  turismo da UFVJM.   Neste sentido, esta obra apresenta uma coletânea de 10 capítulos abordando temas  correlatos ao turismo, organizados em 3 eixos. O primeiro eixo trata de aspectos relacionados  ao ensino no curso de turismo, apresentando os resultados de projeto de ensino desenvolvido  no curso e a importância do Exame Nacion al de Desempenho dos Estudantes (ENADE) para  os  discentes  e  para  a  Universidade.  No  segundo  eixo  são  apresentados  capítulos  sobre  as  condições de trabalho  no turismo e a regulamentação da profissão. Já o terceiro eixo aborda  temas emergentes relacionados a o turismo, tais  como  seres em trânsito, metaverso, destinos  inteligentes, astroturismo e produção associada ao turismo.  Espera ­se  que  esta  obra  alcance  um  número  expressivo  de  leitores  e  que  as  reflexões  e  provocações  aqui  apresentadas  possam  suscitar,  cad a  vez  mais,  os  debates  interdisciplinares  sobre  o  turismo,  dentro  e  fora  da  academia.  Essa  publicação  também                                           3 Foi  utilizado,  para  cada  evento,  um  form ulário  do  Google  Forms  para  efetuar  o  registro  de  presença  e  possibilitar a emissão de certificados de participação.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 17    possibilita  que  essas  discussões  reverberem  e  alcancem  um  público  diferente  daquele  que  participou presencialmente, ou de modo síncrono dos encontr os.   É  importante  destacar  que  essas  publicações  também  são  a  consolidação  e  o  amadurecimento  das  ideias  inicialmente  trabalhadas  nos  encontros.  Ou  seja,  os  autores  tiveram  um  tempo  maior  para  sedimentar  pensamentos,  fundamentar  os  posicionamentos  e  incorp orar os questionamentos e contribuições advindos dos encontros. Enfim, espera ­se que,  para além de  contribuir para a  formação e qualificação de  nossos estudantes, que este meio  sirva  para  a  divulgação  dos  importantes  trabalhos  realizados  pelo  Curso  de  Turismo  da  UFVJM. Desejamos a você uma boa leitura!    Aproveitamos para agradecer a todos e todas que  contribuíram  com o projeto  de  extensão que gerou esta publicação, aqueles que fomentaram os debates e colaboraram  com a  formação  dos  discentes  e,  especialmente ,  agradecemos  aos  autores  que  enviaram  suas  propostas para a  construção desse  livro,  visando promover a divulgação científica das ações  desenvolvidas no curso de turismo da UFVJM.     REFERÊNCIAS     FORPROEX.  Fórum  de  Pró­reitores  de  Extensão  das  Universidades  Públicas  Brasileiras.  Política Nacional de Extensão Universitária . Manaus/AM. 2012.    MAGNANI,  M.  C.  O.;  FERREIRA,  M.  L. S.;  HELENO,  C. T.; VARAJÃO,  G. F. D.  C.;  SCALCO, R. F.; MARTINS FONSECA, V . Turismo ConsCiência :  diálogos em tempos de  pandemia.  Diamantina: UFVJM, 2021.  Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___       PROJETO INTERDISCIPL INAR DE INCENTIVO À  LEITURA: KRENAK,  QUESTÕES AMBIENTAIS  E TURISMO     Raquel Faria Scalco   Universidade  Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri  – UFVJM   raquel.scalco@ufvjm.edu.br     Camila Teixeira Heleno   Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri  – UFVJM   camila.heleno@ufvjm.edu.br     INTRODUÇÃO   O projeto de ensino intitulado “Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura” foi desenvolvido  por  professores  do  curso  de  turismo  da  Universidade  Federal  dos  Vales  do  Jequitinhonha  e  Mucuri  (UFVJM),  durante  os  semestres  letivos  2021/02  e  2022/01,  entre  março  de  2022  e  março  de  2023.  O  projeto  foi  submetido  e  aprovado  pela  Divisão  de  Assuntos  Acadêmicos  (DAA)  da  Diretoria  de  Ensino  (DEN),  vinculada  à  Pró ­reitora  de  Graduação da UFVJM,  contou  c om a  coordenação das professoras Raquel Scalco e Camila  Heleno e com a participação de 14 professores e 81 alunos do curso de turismo da UFVJM.  A proposta deste projeto surgiu em função da avaliação dos docentes do curso de  que os alunos  vêm apresentando d ificuldades de leitura, interpretação de texto e escrita,  fato  este que  se agravou  com a pandemia da COVID ­19. Em 2014, o  curso de Turismo já havia  adotado estratégia  semelhante, trabalhando  com o  livro Minha Vida de Menina (MORLEY,  1998).  O presente projeto de ensino teve como objetivos promover a interdisciplinaridade  no  curso  de  Turismo  da  UFVJM;  incentivar  a  leitura  e  interpretação  de  texto  entre  os  discentes do curso de Turismo da UFVJM; incentivar uma postura mais ativa no processo de  ensino ­aprendiza gem nos discentes; e favorecer o processo de ensino aprendizagem.    Para  tanto,  foram  escolhidos  dois  livros  de  Ailton  Krenak  a  serem  trabalhados  durante os semestres letivos de vigência do projeto, sendo eles: “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (KRENAK, 2019) e “A Vida não é Útil” (KRENAK, 2020). Foram realizadas atividades na maior parte das disciplinas ofertadas pelos docentes, assim como momentos de  transmissão  de  Lives  sobre  as  obras,  socialização  e  debates  com  a  participação de  toda  a  comunidade acadêm ica do curso e atividades avaliativas sobre o desenvolvimento do projeto.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 19    Assim, o presente capítulo pretende fazer uma apresentação sobre os resultados do  projeto de ensino de incentivo à leitura, desenvolvido de forma interdisciplinar por docentes e  disc entes do  curso de  turismo da  UFVJM , sendo detalhadas  as  atividades  realizadas  pelos  professores  envolvidos  com  o  projeto,  os  resultados  obtidos  e  a  avaliação dos  docentes  e  discentes  sobre as mesmas. Desta  forma,  será possível explicitar os desafios da pro posta, os  avanços e as possibilidades futuras para a continuidade do projeto.    KRENAK, QUESTÕES AMBIENTAIS E TURISMO   Ailton  Krenak  nasceu  em  1953, é  natural  da  região  do  vale  do  Rio  Doce,  do  território  do  povo  Krenak,  e  é  uma  das  lideranças  indígenas  mais importantes  do  país,  desenvolvendo  trabalhos  educativos  de  cunho  ambiental,  político  e  cultural.  Atuou  na  Constituinte,  na década de 80, defendendo que o texto  constitucional garantisse aos grupos  indígenas os direitos à terra e à sua identidade cultural. Em 2016, recebeu o título de doutor  honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora e, em 2022, foi eleito para compor a  Academia Mineira de Letras.  Os dois livros adotados durante o desenvolvimento desse projeto tratam da forma  como  a  humanidade  t em  se  relacionado  com  a  natureza,  fazendo  um  contraponto  entre  o  modo  de  vida  capitalista  e  o  dos  povos  indígenas.  Este  modelo  de  desenvolvimento  econômico vem gerando uma crise ambiental e civilizatória sem precedentes, consequência da  modernidade da conc entração de poder e de riqueza.   O autor relata como o homem moderno se desconectou da natureza e aponta como  os povos indígenas  se relacionam  com os elementos  naturais,  considerando ­os membros de  sua própria família, e não como um recurso de valor econômico. O rio Doce, por exemplo, é  considerado pelo povo Krenak  como  seu avô (KRENAK, 2019, p.21), e as montanhas, para  eles, têm nome e personalidade (KRENAK, 2019, p.10). Assim, a cultura indígena respeita os  elementos da natureza dos quais são altamente dep endentes e regem o ritmo de suas vidas por  eles, não pelos ditames da economia, do capitalismo e das grandes corporações.  Segundo  o  autor, estamos  em  um  momento de ajuste de  foco  no  qual  temos  a  oportunidade de decidirmos  se queremos ou  não a autoextinção ou se faremos  uma profunda  transformação nas estruturas de poder, nos objetivos prioritários de vida e, principalmente, na  forma como esta humanidade “civilizada” tem se relacionado com a natureza (KRENAK, 2020, p.58). Neste sentido, temos muito a apreender com os povos e a cultura indígena, para  compreender  a  Terra  como  um  organismo  vivo,  do  qual  fazemos  parte,  entender  suas  Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 20    demandas e  seus  limites. O  sentimento de pertencimento dos  homens brancos em relação à  totalidade da vida e ao organismo vivo que é a Terra se perdeu quando passamos a dominar a  terra,  a água,  o  fogo  e  ar,  que  antes  eram  vistos  como  dotados  de  poderes  sobrenaturais,  dignos  de  respeito  e  admiração,  e  passaram  a  ser  enxergados  como  recursos  econômicos,  fonte ilimitada para exploração e geração de lucros (KRENAK, 2020, p. 56).  Em seu livro “A Vida não é Útil” o autor destaca o momento da pandemia da COVID ­19 e do isolamento social como uma oportunidade de transformação da humanidade,  para  que  possamos  habitar  o  planeta  de  uma  outra  forma,  mais  orgânica,  respeitosa  e  integrada. Neste momento, pudemos  compreender  como a  vida é mais importante do que a  economia, e olharmos para o que realmente importa. E acrescenta: “Tomara que não voltemos à normalidade, pois se voltarmos é porque não valeu nada a morte de milhões de pessoas. Isso  é aceitar o negacionismo e seguir nos devorando” (KRENAK, 2020, p. 91).  Infelizmente,  parece que a maioria de nós não aprendeu a lição e não compreendeu de fato as consequências  da  crise  sanitária, que  também é  frutodo modo de  vida  urbano, industrial e destrutivo que  continuamos reproduzindo (KRONER et. al., 2021). Nas palavras do Cacique Seatle (1985):  “Somente quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro”.  Para o autor, as soluções para a grande crise ambiental e civilizatória só podem ser  pensadas partir de propostas  coletivas, mas também individuais,  no  sentido de que  cada  um  possa  atuar  positivamente  nesse  cao s  e  trabalhar  para  a  auto­harmonização.  Não  podemos  ficar esperando que estas  soluções  venham do governo, do  sistema  capitalista e das grandes  corporações. Precisamos entender que “A Vida não é Útil”, a economia, o dinheiro e o lucro não podem  ser as  coisas mais importantes.  A  vida é também fruição,  sonhos e experiências,  tanto de alegrias,  como de dores, de desastres  e de  silêncio. No entanto,  a  maior  parte da  humanidade  não  enxerga  a  beleza  da  vida,  pois  estão  concentrados  na  sua  utilidade,  na  produção econômica, no seu trabalho e na correria do dia­ ­dia.  Muitas questões  surgiram a partir da  leitura das obras e dos debates travados  no  âmbito desse projeto de ensino,  como a questão do desenvolvimento  sustentável, que é visto  pelo autor  como  uma  vaidade pes soal,  para  continuarmos  vivendo e  consumindo.  O  termo,  sua conceituação e aplicação servem mais para garantir a sobrevivência do modo de produção  capitalista, do que para a proteção ambiental. O que precisamos é sair do discurso e de  fato  proceder a uma mu dança de paradigma, mudança no modo de produção, de nos relacionarmos  com a natureza, pensarmos em estratégias individuais e coletivas para “adiar o fim do Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 21    mundo”, “suspender o céu” e melhorar a qualidade de vida de todos e de cada um dos seres que habitam  a Terra, e isso só será possível se entendermos a inutilidade da vida. Outro  aspecto  apontado  nas  discussões  sobre  as  obras  refere ­se  ao  papel  da  universidade e da ciência neste contexto. Ao mesmo tempo em que a ciência permitiu avanços  importantes  para gerenciar  e  monitorar  impactos  ambientais  e  pensar em  soluções  para  os  mesmos, ela também permitiu que o homem dominasse os elementos da natureza e se sentisse  superior a eles. O autor destaca que a ciência avançou tanto que as pessoas pensam que  não  precis am mais morrer, perdemos a capacidade de viver e de morrer dentro do ciclo da vida e  da morte que a natureza proporciona, causando aumento populacional e degradação ambiental  (KRENAK, 2020, p.62). O autor ainda destaca que a ciência também está sob os ditames do  mercado e do capitalismo selvagem e que isso pode ser muito perigoso, já que as soluções são  pensadas, acima de tudo, sob o ponto de vista da viabilidade econômica.  Foi discutida, também, a relação do turismo  com a  crise ambiental que estamos  vivend o. O turismo pode  ser  conceituado  como  uma atividade econômica do  setor terciário,  caracterizada pela prestação de serviços a pessoas que estejam fora de sua residência habitual.  Compreendido  como  uma importante atividade econômica, o turismo impõe transfo rmações  sobre o espaço onde é desenvolvido e é passível de  todas  as  críticas  que  foram  realizadas  sobre o  capitalismo. Essa  crítica  se embasa,  sobretudo, pelo domínio do  setor pelas grandes  corporações  e  pela  geração  inúmeros  impactos  negativos  nos  locais onde é desenvolvido;  fruto dessa  civilização que tudo que toca vira mercadoria, principalmente quando se trata do  turismo de massa (CRUZ, 2003).   Em contraponto, a atividade pode ser também compreendida como um fenômeno  social e,  nesse  sentido, a relação entr  os povos,  culturas e etnias pode  ser  uma importante  estratégia de aprendizado e crescimento pessoal, haja vista o turismo de experiência, que vem  ganhando  força, inclusive em territórios de povos e  comunidades tradicionais. Esta pode  ser  uma grande oportunidade para aprendermos um pouco sobre a cultura e sobre o modo de vida  indígena,  inclusive  para  repensarmos  as  nossas  práticas  cotidianas. Sobre isso,  vale  citar a  experiência dos alunos do  curso de Turismo em  visitas a  uma aldeia indígena em  Araçuaí4,  com  relatos  de  muitas  trocas  e  aprendizados  que  os  fizeram  repensar  várias  questões                                           4 Durante  a  vigência  do  projeto  de  ensino  foram  realizadas  duas  visitas  técnicas  de  discentes  do  curso  de  Turismo à  Aldeia  Cinta  Vermelha  J undiba, em  Araçuaí/MG,  uma  por  semestre, 2022/1 e 2022/2.  As  visitas  fazem  parte  do  plano  de  ensino  das  disciplinas  Antropologia  e  Turismo,  ministrada  pela  Profa  Ana  Flávia  Figueiredo  e  História,  Cultura  e  Identidade  Nacional,  ministrada  conjuntamente  com  o  Prof  Alan  Faber  do  Nascimento (FIGUEIREDO, 2022).    Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 22    relacionadas  ao  consumismo,  colonialismo,  estruturas  de  poder,  redes  sociais  e  o  próprio  turismo.   Foi  abordada,  também,  a  situação atual  das  Unidades de  Conservação e Terras  Indígenas do Brasil, que foram alvo de ataques políticos e abandono do Governo nos últimos  anos. Estes territórios estão  sendo,  cada  vez mais, pressionados e devorados pelo avanço do  capital  visando o desenvolvimento de projetos econômicos (tais  como g arimpo, mineração,  agronegócio,  pecuária  extensiva,  silvicultura,  especulação  imobiliária,  etc.).  Ademais,  nos  últimos anos, os projetos em curso de concessão de uso público em unidades de conservação,  vêm atender aos interesses privados do capital,  sem o envolvimento e benefício dos povos e  comunidades  tradicionais  e  locais  existentes  nas  mesmas  (MARTINS  FONSECA  et.  al,  2022).  Na  sequência,  serão  analisadas  as  atividades  desenvolvidas  no  âmbito  desse  projeto de ensino, destacando ­se a relação intrínseca das temáticas abordadas nas obras com o  turismo, em suas diversas abordagens, segmentos e setores.     ATIVIDADES DESENVOLVIDAS NO PROJETO INTERDISICPLINAR DE ENSINO   Atividades desenvolvidas no semestre letivo 2021/02, sobre o livro “Ideias para Adiar o Fim do  Mundo”   A  partir  da  submissão  da  proposta  do  projeto  de  ensino  ao  DAA,  pelas  coordenadoras,  foi discutido  com  o grupo de professores  qual  seria  o  livro  mais  adequado  para este primeiro momento do projeto. Após ampla reflexão o grupo considerou pertinente a  adoção do livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, de Ailton Krenak. A escolha se deu considerando  principalmente  a  atualidade  do  tema  que  trata  da  forma  como  os  grupos  indígenas se relacionam com os elementos naturais fazendo um contraponto com a relação  do  homem  moderno  com  a  natureza  e a  crise  ambiental  e  civilizatória atual.  Ademais,  foram  considerados outros aspectos na escolha da obra, como a linguagem acessível, a quantidade de  páginas e a possibilidade de realização de trabalhos disciplinares e interdisciplinares no curso.   Na  sequência,  todos  os  professores do  curso  foram  convidados  a  participar das  atividades do projeto, sendo que 13 dos 15 professores se envolveram nesse primeiro semestre  do  projeto,  por acreditarem  na  proposta e por  reconhecerem a  necessidade premente de  se  ofertar  oportunidades de  leitura  literária  para  os discentes do  curso.  A  partir daí,  surgiram  várias ideias para trabalhos interdisciplinares abordando a temática do livro, tais como adotar  a estratégia de trabalhos integrados por período do  curso ou por dias da  semana em que as  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 23    disciplinas  seriam ofertadas. Em ambos os  casos, as propostas esbarraram  na dificuldade de  operacionalização,  sendo  que,  neste  primeiro  momento,  optou ­se  por  uma  proposta  mais  conservadora,  com  atividade s  desenvolvidas  em  cada  disciplina  e  com  dois  momentos  coletivos, para socialização e debate sobre a obra adotada.  Assim, cada professor envolvido com a proposta teve autonomia para desenvolver  suas atividades  nas disciplinas que ministram,  sendo desenvolv idas atividades em 19 das 33  disciplinas ofertadas  no  semestre  letivo 2021/02, o que  significa que, em aproximadamente  58% das disciplinas ofertadas, o livro foi adotado como estratégia de ensino, aprendizagem e  atividades  avaliativas.  Segue,  abaixo,  um  quadro  com  as  disciplinas  e  atividades  desenvolvidas sobre a temática no semestre letivo 2021/02.    Quadro 1: Disciplinas e atividades desenvolvidas sobre o livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, no semestre letivo 2021/02 no curso de Turismo da UFVJM.   Disciplina   Atividades desenvolvidas   Antropologia  e  Turismo   Articulação  dos  conteúdos  próprios  da  disciplina  com  reflexões  trazidas  pelo  livro. Visita à Aldeia “Cinta Vermelha Jundiba”, em Araçuaí/MG, com conversas com lideranças indígenas acerca da narrativa do autor.  Fundamentos  da  Extensão Universitária   Elaboração  de  perguntas  que  contextualizassem  o  tema  da  obra  com  conteúdos da disciplina,  para que os discentes apresentassem  suas  percepções e  aprendizagens.   Geografia do Turismo   Debate  sobre o  livro em  sala de aula, integrando as discussões  com o  texto "A  Carta do Cacique Seattle".  Gestão Financeira   Resenha  crítica  do  livro,  conectando  a  disciplina  e  o  turismo  com  as  ideias  desenvolvidas no livro.   Gestão  de  Meios  de  Hospedagem   Resenha  crítica  do  livro  conectando  a  disciplina  e  o  turismo  com  as  ideias  desenvolvidas no livro.   História,  Cultura  e  Identidade Nacional   Articulação  dos  conteúdos  próprios  da  disciplina  com  reflexões  trazidas  pelo  livro.  Introdução  à  Administração   Resenha  crítica  do  livr o  conectando  a  disciplina,  o  turismo  com  as  ideias  desenvolvidas no livro.   Introdução à Estatística  Reflexão sobre o livro para escolha do tema de pesquisa: consumo consciente de  água.  Debate  e  realização  de  pesquisa  sobre  consumo  de água  (construção  de  questões,  banco  de  dados,  análises  estatísticas  das  respostas  e  confecção  de  relatório de pesquisa).  Legislação  Aplicada ao  Turismo   Resenha do  livro, apontando os pontos abordados  no  livro que possuem relação  com temas trabalhados na disciplina, tais como  direitos fundamentais previstos na  Constituição  Federal,  normas  legais  relativas  às  Unidades  de  Conservação,  direitos dos povos e comunidades tradicionais, entre outros.   Marketing  de  Destinos  e Produtos  Elaboração  e  apresentação  de  um  plano  de  marketing  para  Diamantina,  com  estratégias e objetivos alinhados com a mensagem transmitida pelo livro.   Meio  Ambiente  e  Turismo   Elaboração de perguntas que contextualizam o tema da obra com a disciplina para  os discentes apresentarem suas percepções e aprendizagens .  Métodos e Técnicas de  Pesquisa em Turismo   Leitura,  análise  e  discus são  de  textos  estabelecendo  relações  dialógicas  com  o  livro.  Planejamento  Territorial e Urbano  Discussão sobre questões relacionadas à sustentabilidade das atividades urbanas e  as diferentes formas de enxergar o meio natural, enaltecendo a diferenças entre as  formas  dos  povos  originários  das  formas  da  cultura  ocidental  capitalista.  Reflexões sobre o encontro coletivo e as discussões levantadas.   Políticas  Públicas  e  Turismo   Discuss ão  sobre  as  políticas  ambientais  de  preservação  do  meio  ambiente  e  a  criação de reservas indígenas. Reflexões sobre a exploração do ambiente para fins  Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 24      comerciais e a valorização dos elementos naturais pelos povos originários.   Teoria  Geral  do  Turismo   Ativi dade escrita com a finalidade de relacionar os temas das palestras à teoria do  turismo.   Transportes Turísticos   Fórum de discussão sobre o tema “Impactos socioambientais dos transportes turísticos”, com base na leitura e discussão do livro.  Tópicos  Emergentes  em Turismo   Discussão de temas relacionados  com o  livro e  como  os mesm o s  se aplicam  na  prática  no  setor de  turismo,  tais  como:  sustentabilidade, economia  colaborativa,  economia circular, dentre outros.    Turismo Internacional   Leitura, análise e discussão de textos e  vídeos estabelecendo relações dialógicas  com o livro.   Viagens  e  Outras  Viagens   Elaboração de perguntas que contextualizassem o tema da obra com conteúdos da  disciplina para que os discentes apresentassem suas percepções e aprendizage ns.   Fonte: Adaptado do questionário aplicado com os docentes do curso de  T urismo, 2023.    Além dessas  atividades  disciplinares,  houve  um  momento de encontro  entre  os  docentes e discentes do curso para a discussão da obra. O evento ocorreu no dia 24/06/2022,  no espaço Ágora, do Centro de Humanidades da FIH, onde houve a transmissão de uma  live   sobre o  livro,  veiculada pelo  canal OperaMundi do  Youtube 5. Após a transmissão  houve  um  momento de debate e reflexão abordando as temáticas do livro e da transmissão online . Este  evento  foi realizado  no âmbito de um projeto de extensão denominado “Ciclo de debates do  Curso  de  Turismo  da  UFVJM:  construção  de  conhecimento,  divulgação  científica  e  estreitamento dos laços entre a universidade e a comunidade externa” e  cont ou  com  a  presença de 35 estudantes e 10 professores do curso de Turismo.    Figuras 1 e 2: Cartaz e foto do evento ocorrido no dia 24/06/2022.       Fonte: acervo do projeto, 2022.    Estava prevista mais  uma atividade  coletiva  no  semestre  letivo em tela, que  não  ocorreu por incompatibilidade de agenda entre os docentes, devido ao acúmulo de tarefas de  fim  de  período  e  dificuldades  com  o  calendário  acadêmico  de  reposição  por  conta  da  pandemia.                                           5 https://m.youtube.com/watch? v=RTe_HmiELNk&t=3803s&pp=2AHbHZACAQ%3D%3D   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 25    Houve  também,  ao  final  do  semestre,  uma  avaliação do grupo  em  Assembleia  Docente e Colegiado do Curso, sendo que o coletivo entendeu que, nesse primeiro semestre, o  projeto  atingiu  seus  objetivos,  avançando  nas  propostas  de  atividades  integradas  e  interdisciplinares e que seria interessante continuar o trabalho no próximo semestre, com um  segundo livro do Krenak, “A Vida não é Útil”.     Atividades desenvolvidas no semestre letivo 2022/01, sobre o livro “A Vida não é Útil”   No  semestre  letivo 2022/01 foi adotado o livro “A Vida não é Útil”, de Ailton Krenak, sendo que os docentes  se reuniram para definir as estratégias a serem adotadas para  os trabalhos e atividades do projeto. Ficou acordado que seriam realizados dois momentos de  atividades coletivas,  além das atividades pedagógicas e avaliativas de cada disciplina.  Mais  uma  vez, os 14 professores envolvidos  com a proposta tiveram autonomia  para  desenvolver  suas  atividades  nas  disciplinas  em  que  atuam,  sendo  desenvolvidas  atividades em 27 das 35 disciplinas ofertadas no semestre letivo 2022/01, o que significa que  aproximadamente  77% das  disciplinas  ofertadas  adotou  o  livro  como  estratégia  de  ensino  aprendizagem e/ou em atividades avaliativas. Segue abaixo  um quadro  com as disciplinas e  atividades desenvolvidas sobre a temática no semestre letivo 2022/01.    Quadro 2: Disciplinas e atividades desenvolvidas sobre o livro “A Vida não é Útil”, no semestre letivo 2022/01.  Disciplina   Atividades desenvolvidas   Administração  Financeira   Resenha  crítica  do  livro  conectando  a  disciplina  e  o  turismo  com  as  ideias  desenvolvidas no livro.   Antropologia  e  Turismo   Articulação dos conteúdos próprios da disciplina com reflexões trazidas pelo livro.  Visitas à “Aldeia Cinta Vermelha Jundiba”, em Araçuaí, com conversar com l ideranças indígenas acerca da narrativa do autor.  Economia  do  Turismo    Apresentação do documentário “Turismo de Valor” e realização de debate sobre convergências  e  divergências  entre  o  livro  e  o  documentário.  Elaboração de  um  texto  sobre estratégias  dos  profissionais  do  Turismo  para  minimizar  os  impactos  negativos da atividade turística, considerando as reflexões trazidas pelo livro.  Estudos do Lazer   Trabalho  em  grupos  apresentando  as  ideias  presentes  no  livro  para  fazer  uma  discus são  sobre a incorporação do  lazer  na  Carta Federal de 1988,  com destaque  para a fala do próprio Ailton Krenak, à época, sobre os direitos dos povos indígenas  e  do Programa  Esporte  e  Lazer  na  Cidade,  em  comunidades  indígenas  do  Mato  Grosso.   Fundamentos  de  Filosofia e Sociologia   A  partir  da  palestra  de  uma  jornalista  convidada  sobre  matéria  publicada  na  National  Geographic,  intitulada  "Geleiras  andinas  estão  derretendo,  remodelando  rituais  indígenas  centenários",  abordou­se  a  resistência  dos  povos  originários  ao  utilitarismo, espec ialmente a partir do capítulo "A Vida não é Útil".  Fundamentos  de  Finanças   Apresentação do documentário “Turismo de Valor” e realização de debate sobre convergências  e  divergências  entre  o  livro  e  o  documentário.  Elaboração de  um  texto  sobre estratégias  dos profissionais  do  Turismo  para  minimizar  os  impactos  negativos da atividade turística, considerando as reflexões trazidas pelo livro.  Gastronomia   Relatório da participação nas atividades coletivas do projeto de ensino. Geografia  do Elaboração  de  resenha  sobre  o  livro,  relacionando ­o  com  temas  trabalhados  na  Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 26    Turismo   disciplina e apontando os principais aspectos discutidos nos encontros coletivos.   Gestão  de  Agências  de Turismo   Fórum  de  discussão  sobre  o  tema  "Agência  de  turismo  e  desenvolvimento  sustentá vel do turismo", com base na leitura e discus são do livro.   Gestão  de  Meios  de  Hospedagem   Resenha  crítica  do  livro  conectando  a  disciplina  e  o  turismo  com  as  ideias  desenvolvidas no livro.   Gestão de Serviços  Apresentação do documentário “Turismo de Valor” e  realização de debate  sobre  convergências  e  divergências  entre  o  livro  e  o  documentário.  Elaboração de  um  texto  sobre estratégias  dos  profissionais  do  Turismo  para  minimizar  os  impactos  negativos da atividade turística, considerando as reflexões trazidas pelo livro.  História,  Cultura  e  Identidade Nacional   A atividade realizada junto com a turma da disciplina de Antropologia do Turismo e  compreendeu  a  visitação a  uma  aldeia  indígena  em  Araçuaí. Elementos  do  livro  puderam então ser debatidos em campo. Dessa atividade, resultou também ideia da  dinâmica da “Árvore dos Sonhos”.   Introdução  à  Administração   Resenha  crítica  do  livro  conectando  a  disciplina  e  o  turismo  com  as  ideias  desenvolvidas no livro.   Introdução  à  Estatística   Reflexão  sobre o  livro para escolha do tema de pesquisa: Empatia. Realização de  pesqu isa  sobre  empatia  (construção  de  questões,  banco  de  dados,  análises  estatísticas das respostas e confecção de relatório de pesquisa).  Legislação  Aplicada  ao Turismo   Elaboração  de  resenha  sobre  o  livro,  relacionando­o  com  temas  trabalhados  na  disciplina  (d ireitos  constitucionais,  unidades  de  conservação,  patrimônio,  direito  dos povos e  comunidades tradicionais) e apontando os principais temas discutidos  nos encontros coletivos do projeto.   Leitura e Produção de  Texto  Trabalho  em  grupo  apresentando  de  um  cap ítulo  do  livro,  explorando  diferentes  formas  de  intertextualidade  (relacionando  o  livro  com  outros  textos,  música,  poemas, filmes, documentários). Elaboração de uma resenha sobre o livro.  Marketing de Destino   Elaboração  e  apresentação  de  um  plano  de  marketing  para  Diamantina,  com  estratégias e alinhados com a mensagem transmitida no livro "A Vida não é Útil".  Meio  Ambiente  e  Turismo   Elaboração  de  perguntas  que  contextualizam  o  livro  com   conteúdos da disciplina, apresentando suas percepções e aprendizagens .  Planej. e Organização  do Turismo   Leitura, análise e discussão de textos estabelecendo relações dialógicas com o livro.  Planejamento  Territorial e Urbano  Discussão  sobre questões relacionadas à  sustentabilidade das atividades  urbanas e  as diferentes formas de enxergar o meio  natural, enaltecendo a diferenças entre as  formas dos povos originários das formas da cultura ocidental  capitalista. Reflexões  sobre a sessão coletiva do documentário e as discus sões levantadas.   Projetos Turísticos   Fórum de discu s são  sobre o tema "Interdisciplinaridade e projetos turísticos",  com  base na leitura e discus são do livro.  Promoção  e  Tecnologias  da  Informação  e  Comunicação   Trabalho de elaboração de um  funil de vendas para operadora de passeios off ­road   de Diamantina/MG,  considerando todas as estratégias de marketing de  conteúdo e  as  ferramentas de marketing digital a  serem  utilizadas, associando a  campanha de  marketing digital às ideias do livro sobre relação do homem com a natureza.  Psicologia  do  Turi smo   Elaboração de resenha sobre o livro, relacionando­o com a temática da incl u são.  Teoria  Geral  do  Turismo   Relatório da participação nas atividades coletivas do projeto de ensino. Transportes  Turísticos   Fórum  de  discussão  sobre  o  tema  "Impactos  socioamb ientais  dos  transportes  turísticos", com base na leitura e discussão do livro.   Turismo  Internacional   Leitura,  análise  e discus são  de  textos  e  vídeos  estabelecendo  relações dialógicas  com o livro.   Viagens  e  Outras  Viagens   Elaboração de perguntas que contextualizassem o tema da obra  com  conteúdos da  disciplina, para que os discentes apresentassem suas percepções e aprendizagens .  Fonte: Adaptado do questionário aplicado com os docentes do curso de Turismo, 2023.    Além  das  atividades  desenvolvidas  no  âm bito  de  cada  disciplina,  houve  dois  encontros  coletivos  de  docentes  e  discentes  do  curso,  onde  foram  realizadas  atividades  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 27    relacionadas ao livro “A Vida não é Útil”. O primeiro evento ocorreu no dia 21/11/2022, no auditório do Centro de Humanidades da FIH, com a  transmissão da  live  de  lançamento do  livro,  veiculada  pelo  canal  da  Editora  Companhia  das  Letras  no  Youtube 6,  seguida  de  discussões  sobre  as  principais  temáticas  abordadas  no  livro  e  na  transmissão  online .  Este  encontro foi realizado dentro da programação da Semana de Integração do Curso de Turismo,  que ocorre no começo de cada período letivo. Estiveram presentes neste momento coletivo 53  discentes e 13 docentes. O encontro gerou reflexões acerca da cosmovisão e da ideia de que  fazer apenas  nossa  par te  não é o  suficiente; da  chegada ao ponto de inflexão  nas  questões  ambientais e da transformação da  humanidade; da redução da empatia e da  coisificação do  homem;  de  que é  preciso  compreender  o  processo  de  colonialidade  e  ancestralidade  para  pensar em mode los próprios; de que estamos  caminhando, ainda que  lentamente,  no  sentido  da conscientização; de ações que estão sendo realizadas; e, sobre o nosso futuro.    Figuras 3 e 4: Cartaz e foto do evento ocorrido no dia 21/11/2022.      Fonte: acervo do projeto, 2022.      O  segundo  encontro  do  semestre  e  evento  de  encerramento  dessa  edição  do  projeto ocorreu no dia 25/01/2023, no hall do Núcleo de Estudos em Turismo, e contou com a  participação  de  59  discentes  e  10  docentes.  Na  ocasião,  os  docentes  e  discentes  compa rtilharam  as  atividades  que  foram  desenvolvidas  em  cada disciplina  e  os  resultados  alcançados  com  o  projeto.  Foi  um  momento  de  rica  troca  entre docentes  e discentes  e de  reconhecimento  dos  avanços  do  projeto,  considerando  as  atividades  realizadas  e  sua  div ersidade,  além  dos  desafios  existentes  para  avançar  no  sentido  do  alcance  pleno  da  interdisciplinaridade e da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.                                            6 https://www.youtube.com/watch? v=TW8XN2UPSOk     Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 28        Figuras 5 e 6: Cartaz e foto do evento ocorrido no dia 25/01/2023       Fonte: acervo do projeto, 2023.      Na sequência, foi desenvolvida a dinâmica da “Árvore dos Sonhos”, que é uma metodologia participativa  utilizada para  levantar expectativas,  sonhos e desafios para atingir  determinado objetivo. Na ocasião, foi montado um painel com as partes de uma árvore (copa,  tronco  e  raiz)  e  cada  um  dos  presentes  foi  convidado  a  colar  uma  imagem  (previamente  solicitada) no painel que os remetesse a uma passagem do livro, ou ao livro como um todo, e  comentassem sobre a escolha. A distribuição das imagens  entre as partes da árvore se deu de  forma  que aquelas  que  representavam  os  sonhos,  os  objetivos  e  os  lugares  onde  queremos  chegar  foram  coladas  na  copa,  como  exemplos  apareceram  imagens  de  indígenas  vivendo  bem, de  suas manifestações  culturais e da  florest a preservada. Já no tronco  foram  colocadas  imagens  que  representam  o  caminho,  o  plano  de  ação  e  os  desafios  para  se  atingir  tais  objetivos (estes últimos marcados  como parasitas que impedem a  sua execução). Surgiram,  nesta  parte,  imagens de  manifestações  contra a devastação ambiental,  aquelas  remetendo à  metáfora de “comer dinheiro”, a crise no território Yanomami, lixo e degradação. Na raiz foram  colocadas  as  imagens  que  representam  os  insumos,  aquilo  que  possuímos  para  se  atingir os  sonhos e objetivos, ta is  como imagens do Krenak  na Constituinte, Lula  subindo a  rampa na cerimônia de posse com representantes da diversidade do povo brasileiro, natureza,  florestas  e  imagens  remetendo à  empatia,  conscientização,  educação  e  luta  pelos  direitos  humanos.    Este mo mento representou o ápice do projeto, contando com grande envolvimento  de todo o curso, e permitindo perceber, com imagens, a riqueza dos  conteúdos abordados no  livro e a sua relação com o turismo e com a vida de cada um de nós. A foto do painel gerado  com  a dinâmica da “Árvore dos Sonhos” está representada na Figura 7 e ilustra um pouco da Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 29    essência deste  momento,  da diversidade de  olhares  e da  possibilidade de  que  as  reflexões  trazidas pelo livro e pela dinâmica continuem ressonando entre os docentes e dis centes, já que  o painel permanecerá enfeitando o Núcleo de Estudos em Turismo por mais algum tempo.   Figura 7: Foto do painel da dinâmica da “Árvore dos Sonhos”, realizada no dia 25/01/2023.     Fonte: Acervo do projeto, 2023.    Ao  final destas atividades  foi realizada uma avaliação do projeto de ensino,  com  os presentes, por meio da aplicação de questionários, sendo apresentadas as análises a seguir.    AVALIAÇÃO DO PROJETO DE ENSINO: DISCENTES E DOCENTES    Ao  término  do  projeto,  foi  realizada  uma  avaliação  final do  mesmo  junto  a  discentes e docentes do curso de Turismo da UFVJM. A avaliação discente foi realizada por  meio  de  um  questionário  impresso  com  seis  questões,  distribuído  no  dia  do  evento  de  encerramento dessa edição, após um ano de desenvolvimento do  projeto.  Inicialmente, foi questionado sobre a leitura do livro, visto que um dos objetivos  principais do projeto é justamente incentivar a leitura.    Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 30      Fonte: Formulário de avaliação discente  do Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura, 2023.    De  acordo  com  os  resultados,  praticamente  todos  os  presentes  leram  os  livros  propostos, demonstrando que esse objetivo foi alcançado. No entanto, cabe a reflexão sobre a  representatividade desse resultado,  visto que apenas  cerca da metade dos discentes do  curs o  responderam à  avaliação.  No  dia,  havia  60  discentes  presentes,  o  que  significa  que  parte  importante dos discentes  não compareceu ao evento,  cerca de 40%. A baixa adesão discente  tem sido percebida em outros eventos do curso e é alvo de reflexões constant es entre docentes  e em momentos conjuntos entre docentes e discentes.    Foi questionado, também, qual a opinião dos discentes acerca do Projeto como um  todo. A avaliação dessa e das duas próximas questões foi feita com uma escala Likert de três  pontos (Bom,  Razoável ou Ruim), representada como a seguir:    Figura 8: Escala  Linkert utilizada para assinalar a opinião dos alunos no questionário.     Fonte: elaboração pelas autoras    Observa ­se  que  a  avaliação  dos  discentes  presentes  foi  bastante  favorável  ao  projeto,  com 88,6% de avaliação positiva do mesmo e apenas 4,5% de avaliações  negativas.  Segue a avaliação discente do projeto no Gráfico 2.    43  1 Gráfico 1  ­  Você leu os livros do Projeto Interdisciplinar de  Incentivo à Leitura?   Sim   Não  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 31      Fonte: Formulário de avaliação discente  do Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura, 2023.    Quando  questi onados  sobre  a  promoção  da  interdisciplinaridade  pelo  projeto,  ainda que os discentes reconheçam que esse processo ocorreu, como demonstrado no Gráfico  3,  cabe  ressaltar  que  a  estratégia  adotada  foi  da  realização  de  atividades  desenvolvidas  individualmente  em cada disciplina e momentos de encontro. Ainda que algumas disciplinas,  no segundo semestre do projeto, tenham conseguido aproveitar parte ou o todo das avaliações  para as disciplinas, é preciso reconhecer que há muito o que avançar no caminho de trabal har  a interdisciplinaridade no âmbito da realização de projetos de ensino e no curso.     Fonte: Formulário de avaliação discente  do Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura, 2023.      Na  sequência,  foi  questionado acerca do  favorecimento do  processo d e ensino ­ aprendizagem.  Na  avaliação  discente,  o  projeto  favoreceu  o  processo  de  ensino­ aprendizagem, alcançando um de seus objetivos principais, como demonstrado no Gráfico 4.  Ainda assim,  houve discentes  que  questionaram esse  favorecimento, demonstrando  q ue  há  espaço para se aprimorar nesse quesito em alguma(s) disciplina(s) e/ou atividades.    39  3  2  Gráfico 2  ­  Avaliação discente do projeto Interdisciplinar de  Incentivo à Leitura  ­  2021/2 e 2022/1  Bom   Razoável   Ruim   39  6  Gráfico 3  ­  Avaliação discente da promoção da  interdisciplinaridade do Projeto Interdisciplinar de Incentivo  à Leitura  ­  2021/2 e 2022/1  Sim   Em parte   Não  Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 32      Fonte: Formulário de avaliação discente  do Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura, 2023.      Em  uma  questão aberta,  foi  questionado acerca de  sugestões de  livros  a  serem  trabalhados  nos próximos  semestres. O fato de 13 livros distintos terem sido sugeridos pelos  discentes, além de temas e assuntos diversos demonstra seu interesse pela leitura, sua postura  ativa e envolvimento com a proposta e reforça a relevância dacontinuidade do projeto.   Por  fim, outras  sugestões,  críticas e elogios  foram apurados. Entre as  sugestões  surgiu a  consideração do  formato do  livro e a realização de dinâmicas,  como “evitar livros online  ­ continuar a apostar nas dinâmicas”; sobre a organização  do  cronograma,  como  “deixar o debate com data mais próxima (...)”; e trabalhar mais a integração e a relação entre discentes do curso, com a realização de “dinâmicas para auxiliar a empatia e a união das pessoas do  curso, abordar mais  o respeito e a  forma de pensar de  cada  um, o acolhimento  (...)”. As críticas se voltaram para a escolha do livro, seja pela repetição do autor nos dois semestres do projeto ou pelo distanciamento do livro do turismo, como “não fazer mais sobre  o Krenak (...)” e “Livro que não faz muito sentido no contexto do turismo”. Já os elogios  giraram  em  torno  da  iniciativa  e  da  aprendizagem  propiciada  pelo  desenvolvimento  do  projeto, que podem ser evidenciados na nuvem de palavras apresentada na Figura 8:                                38  4  2  Gráfico 4  ­  Avaliação discente do favorecimento do processo de  ensino ­aprendizagem com o Projeto Interdisciplinar de Incentivo  à Leitura  ­  2021/2 e 2022/1  Sim   Em parte   Não  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 33    Figura 8  –   Nuvem de palavras com elogios dos discentes ao Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura     Fonte: Formulário de avaliação discente  do projeto, 2023.    A avaliação docente, por  sua  vez,  foi realizada  com  formulário  online .  Além de  questões  relacionadas  às  atividades  desenvolvidas  por  cada  docente  em  suas  respectivas  disciplinas  nos  semestres  letivos  de  desenvolvimento  do  projeto,  os  professores  foram  convidados a avaliar os pontos  fortes e fracos do projeto, a possibilidade de continuidade do  mesmo e  sugestões de  livros para o próximo  semestre, além de  comentar  críticas e elogios  sobre o projeto. Todos  os 14 docentes envolvidos  responderam o  formulário e assinalaram  afirmativamente acerca da continuidade do projeto.  Os  pontos  fortes  elencados   pelos  docentes  dizem,  de  maneira  geral,  da  interdisciplinaridade, do incentivo à  leitura, das reflexões, do pensamento  crítico  suscitados  pela leitura do livro e da integração inter e intra docentes e discentes do curso. Seguem alguns  exemplos  de  relatos  sobre  estes  aspectos  que  apareceram  nas  avaliações  realizadas  pelos  docentes: “Interdisciplinaridade,  comunicação  de  conteúdo  programático  entre  unidades  curriculares  e  uso  da  literatura  como  ferramenta  de  explicação  da  realidade  social,  em  combinação com a ciência”; “O projeto incentivou a leitura de um livro que traz importantes reflexões  que  suscitam  discussões  acerca  de  temas  atuais  como  multiculturalidade,  interdisciplinaridade, diversidade  cultural,  impactos  socioambientais dos  setores  produtivos,  relacionamento intercultural, entre outros”; “ A credito  que  o  projeto  cumpriu  sua  função:  fazer  com que os alunos  lessem e refletissem acerca de algo; ampliar  sua  visão de mundo,  para além do conteudismo que a sala de aula impõe; nos provocar para sairmos do n sso lugar  de conforto, na articulação plano de ensino/situações da atualidade”; “Penso  que  há  uma  Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 34    tentativa  de  integração  maior  entre  docentes  e  discentes  do  curso  e  nos  força  pensarmos  estratégias  coletivas  de  avaliação  e,  especialmente,  de  conversa  disciplinar”; “união da maioria dos professores do  curso para discussão de temática interdisciplinar; (...) integração  entre professores e alunos, entre alunos, e entre os professores”.  A Figura 9 apresenta  uma  nuvem de palavras do levantamento de pontos fort es elencados pelos docentes.     Figura 9  –   Pontos fortes do Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura, apontados pelos docentes.     Fonte: Formulário de avaliação docente do projeto, 2023.     Em relação aos pontos  fracos, a questão mais  frequente  foi  relacionada ao baixo  interesse  e  da  apatia  discente  pelas  atividades  do  curso  e  da  dificuldade  de  realizar  e  se  envolver  com  a  leitura.  Seguem  alguns  exemplos  de  trechos  dos  docentes  apontando  tais  aspectos: “ Acredito  que  o  principal  desafio  não  é  exclusiv o  do  projeto  em  si,  mas  uma  questão que  vem persistindo entre  nossos estudantes que é a  falta de envolvimento,  falta de  leitura,  falta de participação e apatia diante de uma oportunidade de leitura”; “O ponto mais  fraco,  na  minha  opinião,  é  a  desmotivação e apatia  geral  dos  alunos  diante  de  qualquer  proposta e não só dessa, além da clara dificuldade em realizar leituras mínimas”; e “(...) o desafio  de  leitura  e  escrita  motivados  pelo  desinteresse  que  parece  ecoar  no  contexto  universitário”. No  entanto,  tamb ém  surgiram  questões  relacionadas  ao  desafio  da  interdisciplinaridade,  como  no  relato  a  seguir: “encontrei dificuldade de alcançar a interdisciplinaridade  proposta  pelo  Projeto,  uma  vez  que  cada  professor  planejou  e  desenvolveu  suas  atividades  separadament e  dos  demais  docentes,  tornando  o  Projeto  multidisciplinar ao invés de interdisciplinar”. Também apareceram relatos  ligados à didática  adotada, tais como: “ Atividade de transmitir uma gravação online  acredito que não atingiu seu  objetivo em  critérios didático” e “encontrei algumas dificuldades para abordar, do ponto de vista  didático­pedagógico, temas que favorecessem as discussões”. E ainda, surgiram Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 35    avaliações apontando desafios do ponto de vista operacional, como  “Dificuldade de conciliar  datas no calend ário acadêmico”; e de integração entre docentes, como “Maior integração entre  os  docentes.  Acredita ­se  que  o  caráter  coletivo  da  proposta  acaba  por  ocorrer  mesmo  nos  encontros gerais, quando isso poderia ser trabalhado ao longo do semestre (...)” e “Ausência  de alguns professores  nos encontros  coletivos do projeto ”. Uma nuvem de palavras com os pontos fracos elencados pelos docentes está apresentada na Figura 10.     Figura 10  –   Pontos fracos do Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura, apontados  pelos docentes .    Fonte: Formulário de avaliação docente do projeto, 2023.     Os docentes  também apresentaram  sugestões  para as  futuras  edições do projeto  quanto ao formato das avaliações, como “ criar também uma comissão entre os alunos a pensar  sobre projetos  finais  coletivos relacionados à obra  ­ exposições, mini documentários,  vídeo,  cartas aos autores”; quanto a operacionalização, como “Trazer pessoas ligadas aos conteúdos  da obra para alimentar os debates”; e em relação a outras ações como construção de um  “clube de leitura” e que os livros sejam sugeridos pelos discentes (levantamento que já foi realizado na avaliação discente).   Houve,  também,  proposta de 13  livros  diferentes  a  serem  adotados  em edições  futuras do projeto, sendo que dois deles se repetiram duas vezes. As propostas tratam tanto de  obras relacionados à realidade brasileira, como diversidade, turismo, viagens, entre outros.   Os elogios apurados, em resumo, parabenizavam a  coordenação do projeto pela  escolha de livro e pela condução dos trabalhos, assim como os docentes envolvidos.   De modo geral, os docentes e discentes que participaram deste projeto de ensino  consideraram  que  sua  realização  foi  de  grande  importância  para  todos  os  envolvidos,  propondo discussões relevantes para o futuro prof issional da área de turismo. Além disso, as  avaliações demonstraram  pontos  positivos  favoráveis à  continuidade de projetos  (tanto  por  Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 36    discentes  como por docentes) e apontaram desafios a  serem trabalhados em edições  futuras,  bem como no dia a dia do curso de Turismo. As avaliações demonstram que os objetivos do  projeto  foram  atingidos,  favorecendo  a  interdisciplinaridade  no  curso  de  turismo  e  a  indissociabilidade  entre  ensino,  pesquisa  e  extensão,  além  de incentivar  a  leitura  e  interpretação de texto entre os discentes do curso.  Ademais, o projeto foi bem avaliado e terá  continuidade  no próximo ano,  com  vários  livros já propostos por discentes e docentes para  serem adotados em ações futuras desta natureza.    RESULTADOS ALCANÇADOS PELO PROJETO   Esse projeto foi fruto de mobilização dos docentes do curso de Turismo a partir da  percepção  no  cotidiano de  trabalho  acerca das dificuldades de interpretação de  textos  e de  escrita demonstradas pelos discentes. Essa percepção está em consonância com a insatisfação  geral docente  acerca do  pouco  hábito de  leitura dos  estudantes  universitários,  considerada  uma  questão  tanto  sociopolítica  quanto  cultural  (TOURINHO, 2011). Nesse  sentido,  ainda  que  não  seja  uma  solução (e  muito  menos  definitiva), e  sim  uma  tentativa (processual ),  o  projeto  interdisciplinar  ora apresentado  teve  como  principal  resultado  o  incentivo à  leitura  entre os discentes do curso de Turismo.    Segundo Paulo Freire, “a compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto” (1981, p.20). Como os  livros tiveram diferentes abordagens e espaços de debate e reflexão durante os  semestres, os  discentes tiveram diversas oportunidades de se colocarem, apresentarem  seus mundos e seus  contextos  para  a  comp reensão  aprofundada  dos  livros  escolhidos.  Desse  modo,  outro  resultado relevante deste projeto está na maior apropriação do espaço do NETUR (palco do  encontro de encerramento e painel da “árvore dos sonhos”), parte de seu mundo acadêmico atual  e  nas  reflex ões e discussões  suscitadas  acerca de  temas  importantes  para a  formação  acadêmica  e  cidadã  dos  futuros  turismólogos,  como  sustentabilidade,  crise  ambiental  e  diversidade cultural.   Adite ­se a esses, o crescimento da participação de docentes e da adesão à proposta  como estratégia de ensino de disciplinas (passando de 58% para 77% entre os semestres) e o  aumento gradativo do público presente  nos encontros  coletivos (de 45 para 66, e depois 69  participantes) que demonstra um resultado significativo em termos do  potencial agregador da  iniciativa. Além disso, outros resultados podem ser citados como a mobilização dos discentes  em torno das diferentes ações e estratégias de abordagem praticadas pelas diversas disciplinas  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 37    ao  longo  dos  semestres  letivos;  as  reflexões  acerca  das  muitas  questões  suscitadas  pela  temática, ainda que certa apatia tenha sido percebida; a participação em momentos e espaços  coletivos de trocas entre e intra discentes e docentes; e, a proposição de novos livros por parte  dos discentes  para  ver sões  futuras,  todos  resultados do  favorecimento de  uma postura mais  ativa  no  processo de ensino ­aprendizagem,  incl uindo discentes  e docentes (e  suas  relações  interpessoais) nessa seara.   Em  relação  à  interdisciplinaridade,  para  Dencker  (2002),  a  superação da  fragmentação  das  disciplinas  que  compõem  as  grades  curriculares  dos  cursos  de  Turismo   passa  pela  prática  pedagógica  interdisciplinar. Segundo  Gama,  Mascarenhas  e  Moraes,  na  interdisciplinaridade “há um esforço de inter­relação dos  conceitos expostos pel as diferentes  disciplinas até construir  um  novo  corpo teórico a partir das  contribuições de  cada  campo de  estudos em particular” (2010, p.6). Nesse sentido, evidenciamos a busca pela interdisciplinaridade  na realização das ações do projeto, e n s deparamos  com  desafios para  implementação da proposta. Um dos maiores destes pode ser evidenciado no processo ,  visto  que  a  realização das atividades  foi  prioritariamente desenvolvida  individualmente em  cada  disciplina, o que, a princípio, poderia reforçar fragmentações. No entanto,  segundo Marinho ,  dos  Santos  e Ferreira “a  interdisciplinaridade  pressupõe  jogo  dialético  entre  unidade  e  multiplicidade ” (2019, p.385). Se considerarmos o avanço nas estratégias entre os semestres,  incluindo a adoção de avaliação integrada, e o  todo do projeto, em especial, as discussões  suscitadas nos momentos  coletivos, é possível constatar avanços no sentido de construção de  pensamentos complexos que reúnem saberes de diferentes fontes. Ainda assim, reconhecemos  que há um  longo caminho  a ser percorrido para a implementação da interdisciplinaridade no  curso, mas que as ações realizadas  configuraram  um passo dado pelo grupo de docentes que  abraçaram a proposta a ser replicado e expandido em versões futuras e em outras propostas.  Por fim, trataremos da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, como  resultado  alcançado  pelo  projeto.  Segundo  Tauchen  e  Fávero  (2011), enquanto  o  ensino é  incumbido  de  proporcionar  o  conhecimento  profissional  e  cultural  socialmente  válido,  a  pesquisa f oi incluída como atividade universitária para abarcar as demandas da sociedade por  desenvolvimento de novos conhecimentos científicos e tecnológicos. A extensão, por sua vez,  se  constitui  como  atividade  que  tem  o  papel  de  ampliar  a  relação  entre  universidade  e  sociedade e fortalecer seu compromisso social.   Segundo a noção de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão prevista  no artigo 207, da Constituição Federal Brasileira, que aponta que “ As  universidades  (...)  Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 38    obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão” (BRASIL, 1988, art. 207°), implica na complementaridade e retroalimentação entre os três pilares. Posto  isso,  a  realização  do  projeto  implicou  no  uso  de  estratégias  diversas,  buscando  essa  indissociabilidade, incluindo,  além  do  próprio  ensino  (pilar  onde  o  projeto  se  encontra  prioritariamente  inserido),  o  desenvolvimento  de  pesquisas  (tanto  bibliográficas  quanto  empíricas e adotando as múltiplas  linguagens,  com diferentes técnicas de análise de dados e  produto s) e atividades de extensão (como as  visitas técnicas à aldeia,  construção de funil de  vendas, apresentação do projeto em eventos  científicos e em projetos de extensão do curso).  Nesse  sentido,  seguiu  a  compreensão  de  Tauchen  e  Fávero  de  que  a  indissociabil dade  “demanda o desenvolvimento e ampliação das percepções dos sujeitos, construindo relações,  interações, interconexões, processos e sistemas abertos, produzindo conhecimentos a partir  do  e inseridos no  contexto social” (2011, p. 417).    CONSIDERAÇÕES FI NAIS   O  projeto  Interdisciplinar  de  Incentivo  à  Leitura  cumpriu  seus  objetivos  de  promover  a  interdisciplinaridade  no  curso  de  Turismo  da  UFVJM;  incentivar  a  leitura  e  interpretação de  texto entre  os discentes  do  curso de Turismo da  UFVJM;  incentivar  uma  po stura mais ativa no processo de ensino ­aprendizagem nos discentes; e favorecer o processo  de ensino aprendizagem no curso.   Para  tanto,  foram  realizadas  atividades  em  46  disciplinas  ministradas  nos  semestres  letivos  2021/02  e  2022/01,  contando  com  a  participação  de  14  docentes,  constituindo o projeto de ensino  com maior adesão de docentes  no  curso, até o momento, e  envolvendo todos os discentes do curso de turismo. Foram realizados três encontros coletivos,  promovendo  ricos  momentos  de  trocas  e  debates  entre  discentes  e  docentes,  culminando,  ainda, no registro da ação com a escrita conjunta desse capítulo.  Recomendamos a continuidade do projeto interdisciplinar de incentivo à leitura e  da  proposição  de  outras  ações  de  natureza  similar,  no  sentido  de  avançar  na  interdisciplinaridade e da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão e na superação  dos  desafios  que  se  impõem  às  mesmas;  de  seguir  incentivando  a  leitura  e  promovendo  espaços  de  reflexão  e  integração;  e  favorecendo  o  processo  ensino­aprendiza gem.  Nesse  sentido,  avaliamos  como  estratégias  positivas  aquelas  que  promovam  maior  participação  discente, em todas as etapas do processo,  começando pela escolha do livro a ser trabalhado,  que ampliem a apropriação do espaço do NETUR, que se busque maior inte d sciplinaridade e  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 39    construção coletiva, além de maior integração e diálogo entre docentes, em todas as etapas, e  o rodízio na coordenação do projeto.    REFERÊNCIAS     BRASIL.  Constituição Federal Brasileira.  Brasília, 1988.    CACIQUE SEATLE.  Carta do Cacique Seatle  ao Presidente dos Estados Unidos Francis  Pierce. 1985.  Disponível  em: http://www.culturabrasil.pro.br/seattle1.htm ,  Acesso  em:  02/03/2023.    CRUZ, Rita de Cássia. Introd ução a Geografia do Turismo . São Paulo: ROCA, 2ª ed. 2003   DENCKER, Ada de Freitas Maneti. Pesquisa e interdisciplinaridade  no Ensino Superior :  Uma experiência no Curso de Turismo. São Paulo: Aleph, 2002.    FIGUEIREDO,  Ana Flávia  Andrade.  Relatório de  viage m : disciplinas de  Antropologia  e  Turismo  e  História,   Cultura  e  Identidade  Nacional . Universidade  Federal dos  Vales do  Jequitinhonha e Mucuri, 2022.     FORPROEX.  Fórum  de  Pró­reitores  de  Extensão  das  Universidades  Públicas  Brasileiras.  Política Nacional de  Extensão Universitária . Manaus/AM. 2012.    FREIRE, Paulo.  A  importância do  ato de ler:  em três artigos que se completam. 51 ed. São  Paulo: Cortez Editora.    GAMA, Gheysa Lemes Gonçalves; MASCARENHAS, Marcelo Augusto; MORAES, Bianca  de França Tempone Felga de. Interdisciplinaridade e Turismo: um Estudo sobre a Experiência  da Disciplina de Trabalho de  Análise Interdisciplinar.  Anais do VI Seminário de Pesquisa  em Turismo do Mercosul , 2010. UCS   KRENAK, Ailton.  Ideias para  Adiar o Fim do Mundo . 1. Ed. – São Paulo: Companhia das  Letras, 2019.  KRENAK, Ailton.  A Vida não é Útil.  1. Ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2020.    KRONER,  Rachel  Golden  et.  al.  COVID ­Era  Policies  And  Economic   Recovery Plans: are governments building back better for protected and conserved areas?   In.   Parks.  V ol  27 (Special Issue) M arch  2021, p.135­148.    MARINHO,  Marcela  Ferreira;  DOS  SANTOS,  Marcia  Maria  Cappellano;  FERREIRA,  Luciane  Todeschini.  Produção  de  conhecimento  em  Turismo,  Ensino  Superior  e  Interdisciplinaridade na base de dados Scopus. Turismo em Análise , v. 30, p. 367­390, 2019.    MARTINS  FONSECA,  Virginia;  SCALCO,  Raquel  Faria,  ARAÚJO,  Diego  de  Macedo.  Iniciativa  extensionista  em  tempos  pandemônicos  à  natureza:  para  além  das   concessões, por outras  modalidades de parcerias em áreas protegidas.  In. Raízes  e  Rumos .  Rio de Janeiro, v.10 n.1, p. 30­52, jan.­jun., 2022, p.30­52.    Projeto Interdisciplinar de Incentivo à Leitura: Krenak, Questões Ambientais e Turismo    Raquel Faria Scalco Camila Teixeira Heleno _____________________________________________________________ 40    MORLEY, Helena.  Minha Vida de Menina . São Paulo, Companhia das Letras, 1998.    SANTOS, Boaventura.  Um Discurso sobre as Ciências . São Paulo: Cortez, 4 ed., 2006.   TAUCHEN, G.; FÁVORO, A.  O princípio da indissoc iabilidade universitária: dificuldades e  possibilidades  de  articulação. Linhas  Críticas ,  Brasília,  DF,  v.  17,  n.  33,  p.  403­419,  maio/ago. 2011. Disponível em:  https://doi.org/10.26512/lc.v17i33.3818 Acesso em:  22  set.  2022.    TOURINHO, Cleber.  Refletindo  sobre a dificuldade de leitura em alunos do ensino superior:  “deficiência” ou simples falta de hábito?   Revista  Lugares de Educação , v. 1,  n. 2, p. 325­ 346, jul.­dez. 2011. Disponível em     UFVJM.  CONSEPE.  Política  de  Extensão:  anexo  da  Resolução  nº.  06 ­ CONSEPE.  Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri  ­ UFVJM. Diamantina, 2009.     Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___       AVALIAÇÕES EXTERNAS  DO CURSO DE TURISMO  DA UFVJM:  AUTOCONHECIMENTO PAR A A MELHORIA CONTÍNU A DA QUALIDADE     Valéria Rodrigues Neves   Procuradora Educacional Institucional da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e  Mucuri   valeria.rodrigues@ufvjm. edu.br    Virginia Martins Fonseca   Professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   virginia.martins@ufvjm.edu.br     Ana Flávia Andrade de Figueiredo   Professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   ana.figueiredo@ufvjm.edu.br     INTRODUÇÃO   Instituído  pela  Lei  nº  10.861,  de  14  de  abril  de  2004,  o  Sistema  Nacional  de  Avaliação da Educação Superior (Sinaes) tem, como algumas de suas  finalidades, a melhoria  da  qualidade  da  educação  superior,  o  aumento  permanente  da  eficácia  institucional  e  da  efetividade  acadêmica  e  social  e  a  promoção  do  aprofundamento dos  compromissos  e  responsabilidades sociais das instituições de educ ação superior (BRASIL, 2004).   Sendo assim, pode ­se afirmar que a avaliação dos cursos de graduação integrante  deste  sistema  é  um  instrumento  muito  importante  para  que  a  gestão 7  busque  o  aperfeiçoamento, a partir do momento em que passa a conhecer as  suas  limitações e os  seus  potenciais como oportunidade de adquirir ciência dos seus compromissos.  Segundo Silva  et  al   (2019), mensurar tais aspectos:  [...] permite que a instituição avalie se o desempenho do trabalho está inferior, igual  ou  superior aos parâmetros de avaliação definidos. Quando o resultado está aquém  do  esperado  devem­se  investigar  as  causas  do  baixo  desempenho,  bem  como  medidas  corretivas  para  inverter  este  quadro  negativo.  Caso  o  trabalho  realizado  atenda aos padrões definidos, deve­se primar pela  continuidade deste  status. E  nas  ocasiões  em  que  a  performance  atingida  conseguir  ser  superior  aos  indicadores  estabelecidos, deve­se reconhecer e premiar os  profissionais  responsáveis  por este  resultado  pelo  excelente  desempenho  apresentado,  o  que  denota  a  excelência  do  trabalho desenvolvido. (SILVA  et al , 2019, p. 8).                                             7 Por  gestão  de  curso, neste  estudo,  foram  consideradas  as  ações  que  se  desdobraram  a  partir  dos  debates  realizados  no âmbito  das  assembleias  docentes,  Núcleo  Docente Estrutura nte  (NDE) e Colegiado de Curso.  Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 42    Nesta ótica, o objetivo deste trabalho é apresentar os principais resultados obtidos  pelo curso de Turism o da UFVJM, diante da avaliação externa promovida pelo Sinaes, a fim  de  que  a  gestão  do  curso  e  da  instituição  possa  fazer  uma  autorreflexão  em  busca  da  excelência na oferta do ensino e da melhoria dos seus indicadores, garantindo uma formação  superior de qualidade conforme os objetivos do sistema de avaliação em vigor.  Cabe destacar que o Sinaes instituiu a avaliação interna e a externa como parte do  processo.  A avaliação interna, que  não  será alvo deste estudo, é realizada pelas  Comissões  Próprias de Avaliação (CPA) de cada instituição de ensino superior (IES).   Por sua vez, a avaliação externa, é realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e  Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC),  e  tem  como  mecanismos,  a s  visitas  de  avaliação in  loco  em  processos  de  autorização,  de  reconhecimento  e  de  renovação  de  reconhecimento  de  cursos  (conforme  o  caso  e  a  necessidade) e o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).   Dentro  desse  contexto,  neste  capítulo  será  i niciada  a  análise  e  colocado  em  evidência  os  resultados  obtidos  pelo  curso de  Turismo da  UFVJM,  nas últimas  avaliações  externas preparadas pelo  Inep. No próximo  capítulo,  será dada a  continuidade  na discussão  dos  demais  resultados.  Ou  seja,  serão  apresentados  os  dados  relacionados  ao  perfil  e  à  percepção dos estudantes sobre as condições do processo formativo.  Antes  de  dar  início  à  exposição  e  análise,  cabe  registrar  que  este  estudo  foi  pensado  a  partir da  transmissão ao  vivo  realizada em  outubro de 2022,  no  Canal  Turismo  Consciência do Youtube 8, o qual teve como principal motivação compartilhar esclarecimentos  acerca da importância do Enade para os discentes da UFVJM, como atividade integradora do  Projeto de Extensão: Ciclo de debates do Curso de Turismo:  construção do  conhecimento e  estreitamento  dos  laços  entre  a  universidade  e  a  comunidade  externa,  com  registro  na  PROEXC sob o n o 202203000032.     RESULTADOS OBTIDOS NAS VISITAS DE AVALIAÇÃO  IN LOCO   As visitas de avaliação in  loco , realizadas por comissão de examinadores externos  designados  pelo  Inep/MEC,  como  regra geral,  são  realizadas em  processos de autorização,  reconhecimento  e  renovação de  reconhecimento  de  cursos  superiores.  No entanto,  como  a  UFVJM é uma instituição pública federal e o curso de Turismo fica na sede da instituição, foi                                           8 Disponível em: https://www.youtube.com/watch? v=pyRGhEvguwY   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 43    dispensada da visita in  loco  de autorização, pois pôde criar o curso sem a necessidade de ato  autorizativo do MEC em  conformidade  com o Inciso I do art. 53 da Lei  nº 9.394, de 20 de  dezembro de 1996, que assegura às  universidades, além de outras, as atribuições de "criar,  organizar e extinguir, em sua sede , cursos e programas de educação superior [...]" (BRASIL,  1996, s.p., grifo nosso ).  Sendo assim, o  curso de Turismo recebeu a primeira  visita  de avaliação in  l co   para  fins  de  reconhecimento  do  curso.  O  processo  foi  inserido  no  Cadastro  Nacional  de  Cursos e  Instituições de Educação Superior – Cadastro e­MEC, ou Sistema e ­MEC, após o  início de  funcionamento do  curso, em  conformidade as  normas  vig entes à época, e a  visita  ocorreu  no período de 24/10/2010 a 27/10/2010  consoante o relatório disponibilizado pelos  avaliadores (MEC, 2010).  No período da visita à UFVJM, o instrumento de avaliação vigente, que norteava  os  avaliadores  na  atribuição  de  conceitos  (Tabela  1),  era  o  de  2008  e  contava  com  três  dimensões, a saber: “Organização Didático­Pedagógica” (12 indicadores); “Corpo Docente” (13 indicadores); e “Instalações Físicas” (10 indicadores) (MEC, 2008).   Pode­se inferir, a partir dos instrumentos  de avaliação de cursos (MEC, 2020), que  a obtenção do indicador 1 retrata  uma  condição inexistente, o  conceito 2 é insatisfatório, o  atingimento do conceito 3 é suficiente, o alcance do conceito 4 é muito bom e a conquista do  conceito 5 indica excelência n o atingimento dos objetivos propostos pelo curso. Sendo assim,  será chamada a atenção para aqueles indicadores em que o curso recebeu conceitos de 1 a 3,  pois esses evidenciam maior necessidade de melhoria e enfrentamento pela administração do  curso e da instituição.  Na Dimensão 1 “Organização Didático­Pedagógica”, para o indicador “1.1 ­  Implementação  das  políticas  institucionais  constantes  do  Plano  de  Desenvolvimento  Institucional (PDI), no âmbito do curso”, a comissão avaliadora atribuiu o conceito 1 e justificou a nota com a seguinte frase: “O PDI encontra­se em elaboração por parte da IES,  por este motivo  não existe articulação entre a gestão institucional e a gestão do  curso, bem  como as políticas institucionais, pois o instrumento ainda inexiste”. (MEC, 2010).  Conforme preceitua o Decreto  nº 9.235, de 15 de dezembro de 2017, o PDI é o  instrumento em que as metas da IES em sua área de atuação e seu histórico de implantação e  desenvolvimento  são  traçados  (BRASIL,  2017).  Por  meio  dele,  espera­s   que  os  cu rsos  incluam as suas demandas por melhorias a fim de orientar a gestão superior na aplicação dos  recursos.  Assim,  faz ­se  necessário que  cada  curso envide esforços para a inclusão das  suas  Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 44    demandas,  comprovando  a  necessidade  para  o  seu  aprimoramento  e  a  art iculação  entre  a  gestão  superior e a gestão do  curso. Como  não  havia PDI  vigente  no momento da  visita, a  comissão atribuiu  corretamente a  nota 1 a esse indicador do  curso  conforme demostrado  na  Tabela 1, resultado que pesou negativamente no conceito final  da dimensão.    Tabela 1  –   Resultados obtidos pelo Bacharelado em Turismo na primeira visita de ava liação  in lo co   realizada pelo Inep visando o reconhecimento do curso em 2010   RESULTADO DA AVALIAÇÃO EM 2010   DIMENSÃO 1: ORGANIZAÇÃO DIDÁTICA PEDAGÓGICA   NOTA   1.1. Implementação das políticas institucionais  constantes do Plano de Desenvolvimento  Institucional  –   PDI, no âmbito do curso   1  1.2. Auto ava liação do curso   2  1.3. Atuação do coordenador do curso   4  1.4. Objetivos do curso (imprescindível)   4  1.5. Perfil do egresso   4  1.6. Número de vaga s   5  1.7. Conteúdos curriculares (imprescindível)   4  1.8. Metodologia   3  1.9. Atendimento ao discente   4  1.10. Estímulo a atividades acadêmicas   4  1.11. Estágio supervisionado e prática profissional   4  1.12. Atividades complementares   4  NOTA DA DIMENSÃO   4  DIMENSÃO 2: CORPO DOCENTE   NOTA   2.1. Composição do NDE Núcleo Docente Estruturante   2  2.2. Titulação e formação acadêmica do NDE   2  2.3. Regime de trabalho do NDE   5  2.4. Titulação e formação do coordenador  do curso   2  2.5. Regime de trabalho do coordenador do curso   5  2.6. Composição e funcionamento do colegiado de curso ou equivalente   4  2.7. Titulação do corpo docente (imprescindível)   3  2.8. Regime de trabalho do corpo docente (imprescindível)   5  2.9. Tempo de experiência de magistério superior ou experiência do corpo docente   5  2.10. Número de vagas anuais autorizadas por “docente equivalente a tempo integral”   5  2.11. Alunos por turma em disciplina teórica   5  2.12. Número médio de disciplinas por  docente   3  2.13. Pesquisa e produção científica   5  NOTA DA DIMENSÃO   4  DIMENSÃO 3: INSTALAÇÃO FÍSICA   NOTA   3.1. Sala de professores e sala  de reuniões   5  3.2. Gabinetes de trabalho para professores   5  3.3. Salas de aula   3  3.4. Acesso dos alunos aos  equipamentos de informática   4  3.5. Registros acadêmicos   3  3.6. Livros da bibliografia básica (imprescindível)   3  3.7. Livros da bibliografia complementar   3  3.8. Periódicos especializados, indexados e correntes   1  3.9. Laboratórios especializados  (imprescindível)   1  3.10. Infraestrutura e serviços dos laboratórios especializados   3  NOTA DA DIMENSÃO   3  RESULTADO FINAL   4  Fonte: MEC (2010, s.p.), adaptado pelas autoras.    Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 45    Na mesma dimensão, o indicador “1.2 ­ Autoavaliação do curso” recebeu conceito 2 com a seguinte justificativa:   Os  mecanismos  de  autoavaliação  funcionam  insuficientemente  e  não  foram  implementadas  ações  acadêmico­administrativas  em  decorrência  dos  relatórios  produzidos pela autoavaliação (A CPA só efetuou o diagnóstico de infraestrutur a da  IES) e pela avaliação externa (ENADE e outros). (MEC, 2010, s.p.).    A avaliação interna, de responsabilidade da CPA, é de  suma importância para a  instituição,  pois  inclui  a  participação  de  toda  a  comunidade  acadêmica  e  da  comunidade  externa no process o avaliativo, agregando outras visões a respeito da instituição e dos cursos.  Tal  participação  possibilita  uma  gestão  ainda  mais  eficiente  e  participativa,  pois  além  de  contribuir  com  as dimensões  obrigatórias  instituídas  pelo  Sinaes,  permite  que  a  instituição  busque informações para atender as suas demandas e características particulares em função da  sua inserção  local e  social. Portanto,  como a CPA  não  cumpriu  com as dimensões que  são  obrigatórias, a comissão atribuiu o conceito insuficiente ao indicador em comento.   Por sua vez, o indicador “1.8 – Metodologia” obteve o resultado 3; pois, de acordo com o ponto de vista da comissão avaliadora, “a metodologia  utilizada  no desenvolvimento  das atividades do curso está [apenas] suficientemente comprometida com o  desenvolvimento  do espírito científico e com a formação de sujeitos autônomos e cidadãos” (MEC, 2010, s.p.).  Nesse  sentido,  todo  o  corpo docente envolvido  com  o  curso  precisava de dedicar esforços  adicionais para que esse comprometimento caminhasse rumo a  excelência.  Na Dimensão 2 “Corpo Docente”, os indicadores “2.1 Composição do NDE Núcleo Docente Estruturante” e “2.2 ­ Titulação e formação acadêmica do NDE” receberam o conceito insuficiente (nota 2). Por serem indicadores correlacionados, a justificativ a dada pela  comissão avaliadora  foi pelo  fato de que o NDE do  curso  não tinha a  coordenadora  na  sua  composição,  bem  como  havia  resolução  interna  da  IES  que  não  permitia  a  inclusão  de  especialistas no NDE, de modo que apenas cinco professores faziam parte,  o correspondente a  33% dos docentes que atuavam no  curso à época, destacando ­se que destes docentes, apenas  um possuía título de doutor e os demais possuíam mestrado (MEC, 2010).   Ainda  que,  na  ocasião,  a  coordenadora  do  curso  participava  do  NDE  como  membr o  nato,  posto  que  uma  das  suas  atribuições  é  zelar  pelo  cumprimento  e  pela  consolidação do Projeto Pedagógico do Curso (PPC), não compunha a portaria de designação  do núcleo de forma oficial, uma vez que, na época, era especialista e existia normativa interna  impossibilitando  a  sua  participação.  Esse  impedimento  acarretou  ônus  na  avaliação  deste  quesito. Ademais, o instrumento de avaliação vigente no período da visita considerava como  Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 46    critério de excelência  que,  no  mínimo,  60% dos docentes  do  NDE  possuíssem  o  título de  doutor  (MEC, 2008).  Desse  modo,  considera­se  que  a  nota  atribuída  pelos  avaliadores  foi  adequada  e  estimulante  do  aumento  das  competências  individuais  para  a  melhoria  da  qualidade do curso.  Logo, o indicador “2.4 ­ Titulação e formação do coordenador do curso” recebeu a mesma  nota  do  item  mencionado  anteriormente;  pois,  de  acordo  com  os  examinadores  externos, a  coordenadora do  curso era graduada em Turismo  com pós­graduação lato  sensu   em Educação Ambiental e Recursos Hídricos. (MEC, 2010).   O  indicador “2.7 ­ Titulação do corpo docente (indicador de destaque)”, imprescindível de acordo com parâmetros de avaliação adotados pelo Inep, recebeu o conceito  3, registrando­se que “em relação a titulação, 13,3% (2) possuem doutorado, 73,4% (11) tem pós­graduação stricto sen su  e 13,3% (2) pós­graduação lato sensu .”. (MEC, 2010, s.p.).   Novamente,  nota ­se que a  nota atribuída pelos avaliadores  nos indicadores 2.4 e  2.7 é  considerada adequada e estimulante do aumento das  competências  individuais  para a  melhoria da qualidade,  havendo  necessidade do  curso e da instituição elaborar estratégias e  estimular  os  docentes  a buscar  titulação  mais  elevada de  qualificação  profissional.  Diante  desse cenário, o corpo docente de Turismo, desde então, foi obtendo a necessária qualificação  doutoral.  Atualmente,  dos  15  docentes  permanentes,  apenas  dois  estão  em  processo  de  doutoramento,  posto  que os demais  já possuem  título de doutor,  havendo alguns  com  pós ­ doutoramento, inclusive.   O indicador “2.12 ­ Número médio de discipl nas por docente”, no que lhe diz respeito, também recebeu a nota 3, pois “a média de disciplinas por docente é de no máximo 03” (MEC, 2010, s.p.). De acordo com o instrumento utilizado pelos avaliadores no período, o ideal era que a média de disciplinas por docentes por semestre fosse menor que duas (MEC,  2008). Portanto, fica evidente que, neste período, havia uma sobrecarga de trabalho por parte  dos  docentes  que,  de  acordo  com  esses  parâmetros,  impactava  na  excelência  da  oferta  do  curso.   Por  seu  turno , na Dimensão 3 “Instalações Físicas” o indicador “3.5 ­ Registros  acadêmicos” recebeu o conceito 3. A comissão registrou que “os registros acadêmicos eram informatizados,  através  do Programa  SIGA  (Sistema  Integrado de  Gestão  Acadêmica)  que  permite matrícula on  line , acesso a pesquisa do CPA e outros mais” (MEC, 2010, s.p.). No entanto,  para  alcançar  o  conceito  de  excelência  (nota  5),  não  ficou  evidenciado  que  os  processos  de  registros  acadêmicos  informatizados  tinham  garantia  de  atualização,  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 47    confiabilidade , eficiência e acesso pelos docentes e discentes conforme instrumento avaliativo  norteador da comissão na ocasião (MEC, 2008).  Continuando a tratar sobre a dimensão 3, o Indicador “3.6 ­ Livros da bibliografia  básica (indicador de destaque)” recebeu a nota 3 e os examinadores registraram o seguinte:  A biblioteca possui os títulos indicados  nas bibliografias básicas e  complementares  atendendo as  quantidades exigidas.  Utiliza a base de dados PHL  que  permite aos  usuários da Biblioteca a realização de consultas nos 10 computadores disponíveis no  espaço, bem como através do site da IES. (MEC, 2010, s.p.).    O ideal para o indicador supramencionado, naquele momento, era de que o acervo  de no mínimo 3 bibliografias fosse na proporção de um exemplar para até 6 alunospar  cada  turma,  estando  tombado  junto  ao  patrimônio  da  instituição.  Portanto,  foi  identificada  (adequadamente)  mais  uma  necessidade de  melhoria  para  o  atingimento  de  maior grau  de  superioridade na qualidade do curso, já que este também é um indicador impesc ndível.   Relacionado ao anterior, o Indicador “3.7 ­ Livros da bibliografia complementar” também  recebeu  a  mesma  nota,  pois  a  comissão  identificou  que  as bibliografias básicas  e  complementares, em algumas disciplinas, apresentavam obras desatualizadas ,  não atendendo  adequadamente às indicações bibliográficas (INEP, 2010).  O indicador “3.8 ­ Periódicos especializados, indexados e correntes” recebeu nota 1 (inexistente). Os examinadores do Inep registraram que “até o momento não há assinatura de periódicos na área de Turismo, sendo apenas disponibilizado o link de acesso ao portal de  periódicos da Capes na página da IES e alguns títulos na versão impressa que foram doados a  biblioteca” (MEC, 2010, s.p.). Tal qual o aperfeiçoamento acadêmico em que os doce ntes  buscaram com o passar dos anos, também foi atualizada, de forma substancial, a aquisição de  referências  bibliográficas  bem  como  a  assinatura  de  periódicos  que  contribuem  para  uma  formação de mais qualidade dos discentes do curso de Turismo.  Já o indicador “3.9 ­ Laboratórios especializados” (indicador de destaque) ficou com conceito 3, já que não ficou demostrado que atendia de forma excelente as demandas do  curso de acordo com a seguinte justificativa:   Atualmente  o  Curso  conta  com  o  Núcleo de  Estudos  Turísticos  onde  funcionam,  também,  os  laboratórios  de  lazer,  eventos,  planejamento  turístico  e  sala  de  multimeios e reuniões. Vale destacar que todos estes laboratórios estão em um único  espaço  sem  distinção.  Os  laboratórios  de  meios  de  hospedagem  e  alimentos  e  bebidas  tem  suas  atividades  práticas  no  núcleo  e,  segundo  a  coordenadora,  as  atividades  práticas  são  realizadas  em  outros  espaços  através  de  parcerias  com  empreendimentos  da  cidade.  Já  o  Laboratório  de  Antropologia  encontra­se  desativado em  função do afastamento de  sua responsável para  cursar o doutorado.  (MEC, 2010, s.p).    Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 48    Relacionado ao anterior, o indicador “3.10 ­ Infraestrutura  e  serviços  dos  laboratórios especializados” recebeu a mesma nota, pois não foi observado que os laboratórios específicos  atendiam de forma satisfatória a demanda do curso, havendo necessidade de mais  empenho para o melhor funcionamento desses espaços.   Finalmente, destaca ­se que as Dimensões 1 e 2, respectivamente, “Organização Didático­Pedagógica” e “Corpo Docente” ficaram com conceito 4 e a Dimensão 3 “Instalação Física” com resultado 3, sendo esta última, portanto, a mais frágil das três. No entanto, não deve ser ignorado o cenário de expansão física pelo qual a UFVJM passava na ocasião, diante  da  construção  de  diversos  prédios  no  Campus  JK  (o  que  contribuiu  sobremaneira  para  a  reestruturação da universidade) ainda com apenas 5 anos de existência.   Como pontuação final, o curso ficou com conceito 4 (muito bom). Isso porque os  demais  indicadores,  que  não  foram  objeto  de  discussão,  não  apresentaram  maiores  fragilidades.  A  partir  da  finalização  desse  processo  no  Sistema  e­MEC,  o  curso  obteve  a  Portaria MEC nº 216, de 28 de março de 2014, com o reconhecimento do curso.   Com  a  vigência  do  PPC  de  2012,  o  curso  de  Turismo,  antes  vinculado  ao  Bacharelado em Humanidades,  como  formação de primeiro  ciclo (UFVJM, 2012),  voltou a  ser  um  curso  independente.  Com  isso,  houve  o  entendimento,  em  função  da  mudança  da  matriz curricular, de que essa reconfiguração o caracterizava como um novo cur so. Foi então  protocolado um novo pedido de reconhecimento de curso no Sistema e ­MEC. O curso passou,  então, por nova visita de avaliação in loco  no período de 09/06/2013 a 12/06/2013 conforme o  relatório disponibilizado pelos avaliadores do Inep (MEC, 2013, s.p.), via Sistema e­MEC, e  que se encontra publicado no portal institucional.   No período da nova visita, havia um  novo instrumento de avaliação vigente para  nortear os avaliadores  na atribuição dos  conceitos, publicado em 2012, que também contava  com  t rês dimensões. A Dimensão 1 “Organização  Didático­Pedagógica” continha 22 indicadores [10 a mais que o anterior], a Dimensão 2 “Corpo Docente e Tutorial” continha 20 indicadores [7 a mais que o anterior] e, por seu turno, a Dimensão 3 “Infraestrutura” era composta por 21 indicadores [11 a mais que o anterior] (MEC, 2012).   Entretanto,  nem  todos  os  indicadores  foram  aplicados à  avaliação do  curso  de  Turismo  da  UFVJM,  porque  alguns  deles  foram  incluídos  especificamente  para  cursos  de  educação a distância, para  cu sos  na área da  saúde, dentre outras  situações específicas  não  aplicáveis ao  curso. Diante disso,  na Tabela 2  com os resultados da avaliação apresentados,  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 49    constam  os  indicadores  que  foram  utilizados  na  avaliação  do  curso  e,  novamente,  serão  tecidos com entários exclusivamente àqueles indicadores que receberam conceito entre 1 e 3.    Tabela 2: Resultados obtidos pelo Bacharelado em Turismo na segunda visita de ava liação  in lo co   realizada pelo Inep visando o reconhecimento do curso em 2013   RESULTADO DA AVAL IAÇÃO EM 2013   DIMENSÃO 1: ORGANIZAÇÃO DIDÁTICA PEDAGÓGICA   NOTA   1.1. Contexto educacional    3  1.2. Políticas institucionais no âmbito do curso   3  1.3. Objetivos do curso    3  1.4. Perfil profissional do egresso    3  1.5. Estrutura curricular (Considerar como critério de análise também a pesquisa e a  extensão, caso estejam contempladas no PPC)    5  1.6. Conteúdos curriculares    2  1.7. Metodologia    3  1.8. Estágio curricular supervisionado    4  1.9. Atividades complementares    4  1.10. Trabalho de conclusão de curso (TCC)    4  1.11. Apoio ao discente    4  1.12. Ações decorrentes dos processos de ava liação do curso    3  1.14. Tecnologias de informação e comunicação (TICs) no processo ensino ­ aprendizagem    3  1.17. Procedimentos de avaliação dos processos de ensino ­aprendizagem    4  1.18. Número de vaga s    5  NOTA DA DIMENSÃO   3,5  DIMENSÃO 2: CORPO DOCENTE E TUTORIAL   NOTA   2.1. Atuação do Núcleo Docente Estruturante  ­  NDE    3  2.2. Atuação do (a) coordenador (a)    3  2.4. Experiência profissional, de magistério superior e de gestão acadêmica do (a)  coordenador (a)    2  2.5. Regime de trabalho do (a) coordenador (a) do curso    5  2.7. Titulação do corpo docente do curso   5  2.8. Titulação do corpo docente do curso  –   percentual de doutores   4  2.9. Regime de trabalho do corpo docente do curso   5  2.10. Experiência profissional do corpo docente   4  2.12. Experiência de magistério superior do corpo docente    5  2.14. Funcionamento do colegiado de curso ou equivalente   4  2.15. Produção científica, cultural, artística ou tecnológica   5  NOTA DA DIMENSÃO   4,1  DIMENSÃO 3: INFRAESTRUTURA   NOTA   3.1. Gabinetes de trabalho para professores Tempo Integral  ­  TI    5  3.2. Espaço de trabalho para coordenação do curso e serviços acadêmicos   5  3.4. Salas de aula   4  3.5. Acesso dos alunos a  equipamentos de informática   3  3.6. Bibliografia básica   4  3.7. Bibliografia complementar   4  3.8. Periódicos especializados   3  NOTA DA DIMENSÃO   4  RESULTADO FINAL   4  Fonte: MEC (2013, s.p.), adaptado pelas autoras.    Primeiramente,  cabe  destacar  que  a  comissão  avaliadora  designada  para  esta  segunda  avaliação  não  foi  a  mesma  que  participou  do  primeiro  processo  e  que  não  foram  Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 50    apresentadas  justificativas  individuais  para  as  notas  atribuídas  a  cada  indicador  conforme  ocor reu  na primeira avaliação. Foram  feitas apenas  considerações gerais  a respeito de  cada  dimensão conforme consta no relatório de avaliação (MEC, 2013).  Na Dimensão 1 “Organização Didático­Pedagógica”, os indicadores “1.1. Contexto educacional” e “1.2. Políticas institucionais no âmbito do curso” receberam o conceito  3.  Isso  significa,  respectivamente,  de  acordo  com  o  instrumento  de  avaliação  utilizado (MEC, 2012, s.p.) que “o PPC contempla, de maneira suficiente, as demandas efetivas de natureza econômi ca e social” e “as políticas institucionais de ensino, de extensão e de pesquisa (esta última, quando for o caso) constantes no PDI estão previstas/implantadas, de  maneira suficiente, no âmbito do curso”. Ou seja, precisavam de avanços para atingir o conce ito de excelência. Ressalta­se que o indicador 1.1  não existia  na primeira avaliação e  que  o  conceito  obtido  naquela  ocasião  para  o  indicador 1.2  foi de 1 (inexistente).  Houve,  portanto, evolução com relação às políticas institucionais no âmbito do curso.  Os indicadores “1.3. Objetivos do curso” e “1.4. Perfil profissional do egresso” também  ficaram  com  nota  3.  De  acordo  com  o  instrumento  norteador,  isso  quer  dizer,  respectivamente, que “os objetivos do curso apresentam suficiente coerência, em uma análise sistêmica  e  global,  com  os  aspectos:  perfil  profissional  do  egresso,  estrutura  curricular  e  contexto educacional” e o perfil profissional do egresso “expressa, de maneira suficiente, as competências do egresso” (MEC, 2012, s.p.). Nestes casos, também há margem para atuação  rumo ao ideal de qualidade  segundo os  parâmetros  preestabelecidos.  Acrescente­se que,  na  primeira avaliação, a  nota  oferecida a ambos  os  indicadores  foi de 4 (muito bom).  Houve  involução dos indicadores com a vigência do novo PPC.  O  indic ador “1.6. Conteúdos curriculares” recebeu nota 2 (insuficiente). Neste caso, conforme considerações gerais do relatório de avaliação:  Os  conteúdos  curriculares  buscam  uma  formação  generalista  e  com  base  na  interdisciplinariedade, proposta realizada através do BHu,  contudo,  na prática  não  evidenciou ­se êxito  na proposta, especificamente para o  caso do Curso de Turismo  e, um novo PPC já foi elaborado e implementado em 2012/1. (MEC, 2013, s.p.).    De  acordo  com  o  instrumento  de  avaliação,  esse  conceito  deve  se r  atribuído  quando os  conteúdos  curriculares possibilitam, de modo insuficiente, o desenvolvimento do  perfil  profissional  do  egresso  a  partir  de  uma  perspectiva  sistêmica  e global,  os  aspectos:  atualização, adequação das  cargas  horárias e adequação da bibli grafia (MEC, 2012). Cabe  ressaltar que, na primeira avaliação, a nota para esse mesmo indicador foi de 4 (muito bom).  Nota ­se também um regresso após a desvinculação do BHU.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 51    Os indicadores “1.7. Metodologia”, “1.12. Ações decorrentes dos processos de ava liação do curso” e “1.14. Tecnologias de informação e comunicação (TIC) no processo ensino ­aprendizagem” ficaram com conceito 3. De modo recíproco, isso significa que “as atividades  pedagógicas  apresentam  suficiente  coerência  com  a  metodologia  prevista/imp lantada”, que “as ações acadêmico­administrativas,  em  decorrência  das  autoavaliações  e das  avaliações  externas  (avaliação de  curso,  ENADE,  CPC  e  outras),  no  âmbito do curso, estão previstas/implantadas de maneira suficiente”, e que “as tecnologias de infor mação e comunicação (TICs) previstas/implantadas no processo de ensino ­aprendizagem  permitem executar, de maneira suficiente, o projeto pedagógico do curso” (MEC, 2012). Destaca ­se,  em  comparação  com  a  primeira  avaliação,  que  o  conceito do  indicador 1.7  se  manteve,  o  conceito  do  indicador  1.12  subiu  de 2  para  3,  enquanto  o  indicador  1.14  não  existia.  Na Dimensão 2 “Corpo Docente e Tutorial”, os indicadores “2.1. Atuação do Núcleo Docente Estruturante (NDE)” e “2.2. Atuação do(a) coordenador(a)” receberam nota  3. O que significa respectivamente que “a atuação do NDE previsto/implantado é suficiente considerando, em  uma análise  sistêmica e global, os aspectos: concepção, acompanhamento,  consolidação e avaliação do PPC” e que “a atuação do(a) coordenador(a) é s u ficiente  considerando, em uma análise sistêmica e global, os aspectos: gestão do curso, relação com os  docentes e discentes e representatividade nos colegiados superiores” (MEC, 2012, s.p.). Ou seja,  permanece  espaço  para  uma  atuação  de  excelência,  ainda que  seja  destacado  que  o  indicador  2.1  foi  modificado  em  relação  ao  instrumento  da  primeira  avaliação,  antes  era  desmembrado em dois  indicadores  relacionados à titulação e  composição do NDE,  tendo o  conceito  neste  novo  formato  sido elevado de 2 para 3. O mesmo desmembramento ocorreu  com  o  indicador  2.2.  Porém,  neste  caso,  considerando  a  média  anterior,  o  resultado  foi  diminuído de 3,5 para 3.  Já o indicador “2.4. Experiência profissional, de magistério superior e de gestão acadêmica do(a) coordenador(a)”, que  não existia  no antigo instrumento avaliativo, recebeu  conceito  2  (insuficiente).  Isso  quer  dizer,  de  acordo  com  o  instrumento  avaliativo  (MEC,  2012), que “o(a) coordenador(a) possui experiência profissional, de magistério superior e de gestão acadêmica, somadas, maior ou igual a 1 ano e menor que 4 anos sendo, no mínimo, 1  ano de magistério superior” enquanto o ideal era que possuísse “experiência profissional, de magistério  superior  e de gestão  acadêmica,  somadas,  maior  ou  igual  a  10 anos  sendo,  no  mín imo, 1 ano de magistério superior”.  Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 52    Por sua vez, na Dimensão 3 “Infraestrutura”, os indicadores “3.5. Acesso dos alunos a equipamentos de informática” e “3.8. Periódicos especializados” receberam conceito 3. Isso significa, respectivamente, que “os laboratórios ou outros meios implantados de acesso  à informática para o curso atendem, [apenas] de maneira suficiente” (considerando a quantidade de equipamentos relativa ao  número total de  usuários, acessibilidade,  velocidade  da internet, política de atualização de equipamentos e softwares e adequação do espaço físico)  e que “há assinatura/acesso de periódicos especializados, indexados e correntes, sob a forma impressa ou virtual, maior ou igual a 10 e menor que 15 títulos distribuídos entre as principais  áreas do curso, a maioria deles com acervo atualizado em relação aos últimos 3 anos” (MEC, 2018). A  nota no indicador 3.5 caiu de 4 para 3 em relação a primeira avaliação e a nota do  indicador 3.8 subiu de 1 para 3.  Ao  fazer  um  comparativo  dos  resultados  obtidos  na  primeira  e  na  segunda  avaliação  por dimensão,  observa­se  que  na  Dimensão 1  o  conceito  caiu  de 4  para 3,5;  na  Dimensão 2 o  conceito  sobe de 4 para 4,1 e  na Dimensão 3 o  conceito  sobe de 3 para 4.  A  partir do  somatório das  dimensões,  nota­se  que  o  resulta do da  segunda  avaliação  foi  mais  favorável  ao  curso,  subindo de 11 para 11,6. Porém, a  média  final  manteve  o  conceito do  curso  com  nota 4 (muito bom). Observa ­se, portanto, que avanços  foram  conquistados e  há  probabilidade de que tenha  sido a partir do fe e db ack  oferecido  na primeira avaliação, já que  este  mecanismo  do  Sinaes  visa  justamente  oferecer  o  autoconhecimento  e  promover  a  melhoria da qualidade dos cursos.   Quando esse outro processo de reconhecimento foi finalizado no Sistema e ­MEC,  foi emitida a Portaria MEC nº 245, de 16 de abril de 2014, com o reconhecimento do curso.  Esta  portaria  foi  validada  oficialmente  como  a  do  reconhecimento  do  curso  porque,  posteriormente,  a  Secretaria  de  Regulação  e  Supervisão  da  Educação  Superior  (Seres)  extinguiu  o  curs o  que  vigorava  sob  o  código  anterior,  entendendo  se  tratar  de  uma  duplicidade, pois a mudança de matriz curricular não caracteriza um novo curso. Foi mantido,  então, apenas o curso sob o código nº 100899 ativo no Sistema e­MEC, com a orientação de  que todos os alunos fossem atrelados ao código retromencionado (SILVA, 2014).   Após a obtenção desse reconhecimento, o curso não recebeu, até o momento, mais  nenhuma  visita  de  avaliação  in  loco  do  Inep.  Isso  porque  o  curso  tem  participado  regularmente do  Enade  e  obtido  resultado  satisfatório  nos  indicadores  que  são  calculados.  Sendo assim, obtém renovação do reconhecimento de  forma  simplificada (com dispensa de  visita) em conformidade com as práticas adotadas pelo MEC ao longo dos anos, como se nota  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 53    nos  critérios  ut ilizados  na  Nota  Técnica  nº  1.188 ­ DIREG/SERES  (MEC,  2014).  Sendo  assim,  serão abordados,  na  sequência,  os  resultados da avaliação do  Curso de Turismo em  conformidade com o mecanismo do Enade.     RESULTADOS  OBTIDOS  NO  EXAME  NACIONAL  DE  DESEMPENHO  DOS  ESTUDA NTES   O Conceito Enade é uma variável que também assume valores de 1 a 5, resultante  da nota dos estudantes concluintes dos cursos participantes do exame. A avaliação conta com  conteúdo de formação geral e específica, sendo 25% o peso da Formação Geral e 75% o peso do Componente Específico  nos  termos da NOTA TÉCNICA Nº 5/2020/CGCQES/DAES.  É  importante destacar que, a partir do desempenho dos estudantes, também é possível avaliar a  qualidade dos  cursos de graduação em relação a outros  cursos país e essas medidas também  oferecem parâmetros em busca da melhoria contínua da qualidade.  Aplicado junto ao Enade, merece destaque o Questionário do Estudante, pois ele  também oferece, a partir da opinião dos estudantes, a oportunidade  dos cursos e da instituição  conhece r melhor as suas forças e fraquezas. No entanto, como são dois instrumentos distintos  que compõem o Enade, os resultados obtidos pelo curso de Bacharelado em Turismo também  serão  abordados  de  maneira  distinta,  uma  vez  que  cada  um  desses  instrumentos  revela   aspectos diferentes do processo de ensino ­aprendizagem. Sendo assim, a primeira parte  será  apresentada neste capítulo e a segunda parte no capítulo subsequente.      O CONCEITO ENADE   Sendo uma avaliação trienal, o curso de Turismo participou do Enade nos ano s de  2009, 2012, 2015, 2018 e 2022. No entanto,  no ano de 2009  ficou  sem  conceito (SC), em  conformidade com a Nota Técnica  ­ Cálculo do Enade (MEC, 2009), porque nenhum discente  concluinte  foi  inscrito.  Os  resultados  do  Enade  2022,  até  o  fechamento  desta  p ublicação,  ainda  não  foram divulgados. Sendo assim, apresenta ­se,  na Tabela 3, os  resultados  obtidos  naqueles anos em que o curso teve conceito divulgado pelo Inep, ou seja, até julho de 2023.   Observa ­se que, no ano de 2015, o número de participantes foi maior e isso pode  ter tido influência na diminuição do conceito do curso de 4 para 3, uma vez que nem todos os  estudantes  podem  ter  sido  adequadamente  sensibilizados  da  importância  do  exame.  Além  disso,  nas duas primeiras edições, os estudantes  tiveram melh or desempenho  nos  conteúdos  de formação geral do que nos de formação específica. Ainda assim, a média de avaliação do  Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 54    curso permaneceu  com conceito 4 (muito bom), tal qual o resultado observado nas  visitas de  avaliação in loco  do Inep que foi apresentado anteriormente.      Tabela 3  – Conceitos Enade 2012, 2015 e 2018  Aspecto / Edição   2012  2015  2018  Nº de estudantes inscritos   24  46  38  Nº de Estudantes Participantes   21  44  31  Nota Bruta do Curso  –   Formação Geral   51,64  56,33  49,23  Nota Padronizada do Curso  –   Formação Geral   3,45  2,77  2,55  Nota Bruta do Curso  –   Componente Específico   47,59  52,39  53,97  Nota Padronizada do Curso  –   Componente Específico   3,48  2,26  3,45  Conceito Enade (Contínuo)   3,47  2,39  3,22  Conceito Enade (Faixa)   4  3  4  Fonte: Adaptado pelas autoras.     Considerando  as  notas  técnicas  de  cálculo  de  cada  edição  (MEC,  2020)  e  os  conceitos atribuídos a cada curso participante, pode ­se extrair a posição do curso em relação  aos demais cursos do país a partir do Conceito Enade Contínuo. Sem distinção de modalidade,  tem ­se que: 1) na edição de 2012 o curso de Turismo da UFVJM ficou na 25ª posição entre os  169  cursos avaliados e  com  conceito, 2) em 2015, por  sua  vez,  na 59ª entre os 134  cursos  avaliados  e  com  conceito,  3) em 2018,  por  fim,  na 28ª  posição em  relação aos  91  cursos  participantes e com conceito atribuído pelo Inep.  O posicionamento do curso em relação aos demais cursos do país serve como um  parâmetro a respeito do desempenho do  curso e é relevante para a adoção de estratégias de  melhor colocaç ão. De acordo com o Manual do Enade da Universidade Federal do Recôncavo  da Bahia (UFRB), a coordenação do curso deve: 1) estimular alunos e professores a participar  de atividades  formativas  sobre o Enade,  sejam elas, minicursos, palestras ou  seminários; 2 )  propor aos docentes a inserção de questões de prova do Enade ao longo do curso; 3) realizar  atividades preparatórias sobre o Enade, como exemplo, simulados; 4) utilizar os resultados do  Enade para promover adequações no PPC dos cursos, dentre outras (UFRB, 2021).   Além  disso,  sugere ­se  que  os  docentes  dos  cursos  participem  das  chamadas  públicas do  Inep  para elaborar e  revisar  questões do Banco  Nacional de  Itens  (BNI). Esse  banco  oferece  insumos  para  diversas  avaliações  e  exames  que  são  aplicados  pelo  Inep ,  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 55    incluindo o Enade,  com o objetivo de realizar inferências  sobre o processo educacional em  desenvolvimento. Trata ­se da manutenção de um banco de itens que oferece subsídios para a  construção  dos  testes  e  questionários  em  que  educadores  e  pesquisadores  da  educação  brasileira  são  chamados a  colaborar  nessa  construção e participam de  capacitações, oficinas  de elaboração e revisão, além de painéis de revisão de itens (INEP, 2020). Após o exame, o Inep também divulga o Relatório de Curso em seu portal (INEP,  2023).  A  partir  de  cada  relatório,  é  possível  observar  o  desempenho  dos  estudantes  nos  conteúdos de formação geral e específica em relação aos demais  cursos do Brasil. Apesar de  não ter tido concluintes inscritos no ano de 2009 e o curso ter ficado sem conc eito na ocasião,  foi divulgado o resultado obtido pelos ingressantes participantes (Tabela 4).     Tabela 4: Desempenho dos ingressantes participantes do Enade 2009 comparados com o resultado  nacional     UFVJM   Brasil   Ingressantes   Concluintes   Ingressantes   Concluintes   Resultado  Geral   Média   50,6  ­  48,8  54,7  Erro ­padrão da Média   3,0  ­ 0,2  0,2  Desvio Padrão   10,0  ­ 16,5  16,5  Mínimo   37,0  ­ 0  0  Mediana   47,8  ­ 49,5  56,1  Máximo   66,4  ­ 93,8  94,0  Formação  Geral   Média   49,3  ­ 42,8  45,0  Erro ­padrão da Média   4,8  ­ 0,3  0,2  Desvio Padrão   15,9  ­ 20,7  21,1  Mínimo   17,1  ­ 0  0  Mediana   51,2  ­ 42,8  42,8  Máximo   74,2  ­ 100,0  100,0  Componente  Específico   Média   51,1  ­ 50,9  57,9  Erro ­padrão da Média   3,6  ­ 0,3  0,2  Desvio Padrão   11,9  ­ 18,0  17,7  Mínimo   32,2  ­ 0  0  Mediana   52,4  ­ 52,2  60,4  Máximo   68,6  ­ 95,0  97,6  Fonte: MEC/INEP/DAES  – ENADE 2009.    Destaca ­se que,  na época, os ingressantes ainda  faziam a prova, ao  contrário do  que  ocorre  na  atualidade.  Observa­se  também  que  a  média  dos  ingressantes  de  2009 foi  superior à média do Brasil, tanto no resultado geral quanto nos conteúdos de formação geral e  específica.  Em 2012 o  curso de Turismo obteve o  seu primeiro Conceito Enade (nota 4). O  desempenho revela,  conforme Tabela 5, que a média dos estudantes participantes do exame  Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 56    também foi superior à média do Brasil. No Resultado Geral, a média do curso de Turismo da  UFVJM foi de 48,6 enquanto a média nacional foi de 42,1, nos conteúdos de Formação Geral  a  média  do  Curso  de  Turismo  da  UFVJM  foi  de  51,6  e  a  média nacional  de  44,2  e  no  Componente  Específico  a  média do  Curso de Turismo da  UFVJM  foi de 47,6 enquanto  a  média nacional foi de 41,3.  Tabela 5: Desempenho dos alunos participantes do Enade 2012 comparados com o resultado nacional   Enade   Instituição   Brasil   Tamanho da população   24  7148  Número de presentes   21  5215  Resultado  Geral   Média   48,6  42,1  Erro ­padrão da Média   2,5  0,2  Desvio Padrão   11,5  13,0  Mediana    48,9  42,5  Mínimo   27,2  0  Máximo   66,0  80,7  Coeficiente de Assimetria   ­0,3  ­0,1  Formação  Geral   Média   51,6  44,2  Erro ­padrão da Média   3,0  0,2  Desvio Padrão   13,8  15,8  Mediana    51,0  45,0  Mínimo   23,0  0  Máximo   71,0  93,0  Coeficiente de Assimetria   ­0,7  ­0,2  Componente  Específico   Média   47,6  41,3  Erro ­padrão da Média   2,8  0,2  Desvio  Padrão  12,7  14,4  Mediana    49,2  41,0  Mínimo   19,7  0  Máximo   69,7  85,0  Coeficiente de Assimetria   ­0,4  0  Fonte: MEC/INEP/DAES  – ENADE 2012.    Os resultados obtidos em 2015 (Tabela 6), quando o curso de Turismo da UFVJM  obteve  conceito 3  no Enade,  revelam  um Resultado Geral  inferior à média  nacional, assim  como em  Minas  Gerais  (MG) e  na  Grande  Região, bem  como  na  categoria administrativa  pública e  no tipo de organização acadêmica. Destaca­se que o  conteúdo de Formação Geral  foi  superior à média  nacional, enquanto o  conteúdo de Formação Específica  foi inferior. No  entanto,  é  sabido  que  a  Formação  Específica  tem  um  peso  de  75%,  o  que  impactou  negativamente o resultado geral.  Por  sua  vez,  no ano de 2018, quando o  curso obteve Conceito Enade 4, a média  n acional  foi  superior  tanto  no  Resultado  Geral  quanto  no  Componente  Específico.  Na  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 57    Formação  Geral  teve  um  resultado  inferior à  média  nacional  de  apenas  dois  décimos.  No  Resultado  Geral,  pode ­se  observar  também  que  a  média é  inferior  na  região de  MG  e  na  Grande  Região,  sendo  superior  na  categoria  administrativa  e  na  organização  acadêmica  (Tabela 7).    Tabela 6:  Desempenho dos concluintes participantes do Enade 2015 comparados com o resultado por  categoria administrativa, por região e com o resultado nacional   E nade   UFVJM   MG   Grande  Região  Cat.  Acad.   Org.  Acad.   Brasil   Tamanho da população   46  287  2196  2125  3228  4573  Número de presentes   44  242  1772  1733  2639  3460  Resultado  Geral   Média   53,4  59,2  54,5  55,9  55,1  53,6  Erro ­padrão da Média   2,2  1,0  0,4  0,4  0,3  0,3  Desvio Padrão   14,5  15,5  15,1  14,6  14,5  14,8  Mediana    54,7  61,2  55,2  56,8  55,8  54,2  Mínimo   17,9  17,9  7,3  0  0  0  Máximo   80,1  93,1  93,1  93,1  93,1  93,1  Coeficiente de Assimetria   ­0,3  ­0,5  ­0,2  ­0,3  ­0,3  ­0,2  Formação  Geral   Média   56,3  58,8  56,0  56,7  55,9  54,9  Erro ­padrão da Média   2,0  1,1  0,4  0,4  0,3  0,3  Desvio Padrão   13,3  16,7  15,7  15,8  15,6  15,6  Mediana    56,8  61,2  56,7  57,0  56,4  55,4  Mínimo   30,0  7,5  0  0  0  0  Máximo   79,7  93,8  95,4  96,8  96,8  96,8  Coeficiente de Assimetria   ­0,3  ­0,6  ­0,3  ­0,4  ­0,3  ­0,3  Componente  Específico   Média   52,4  59,4  53,9  55,6  54,8  53,1  Erro ­padrão da Média   2,5  1,1  0,4  0,4  0,3  0,3  Desvio Padrão   16,5  17,3  16,9  16,4  16,3  16,6  Mediana    54,5  60,9  55,0  56,8  55,8  54,3  Mínimo   13,5  9,0  2,7  0  0  0  Máximo   81,7  98,5  98,5  98,5  98,5  98,5  Coeficiente de Assimetria   ­0,2  ­0,6  ­0,3  ­0,4  ­0,3  ­0,3  Fonte: MEC/INEP/DAES  – ENADE 2015.    De  forma geral,  nota­se que o desempenho do  curso está dentro de  uma média  apropriada  e  competitiva,  sendo  muitas  vezes  até  superior  à  média nacional.  Entretanto,  sempre é  necessário buscar  a  melhoria  contínua da qualidade, a  partir da investigação dos  componentes  curriculares que os estudantes têm tido mais dificuldade na prova, adotando as  bibliografias  que  são  utilizadas  na  elaboração  das  questões  de  prova  e  se  atentando  as  Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN).   Sendo assim, como o Inep divulga os Microdados do Enade em seu portal (MEC,  2023), é possível o aprofundamento  na busca de informações que justifiquem os resultados  Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 58    dos estudantes  n a prova e que possam  fomentar ações  visando  um desempenho  superior. Os  Microdados  são  micropartículas  referentes  à  participação  de  cada  estudante  de  forma  individual e não identificada. Sua análise exige alto nível de rigor e dispêndio de tempo para  transf ormá­los  numa informação. Por isso e,  também, porque avanços  são  conquistados  ao  longo dos anos,  não justificando  uma análise  temporal distante do  status  quo,  foi  feito  um  recorte analítico da edição mais recente  cujos dados já foram publicados pelo Inep a fim de  identificar as questões de prova que os estudantes mais erraram na edição de 2018 (Tabela 8)  em  conformidade  com as Provas e Gabaritos  também divulgados  no portal do  Inep (MEC,  2023).    Tabela 7:  Desempenho dos concluintes participantes do Enade 201 8 comparados com o resultado por  categoria administrativa, por região e com o resultado nacional   Enade   Curso   UF   Região  Cat. Acad.   Org.  Acad.   Brasil   Tamanho da população   38  195  1409  2010  2681  3338  Número de presentes   31  165  1139  1651  2185  2700  Resultado  Geral   Média   52,8  56,0  52,7  51,8  51,7  50,7  Erro ­padrão da Média   2,3  1,1  0,4  0,3  0,3    Desvio Padrão   12,6  14,0  13,9  14,3  13,9  14,0  Mediana    52,2  58,1  53,4  53,0  52,7  51,6  Mínimo   27,4  19,3  10,5  8,1  10,5  8,1  Máximo   81,4  86,3  86,3  86,3  86,3  86,3  Coeficiente de Assimetria   0,3  ­0,2  ­0,3  ­0,3  ­0,2  ­0,2  Formação  Geral   Média   49,2  56,3  52,9  50,1  50,1  49,0  Erro ­padrão da Média   3,1  1,3  0,5  0,4  0,4  0,3  Desvio Padrão   17,3  17,0  17,4  17,7  17,4  17,4  Mediana    52,1  56,1  52,5  49,5  49,6  48,5  Mínimo   15,0  15,0  0  0  0  0  Máximo   75,7  90,4  92,0  92,2  92,8  92,8  Coeficiente de Assimetria   ­0,3  0  ­0,1  0  0  0,  Componente  Específico   Média   54,0  55,9  52,7  52,4  52,2  51,3  Erro ­padrão da Média   2,2  1,2  0,4  0,4  0,3  0,3  Desvio Padrão   12,5  14,9  14,6  15,1  14,7  14,7  Mediana    53,3  57,7  54,0  54,0  53,6  52,5  Mínimo   29,2  14,8  3,8  6,6  3,8  3,8  Máximo   83,7  87,3  87,8  87,8  87,8  87,8  Coeficiente de Assimetria   0,4  ­0,3  ­0,3  ­0,3  ­0,3  ­0,3    Fonte: MEC/INEP/DAES  – ENADE 2018.    Observa ­se que no Componente Formação Geral, a questão em que os estudantes  tiveram  o  pior  desempenho  foi  a  questão 4.  Dos  31  participantes,  apenas  10  acertaram  a  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 59    questão, enquanto 21 erraram.  Destaca­se que a questão se referia aos conhecimentos gerais  acerca das temáticas de políticas públicas  voltadas aos migrantes e refugiados,  com especial  análise as  relações entre brasileiros e  venezuelanos, apontando  sua especificidade enquanto  problemática  a  ser  tratada  em  sala  de  aula  em  consonância  com  temas  bastante  contemporâneos à época.    Tabela 8:  Quantidade de erros e acertos dos 31 estudantes do curso de Turismo da UFVJM participantes  do Enade 2018 no conteúdo de Formação Geral   Questão   Acertos   Erros   Em branco   1  14  16  1  2  21  10  NSA   3  13  18  NSA   4  10  21  NSA   5  14  17  NSA   6  14  17  NSA   7  19  12  NSA   8  25  6  NSA   Fonte: Elaborado pelas autoras.    As questões 1, 3, 5 e 6 também não evidenciaram um desempenho tão satisfatório.  Logo, assim como foi apontada a especificidade da questão 4, evidencia­se a questão 3 como  o segundo pior desempenho dos discentes do curso de Turismo nesta avaliação. Esta que stão  tratou de artes transgênicas enquanto  híbridos entre arte,  ciência e tecnologia. Não obstante,  não  se  pode  ignorar  que,  ainda  que  as  questões  que  permeiam  a  Formação  Geral  sejam  bastante  singulares,  versam,  sobretudo,  acerca  da  habilidade  de  leitura  e compreensão  de  textos bastante  contemporâneos. Tal aspecto implica  na importância de desenvolver projetos  interdisciplinares  no âmbito de qualquer  formação  superior, o que deve  ser  constantemente  dialogado entre o  corpo docente  como possibilidade permanente para que o egresso de  fato  atue com uma postura crítica, cidadã e ética.    Na  tabela 9,  no  que  lhe  concerne,  apresentam ­se  os  resultados,  por  questão de  prova, obtidos pelos 31 estudantes que realizaram a prova na edição de 2018, no componente  de Formação Específica que tem peso de 75% no Conceito Enade conforme já foi citado.  Nota ­se  que  o  pior  desempenho  dos  estudantes  foi  na  questão  15.  Dos  31  participantes, apenas 6 estudantes acertaram a questão e, em  contrapartida, 25 erraram. Esta  questão  tratava do  estabelecimento  e  da  responsabilidade  das  políticas  públicas  como  orientadoras do  planejamento e da gestão do  turismo, de  forma geral.  No entanto,  quando  Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 60    analisada  as  alternativas  passíveis  de  escolha  pelos  discentes,  realmente  está  posta  uma  nuance bas tante singular quanto a atuação de cada ente público mencionado.   Dessa forma, cabe destacar, mais uma vez, a importância de fomentar habilidades  relacionadas à leitura e compreensão de textos. Isso pode ser uma evidência das  fragilidades  impostas, de  form a geral, pelo ensino  fundamental e médio  como desafios para a  formação  acadêmica,  em  consonância  com  vários  estudos  (SCHWARTZMAN,  2005;  SCHWARTZMAN, 2004; CASTRO, 2001; SGUISSARDI, V.; SILVA JR, 2001, dentre outros).     Tabela 9:  Quantidade de erros e acerto s dos 31 estudantes participantes do Enade 2018 no conteúdo de  Formação Específica   Questão   Acertos   Erros   Em branco   9  24  7  NSA   10  26  5  NSA   11  13  18  NSA   12  24  7  NSA   13  24  7  NSA   14  10  21  NSA   15  6  25  NSA   16  11  20  NSA   17  23  7  1  18  23  7  1  19  Questão excluída pelo Inep por nulidade ou outro critério  20  9  21  1  21  23  8  NSA   22  21  10  NSA   23  Questão excluída pelo Inep por nulidade ou outro critério  24  16  15  NSA   25  28  3  NSA   26  18  13  NSA   27  19  12  NSA   28  13  13  1  29  Questão excluída pelo Inep por nulidade ou outro critério  30  9  22  NSA   31  Questão excluída pelo Inep por nulidade ou outro critério  32  10  21  NSA   33  Questão excluída pelo Inep por nulidade ou outro critério  34  17  14  NSA   35  24  7  NSA   Fonte: Elaborado pelas autoras.    Observa ­se,  também,  um  baixo  resultado  nas  questões  20  (em  que  somente  9  estudantes acertaram a questão, 21 erraram e um deixou a questão em branco) e na questão 30  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 61    (em  que 9  estudantes  acertaram  e 22  erraram).  O  resultado  das  questões  11, 12, 16  e 28  também não são muito bons, o que acarreta diminuição do Conceito Enade do curso.  Diante do exposto e a partir desses apontamentos iniciais, sugere­se que a gestão  do  curso investigue o porquê do mal desempenho  nessas e outras questões, assim  como, os  demais resultados,  considerando a eminência da publicação dos Microdados do Enade 2022,  para atuar de forma mais incisiva e assertiva na realização do próximo Enade, em 2025.   Ademais, é preciso verificar se as referências bibliográficas utilizadas constam no  PPC do curso, se os conteúdos cobrados foram abordados em sala de aula e se as questões que  os estudantes mais erraram têm relação com alguma disciplina específica com a finalidade de  proporcionar um  conhecimento qualificado aos estudantes e, consequentemente,  uma melhor  preparação para o seu desempenho pessoal e profissional.    CONSIDERAÇÕES FINAIS   É  importante  que,  quando  os  resultados do Enade 2022  forem divulgados,  haja  uma análise mais  pormenorizada de  cada informação que  se pode obter a partir do exame,  conforme  se pretendeu  sinalizar  neste trabalho, pois as avaliações periódicas, além de trazer  autoconhecimento  e  promover a  reflexão,  são  fontes  riquíssimas de dados  para a melhoria  contínua da qualidade rumo à excelência.  Neste  estudo,  focou ­se  naqueles  i tens  em  que  o  curso  não  atingiu  o  ideal  de  qualidade, mas é importante a leitura dos demais itens, com fe edbacks  positivos, para que esse  padrão de qualidade  seja mantido e  não  haja  nenhum  retrocesso  nos  avanços  que já  foram  conquistados ao longo dos anos.   Observou ­se, ainda, que há necessidade de uma CPA mais atuante na instituição.  Por isso, é necessário incentivar os docentes e discentes a participar das avaliações periódicas  do curso, bem como ocupar o espaço de representação nesta comissão, a fim de ident ficar as  suas  demandas  e,  de  igual  modo,  participar  da  elaboração  do  PDI  para  incluir  suas  necessidades  como  prioridade  de  atendimento.  Dessa  forma,  espera­se  que  o  ciclo  administrativo  funcione  adequadamente,  com  avaliação  e  planejamento  eficientes,  participativos e democráticos.  Cabe destacar que, 10% da matriz orçamentária, é destinada às instituições a partir  dos indicadores de qualidade obtidos pelo  curso e pela instituição. Isso  significa que buscar  melhores  conceitos  também  pode  resultar  em  maior  parcela  de  recursos  financeiros  a  ser  destinada ao curso e à instituição de modo geral.  Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 62    O atingimento de  um indicador de qualidade máximo  valoriza o  curso, pois  traz  visibilidade para área de  formação e para a região, o que pode  contribuir para a geração de  trabalho  e  renda  em  consonância  com  os  objetivos  institucionais  de  desenvolvimento  das  comunidades onde se insere, cumprido com seu compromisso social.   Espera ­se que este trabalho induza análises semelhantes tanto em outros cursos de  Turismo,  como  nos  c ursos de ensino  superior de  forma geral.  Afinal, os  servidores públicos  devem primar pelos princípios gerais da administração pública, em especial, por se relacionar  com o escopo deste trabalho, destaca ­se o princípio da eficiência.  Ademais,  apesar da existência de  margem  para  melhorias,  conforme  observado  nos diversos indicadores que  compõem os instrumentos de avaliação externa  utilizados pelo  Inep, o curso de Turismo da UFVJM tem conceitos de qualidade muito bons. Pode ­se, então,  afirmar que se trata de um curso público, gratuito e de qualidade (atestada pelo MEC!).      REFERÊNCIAS     BRASIL.  Decreto  nº  9.235,  de  15  de  dezembro  de  2017. Dispõe  sobre  o  exercício  das  funções  de  regulação,  supervisão  e  avaliação  das  instituições  de  educação  superior  e  dos  cursos  superiores de graduação e de pós­graduação no sistema federal de ensino. Disponível  em:  https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015 ­2018/2017/decreto/d9235.htm  Acesso  em: 19 de jan. de 2023.    BRASIL.  Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004. Institui o Si stema Nacional de Avaliação da  Educação Superior (SINAES) e dá outras providências. Disponível em:  https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004 ­2006/2004/lei/l10.861.htm Acesso em: 19 de  jan. de 2023.  BRASIL .  Lei  nº  9.394,  de  20  de  dezembro  de  1996. Esta belece  as  diretrizes  e bases  da  educação  nacional.  Disponível  em:  http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm  Acesso em: 19 de jan. de 2023.    CASTRO,  M.H.D.M. Tomando  o  pulso: o  que buscar  no  credenciamento  institucional das  universidades brasileir as? In: Série documental: textos para discussão.  Brasília: Ministério  da Educacão, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, 2001.      INEP. Exame  Nacional  de  Desempenho dos  Estudantes.  Pesquisar Relatórios de Cursos.  Disponível  em:  https://enade.inep.gov.br/enade/#!/relatorioCursos  Acesso  em:  22  jan.  de  2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Comissão  Nacional  de  Avaliação da  Educação  Superior  (CONAES). Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas  Educacionais Anísio Teixeira (INEP).  Diretoria de Avaliação da Educação Superior (DAES). Instrumento de Avaliação de Cursos  de Graduação (Bacharelado e  Licenciatura) . Brasília, dezembro de 2008. Disponível em:  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 63    https://download.inep.gov.br/download/superior /condicoesdeensino/2010/instrumento_reconh ecimento_bacharelado_licenciatura3.pdf Acesso em: 19 de jan. de 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  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e  Pesquisas  Educacionais  Anísio  Teixeira  (INEP).  Diretoria  de  Avaliação  da  Educação  Superior  (DAES).  Sistema  Nacional  de  Avaliação  da  Educação  Superior  (SINAES). Instrumento  de  Avali ação  de  Cursos  de  Graduação  presencial  e  a  distância.   Brasília,  2012.  Disponível  em:  https://download.inep.gov.br/educacao_superior/avaliacao_cursos_graduacao/instrumentos/20 12/instrumento_com_alteracoes_maio_12.pdf Acesso em: 20 jan. 2023.     MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio  Teixeira  (INEP).  Diretoria  de  Avaliação da  Educação  Superior  (DAES). ENADE:   Provas  e  Gabaritos .  Disponível  em:  https://www.gov.br/inep/pt­br/areas­de­ atuacao/avaliacao ­e­exames ­educaci onais/enade/provas ­e­gabaritos Acesso em: 26 jan. 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio  Teixeira  (INEP).  Diretoria  de  Avaliação  da  Educação  Superior  (DAES). Exame  Nacional de Desempenho dos Estudantes  (Enade 2009): Relatório de  Curso  ­  Turismo.   Disponível  em:  https://enade.inep.gov.br/enade/#!/relatorioCursos  Acesso  em:  22  jan.  de  2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio  Teixeira  (INEP).  Diretoria  de  Avaliação  da  Educação  Superior  (DAES). Exame  Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade 2012): Relatório de  Curso  ­  Turismo.   Disponível  em:  https://enade.inep.gov.br/enade/#!/relatorioCursos  Acesso  em:  22  jan.  de  2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio  Teixeira  (INEP).  Diretoria  de  Avaliação  da  Educação  Superior  (DAES). Exame  Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade 2015): Relatório de  Curso  ­  Turismo .  Disponível  em :  https://enade.inep.gov.br/enade/#!/relatorioCursos  Acesso  em:  22  jan.  de  2023.    Avaliações Externas do Curso de Turismo da UFVJM: autoconhecimento para a melhoria contínua da qualidade   Valéria Rodrigues Neves   Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 64    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio  Teixeira  (INEP).  Diretoria  de  Avaliação  da  Educação  Superior  (DAES). Exame  Nacional de D esempenho dos Estudantes (Enade 2018): Relatório de  Curso  ­  Turismo.   Disponível  em:  https://enade.inep.gov.br/enade/#!/relatorioCursos  Acesso  em:  22  jan.  de  2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio Teixeira (INEP). Instrumentos  de  avaliação.  Publicado em  16/11/2020. Disponível  em:https://www.gov.br/inep/pt­br/areas­de­atuacao/avaliacao ­e­exames ­ educacionais/avaliação ­in ­loco/instrumentos ­de­avaliacao Acesso em: 19 de jan. de 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio Teixeira (INEP). Nota Técnica  –  Cálculo do Conceito Enade 2009.  Disponível em:  https://www.gov.br/inep/pt ­br/areas­de­atuacao/pesquisas ­estatisticas ­e­ indicadores/indicadores ­de­qualidade­da­edu cacao ­superior/outros ­documentos  Acesso  em:  21 jan. de 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio Teixeira (INEP). Nota Técnica  nº 5/2020/CGCQES/DAES.  Apresenta a metodologia  utilizada  no  cálculo  do  Conceit o  Enade  referente  ao  ano  de  2019.  Disponível  em:    Acesso em: 21 jan. de 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio  Teixeira  (INEP). Relatório  de  visita  de  avaliação  in   loco   2010.  Disponível  em:    Acess o em: 27 jul. 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio  Teixeira  (INEP). Relatório  de  visita  de  avaliação  in   loco   2013.  Disponível  em:    Acesso em: 27 jul. 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Secretaria  de  Regulação  e  Supervisão  da  Educação  Superior.  Diretoria  de  Regulação  da  Educação  Superior. Nota  Técnica  nº   1188/2014/DIREG/SERES/MEC.  Disponível  em:  http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=16773 ­ nota ­tecnica ­1188­2014­seres ­pdf&category_slug=dezembro ­2014­ pdf&Itemid=30192#:~:text=6%2C%20poder%C3%A1%20ser%20dispensada%20a,a%20real iza%C3%A7%C3%A3o%20do%20ENADE%2F2013. Acesso em: 21 jan. de 2023.    MI NISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Secretaria  de  Regulação  e  Supervisão  da  Educação  Superior. Portaria  MEC  nº  216,  de 28  de  março  de 2014 . Reconhecimento do  curso de  Turismo.  Disponível  em:  file:///D:/Users/vleri/Downloads/Portaria%20Reconhecimento%20curso%20Ecologia%2 0pel o%20MEC%20(1).pdf Acesso em: 21 jan. de 2023.    Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 65    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Secretária  de  Regulação  e  Supervisão  da  Educação  Superior. Portaria  MEC  nº  245,  de  16  de  abril  de  2014.  Reconhecimento  do  curso  de  Turismo.  Disponível  em:  https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=17/04/2014&jornal=1&pagin a=25&totalArquivos=96 Acesso em: 21 jan. de 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Sistema  Nacional  de  Avaliação  da  Educação  Superior.  Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE).  Relatório do   Curso: Turismo  (Bacharelado). Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.  Diamantina,  2010. Disponível: <  http://ufvjm.edu.br/prograd/component/content/article/1293­ 023­06­22­ 19­02­18.html> Acesso em: 31 de jan. de 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUC AÇÃO.  Sistema  Nacional  de  Avaliação  da  Educação  Superior.  Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE).  Relatório do  Curso: Turismo  (Bacharelado). Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.  Diamantina,  2013. Disponível: <  http://ufvjm.edu.br/prograd/component/content/article/1293­2023­06­22­ 19­02­18.html> Acesso em: 31 de jan. de 2023.    SCHWARTZMAN,  S.  "Education ­oriented  social  programs  in  brazil:  The  impact  of bolsa  escola." IETS  ­  Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade , 2004.    SCHWARTZMAN,  S.  Os  desafios  da  educação  no  Brasil.  In:  BROCK,  C.;  SCHWARTZMAN, S.  Os desafios da educação  no  Brasil.   Rio de Janeiro: Nova Fronteira,  2005.    SGUISSARDI,  V.; SILVA  JR., J.R.  Novas   f aces   da   Educação   Superior   no   Brasil . 2º ed.  São Paulo: Cort ez,  2001.    SILVA,  Clécio.  URGENTE  – UFVJM  solicita  apoio  da  SERES  quanto  a  equívoco  na  extinção de um curso ativo . Mensagem recebida por  em 14 mai. 2014.    SILVA, R.; OLIVEIRA, E.; SÁ FILHO, P.; SILVA, D.. O  ciclo PDCA  como proposta para  u ma gestão escolar eficiente. Regae: Rev. Gest.  Aval. Educ.  Santa Maria,  v. 8,  n. 17, pub.  contínua  2019,  p.  1­13.  Disponível  em:  https://periodicos.ufsm.br/regae/article/view/36102/pdf Acesso em: 19 de jan. de 2023.    UNIVERSIDADE  FEDERAL  DO  RECÔNCAVO  DA  BA HIA.  Manual  Orientador  do  ENADE.   Edição  2021.  Disponível  em:  https://www.ufrb.edu.br/portal/images/noticias2021/20210726094356_Manual_Orientador_d o_ENADE.pdf Acesso em: 21 jan. de 2023.    UNIVERSIDADE  FEDERAL  DOS  VALES DO JEQUITINHONHA  E  MUCURI.  Projeto  Pedagógico  do  Curso  de  Turismo  2012.   Disponível  em:  http://ufvjm.edu.br/prograd/projetos­pedagogicos.html Acesso em: 20 jan. 2023.        Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___       RESULTADOS DA AVALIA ÇÃO: PERFIL E PERCEP ÇÃO DOS PARTICIPANTE S  DO ENADE 2018 DO CUR SO DE TURISMO DA UFV JM      Valéria Rodrigues Neves   Procuradora Educacional Institucional da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e  Mucuri   valeria.rodrigues@ufvjm.edu.br     Virginia Martins Fonseca   Professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   virginia.martins@ufvjm.edu.br     Ana Flávia Andrade de Figueiredo   Professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   ana.figueiredo@ufvjm.edu.br     INTRODUÇÃO   A partir da exposição e análise in ciada no capítulo anterior acerca dos principais  resultados obtidos pelo curso de Turismo da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha  e  Mucuri  (UFVJM),  diante  da  avaliação  externa  promovida  pelo  Sistema  Nacional  de  Avaliação da Educação Superior (Sinaes), instituído,  com o intuito principal de  fomentar a  qualidade da educação  superior, pela  Lei  nº 10.861, de 14 de abril de 2004,  neste  capítulo,  será evidenciado o perfil dos estudantes  participantes do Enade 2018 e a percepção desses  discentes a  respeito das condições do processo formativo.  Identificar esse perfil, bem como analisar a avaliação que os estudantes fizeram a  respeito  dos  diversos  aspectos  que  envolveram  o  curso  ao  longo  da  toda  a  sua  trajetória  acadêmica, é também  uma  forma de autoconhecimento e autorreflexão que pode  contribuir,  sobremaneira,  com  a busca  pela  excelência  na  oferta  e  na gestão do  curso,  visto  que essa  avaliação, a partir da percepção dos estudantes, pode ressaltar os pontos  fortes e ressaltar as  necessidades de melhor ia e de enfrentamento a serem promovidos.  Dessa  forma,  este  capítulo  tem  o  objetivo  específico  de  analisar  esses  dados  obtidos  por meio do Questionário do Estudante. Vale dizer que esse instrumento é  um dos  componentes obrigatórios do Enade,  condição para que o estudante obtenha regularidade  no  exame, junto à prova de Componente Geral e de Componente Específico abordada no capítulo  antecedente. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio  Teixeira (Inep), este questionário  [...]  tem  por  objetivo  levantar  informações  que  permitam  caracterizar  o  perfil dos  estudantes e o contexto de seus processos formativos, relevantes para a compreensão  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 67    dos resultados do concl uintes no Enade e para subsidiar os processos de avaliação de  curso s de graduação e instituições de educação superior. (INEP, 2023, s.p.).    Nessa  conjuntura,  neste  outro  instrumento  de  avaliação  utilizado  pelo  Inep,  os  estudantes têm a oportunidade de avaliar os seguintes aspectos da sua formação: organização  didático­pedagógica,  infraestrutura  e  instalações  físicas  e  oportunidade  de  ampliação  da  formação  (MEC,  2018).  Além  disso,  esse  instrumento  de  avaliação  conta  também  com  o  “Questionário de Percepção de Prova” e o “Questionário Socioeconômico” que pode oferecer um conj unto significativo de informações a respeito do desempenho dos estudantes.   O MEC (2023) acrescenta, ainda, que as respostas dos discentes permitem aferir a  qualidade  da  educação  superior  no  Brasil  e  que  as  informações  coletadas  servem  para  subsidiar inúmeras  políticas  públicas  educacionais. Para o  curso de Turismo da  UFVJM, a  análise  de  tais  respostas  contribui  significativamente  para  que  a  gestão  do  curso  tenha  discernimento  sobre as  condições que permearam a experiência acadêmica do seu discente e  possa f azer ajustes, quando constatada a necessidade.   Evidentemente  que,  para  se  ter  uma  efetiva  compreensão  dessa  realidade,  a  identidade  do  estudante  não  é  revelada  pelo  Inep  e  o  questionário  deve  ser  preenchido  exclusivamente pelo discente em ambiente apropria do. Isto é,  não  são permitidas quaisquer  manipulações ou pressões de terceiros, podendo, à instituição ou ao curso em específico que  não  respeitar  a  lisura do  processo,  serem  aplicadas  as  penalidades  previstas  no  Decreto  nº  9.235, de 15 de dezembro de 2017. É  válido esclarecer,  neste momento, que a análise do Questionário do Estudante  foi feita com base nos dados mais recentes publicados pelo Inep até o momento da publicação  deste  capítulo, qual  seja, o Enade realizado em 2018, uma  vez que os dados do Enade 2022  ainda  não  foram  disponibilizados  conforme  pode  ser  verificado  no  portal  do  Inep  (MEC,  2023).     ANÁLISE DO QUESTIONÁRIO DO ESTUDANTE   Antes  de  tratar do  Questionário do  Estudante de 2018, é  válido  lembrar  que  o  Questionário de Percepção de Prova, aplicado no  ia do exame, teve os principais resultados  apresentados nos Relatórios de Curso divulgados pelo Inep em seu portal (MEC, 2023) e este  trabalho  não  pretende  replicar  todas  as  informações  que  ali  já estão disponíveis,  mas  sim  acrescentar alguns element os  com a  finalidade de aumentar o autoconhecimento e auxiliar a  gestão do curso em busca de uma qualidade de excelência. Tal prerrogativa coaduna  com os  apontamentos de Merlo (2018), uma vez que a  Resultados da avaliação: perfil e percepção dos participantes do ENADE 2018 do Curso de Turismo da UFVJM   Valéria Rodrigues Neves  Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 68    [...] avaliação de  caráter educativo é  voltada tanto para a obtenção de informações  sobre a qualidade acadêmica quanto para o julgamento a respeito de como o sistema  de  ensino  e  as  instituições  de  educação  superior  cumprem  suas  funções  públicas  enquanto formadores de cidadãos. (MERLO, 2018, p.69).    Para  iniciar  a nálise do  Questionário de Percepção de Prova,  foram  utilizados  todos os Relatórios de Curso disponibilizados do Enade 2009 até 2018. Destaca­se, conforme  Tabela 1, a percepção dos discentes no que se tange à questão “Você se deparou com alguma dificuldade  ao responder à prova?”. Nota­se que a alternativa “forma diferente de abordagem do conteúdo” e a “falta de motivação para fazer a prova” são justificativas que predominam em todos as edições.   Portanto, é preciso tomar providências no sentido de estimular a adoção de várias  técnicas e métodos de didática, buscando identificar o estilo de abordagem utilizado na prova  também  de  sensibilizar  os  estudantes  quanto  à  importância  do  Enade  com  vistas  tanto  à  parametrização do seu próprio conhecimento e potencial, quanto colaborando com a melhoria  da qualidade da educação superior do país.    Tabela 1: Percepção dos estudantes quanto à questão “Você se deparou com alguma dificuldade ao responder à prova?   Percepção  Enade 2009  Enade 2012  Enade 2015  Enade 2018  Desconhecimento do  conteúdo   11%  11%  4%  6%  Forma diferente de  abordagem do  conteúdo   44%  22%  41%  43%  Espaço insuficiente  para responder às  questões   NSA   5%  7%  10%  Falta de motivação  para fa zer a prova   33%  44%  25%  20%  Não teve nenhuma  dificuldade para  responder à prova   11%  16%  20%  20%  Fonte: Elaborado pelas autoras.    Passando  a  tratar  do  Questionário  do  Estudante,  relembra­se  que,  para  a  sua  análise,  foi  feito  um  levantamento  dos  Microdados  do  Enade  (MEC,  2023),  referentes  à  edição de 2018.  Ou  seja, foram  utilizadas  exclusivamente  as  micropartículas  referentes  ao  exame desse  ano  retromencionado,  uma  vez  que  os  Relatórios  de  Cursos  disponibilizados  pelo Inep não abordam todas as perguntas que foram feitas aos alunos, assim como foi dada a  prioridade  na  nálise  dos  dados  mais  recentes  por  estarem  mais  próximos  de  retratar  a  realidade de forma atualizada.  De modo  similar à motivação que  foi apresentada para a análise das questões de  prova  no  capítulo  anterior, a escolha de  tratar  apenas  os dados  referentes  ao ano de 2018,  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 69    também  se  justifica  por  se  tratar  de  micropartículas  referentes  à  participação  de  cada  estudante, de forma individual e não identificada, o que exige alto nível de rigor e dispêndio  de  tempo  para  transformá­los  numa  informação,  além do  fa to  de  que  muitos  avanços  são  conquistados  ao  longo  dos  anos,  o  que  torna  mais  prudente  trabalhar  com  dados  mais  hodiernos e representativos do momento atual.   As  primeiras  questões  do  Questionário  do  Estudante  (1  a  26)  traçam  o  perfil  socioeconômico  dos  dis centes  participantes  e  pressupõe ­se  que  esses  fatores  podem  ter  relação  com  o  desempenho  acadêmico  e  indicar  necessidades  do  desenvolvimento  de  competências técnico ­profissionais. Para o MEC (2018, s.p.), “a educação superior tem como uma de  suas  funções m ais importantes a promoção de igualdade de oportunidades e justiça  social”. Desse modo, ao conhecer o perfil dos estudantes, a IES pode traçar programas e ações voltadas  diretamente  para  o  seu  público­alvo,  de  forma  fundamentada,  democrática  e  inclusiva.   A pós  a  compilação  dos  dados  socioeconômicos,  dos  35  estudantes  que  preencheram o Questionário do Estudante em 2018, tem­se, com relação ao estado civil, que  32 se declararam  solteiros,  nenhum  separado, divorciado ou  viúvo e um declarou  seu estado  civil como  “outro” (Gráfico 1). Com relação à cor ou raça, 9 se declararam brancos, 12 pretos, 13 pardos, 1 não quis declarar e nenhum se declarou amarelo ou indígena (Gráfico 2).    Gráfico 1  –   Estado Civil (Perfil  socioeconômico do estudante do curso de  Turismo  –   2018)    Gráfico 2  –   Cor ou raça (Perfil socioeconômico do  estudante do curso de Turismo  –   2018)      Fonte: Elaborado pelas autoras  Fonte: Elaborado pelas autoras        Notou ­se que 100% dos estudantes são de nacionalidade brasileira. Quanto à etapa  de escolarização  concluída do  pai, 4 estudantes  afirmaram  que  o  pai  não  possui  nenhuma  escolaridade, 13 possuem Ensino Fundamental: 1º ao 5º ano (1ª a 4ª série), 5 possuem Ensino  Fundamental: 6º ao 9º ano (5ª a 8ª série), 11 concluíram o Ensino Médio, apenas 2 realizaram  32  1 0 2  Solteiro(a) Casado(a) Separado(a) judicialmente/divorciado(a) Viúvo(a) Outro 9  12  0  13  0  1  Branca Preta Amarela Parda Indígena Não quero declarar Resultados da avaliação: perfil e percepção dos participantes do ENADE 2018 do Curso de Turismo da UFVJM   Valéria Rodrigues Neves  Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 70    o Ensino Superior e Nenhum declarou possuir pós ­graduação (Gráfico 3). Por  sua  vez,  com  relação  à  etapa  de  escolarização  que  a  mãe  concluiu,  2  afirmaram  que  nenhuma, 13  concluíram  o  Ensino  Fundamental:  1º  ao  5º  ano  (1ª  a  4ª  série),  6  finalizaram  o  Ensino  Fundamental: 6º ao 9º ano (5ª a 8ª série), 8 integralizaram o Ensino Médio, igualmente apenas  2 realizaram o Ensino Superior e 4 possuíam até escolaridade até a pós­graduação (Gráfico 4).    Gráfico 3  –   Escolaridade do pai (Perfil  socioeconômico do estudante do curso de Turismo  –   2018)    Gráfico 4  –   Escolaridade da mãe (Perfil  socioeconômico do estudante do curso de Turismo  –   2018)      Fonte: Elaborado pelas autoras   Fonte: Elaborado pelas autoras       Na  sequência, o questionário aborda onde e  com quem o estudante reside. Três  declararam morar em  casa ou apartamento (sozinho), 15 em  casa ou apartamento (com pais  e/ou  parentes),  3  em  casa  ou  apartamento  (com  côn juge  e/ou  filhos),  11  em  casa  ou  apartamento (com  outras  pessoas,  incluindo  república),  um em alojamento  universitário da  própria instituição e 2 em outros tipos de habitação individual ou  coletiva (hotel, hospedaria,  pensão ou outro) conforme representa o  Gráfico 5.   Em  seguida,  a  pergunta  é  sobre  quantas  pessoas  da  família  moram  com  o  estudante. Dois estudantes declararam que  nenhuma, 5 declaram  uma, 7 declararam duas, 3  declararam residir com três pessoas da família, 5 estudantes com 4 pessoas, 3 estudan tes com  5 pessoas e nenhuma com 6 ou mais pessoas (Gráfico 6).               4 13 5 11 2 0 Pós­graduação Ensino Superior ­ Graduação Ensino Médio Ensino Fundamental: 6º ao 9º ano (5ª a 8ª série) Ensino Fundamental: 1º ao 5º ano (1ª a 4ª série) Nenhuma 2 13 6 8 2 4 Pós­graduação Ensino Superior ­ Graduação Ensino Médio Ensino Fundamental: 6º ao 9º ano (5ª a 8ª série) Ensino Fundamental: 1º ao 5º ano (1ª a 4ª série) Nenhuma Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 71    Gráfico 5  –   Onde e com quem reside (Perfil  socioeconômico do estudante do curso de  Turismo  –   2018) Gráfico 6  –   Mora com qua ntas pessoas da família  (Perfil socioeconômico do estudante do  curso de  Turismo  –   2018)     Fonte: Elaborado pelas autoras  Fonte: Elaborado pelas autoras    Com relação à renda familiar, incluindo o rendimento do estudante, 17 declararam  que é de até 1,5 salário mínimo (até R$ 1.431,00, na ocasião), 13 estudantes possuem de 1,5 a  3 salários mínimos, 4 estudantes de 3 a 4,5 salários mínimos e nenhum estudante de 4,5 a 6  salários mínimos ou de 10 a 30 salários mínimos ou acima de 30 salários mínimos (Gráfico  7). Sobre a situação financeira do estudante em particular (incluindo bolsas), 6 declararam não  ter renda e que seus gastos são financiados por programas gov ernamentais, 17 estudantes não  tem  renda  e  que  seus  gastos  são  financiados  pela  sua  família  ou  por  outras  pessoas,  6  estudantes têm renda, mas recebem ajuda da família ou de outras pessoas para financiar seus  gastos,  3  estudantes  têm  renda  e  não  precisam  de  ajuda  para  financiar  seus  gastos,  2  estudantes  têm  renda e  contribuem  com  o  sustento da  família, e 1 estudante é o  principal  responsável pelo sustento da família (Gráfico 8).    Gráfico 7  –   Renda familiar incluindo a do estudante  (Perfil socioeconômico do   estudante do curso de  Turismo  –   2018)    Gráfico 8  –   Situação Financeira do estudante  (Perfil socioeconômico do estudante do curso de  Turismo  –   2018)      Fonte: Elaborado pelas autoras  Fonte: Elaborado pelas autoras  3  15  3  11  1  2  Em casa ou apartamento, sozinho Em casa ou apartamento, com pais e/ou parentes Em casa ou apartamento, com cônjuge e/ou filhos 12 5 7 3 5 3 Nenhuma Uma Duas Três Quatro Cinco 17 13 4 1 0 Até 1,5 salário mínimo (até R$ 1.431,00) De 1,5 a 3 salários mínimos (R$ 1.431,01 X a R$ 2.862,00) De 3 a 4,5 salários mínimos (R$ 2.862,01 a R$ 4.293,00) De 4,5 a 6 salários mínimos ( R$ 4.293,01 a R$ 5.724,00) De 4,5 a 6 salários mínimos ( R$ 5.724,01 a R$ 9.540,00) 6 17 6 3 2 1 Não tenho renda e meus gastos são financiados por programas governamentais Não tenho renda e meus gastos são financiados pela minha família ou por outras pessoas Tenho renda, mas recebo ajuda da família ou de outras pessoas para financiar meus gastos Tenho renda e não preciso de ajuda para financiar meus gastos Tenho renda e contribuo com o sustento da família Resultados da avaliação: perfil e percepção dos participantes do ENADE 2018 do Curso de Turismo da UFVJM   Valéria Rodrigues Neves  Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 72      Perguntados  sobre qual a  sua  situação de trabalho (exceto estágio ou bolsas), 22  alunos afirmaram não estar trabalhando, 2 trabalhavam eventualmente, um estudante trabalha  até 20 horas semanais, 3 trabalham de 21 a 39 horas semanais e 7 estudantes que trabalham 40  horas  semanais  ou  mais  (Gráfico  9).  A  seguir,  perguntados  se  ao  longo  da  trajetória  acadêmica,  receberam  algum  tipo  de  auxílio  permanência,  16  discentes  responderam  que  nenhuma,  um  afirmou  ter  recebido  auxílio  moradia,  2  estudantes  receberam  auxílio  alimentação, 4 estudantes contaram com auxílio moradia e alimentação, 8 discentes possuíam  auxílio permanência e 4 estudantes outro tipo de auxílio (Gráfico 10).     Gráfico 9  –   Situação de trabalho (Perfil  socioeconômico do estudante do curso de  Turismo  –   2018)    Gráfico 10  –   Tipo de auxílio permanência (Perfil  socioeconômico do estudante do curso de Turismo  –   2018)      Fonte: Elaborado pelas autoras  Fonte: Elaborado pelas autoras    Referente à bolsa de estudos ou  financiamento do  curso para  custear  todas ou a  maior parte das mensalidades, 30 discentes responderam que nenhuma/nenhum, pois o curso é  gratuito; um estudante respondeu  nenhuma/nenhum, embora meu  curso  não seja gratuito e 4  responderam que receberam bolsa oferecida pela própria instituição. No entanto, o esperado é  que 100% dos alunos respondessem “nenhuma/nenhum, pois o curso é gratuito”. Isso porque não  há  qualquer  mensalidade  cobrada  pelo  curso  de  Turismo  que  é  ofertado  por  uma  instituição pública de forma gratuita. Entre as opções de resposta,  constava também: ProUni  integral;  ProUni  parcial,  apenas;  FIES,  apenas  e;  bolsa  oferecida  por  governo  estadual,  distrital ou municipal.   Outra  pergunta  socioeconômica do  questionário diz  respeito  ao  recebimento de  bolsa  acadêmica  por  parte do  estudante,  durante  sua  trajetória  no  curso.  Dezessete  alunos  responderam  nenhuma,  4  informaram  bolsa  de  iniciação  científica,  3  possuíam  bolsa  de  extensão,  6  estudantes  contaram  com  bolsa  de  monitoria/tutoria,  nenhum  bolsa  PET  e  5  22  2  1  3  7  Não estou trabalhando Trabalho eventualmente Trabalho até 20 horas semanais Trabalho de 21 a 39 horas semanais Trabalho 40 horas semanais ou mais 16 1 2 4 8 4 Nenhum Auxílio moradia Auxílio alimentação Auxílio moradia e alimentação Auxílio Permanência Outro tipo de auxílio Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 73    declararam  receber  outro  tipo  de bolsa  acadêmica  (Gráfico  11). Por  sua  vez,  sobre  o  seu  ingresso  no  curso  ter  sido  por  meio de  políticas  de ação afirmativa  ou  inclusão  social, 18  participantes do exame declararam que não, 2 estudantes que sim (por critério étnico­racial), 6  discentes que  sim (por critério de renda), 5 que sim (por terem estudado em escola pública ou  particular  com bolsa de estudos), 2 estudantes que  sim (por  sistema que  combinava dois ou  mais critérios anteriores) e 2 discentes que sim (por sistema diferente dos anteriores) (Gráfico  12).     Gráfico 11  –   Bolsa  a cadêmica (Perfil socioeconômico  do estudante do curso de Turismo  –   2018)    Gráfico 12  –   Ingresso no curso (Perfil  socioeconômico do estudante do curso de  Turismo  –   2018)      Fonte: Elaborado pelas autoras  Fonte: Elaborado pelas autoras     Dos 35 participantes da edição de 2018, a partir das repostas  no Questionário do  Estudante, observa ­se que 1 estudante concluiu o ensino médio no Acre, 1 no Amazonas, 1 na  Bahia, 29 estudantes em Minas Gerais, 1 em São Paulo e 1 em Santa Catarina. Por sua  vez,  com  relação  à  pergunta  qual  tipo  de  escola  concluiu  o  ensino  médio,  30  estudantes  responderam que em escola pública, 3 em escola particular de forma integral e dois estudantes  cursaram a maioria em escola pública (Gráfico 13). Sobre a modalidade de ensino médio que  cursou  31  estudantes  responderam  ensino  médio  tradicional,  3  profissionalizante  técnico  (eletrônica,  contabilidade,  agrícola,  outro)  e  um  estudante  cursou  a  Educação de  Jovens  e  Adultos e/ou Supletivo.   E,  perguntados  se,  durante  o  curso,  participaram  de  programas  e/ou  atividades  curriculares  no exterior, 2 responderam  sim (por programa de intercâmbio da instituição), 1  respondeu  sim  (outro  intercâmbio  não  institucional)  e  32  estudantes  não  participaram  de  17 4 3 6 5 Outro tipo de bolsa acadêmica Bolsa de monitoria/tutoria Bolsa de extensão Bolsa de iniciação científica Nenhum 18  2  6  5  2  2  Não Sim, por critério étnico­racial Sim, por critério de renda Sim, por ter estudado em escola pública ou particular com bolsa de estudos Resultados da avaliação: perfil e percepção dos participantes do ENADE 2018 do Curso de Turismo da UFVJM   Valéria Rodrigues Neves  Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 74    nenhuma  ati vidade  no  exterior.  A  respeito da  pergunta  se  alguém da  família do estudante  concluiu um curso superior, 19 estudantes responderam que sim e 16 discentes que não.   Por  sua  vez,  com relação à questão quem  lhe deu o maior incentivo para  cursar  graduação, 6 discentes responderam que ninguém, 19 estudantes disseram que foram os pais,  7 discentes que foram outros membros da família que não sejam os pais, 1 discente que fo ram  os professores e dois estudantes que foram colegas/amigos (Gráfico 13).           Gráfico 13  –   Incentivo para cursar graduação  (Perfil socioeconômico do estudante do curso de  Turismo  –   2018) Gráfico 14  –   Grupos determinantes para enfrentar  dificuldades (Pe rfil socioeconômico do estudante  do curso de Turismo  –   2018)     Fonte: Elaborado pelas autoras  Fonte: Elaborado pelas autoras      A  respeito  de  quais  grupos  foram  determinantes  para  enfrentar  as  dificuldades  durante o curso, 5 estudantes responderam que não tiveram dificuldades, 4 discentes que não  receberam apoio para enfrentar as dificuldades, 14 estudantes disseram que  foram os pais, 3  que  foram os avós, 3 que  foram os  irmãos, 4 que  foram os  colegas de  curso ou amigos, 1  estudante  que  foram  os  professores, 1 que  foram  os  colegas de  trabalho,  nenhum declarou  apoio de líder ou grupo religioso (Gráfico 14).    Seguindo a análise do  questionário  socioeconômico,  perguntados  sobre quantos  livros leu no ano, excetuando as bibliografias do curso, 6 discentes responderam que nenhum,  13 estudantes leram um ou dois, 11 estudantes leram de três a cinco, 5 de seis a oito e nenhum  estudante mais  de oito (Gráfico 15). E, perguntados, quantas horas por semana dedicaram aos  estudos, excetuando as  horas ­aulas, 2 afirmaram que  nenhuma, 16 estudantes de  uma a três  horas, 12 discentes de quatro a  sete  horas, 4 de oito a doze  horas e 1 mais de doze  horas  (Gráfico 16).      6 19 7 1 2 Ninguém Pais Outros membros da família que não os pais Professores Colegas/Amigos 5 4 14 3 3 4 1 1 Colegas de trabalho Professores do curso Colegas de curso ou amigos Irmãos, primos ou tios Avós Pais Não recebi apoio para enfrentar dificuldades Não tive dificuldade Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 75    Gráfico  –   15 Quantos livros leu no ano (Perfil  socioeconômico do estudante do curso de Turismo  –   2018)  Gráfico 16  –   Quantas  horas por  semana dedicou  aos  estudos (Perfil  socioeconômico do estudante do curso  de Turismo  –   2018)      Fonte: Elaborado pelas autoras   Fonte: Elaborado pelas autoras    A  respeito  da  questão  se  o  estudante  teve  a  oportunidade  de  aprendizado  de  idioma estrangeiro na instituição, 14 discentes responderam que sim (somente na modalidade  presencial), 8 estudantes  responderam  que  sim  (parte  na  modalidade  presencial  e  parte  na  m odalidade semipresencial), 3 que sim (na modalidade a distância), 10 estudantes que não e  nenhum que sim (somente na modalidade semipresencial).    As duas últimas perguntas do questionário dos estudantes (questões 25 e 26), por  sua  vez,  trataram do  motivo d a escolha do  curso e da  IES. Sobre o  motivo da escolha do  curso, 6 discentes responderam inserção no mercado de trabalho, 2 por influência familiar, 2  por valorização profissional, 2 por prestígio social, 11 estudantes afirmaram ser por vocação,  5 estudant es baixa concorrência para ingresso, 7 estudantes outro motivo, e nenhum porque é  oferecido na modalidade a distância uma vez que se trata de um curso presencial (Gráfico 17).  A respeito do motivo da escolha da instituição de ensino, 20 estudantes afirmaram que pela  gratuidade, 10 pela proximidade de casa, 3 pela qualidade/reputação, 1 estudante porque foi a  única onde  tive aprovação, 1 estudante pela possibilidade de ter bolsa de estudo e  nenhum  pelo preço da mensalidade, pela proximidade do trabalho, pela facilidade de acesso ou outro  motivo (Gráfico 18).            6 13 11 5 Nenhum Um ou dois De três a cinco De seis a oito 2 16 12 4 1 Nenhuma, apenas assisto às aulas De uma a três De quatro a sete De oito a doze Mais de doze Resultados da avaliação: perfil e percepção dos participantes do ENADE 2018 do Curso de Turismo da UFVJM   Valéria Rodrigues Neves  Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 76      Gráfico 17  –   Motivo da escolha do curso (Perfil  socioeconômico do estudante do curso de Turismo  –   2018)    Gráfico 18  ­  Motivo da escolha da instituição  (Perfil socioeconômico do estudante do curso de   Turismo  –   2018)      Fonte: Elaborado pelas autoras  Fonte: Elaborado pelas autoras    Após traçado o perfil dos estudantes na parte socioeconômica do Questionário dos  Estudantes,  são apresentadas aos alunos 42 questões assertivas (questões 27 a 68) em  escala  Likert, nas quais as respostas variam entre “concordo totalmente” e “discordo totalmente”, a fim  de  analisar  os  aspectos  acerca  da  Organização  Didático­Pedagógica,  Infraestrutura  e  Instalações Físicas e Oportunidades de Ampliação da Formação Acadêmica e Profissional. As  opções “Não sei responder” e “Não se aplica” também eram opções disponíveis para escolha (Tabela 2).  Como o  curso busca a melhoria  contínua rumo à excelência, o esperado é que a  maioria das assertivas  tenha,  como escolha dos estudante s, a opção “Concordo totalmente”. Sendo  assim,  será  chamada  a  atenção  para  aquelas  afirmativas  em  que  o  ideal  não  foi  atingido, ou seja, a opção “Concordo totalmente” não foi predominante entre os alunos que responderam ao questionário no ano de 2018.  Nota ­se que nas questões 27 a 37 a opção “Concordo totalmente” foi a maioria escolhida pelos estudantes. A questão 29 teve a maioria de “Concordo totalmente” apenas por um  estudante a  mais. Sendo assim, é preciso  atentar­se  para  o  porquê de os discentes  não  co ncordarem por completo que as metodologias de ensino utilizadas no curso os desafiaram a  aprofundar seus  conhecimentos e desenvolver  competências reflexivas e críticas. A assertiva  37,  por  seu  turno,  não  atingiu  a  maioria  ideal  de  excelência,  uma  vez  que  am ioria  dos  discentes não concordou completamente que as relações professor ­aluno ao longo do curso os  estimularam a estudar e aprender. Portanto, essas relações carecem de maior fortalecimento.  Dando sequência no questionário, os resultados das assertiva s 38 a 47, em que as  questões  38  e  39  não  receberam  a  maioria  ideal,  frisa­se  que é  preciso  dialogar  com  os  6 2 2 2 11 5 7 Outro motivo Baixa concorrência para ingresso Vocação Prestígio Social Valorização profissional Influência familiar Inserção no mercado de trabalho 20 10 3 1 1 Gratuidade Proximidade da minha residência Qualidade/reputação Foi a única onde tive aprovação Possibilidade de ter bolsa de estudo Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 77    estudantes  sobre  sua  percepção  sobre  o  plano  de  ensino,  bem  como  sobre  as  referências  bibliográficas indicadas  neles.  A questão 40, apesar de ter atingido a maioria,  sofreu muita  oscilação  nas  respostas, demandando identificar e oferecer mais  oportunidades  para que os  estudantes superem as dificuldades relacionadas ao processo de formação.   Nas respostas dos estudantes  nas questões 48 a 57, observa ­se que as assertivas  48, 54, 55 e 57 não atingem a maioria ideal. Os estudantes  não concordam em sua plenitude  que as atividades práticas  foram  suficientes, que eles participam de avaliações periódicas do  curso, que as avaliações de aprendizagem  foram  compatíveis  com os temas abordados pelos  professores  e  que  os  professores  demonstram  domínio  dos  conteúdos  ministrados.  Além  disso,  há outras questões que apresentam muita oscilação nas respostas de modo que podem  indicar  fragilidades  do  curso,  sendo  necessário  u m  trabalho  contínuo  de  autorreflexão  e  diálogo com os estudantes.   Nota ­se que as questões 59, 61, 62 e 65 apresentaram fraquezas,  uma vez que os  discentes não apontam o ideal de funcionários para o apoio administrativo e acadêmico, bem  como  sinalizam  que  a  infraestrutura  de  sala  de  aula  não  é  completamente  adequada,  os  equipamentos e materiais das aulas práticas não estão completamente adequados à instituição  considerando a quantidade de estudantes e, por fim, os discentes  não contam  com biblioteca  virtual  ou que confira acesso a obras disponíveis em acervos virtuais.        Resultados da avaliação: perfil e percepção dos participantes do ENADE 2018 do Curso de Turismo da UFVJM   Valéria Rodrigues Neves  Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 78    Tabela 2: Respostas dos estudantes sobre Organização Didático ­Pedagógica, Infraestrutura e Instalações Físicas e Oportunidades de  Ampliação da Formação Acadêmica e Profissional (assertivas 27 a 41) (Cont.)   Assertiva   Discordo totalmente   Discordo     Discordo  parcialmente   Concordo  parcialmente   Concordo     Concordo  totalmente   Não sei  responder   Não se  aplica   27.  As  disciplinas  cursadas  contribuíram  para  sua  formação  integral, como cidadão e profissional   1  0  0  5  9  20  0  0  28. Os conteúdos abordados nas disciplinas do curso favoreceram  sua  atuação  em  estágios  ou  em  atividades  de  iniciação  profissional   1  0  1  2  12  19  0  0  29.  As  metodologias de  ensino  utilizadas  no  curso  desafiaram  você  a  aprofundar  conhecimentos  e  desenvolver  competências  reflexivas e críticas   1  0  3  4  13  14  0  0  30. O curso propiciou experiências de aprendizagem inovadoras  2  0  1  1  13  18  0  0  31.  O  curso  contribuiu  para  o  desenvolvimento  da  sua  consciência ética para o exercício profissional   1  1  0  0  10  23  0  0  32. No curso  você teve oportunidade de aprender a trabalhar em  equipe  1  0  1  3  9  21  0  0  33.  O  curso possibilitou  aumentar  sua  capacidade de reflexão e  argumentação  1  0  1  3  6  24  0  0  34. O  curso promoveu o desenvolvimento da  sua  capacidade de  pensar  criticamente,  analisar  e  refletir  sobre  soluções  para  problemas da sociedade  1  0  0  3  8  23  0  0  35.  O  curso  contribuiu  para  você  ampliar  sua  capacidade  de  comunicação nas  formas oral e escrita   1  0  2  4  9  19  0  0  36. O curso contribuiu para o desenvolvimento da sua capacidade  de aprender e atualizar­se permanentemente   1  0  2  3  9  20  0  0  37.  As  relações  professor­aluno  ao  longo do  curso estimularam  você a estudar e aprender  2  0  1  7  14  11  0  0  38.  Os  planos  de  ensino  apresentados  pelos  professores  contribuíram para o desenvolvimento das atividades acadêmicas e  para seus estudos   1  1  1  5  16  11  0  0  39. As referências bibliográficas indicadas pelos professores  nos  planos de ensino  contribuíram para estudos e aprendizagens   1  0  2  6  14  12  0  0  40. Foram oferecidas oportunidades para os estudantes superarem  dificuldades relacionadas ao processo de formação.  2  1  4  4  9  12  3  0  41.  A  coordenação  do  curso  esteve  disponível  para  orientação  acadêmica dos estudantes   2  0  1  2  8  21  1  0  Fonte: Elaborado pelas autoras  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM ______________________________________________________ 79    Tabela 2: (Cont.) Respostas dos estudantes sobre Organização Didático ­Pedagógica, Infraestrutura e Instalações Físicas e Oportunidades  de Ampliação da Formação Acadêmica e  Profissional (assertivas 42 a 56) (Cont.)   Assertiva   Discordo totalmente   Discordo     Discordo  parcialmente   Concordo  parcialmente   Concordo     Concordo  totalmente   Não sei  responder   Não se  aplica   42. O curso exigiu de você organização e dedicação frequente  aos estudos   2  0  1  5  11  16  0  0  43.  Foram  oferecidas  oportunidades  para  os  estudantes  participarem de atividades de extensão universitária  1  2  1  3  10  18  0  0  44. Foram oferecidas oportunidades para osestudantes  participarem de projetos de iniciação científica e de atividades  que estimularam a investigação acadêmica  1  1  3  4  7  19  0  0  45.  O  curso  ofereceu  condições  para  os  estudantes  participarem de eventos internos e/ou externos à instituição  1  0  3  6  9  16  0  0  46.  A  instituição ofereceu  oportunidades  para os estudantes  atuarem como representantes em órgãos colegiados   1  0  1  7  7  17  2  0  47. O curso favoreceu a articulação do conhecimento teórico  com atividades práticas   1  1  0  2  14  17  0  0  48. As atividades práticas foram suficientes para relacionar os  conteúdos  do  curso  com  a  prática,  contribuindo  para  sua  formação profissional   1  2  2  6  15  9  0  0  49.  O  curso  propiciou  acesso  a  conhecimentos  atualizados  e/ou contemporâneos em sua área de formação  1  0  3  5  11  15  0  0  50.  O  estágio  supervisionado  proporcionou  experiências  diversificadas para a sua formação  2  0  4  1  8  12  7  8  51.  As  atividades  realizadas  durante  seu  trabalho  de  conclu são de curso contribuíram para qualificar sua formação  profissional   2  0  1  0  10  13  7  2  52. Foram oferecidas oportunidades para osestudantes  realizarem intercâmbios e/ou estágios no país  1  2  2  9  6  14  1  0  53. Foram oferecidas oportunidades para os estudantes  realizarem intercâmbios e/ou estágios fora do país  3  2  6  5  6  13  1  0  54.  Os  estudantes  participaram  de  avaliações  periódicas  do  curso (disciplinas, atuação dos professores, infraestrutura)   1  2  3  3  13  12  1  0  55. As avaliações da aprendizagem realizadas durante o curso  foram  compatíveis  com  os  conteúdos  ou  temas  trabalhados  pelos professores   1  0  1  3  16  14  0  0  56. Os professores  apresentaram disponibilidade para atender  os estudantes fora do horário das aulas   2  0  1  6  12  14  0  0  Resultados da avaliação: perfil e percepção dos participantes do ENADE 2018 do Curso de Turismo da UFVJM   Valéria Rodrigues Neves  Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________ 80    Fonte: Elaborado pelas autoras    Tabela 2: (Cont.) Respostas dos estudantes sobre Organização Didático ­Pedagógica, Infraestrutura e Instalações Físicas e  Oportunidades  de Ampliação da Formação Acadêmica e Profissional (assertivas 57 a 68)   Assertiva   Discordo totalmente   Discordo     Discordo  parcialmente   Concordo  parcialmente   Concordo     Concordo  totalmente   Não sei  responder   Não se  aplica   57.  Os  professores  demonstraram  domínio  dos  conteúdos  abordados nas disciplinas   1  0  2  2  15  15  0  0  58.  Os  professores  utilizaram  tecnologias da informação e  comunicação  (TICs)  como  estratégia  de  ensino  (projetor  multimídia,  laboratório de informática, ambiente  virtual de  aprendizagem)  1  1  2  3  11  17  0  0  59.  A  instituição  dispôs  de  quantidade  suficiente  de  funcionários para o apoio administrativo e acadêmico   1  2  2  7  16  7  1  0  60.  O  curso  disponibilizou  monitores  ou  tutores  para  auxiliar os estudantes   1  1  2  2  13  16  0  0  61. As  condições de infraestrutura das  salas de aula  foram  adequadas   1  0  2  4  16  12  0  0  62. Os equipamentos e  materiais disponíveis  para as aulas  práticas foram adequados para a quantidade de estudantes  1  0  2  8  14  9  1  0  63.  Os  ambientes  e  equipamentos  destinados  às  aulas  práticas foram adequados ao curso   2  0  2  6  10  13  1  1  64. A biblioteca dispôs das referências bibliográficas que os  estudantes necessitaram   1  0  1  4  7  21  1  0  65.  A instituição  contou  com biblioteca  virtual ou  conferiu  acesso a obras disponíveis em acervos virtuais   3  0  1  4  10  6  10  1  66. As atividades acadêmicas desenvolvidas dentro e fora da  sala de aula possibilitaram reflexão, convivência e respeito à  diversidade  1  0  2  0  11  21  0  0  67. A instituição promoveu atividades de cultura, de lazer e  de interação social  2  1  1  3  13  15  0  0  68.  A  instituição dispôs  de  refeitório,  cantina  e banheiros  em condições adequadas que atenderam as necessidades dos  seus usuários.   2  1  7  7  7  11  0  0  Fonte: Elaborado pelas autoras  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________   _____________________________________________________________     Considerando as respostas de uma forma geral, muitos recursos e programas que  existem  na instituição não  foram reconhecidos pelos alunos. Pode  ser que os estudantes  não  tenham  conhecimento  da existência desses  recursos  e  programas.  Tal  impressão estudanti l  revela a importância de uma divulgação mais explicativa e incisiva, no âmbito do curso, para  além dos meios institucionais oficiais e comunicações tradicionais.   Apresentadas  essas  informações  pormenorizadas,  compreende ­se  que  a  coordenação  do  curso,  bem como  o  NDE  e  os  demais  docentes  têm  um  arcabouço  de  informações úteis para traçar metas e planos  visando a melhoria da qualidade do  curso e a  superação de suas fraquezas em consonância com os anseios e necessidades dos estudantes.     CONSIDERAÇÕES FINAIS   Ass im como foi ressaltado a respeito da análise feita acerca do Conceito Enade do  Curso  de  Bacharelado  em  Turismo  no  capítulo  antecedente,  reforça ­se  que  é  de  suma  importância que, a partir do momento em que os resultados do Enade 2022 forem divulgados,  haja uma análise também detalhada do perfil mais recente do estudante do curso de Turismo  da  UFVJM,  assim  como  da  percepção  desses  estudantes  a  respeito  do  contexto  da  sua  formação, uma vez que essas informações contribuem com a melhoria da qualidade do ensino.   Para  tanto,  é  necessário  que  esses  resultados  sejam  discutidos  com  todos  os  docentes  e  discentes.  Além  do  esforço  da  equipe  de  gestão  responsável  pelo  curso,  é  necessário o engajamento dos docentes,  na busca da melhoria da qualidade, e os discentes  devem  ser  ouvidos  para  que  seus  anseios  sejam  compreendidos  e,  na  medida do  possível,  atendidos.  Sugere­se  que  todos  os  docentes,  estejam  sempre  demostrando  aos  alunos  a  importância  dos  equipamentos  dos  laboratórios  e  da  infraestrutura,  façam  um  bom  acolhimento  dos estudantes, que, como foi possível destacar neste trabalho, são tão singulares  quanto as particularidades do território em que o curso está inserido, e persigam os melhores  indicadores de qualidade que  contribuem  com a  visibilidade do  curso e  com  o  inc remento  orçamentário.   Apesar  do  Conceito  Enade,  visto  no  capítulo  anterior,  considerar  apenas  os  resultados  nos  conteúdos de  formação geral e específica,  os  resultados do Questionário do  Estudante compõem o Conceito Preliminar de Curso (CPC), que também f az parte do rol de  indicadores de qualidade dos cursos, também considerado na matriz orçamentária.  Resultados da avaliação: perfil e percepção dos participantes do   ENADE 2018 do Curso de Turismo da UFVJM   Valéria Rodrigues Neves  Virginia Martins Fonseca   Ana Flávia Andrade de Figueiredo  _____________________________________________________________   82    Cabe  destacar,  considerando  o  perfil  socioeconômico  do  discente  do  curso  de  Turismo, que é um  curso  noturno, que tais resultados devem amparar políticas públ icas que  contribuam para a manutenção do estudante na instituição de ensino superior, considerando os  desafios singulares e bastante característicos da região onde a instituição se insere. Trabalhos  como esses devem encorajar a realização de análises apuradas de outros cursos superiores, no  intuito de enaltecer a importância da inserção regional da UFVJM e suas particularidades.  É importante também dizer que a realização da transmissão ao vivo realizada em  outubro de 2022,  no  Canal  Turismo  Consciência do  Yo utube 9,  cujo  tema  foi  compartilhar  esclarecimentos  acerca  da  importância  do  Enade  com  os  estudantes,  considerando  a  quantidade das suas visualizações, pode ter tido um alcance maior que o esperado, posto que  foram quase 80 visualizações no canal, além da participação on line  de mais de 30 discentes.   Nessa  transmissão  ao  vivo,  foram  salientados  vários  aspectos  abordados  neste  capítulo e  no antecedente, reforçando a relevância da participação ativa dos discentes  nesse  processo.  Os  discentes  foram  sensibiliza dos  quanto  a  todas  as  fases  pela  Procuradora  Educacional  Institucional  em  parceria  com a  Coordenação do  Curso de Turismo e  tiveram  suas dúvidas dirimidas. O esperado com essa ação é que os estudantes tenham sido motivados  a  participar  dessas  avaliações  de forma  mais  comprometida,  melhorando  os  resultados  do  Conceito  Enade,  bem  como  oferecendo  fe edba cks  conscientes  e  fidedignos  a  respeito  do  curso.   Finalmente, como também observado no capítulo anterior, o curso de Turismo da  UFVJM  cumpre a sua  função social.  Isso porque  se trata de um  curso público, gratuito e de  qualidade,  contribuindo  para  uma  formação  ética,  cidadã,  comprometida  com  o  desenvolvimento da região e com a inclusão social e democrática.     REFERÊNCIAS     BRASIL.  Decreto  nº  9.235,  de  15  de  dezembro  de  2017. Dispõe  sobre  o  exercício  das  funções  de  regulação,  supervisão  e  avaliação  das  instituições  de  educação  superior  e  dos  cursos  superiores de graduação e de pós­graduação no sistema federal de ensino. Disponível  em:  https://www.planalto.gov.br/ccivil _03/_ato2015­2018/2017/decreto/d9235.htm  Acesso  em: 19 de jan. 2023.                                          9 Disponível em: https://www.youtube.com/watch? v=pyRGhEvguwY   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________   83    BRASIL.  Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004. Institui o Sistema Nacional de Avaliação da  Educação  Superior  (SINAES)  e  dá  outras  providências.  Disponível  em:  https://www.planalto.gov.br /ccivil_03/_ato2004­2006/2004/lei/l10.861.htm Acesso em: 19 de  jan. 2023.    INEP. Exame  Nacional  de  Desempenho dos  Estudantes.  Pesquisar Relatórios de Cursos.  Disponível  em:  https://enade.inep.gov.br/enade/#!/relatorioCursos  Acesso  em:  22  jan.  de  2023.    MER LO, T.  A percepção dos estudantes  sobre a  formação na  u niversidade: uma  análise  por meio do  questionário do estudante do Enade.    Dissertação (Mestrado Profissional em  Gestão Pública ­ Universidade Federal do Espírito Santo). São Mateus, 2018.    MINISTÉRIO  DA EDUCAÇÃO. INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS  EDUCACIONAIS  ANÍSIO  TEIXEIRA  (INEP).  Acesso  à  Informação .  Dados  Abertos.  Microdados.  Disponível  em  < https://www.gov.br/inep/pt ­br/acesso ­a­informacao/dados ­ abertos/microdados/enade> Acesso em: 27 jul. 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio Teixeira (Inep). Diretoria de  Avaliação da Educação Superior (Daes). Questionário  do  Estudante  2018 .  Disponível  em:   Acesso em 27 jul. 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio  Teixeira  (INEP). Acesso  à  Informação.  Dados  Abertos.  ENADE.  Disponível  em:  https://www.gov.br/inep/pt ­br/acesso ­a­informacao/dados ­abertos/microdados/enade  Acesso  em: 26 jan. 2023.    MINISTÉRIO  DA  EDUCAÇÃO.  Instituto  Nacional  de  Estudos  e  Pesquisas  Educacionais  Anísio  Teixeira  (INEP).  Diretoria  de  Avaliação  da  Educação  Superior  (DAES). Exame  Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE 2018): Relatório de Curso  ­  Turismo.   Disponível  em:  https://enade.inep.gov.br/enade/#!/relatorioCursos  Acesso  em:  22  jan.  de  2023.          Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___       CONDIÇÕES DE TRABALH O NO TURISMO E ASSÉD IO MORAL: REFLEXÕES  PARA A PESQUISA     Ana Paula Ribeiro Manduca   Universidade Federal de Minas Gerais  anaribeiropsi@gmail.com     Georgina Maria  Véras Motta   Universidade Federal de Minas Gerais  georginavmotta@gmail.com     Camila Teixeira Heleno   Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   cam ila.heleno@ufvjm.edu.br      INTRODUÇÃO   As  transformações  no  mundo  do  trabalho,  advindas  da  propagação do  modelo  neoliberal  e  seus  reflexos  na  política  de  gerenciamento  de  pessoas  e  do  desenvolvimento  tecnológico, entre outras, têm ampliado o debate, propiciado maior  foco e gerado mudanças  significativas no estudo das condições de trabalho. Falar de condições de trabalho nos tempos  atuais,  com  um  olhar  psicossociológico,  para  além  das  características  físicas  e  materiais,  implica  em  considerar  a  amplitude  de  su a  definição.  Nesse  sentido,  dentre  as  primeiras  contribuições sobre o tema, podemos citar a pesquisa sobre Qualidade de Vida e o Movimento  dos  Indicadores  Sociais (ALVARO; GARRIDO, 2006), que buscou  avaliar o bem ­estar da  população  abrangendo  dimensões  soc iais  e  subjetivas,  que  os  indicadores  econômicos,  anteriormente adotados de modo predominante, não contemplavam. A ampliação dos estudos  demonstrou  o  caráter  multi  e  interdisciplinar  do  fenômeno  condições  de  trabalho,  possibilitando  o  surgimento  de  propost as  de  sistematização  e  conceituação.  Neste  ensaio,  adotaremos a  concepção de  condições de trabalho a partir de  uma definição abrangente que  envolve  os  aspectos  do  entorno,  do  conteúdo  (incluindo  a  organização  do  trabalho)  e  psicossociais  (RAMOS;  PEIRÓ;  RIP OLL,  2002;  ÁLVARO;  GARRIDO,  2006),  os  quais  impactam  no  bem ­estar  das  pessoas  e  da  sociedade  (LIMA,  1996;  JACQUES,  2007;  BORGES et al ., 2021).   Assumiremos  como  norteadora a  síntese taxonômica elaborada por Borges et  al .  (2021) que organiza os diversos componentes das condições de trabalho em quatro categorias:   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 85    (1) condições contratuais e jurídicas, que inclui os tipos, modalidades de trabalho  e as diversas formas contratuais;    (2) condições físicas e materiais, relativas aos aspectos mais concretos do entorno  do trabalho, tais como: equipamentos e mobiliários;  (3) processos e características da atividade, voltadas para os aspectos do conteúdo  das atividades, como as técnicas e atributos da atividade;  (4)  condições do ambiente  sociogerencial,  que remete às  relações  interpessoais,  práticas gerenciais e às demais atividades sociais no âmbito das organizações e/ou no mercado  de trabalho.   O mesmo é necessário quando tratamos do assédio moral no trabalho. Nesse sentido, o assédio moral, forma de violência relacionada ao trabalho, pode ser definido como  “um processo que se evidencia nas relações no trabalho, caracterizado por um conjunto de atos  hostis,  que  ocorre  de  forma  crônica,  continuada  e  repetitiva,  os  quais  ating em  a  dignidade, ofendem ou prejudicam aqueles que são alvo das hostilizações” (SOBOLL, 2017a, p. 15). Essa definição é oriunda da abordagem psicossocial que entende que o assédio moral  no  trabalho é  causado pelas estruturas  organizacionais do  trabalho e da  sociedade e  não  se  limita a questões interpessoais e individuais (SOBOLL, 2017a).  Definidos  os  fenômenos  centrais  dessa  reflexão  e  a  abordagem  teórica,  cabe  sinalizar que essas reflexões surgiram durante a mesa intitulada “Assédio Moral no Trabalho” dentro  do  projeto  de  extensão  Diálogos  Interdisciplinares  no  Curso  de  Turismo  da  Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), com a participação das  autoras.  Nesse  sentido,  a  mesa  propiciou  um  exercício  reflexivo  entre  psicólogas,  turismólo gos/as  (e  futuros  turismólogos/as)  e  outros  profissionais  do  campo  acerca  da  temática e suas implicações. Apresentamos aqui parte dessas reflexões suscitadas.  Para tanto, inicialmente faremos um apanhado acerca das condições de trabalho no turismo, seguido da apresentação teórica sobre o assédio moral e, por fim, proporemos uma agenda de pesquisa acerca do assédio moral no turismo.    AS CONDIÇÕES DE TRABALHO DO/A TRABALHADOR/A DO TURISMO: APROXIMAÇÕES INICIAIS   Uma reflexão acerca das condições de trabalho no turismo requer um olhar para suas peculiaridades, por ser uma atividade com potencial de transformação social e do território, de grande relevância econômica, capaz de promover o crescimento econômico, Condições de Trabalho no Turismo e Assédio Moral: reflexões para a pesquisa   Ana Paula Ribeiro Manduca   Georgina Maria Véras Motta  Camila Teixeira Heleno  _____________________________________________________________ 86    gerando renda, empregos, divisas e colaborando na redistribuição de renda (RABAHY, 2021) . Para tanto, um primeiro aspecto a ser considerado é como o campo se constitui, a sua formalização. Assim como a saúde e o trabalho, que tem diretrizes internacionais, o turismo também tem suas normatizações baseadas em premissas da Organização Mundial do Turismo, que contribui para a atuação do Ministério do Turismo e as respectivas secretarias estaduais e municipais de turismo.  Visando o desenvolvimento do turismo no Brasil foi criado o Sistema Integrado de Informações sobre o Mercado de Trabalho no Setor de Turismo (SIMT), cujo objetivo é fornecer informações e dados para elaboração de uma política pública para a área (COELHO, 2011). Foi a partir de relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), analisando dados do SIMT, que começamos a nos aventurar nesse caminho.  O SIMT considera que as Atividades Características do Turismo (ACTs) incorporam sete grupos: alojamento, agências de  viagem, transportes, alimenta ção,  cultura e  lazer (COELHO, 2011). E foi esse o primeiro ponto que nos chamou a atenção – a definição das atividades características do turismo (ACTs). Segundo Coelho (2011), as  ACTs  são um conjunto de atividades que contemplam a maior parte dos gastos dos turistas. Para Meliani (2015), estes gastos são, em sua maioria, resultado do desempenho pessoal do profissional do turismo e, nesse sentido, “é o  trabalhador do  turismo  que  faz  a  mediação entre a empresa  prestadora de  serviços e o  cliente, muitas  vezes tendo que  falar diferentes  idiomas,  sempre  procurando relacionar ­se de maneira cordial e eficiente” (p.98). Essa afirmação nos pareceu um indicativo da relação prevalente na atividade, que alguns autores como Meliani vão chamar de “servilismo”. No caso, tendo em vista que o objetivo do trabalhador está relacionado aos gastos dos turistas, o trabalhador por vezes pode se sentir “constrangido” em colocar limites, visto que “a qualidade da interação social entre o consumidor e o prestador do serviço faz parte da mercadoria” (MELIANI, 2015, p.100) e pode gerar uma relação de subserviência e adoecimentos. Esse é um aspecto importante para nossas observações.   Outra característica é a subdivisão das ACTs, em Núcleo do turismo, que atendem essencialmente visitantes; e secundárias, essas últimas incluem algumas atividades desenvolvidas/prestadas também para moradores, como por exemplo os restaurantes, que não atendem apenas a turistas. Essa cisão demonstra a fragilidade do reconhecimento dos trabalhadores e dos dados, que são obtidos por estimativas e metodologias dinâmicas em construção. Postas estas considerações, essa cisão reflete a divisão de gênero no trabalho, pois mais da metade dos trabalhadores do Núcleo do Turismo são mulheres – os autores se referem Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 87    ao maior número de camareiras e aeromoças e que essas últimas fazem elevar os dados de escolaridade (COELHO, 2011). Segundo Minasi, Mayer e Santos (2022), a proporção de mulheres é maior nos serviços de alojamento (57%), nas agências e operadoras de turismo (57%), nos serviços de alimentação (53%) e até entre os servidores do Ministério do Turismo  (59%). Os autores problematizam, ainda, que essa proporção feminina é consistente com a noção de que os empregos do turismo são frequentemente considerados uma extensão do trabalho doméstico, historicamente desvalorizado em nossa sociedade, corroborada pela pequena proporção de mulheres em posições de poder (35%), o chamado “teto de vidro”10, e  por demais desigualdades (salariais, horizontais e verticais etc.) que ainda marcam o trabalho  das mulheres em geral.  Sobre a situação de trabalho, examinemos mais detalhadamente os dados a seguir:    Figura 1: Perfil médio dos ocupados formais do turismo no Brasil (dez.2013)(em%).      Fonte: MINISTÉRIO DO TURISMO/ IPEA, 2015.    Na figura 1, observamos que 85% do Núcleo do Turismo trabalham 41 horas ou mais, ou seja, mais de oito horas por dia e 62% recebem somente até dois salários mínimos, sendo que cerca de 1/3 têm menos de um ano de tempo de trabalho na empresa e 72% estão numa faixa etária de 25 a 49 anos. Nesse sentido, observamos que o trabalho nas ACTs muitas vezes é caracterizado por jornadas extensas, baixa remuneração, alta rotatividade, sinalizando                                          10 “A pequena proporção de mulheres em posições de poder pode ser explicada pelo conceito do “teto de vidro”. As  mulheres  precisam  superar  um  conjunto  de  barreiras  de  origem  sociais  e  históricas  que  persistem  em  preconceitos decorrentes de estereótipos e  pressupostos  implícitos. Entre as barreiras, está a  cultura e prática  organizacional  que  refletem  a  hege monia  masculina  (Bazazo  et  al.,  2017).  Ainda,  a  cultura  interna  das  organizações  geralmente  não é  favorável  a  atitudes  positivas  em  relação às  mulheres,  tais  como  promoção,  seleção e mentoria” Minasi, Mayer e Santos (2022, p.11)  Condições de Trabalho no Turismo e Assédio Moral: reflexões para a pesquisa   Ana Paula Ribeiro Manduca   Georgina Maria Véras Motta  Camila Teixeira Heleno  _____________________________________________________________ 88    a precariedade das relações de trabalho no turismo, a exemplo do que é debatido na literatura (MELIANI, 2015; MARTONI; ALVES, 2019; HELENO; ALVES; OLIVEIRA, 2021).  No entanto, o setor de turismo se apresenta como contributivo para economia do país, com a previsão que em 2023 deverá alcançar cerca 7,8% do PIB (BRASIL, 2023), tendo as regiões sudeste (SE) e nordeste (NE) maior participação. Como podemos observar no quadro abaixo, outra peculiaridade se apresenta: o trabalho informal e a sua importância para o setor.     Quadro 1  ­  Ocupação nas ACTs em relação ao total da ocupação  na economia 1  (dez. 2013)    Total   Formal   Informal     ACTS   Economia   %   ACTS   Economia   %   ACTS   Economia   %   N  114.725  6.618.762  1,70  38.340  1.760.577  2,20  76.385  4.858.185  1,60  NE  450.839  22.551.909  2,00  163.288  6.265.962  ,60  287.551  16.285.947  1,80  SE  995.373  39.070.138  2,50  567.497  20.858.602  2,70  427.876  18.211.536  2,30  S  250.053  14.397.484  1,70  147.247  7.093.086  2,10  102.806  7.303.498  1,40  CO  127.965  6.608.738  1,90  68.945  3.044.165  2,30  59.020  3.564.573  1,70  BR  1.938.955  89.247.031  2,20  985.317  39.023.292  2,50  953.638  50.223.739  1, 0  Fonte: Adaptado do Ministério do Turismo/ IPEA, 2015.  Notas: 1 Não incl ui estatutários e militares.    No gráfico seguinte, podemos observar que a informalidade se mostra como importante traço no setor de alimentação, tendo, ainda, representatividade no transporte terrestre, na cultura e lazer.   Gráfico 1  ­  Participação relativa das ACTs  –   Brasil  –   Dezembro   2013      Fonte: Ministério do Turismo/ IPEA, 2015.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 89      Segundo Alves (2020), cerca de metade dos estimados dois milhões de empregos no turismo é de trabalhadores/as informais. Todas essas considerações demonstram a noção de imprecisão dos dados do setor e da referida carência de regulamentação do mesmo.  Observando, ainda, as condições contratuais e jurídicas do setor de turismo, notamos que existe uma variável transversal que influencia as relações de trabalho: a sazonalidade (trabalho por temporadas). A demanda por mão de obra em períodos e locais determinados interfere tanto nas condições contratuais, quanto no deslocamento dos trabalhadores para esses locais, e deriva a produção de dois mercados de trabalho: o permanente (trabalhadores contratados para a prestação de serviços o ano inteiro) e o temporário (trabalhadores contratados somente para determinada época do ano). Também nos destinos turísticos surgem trabalhadores informais tanto nas empresas, como por conta própria (guias, artistas, vendedores ambulantes) (MELIANI, 2015). Além da precarização das relações de trabalho no turismo, manifesta pela informalidade, algumas empresas se utilizam de outras estratégias: a “terceirização” de determinados serviços e a “contratação de estagiários” para exercer função de trabalhador pleno. Podemos concluir que há diferentes tipos de relações trabalhistas no setor e que estas tendem à precarização, considerando a jornada, a remuneração e a fragilidade dos vínculos trabalhistas (MELIANI, 2015).  Outra perspectiva a ser observada são as características pessoais exigidas para a função, que variam em conformidade com o tamanho e a qualificação das empresas (ver Quadro 2).     Quadro 2  –   Características do/a trabalhador/a     Fonte: Adaptado de Meliani, 2015 Martoni &Alves (2019), Heleno et al.(2021).  Condições de Trabalho no Turismo e Assédio Moral: reflexões para a pesquisa   Ana Paula Ribeiro Manduca   Georgina Maria Véras Motta  Camila Teixeira Heleno  _____________________________________________________________ 90      Os trabalhadores que tem maior contato com o turista se submetem a maiores exigências quanto “à maneira de falar”, sua aparência e personalidade. Estes aspectos são tratados, por parte dos empregadores, como aspectos legítimos de intervenção e controle” (MELIANI, 2015, p.112), sendo considerados apenas parte dos meios de produção.  No entanto, o chamado “sorriso institucional” perpassa os trabalhadores de empresas mais qualificadas e das operativas. Segundo Meliani (2015), o contato existente entre o trabalhador e o turista pode ser determinante na satisfação da experiência do turista, de maneira que o turista deseja um “padrão” de excelência e um “atendimento personalizado”.   Trabalhadores prestadores de serviços, como no turismo, a quem a regra profissional impõe o contato, a participação, a estimulação psicológica do consumidor, têm no exercício de suas funções a exigência de reciprocidade e calor humano, que se constitui em um trunfo essencial para promoção, recrutamento e remuneração dos empregados. E como os trabalhadores se percebem nessa situação? Martoni e Alves (2019) desenvolveram pesquisa nas ACTs em que assinalam os sintomas ocasionados pelo trabalho em cada cargo e analisam sua relação com as inúmeras fontes de variabilidade como: realização de horas extras, poucas pausas, falta de promoções, dificuldade na relação com colegas, ameaça de desemprego, baixa remuneração, falta de capacitação, improvisações, rotina, exigências dos procedimentos e desconforto no posto de trabalho. Segundo os autores “foi realizado um cruzamento relativo à constituição dos grupos profissionais [participantes da pesquisa] e à percepção de  sintomas,  obtendo­se as seguintes respostas, conforme Quadro 3( MARTONI; ALVES, 2019,  p.220)    Quadro 3  –   Cargos  versus sintomas   Sintomas  ocasionados  pelo  trabalho   Camareira  Recepcio ­  nista   Serviço  auxiliar   Agente  de  Viagem  Guia  de  turismo   1.Seu  trabalho  contribui  para  cansaço e/ou stress?   0,71  0,73  0,47  0,77  0,75  2.Seu  trabalho  contribui  para  ansiedade?   0,44  0,31  0,37  0,42  0,45  3.  Seu  trabalho  contribui  para  desânimo?   0,2  0,18  0,21  0,22  0,15  4.  Seu  trabalho  contribui  para  irritação?  0,34  0,34  0,26  0,33  0,25  5.  Seu  trabalho  contribui  para  tristeza?   0,15  0,11  0,21  0,19  0,05  6.  Seu  trabalho  contribui  para  dificuldade para dormir?  0,29  0,21  0,32  0,26  0,3  Fonte: Adaptado de MARTONI; ALVES, 2019.    Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 91    Como podemos ver os sintomas são distintos entre os cargos, mas a irritação e ansiedade se apresentam em todos os cargos que mantém contato com o turista de forma relevante. Em relação às exigências técnicas, fontes de variabilidade, os agentes de viagem apresentam­se mais susceptíveis. Inclusive com atividades aparentemente contraditórias como a exigência de improvisações e de manter um comportamento padronizado. Agora, considerando as condições de trabalho que temos examinado, a forma como se organiza o trabalho e o desnível de poder existente entre o usuário e o trabalhador do turismo, propicia que este esteja susceptível às demandas do primeiro, e que as atenda de forma imediata e de maneira personalizada, não podendo recorrer ao amparo de legislações, visto que o vínculo trabalhista é precário. Tais condições nos leva a questionar acerca da ocorrência de situações de assédio psicossocial e mesmo de pequenas violências – o incivismo – no cotidiano do trabalhador/a do turismo. E ainda, na dificuldade em que estas possam ser caracterizadas.     ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO    Nos últimos anos, a violência no ambiente de trabalho tem sido amplamente debatida  em diversas áreas,  tanto  nacional  quanto  internacionalmente. No  contexto  internacional,  as  discussões inicia ram ­se por volta de 1976, com a publicação do livro “The harassed worker” de Carrol  Brodsky (SOARES, 2012; FREITAS; HELOANI; BARRETO, 2013; NIELSEN;  EINARSEN,  2018;  EINARSEN  et  al .,  2020).  Em  1998,  a  Organização  Internacional  do  Trabalho  (OIT)  divulgou  um  relatório  destacando  o  cenário  alarmante  da  violência  no  ambiente de  trabalho em  todo  o  mundo,  no  qual  reconheceu  que  vários  fatores  complexos  contribuem para a violência no ambiente de trabalho e que a solução para esse problema exige  esforços coletivos ( CHAPPELL; DI MARTINO, 1998). Nesse percurso, a OIT tem conduzido  vários estudos sobre a promoção de um ambiente de trabalho livre de violência e assédio. Em  junho de 2019, aprovou a Convenção 190,  um importante instrumento  legal que estabelece  diretrizes  para  enfrentar  esse  problema  e  visa  implementar  o  trabalho  decente  em  todo  o  mundo de forma efetiva. O Ministério Público do Trabalho solicitou a ratificação da referida  Convenção, porém a convenção ainda não foi ratificada pelos órgãos brasileiros responsáveis  (MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO, 2020). No  contexto brasileiro, as discussões iniciaram  no início do  século XXI e  foram  influenciadas  pela  publicação,  no  ano 2000, do  livro de  Marie­France Hirigoyen “Assédio moral: a violência perversa no cotidiano”; em 2001, do artigo de Maria Ester Freitas “ Assédio  moral e assédio  sexual:  faces do poder perverso  nas organizações”; e, em 2003, do livro de Condições de Trabalho no Turismo e Assédio Moral: reflexões para a pesquisa   Ana Paula Ribeiro Manduca   Georgina Maria Véras Motta  Camila Teixeira Heleno  _____________________________________________________________ 92    Margarida Barreto “Violência, saúde, trabalho: uma jornada de humilhações” (VIEIRA;  LIMA;  LIMA, 2012 ). Desde então, alguns  pesquisadores  têm  se destacado  nas  pesquisas e  publicações  regulares  sobre  a  temática,  tais  como  Lis  Andrea Pereira  Soboll,  a  professora  Margarida  de  Souza  Barreto  (in  memoriam ),  e  o  Núcleo  de  Estudos  de  Processos  Psicossociais e de Saúde nas Organizações e  no Trabalho,  criado pela professora Suzana da  Rosa Tolfo. Os  atos  de  violência,  hostis  e  crônicos,  que  caracterizam  o  assédio  moral  no  trabalho podem vir de várias direções: horizontal (quando os atos de violência vêm de colegas  do mesmo  nível  hierárquico),  vertical descendente (quando os atos  são praticados da  chefia  para  os  subordinados),  vertical  ascendente  (quando  os  atos  vêm  dos  subordinados  para  a  chefia), e misto (quando os atos  vêm dos  colegas e da  chefia  simultaneamente),  sendo este  último,  na  prática,  o  menos  comum  de  acordo  com  a  literatura  consultada  (FREITAS;  HELOANI; BARRETO, 2013).    Tão importante quanto caracterizar o assédio moral no trabalho é diferenciá­lo de  outros  tipos  de  violência  presentes  no  trabalho,  tais  como  conflitos  pontuais,  gestão  por  injúria, atos pontuais de  violência, exigências profissionais (HIRIGOYEN, 2002; FREITAS;  HELOANI;  BARRETO,  2013).  Para  isso,  utilizamos  de  alguns  critérios  para  sua  identificação: duração, frequência, caráter processual e intencionalida e dos atos vivenciados  no  trabalho  (LEYMANN,  1990;  HIRIGOYEN,  2002;  FREITAS;  HELOANI;  BARRETO,  2013;  SOBOLL,  2017a;  EINARSEN et  al .,  2020).  A  frequência  é  avaliada  por  meio  da  análise da repetição sistemática dos atos hostis vivenciados. A duração é avaliada por meio da  ocorrência dos atos várias vezes, sendo importante destacar que não precisa ser a repetição do  mesmo ato. Quanto a estes  critérios,  Leyman (1990) entende que é  necessária a duração de  seis  meses  dos  atos  vivenciados  para  a  caracterização  do  assédio  moral  no  trabalho,  em  analogia  ao  critério  temporal  utilizado  para  a  avaliação de  vários  distúrbios  psiquiátricos.  Outros  autores  (FREITAS;  HELOANI;  BARRETO,  2013;  EINARSEN  et  al .,  2020)  entendem que  não há como  fixar um tempo mínimo, pois,  na pr ática, identificaram  casos de  assédio moral  no trabalho em que os atos duraram um tempo inferior a seis meses. O caráter  processual dos atos é outro ponto fundamental de análise, já que o assédio moral no trabalho é  entendido  como  um  processo  de  exposição  frequente,  sistemática  e  contínua  aos  atos  de  violência  (FREITAS;  HELOANI;  BARRETO,  2013;  SOBOLL, 2017a;  EINARSEN  et  al .,  2020).  Quanto  ao  critério  de  intencionalidade  dos  atos,  não  há  consenso  na  literatura  em  relação ao uso desse critério como obrigatório ou complementar. Alguns autores (FREITAS;  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 93    HELOANI;  BARRETO,  2013;  HIRIGOYEN,  2002)  defendem  o  uso  como  obrigatório.  Outros  (EINARSEN  et  al .,  2020;  SOBOLL,  2017a)  utilizam  estes  critérios  como  complementares, uma vez que consideram que o assédio pode ser  intencional ou não, além da  dificuldade de análise e  comprovação da intencionalidade, de modo que  não  há  clareza em  relação ao que é intencional  no assédio moral: se é em relação aos atos praticados ou  se é a  intenção de prejudicar. Destacamos o desafio em identificar e punir casos de assédio moral no  trabalho  devido  a  práticas  socialmente  aceitas  que  impedem  sua  identificação  como  um  problema organizacional e social.   As  consequências  do  assédio  moral  no  trabalho  afetam  os  trabalhadores,  a  organização  e  a sociedade  (LEYMANN,  1990;  SOARES;  OLIVEIRA,  2012;  FREITAS;  HELOANI;  BARRETO,  2013;  TOLFO  et  al .,  2016;  NIELSEN;  EINARSEN,  2018).  As  consequências para os trabalhadores podem ser: prejuízos à saúde física e mental, prejuízo nas  relações interpessoais, aumen to do absenteísmo (LEYMANN, 1990; SOARES; OLIVEIRA,  2012;  FREITAS;  HELOANI;  BARRETO,  2013;  TOLFO  et  al. ,  2016;  NIELSEN;  EINARSEN, 2018). Para as organizações, as  consequências aparecem  na  forma de imagem  negativa  da  instituição  perante  os  trabalhadores  e  a sociedade  em  geral,  piora  o  clima  organizacional,  aumenta  a  rotatividade,  aumenta  os  custos  relacionados  ao  absenteísmo,  rotatividade  e  processos  judiciais  (LEYMANN,  1990;  SOARES;  OLIVEIRA,  2012;  FREITAS;  HELOANI;  BARRETO,  2013;  TOLFO  et  al .,  2016;  NIELSEN;  EINARSEN,  2018). Para a  sociedade as  consequências podem  ser observadas  com o aumento dos  custos  previdenciários  (reabilitação  profissional,  benefício  por  incapacidade  temporária  e/ou  aposentadorias  precoces),  aumento  dos  custos  com  saúde  pública  (consu ltas  médicas  recorrentes, remédios  custeados pelo governo, dentre outros), e aumento dos custos do poder  judiciário  (LEYMANN,  1990;  SOARES;  OLIVEIRA,  2012;  FREITAS;  HELOANI;  BARRETO, 2013; TOLFO  et al ., 2016; NIELSEN; EINARSEN, 2018).  Considerando as carac terísticas do assédio moral no trabalho (direção, frequência,  intencionalidade dos atos, etc.); que o assédio moral no trabalho não se trata de um problema  individual, mas  sim  um problema organizacional e social; que a precarização do trabalho  no  turismo  s e manifesta  na  sua  caracterização de sazonalidade (temporalidade), informalidade, grande extensão das jornadas, baixas remunerações, alta rotatividade, grande participação feminina, etc. (MELIANI, 2015; MARTONI; ALVES, 2019; HELENO; ALVES; OLIVEIRA, 2021); que “a precarização no trabalho é uma forma de violência e, ao mesmo tempo, causa  contribuinte da produção e disseminação da violência” (HELENO; BORGES; AGULLÓ­ Condições de Trabalho no Turismo e Assédio Moral: reflexões para a pesquisa   Ana Paula Ribeiro Manduca   Georgina Maria Véras Motta  Camila Teixeira Heleno  _____________________________________________________________ 94    TOMÁS, 2021 p. 67); e que, “a expansão das más condições de trabalho, da precarização e da viol ência não significa, necessariamente, que sua visibilidade se amplia” (BORGES et  al .,  2022,  p.521),  nos  questionamos,  por  exemplo,  se s ria  uma  ocupação  (ou  várias)  mais  expostas  a  sofrerem  tal  agravo.  As  condições  de  trabalho  favorecem  que  os/as  trabalhadores/as do turismo estejam mais vulneráveis a sofrer assédio moral no trabalho?   Nesse  sentido,  propomos  uma  agenda  de  pesquisa  com  enfoque  na  psicossociologia do  trabalho  sobre  o  assédio  moral  no  trabalho  no  turismo.  Sugerimos:  a)  investigar  o  impacto  das  condições  de  trabalho  para  os  trabalhadores/as  do  turismo;  b)  investigar a informalidade e precarização do trabalho no turismo bem como suas implicações  para  a  saúde do  trabalhador/a;  c) realizar revisão  sistemática  das  publicações,  nacionais  e  internacionais, acerca das normatizações existentes sobre o trabalho no turismo; d) identificar  e compilar as  legislações e regulamentações das diferentes ocupações  contidas  nas  ACTs; e)  definir  recortes  de  pesquisa  com  escolha  de  ocupações  a  serem  estudad as,  considerando  gênero; f) explorar aspectos relacionados à gestão de pessoas  como ambiente sociogerencial,  rotatividade, absenteísmo e comunicação; g) analisar o assédio moral  no trabalho no turismo  conjuntamente  com  estratégias  de  intervenção;  h)  invest igar  o  entrelaçamento  entre  os  fenômenos e destes com as macropolíticas.     CONSIDERAÇÕES FINAIS   Acreditamos que com este ensaio conseguimos alcançar o objetivo de desenvolver  reflexão  sobre as  condições de trabalho  no turismo e os possíveis riscos de assédio moral a  que elas podem expor os trabalhadores. Levantamos as características comuns do trabalho no  turismo,  bem  como  as  dificuldades  relativas à  ausência  de  regulamentação  que  dificultam  tanto a proteção dos direitos do trabalhador quanto a identificação de que  na relação  com o  turista e, mesmo  com a organização, podem ocorrer práticas abusivas,  visto que muitas  são  socialmente aceitas,  camufladas/ocultas  sob o  véu da excelência. Tal  característica, além de  obstaculizar  a  implementação  ampla  de  ações  preventivas  ao  assédio  moral,  sinaliza  a  premência da regulamentação das ACTs e da profissão, bem como, a necessidade de o Brasil  ser signatário da Convenção 190 da OIT.  No  entanto,  lembramos  que  é  responsabilidade  das  organizações  construírem  ambientes de  trabalho  saudáveis  em  que estas  práticas  não  sejam aceitas. Nesse  sentido, e  entendendo  que  as  boas  práticas  possam  ser  replicadas,  trazemos  algumas  sugestões  de  intervenções que possam ser implementadas cotidianamente. A realização de eventos (cursos,  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM    ______________________________________________________ 95    palest ras),  a  distribuição  de  cartilhas,  a  preparação  dos  trabalhadores  da área  de  gestão  e  gestão de pessoas, inclusão do tema nas normas de conduta, divulgação da legislação vigente  acerca  do  tema,  mudanças  na  forma  de  organização  do  trabalho  e  divulgação  do  posicionamento da organização  sobre  casos de assédio  são algumas das  possíveis  ações de  prevenção e combate ao assédio moral no trabalho, que além de sensibilizar os trabalhadores  os qualificam para lidar com a temática. Para que se tenha maior benefício com a realização  destas ações, recomendamos que sejam feitas de modo constante. As organizações devem se  atentar  também  para  o  uso  da  linguagem,  de  modo  a  atingir  todos  que  fazem  parte  da  organização (SOBOLL, 2017b). Acreditamos que é fundamental que o asséd io moral no trabalho seja tratado como  um problema organizacional e social, e não como um problema individual. É responsabilidade  das organizações  construírem ambientes de trabalho  saudáveis em que estas práticas  não são  aceitas.  Esperamos  com  tais  recomen dações  contribuir  para  a  melhoria  das  condições  de  trabalho  no  turismo.  Ressaltamos  que  abordar  o  assédio  moral  no  trabalho  em  diálogos  interdisciplinares  é  basilar  para  promover  uma  compreensão  holística  do  assunto,  considerando que  cada área traz perspectivas e expertise únicas, o que permite  uma análise  mais  completa  do  problema  e  a  formulação  de  estratégias  mais  eficazes  para  enfrentá­lo,  proporcionando  ambientes  de  trabalho  mais  saudáveis  e  respeitosos  para  todos  os  funcionários.   REFERÊNCIAS     ALVES, K. S. 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TOLFO,  S.  R.;  SILVA,  N.;  NUNES,  T.  S.;  CUGNIER,  J.  S.  Assédio  moral  no  trabalho:  conceitos, aspectos culturais e de gestão de recursos humanos, consequências e possibilidades  de  intervenção. In :  CHAMBE,  M.  J.  (Ed.). Psicologia  da  Saúde  Ocupacional . Lisboa:  Pactor, 2016. p. 259­284.    VIEIRA,  C.  E.  C.;  LIMA,  F.  P.  A.;  LIMA,  M.  E.  A.  E  se  o  assédio  não  fosse  moral?  Perspectivas  de  análise  de  conflitos  interpessoais  em  situações  de  trabalho. Revista  Brasileira  de  Saúde  Ocupacional ,  v.  37,  n.  126,  p.  256­268,  2012.  DOI:  https://doi.org/10.1590/S0303­76572 12000200007           Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___       A REGULAMENTAÇÃO DA  PROFISSÃO DE   TURISMÓLOGO     Raquel Faria Scalco   Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri  – UFVJM   raquel.scalco@ufvjm.edu.br     INTRODUÇÃO   O tema da regulamentação da profissão de turismólogo foi apresentado no âmbito  do projeto de extensão “Ciclo de debates do  Curso de Turismo da  UFVJM:  construção de  conhecimento,  divulgação  científica  e  estreitamento  dos  laços  entre  a  universidade  e  a  comunidade  externa ”, do curso de Turismo da Universidade Federal dos Vale s  do  Jequitinhonha e  Mucuri (UFVJM),  no dia 04 de julho de 2022,  no  Núcleo de Estudos em  Turismo.  A  palestra  foi  proferida  pela  professora  Raquel  Scalco  e alunos  da disciplina de  Legislação  Aplicada ao Turismo, que  se prepararam para a discussão da temática e  fizeram  apontamentos importantes ao longo da palestra. Como ouvintes, estiveram presentes cerca 40  pessoas, entre professores e estudantes do curso de Turismo da UFVJM.    Este tema vem sendo discutido pela academia e pelos setores públicos e privados  do turismo, desde a década de 70, quando o primeiro Anteprojeto de Lei foi encaminhado ao  Congresso Nacional e  foi  vetado pelo então Presidente da República (MARTONI, 2021).  A  partir de então,  novas  tentativas de aprovação do texto  foram realizadas, esbarrando  sempre  na questão da inconstitucionalidade. A Constituição Federal prevê que “é livre o exercício de qualquer  trabalho,  ofício  ou  profissão  atendidas  as  qualificações  profissionais  que  a  lei  estabelecer” (BRASIL, Constituição Federal, 1988, art. 5°, inciso XIII).  Além disso,  há  um  entendimento pelo Supremo Tribunal Federal de que “o estabelecimento de requisitos de qualificação profissional para determinadas atividades  se justifica tão somente em profissões  cujo exercício acarrete sério risco à sociedade” ( apud  MARTONI, 2021), o que não é o caso  da profissão de bacharel em turismo.  Em 2012,  o  projeto  de  lei  tratando  do  assunto  foi  parcialmente  aprovado  pelo  Congresso Nacional e  sancionado pela Presidente da República, por meio da Lei  n° 12.591,  de  18  de  Janeiro  de  2012  (BRASIL,  2012),  reconhecendo  a  profissão  de  Turismólogo  e  disciplinando o exercício da profissão. No entanto, o artigo que tratava de quais profissionais  poderiam  exercer  tal  profissão,  mais  uma  vez,  foi  vetado,  em  função  das  mesmas  razões  expostas acima.   A Regulamentação da Profissão   de Turismólogo   Raquel Faria Scalco   _____________________________________________________________ 100    Dessa  forma, este é  um assunto que  sempre  vem à tona  nas discussões  sobre o  mercado de trabalho e a profissão de turismólogo, na academia, em eventos científicos da área  e  na  esfera  pública  relacionada  ao  turismo. Por  isso, é  preciso  esclarece   o  que  significa  regulamentar uma profissão, qual a proposta atualmente existente sobre o assunto, a tendência  internacional  e  a  importância  do  reconhecimento  mercadológico  desse  profissional.  Nesse  sentido, o propósito de tal publicação é trazer à tonaa discussão sobre esse processo e clarear  para os estudantes e profissionais da área qual é a proposta atual para a regulamentação da  profissão e porque ela vem sendo recorrentemente vetada pelo Governo Federal.    QUEM É O BACHAREL EM TURISMO OU TURISMÓLOG O?   O  turismólogo é aquele  profissional  reconhecido  pela  Lei 12.591/12 (BRASIL,  2012), isento de qualquer pré­requisito de  formação acadêmica ou atuação profissional e de  registro  junto  a  qualquer órgão  federal  autárquico,  sendo  livre  o exercício da  profissã  de  turismólogo.  Vale  destacar  que  a  lei  não  faz  distinção  entre  o  bacharel  em  turismo  e  o  turismólogo, sendo que, na prática, ambos podem exercer a profissão. No entanto, o bacharel  em turismo necessita de formação em nível superior. De acordo com a ABB BTUR o bacharel  em turismo:   É  um profissional de  nível  superior egresso dos  cursos  superiores de turismo e/ou  turismo  e  hotelaria,  conforme  LEI  Nº  12.591,  de  18  de  Janeiro  de  2012, que  disseminam ideias, planejam atividades e as gerenciam, por meio de sua c pacidade  de análise  crítica e reflexiva agindo  com responsabilidade  técnica e procedimento  ético  para garantir o desenvolvimento  sustentável da atividade  nos  seus diferentes  segmentos,  fomentando  a  pesquisa  e  o  desenvolvimento  de  novas.  (ABBTUR,  2011).    Para Boiteux e Werner (2005, s.p.):  O bacharel em turismo, denominado turismólogo, deve ter como  função primordial  mudar  o  status  quo  do  atual  Brasil  Turístico.  Ele  deve  ser  um  grande  agente  de  mudança e entender que não é um mero operador ou planejador da atividade turística  mas  que  possui  uma  responsabilidade  social  muito  grande:  a  de  reduzir  as  desigualdades  sociais  e  melhorar  a  gestão  democrática  das  cidades,  através  do  turismo.     Já segundo a Resolução que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais d e Curso  de Graduação em Turismo, o bacharel em turismo, egresso de  cursos de graduação  na área  deve ter:  [...] aptidão para compreender as questões  científicas, técnicas,  sociais, econômicas  e  culturais,  relacionadas  com  o  mercado  turístico,  sua  expansão  e   seu  gerenciamento,  observados  os  níveis  graduais  do  processo de  tomada de decisão,  apresentando  flexibilidade intelectual  e adaptabilidade  contextualizada  no  trato de  situações  diversas,  presentes  ou  emergentes,  nos  vários  segmentos  do  campo  de  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 101    atuação profissional (BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Resolução  n° 13,  2006, art.3°).    Assim, entende ­se que, em  função da  complexidade do  fenômeno  turístico, este  profissional deve  ter  uma  formação generalista e interdisciplinar  que privilegie a dimensão  humanístic a e ética,  como também os aspectos teóricos, técnicos e  científicos específicos da  área. Ressalta­se que sua formação deve contemplar o difícil equilíbrio entre o conhecimento  teórico e as exigências práticas do mercado de trabalho, estando apto a atuar deforma crítica,  reflexiva e criativa no planejamento e na gestão pública e privada da atividade turística, com  uma visão sistêmica e integrada da cadeia produtiva do turismo.  Este  profissional  foi  reconhecido  pela  Lei  n°12.591/2012,  que  cita  também  as  ativ idades a serem desempenhadas por ele:  Art.2°: Consideram ­se atividades do turismólogo:  I ­ planejar,  organizar,  dirigir,  controlar,  gerir  e  operacionalizar  instituições  e  estabelecimentos ligados ao turismo;   II ­ coordenar e orientar  trabalhos  de  seleção e classificação de  locais  e áreas de  interesse  turístico,  visando  ao  adequado  aproveitamento  dos  recursos  naturais  e  culturais, de acordo com sua  natureza geográfica, histórica, artística e cultural, bem  como realizar estudos de viabilidade econômica ou técnica;   III ­ atuar como responsável técnico em empreendimentos que tenham o turismo e o  lazer como seu objetivo social ou estatutário;   IV  ­ diagnosticar  as  potencialidades  e  as  deficiências  para  o desenvolvimento  do  turismo nos Municípios, regiões e Estados  da Federação;  V  ­ formular  e  implantar  prognósticos  e  proposições  para  o  desenvolvimento  do  turismo nos Municípios, regiões e Estados da Federação;  VI ­ criar e implantar roteiros e rotas turísticas;  VII ­ desenvolver e comercializar novos produtos turíst icos;   VIII  ­ analisar  estudos  relativos  a  levantamentos  socioeconômicos  e  culturais,  na  área  de  turismo  ou  em  outras áreas  que  tenham  infl uência  sobre  as  atividades  e  serviços de turismo;  IX  ­ pesquisar,  sistematizar,  atualizar  e  divulgar  informações  sobre  a  demanda  turística;  X ­ coordenar, orientar e elaborar planos e projetos de marketing turístico;  XI ­ identificar, desenvolver e operacionalizar  formas de divulgação dos  produtos  turísticos existentes;   XII ­ formular programas e projetos que  viabilizem a  permanência de turistas  nos  centros receptivos;   XIII  ­ organizar  eventos  de  âmbito  público  e  privado,  em  diferentes  escalas  e  tipologias;  XIV  ­ planejar,  organizar,  controlar,  implantar,  gerir  e  operacionalizar  empresas  turísticas  de  todas  as  esferas,  em conjunto  com  outros  profissionais  afins,  como  agências de  viagens e turismo, transportadoras e terminais turísticos, organizadoras  de  eventos,  serviços  de  animação,  parques  temáticos,  hotelaria  e  demais  empreendimentos do setor;  XV  ­ planejar,  organizar  e aplicar  programas  de  qualidade  dos  produtos  e  empreendimentos  turísticos,  conforme  normas  estabelecidas  pelos  órgãos  competentes;   XVI  ­ emitir laudos e pareceres técnicos referentes à capacitação ou não de locais e  estabelecimentos  voltados ao atendimento  do  turismo receptivo,  conforme  normas  estabelecidas pelos órgãos competentes;  XVII  ­ lecionar em estabelecimentos de ensino técnico ou superior;   A Regulamentação da Profissão   de Turismólogo   Raquel Faria Scalco   _____________________________________________________________ 102    XVIII  ­ coordenar  e  orientar  levantamentos,  estudos  e  pesquisas  relativamente  a  instituições, empresas e estabel cimentos  privados  que atendam ao  setor  turístico.  (BRASIL, 2012, art.2°).    Destaca ­se  que  a  Lei  n°12.591  reconhece  a  profissão  e  explicita  o  papel  do  turismólogo, mostrando as atividades a serem desenvolvidas por ele, mas não evidencia quem  são esses pro fissionais  nem as exigências da  formação acadêmica que ele deve ter,  uma  vez  que  a  profissão  não  foi  regulamentada  pela  referida  lei. No  entanto,  a nalisando  o  rol  de  atividades acima, bem  como a definição de bacharel em  turismo e o perfil do egresso dos  cu rsos  de  graduação  na área,  fica  clara  a  complexidade  e  a  abrangência  da  atividade  e  a  multiplicidade de áreas de atuação e atividades a serem desenvolvidas por este profissional.   Assim, entende ­se que as atividades listadas na lei que reconhece a profissã o são  compatíveis  com a  formação acadêmica de  nível  superior do turismólogo, pois  se tratam de  atividades  de  nível  tático  e  estratégico,  relacionados à gerência,  pesquisa,  planejamento  e  gestão do turismo. Desta forma, caracterizam­se por atividades de maior complexidade e que  exigem  melhor  capacitação  profissional  e  um  entendimento  integrado,  holístico  e  transdisciplinar da atividade  turística.  Este  profissional  deve  possuir  formação ampla,  com  disciplinas em diversas  subáreas das  ciências  sociais e  humana s.  Portanto, ao analisar  tais  atividades  é  possível  distinguir  o  profissional  de  nível  superior  daqueles  que  atuam  em  atividades operacionais do turismo, sendo este caracterizado pela formação em cursos de nível  técnico (em turismo, agenciamento de  viagen s, eventos,  hospedagem, guia de turismo, entre  outros).   Os  cursos técnicos, de forma geral, podem  ser ofertados em  nível médio ou pós ­ médio, são cursos mais rápidos (com no mínimo 800 horas e duração de 2 a 3 anos), visando a  formação de  profissionais  foc ados  na atuação prática e operacional da área.  Já    função do  tecnólogo é muito parecida  com a do  técnico, porém  sua  formação é reconhecida  como de  nível  superior,  sendo, em geral,  cursos ofertados  com  no mínimo 1600 horas ao  longo de 2  anos. O tecnólogo  também possui  formação mais  voltada para atividades prática do turismo,  com  disciplinas  mais  específicas  de  gestão  e  operação  nas  áreas  de  eventos,  hotelaria,  gastronomia, gestão do turismo e lazer. Já os cursos de bacharelado em turismo têm duração  entre 3 e 4 anos e o  número mínimo de  horas é de 2400, passando por  conteúdos básicos,  específicos  e  teórico­práticos  do  turismo,  além  de  estágio,  atividades  complementares  e  Trabalho de Conclusão do Curso (BRASIL. Resolução 13, 2006; BRASIL,  Parecer CNE/CES  nº  8/2007).   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 103    O que ocorre  na prática é que a maior parte das atividades  operacionais, assim  como aquelas de planejamento e gestão da atividade acabam sendo, por vezes, realizadas por  bacharéis em turismo e/ou de áreas afins. Isso ocorre em função da falta de oportunidades de  trabalho  para  os  turismólogos  em  suas  áreas  especificas  de  atuação  definidas  pela  Lei  n° 12.591/2012,  além  de  desproporcionalidade  entre  a  oferta  de  egressos  e  a  procura  do  mercado por esse profissional e da concorrência com profissionais d e outras áreas no mercado  de trabalho. Esta realidade acaba por influenciar na remuneração do turismólogo, no seu plano  de carreira e na sua perspectiva de crescimento profissional de longo prazo.   Esta situação, atrelada à falta de regulamentação da profissão, p de desestimular a  escolha por este curso  superior e/ou aumentar a procura dos discentes por outras áreas afins,  com  melhores  perspectivas  de  trabalho  e  de  reconhecimento  profissional.  A  questão  da  regulamentação da profissão será abordada a seguir.   HISTÓRICO  DAS  TENTATIVAS  DE  REGULAMENTAÇÃO  DA  PROFISSÃO  DE  TURISMÓLOGO   A  regulamentação  de  qualquer  profissão  no  Brasil  deve  ser  feita  por  meio  da  proposição  de  um  projeto  de  lei  a  ser  apreciado  pelo  Congresso  Nacional,  enviado  por  iniciativa  de  deputados federais  e/ou  senadores,  bem  como  do  Presidente  da  República,  sempre influenciado pelos profissionais da área, associações de classe ou pela  sociedade em  geral.  O  projeto  de  lei  deve  ser  analisado  pela  Câmara  e  pelo  Senado  e,  posteriormente,  sancionado  pe lo  Presidente  da  República,  e  não  pode  ter  nenhum  artigo  contrariando  a  Constituição Federal.  Em  geral,  há  uma  grande  confusão  entre  regulamentar  e  reconhecer  uma  determinada profissão. Cabe, assim, destacar que profissões regulamentadas são definidas por  lei,  ou  seja,  tem regulamentação própria de direitos  e garantias,  além de definir  quem  pode  exercê­la.  Já  o  reconhecimento  de  uma  profissão  é  feita  pela  inclusão  da  mesma  na  Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), visando reconhecer a sua importância  perante a  sociedade. De acordo com Martoni (2012, p. 183)  Importa  salientar  que  há  diferenças  entre  reconhecimento  e  regulamentação:  regulamentar quer dizer propiciar  condição  legal, pelo Estado, a  uma determinada  profissão,  conferindo ­lhe  reconhecimento  p úblico  e  instrumentos  que  exijam  a  atuação  em  atividades  que  lhe  são  especificas  por  profissionais  diplomados  em  instituições de ensino reconhecidas, bem como o respaldo jurídico a profissionais e à  sociedade  [...].  Já  o  reconhecimento  é  meramente  a  oficialização  quanto  à  identificação  de  existência  de  um  determinado  profissional,  o  qual  não  A Regulamentação da Profissão   de Turismólogo   Raquel Faria Scalco   _____________________________________________________________ 104    necessariamente  precisa  se  valer  de  formação  para  atuar  no  rol  das  atividades  especificas de um dado setor e, principalmente, não pode contar com um conselho.     Assim, d estaca ­se que os egressos de cursos  superiores em turismo, bem como a  Associação  Brasileira de  Bacharéis  em  Turismo  (ABBTUR),  vêm,  historicamente,  lutando  para  alcançar  a  regulamentação  da  profissão  de  turismólogo  e  não  apenas  o  seu  reconhecimento.    As pri meiras tentativas de regulamentação da profissão de turismólogo ocorreram  logo que se formaram os primeiros egressos de cursos superiores em turismo no Brasil, ainda  na década de 70. Segundo Matias (2002, p. 25 apud  MARTONI, 2021, p. 180), o primeiro  projeto  de  lei,  de  número  64/1975,  foi  baseado  nas  reinvindicações  de  um  grupo  de  turismólogos,  recém ­formados,  e  encaminhado  pelo  deputado  federal  Amaral  Furlan.  O  mesmo  foi  vetado por desconsiderar os profissionais já atuantes  na área; por apresentar  um  piso  salarial; e por não apresentar uma descrição detalhadas das atividades que poderiam ser  realizadas pelo bacharel em turismo.   Alguns  anos  depois,  em  1981,  foi  fundada  a  ABBTUR,  atuando  como  entidade  representativa  dos  bacharéis  em  turismo,  com  a  finalidade  de  defender  seus  interesses  coletivos. Hoje a missão da ABBTUR é:  Congregar,  defender  e  representar  os  turismólogos,  promovendo  ações  que  favoreçam a maior atuação profissional, estimulando a produção do saber e do fazer  de forma ética e comprometida com o desenvolvimento  sustentável do Turismo, de  maneira  economicamente  viável,  socialmente  justa  e  ambientalmente  correta.  (ABBTUR, 2011).    Já em 1999,  com apoio da  ABBTUR,  foi encaminhado ao  Congresso  um  novo  projeto de  Lei, desta  vez pela deputada Maria Elvira, o qual dispunha  sobre o exercício da  profissão de turismólogo. Este projeto de Lei  foi integralmente  vetado, em 2005, pelo então  presidente Luís Inácio Lula da Silva. Durante este período de tramitação, outro projeto de lei  foi  apresentado  paralelamente  pelo  senador  Moreira  Mendes,  tratando  do  mesmo  assunto,  sendo este  sancionado por meio da  Lei 12.591/12,  tendo  vetado os artigos 1°, 3° e 4°  que  tratavam respectivamente dos requisitos para o exercício da profissão, da exigência de registro  em órgão  federal  competente  e do  prazo  de  apresentação da documentação  comprobatória  para o efetivo exercício da profissão, após a promulgação da referida lei. Os artigos  vetados  serão apresentados a seguir:  Art. 1º ­  A profissão de Turismólogo será exercida:  I ­ pelos  diplomados  em  curso  superior  de  Bacharelado  em  Turismo,  ou  em  Hotelaria,  ministrados  por  estabelecimentos  de  ensino  superior,  oficiais  ou  reconhecidos em todo o território nacional;  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 105    II ­ pelos diplomados em curso similar ministrado por estabelecimentos  equivalentes  no exterior, após a revalidação do diploma, de acordo com a legislação em vigor;  III ­ por aqueles que, embora não diplomados nos termos dos incisos I e II, venham  exercendo,  até  a  data  da  publicação  desta  Lei,  as  atividades  de  Turismólogo,  elencadas no art. 2º, comprovada e ininterruptamente há, pelo menos, cinco anos.   Art. 3º O exercício da profissão de Turismólogo  requer  registro em órgão  federal  competente mediante apresentação de:  I ­ documento comprobatório da conclu são dos cursos previs tos nos incisos I e II do  art. 1º,  ou  comprovação do exercício das  atividades  de  Turismólogo,  previsto  no  inciso III do art. 1º;  II ­ Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), expedida pelo Ministério do  Trabalho e Emprego.  Art. 4º A  comprovação do  exercício da  profissão de Turismólogo, de  que  trata  o  inciso III do art. 1º, far­se ­á no prazo de cento e oitenta dias, a contar da publicação  desta Lei. (BRASIL, Projeto de Lei n°290, 2001).    Assim,  a  Lei  n°  12.591/2012,  foi  sancionada  apenas  com  seu  artigo  2°,  descrevendo as atividades a serem desenvolvidas pelos turismólogos, conforme já apresentado  anteriormente.  Como  razão  para  o  veto  dos  demais  artigos  foi  relatado  o  seguinte:  "A  Constituição,  em  seu  art.  5º,  inciso  XIII,  assegura  o  livre  exercício  de  qualquer  trabalho,  ofício ou profissão, cabendo a imposição de restrições apenas quando houver a possibilidade  de ocorrer algum dano à sociedade” (BRASIL, CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2012). Desta forma, a referida  lei apenas reconhece a profissão de turismólogo,  citando as atividades que  podem ser desempenhadas por este profissional.   Analisando os  itens  vetados,  o mais  polêmico deles é o artigo 1°  que  trata dos  profissionais que poderão exercer a profissão de turismólogo, principalmente no que se refere  à inclu são dos profissionais provisionadas, autorizando o  seu exercício por profissionais  não  diplomados  na  área.  No  entanto,  a  inclusão  deste  item  é  obrigatória  em  processos  de  regulamentação  profissional,  sendo  uma  exigência  Constitucional  e  do  Ministério  do  Trabalho, uma vez que não se pode regulamentar uma profissão e isto representar desemprego  para as pessoas que já estão atuando na área e não possuem o diploma de curso superior. Na  prática,  caso  a  profissão  fosse  regulamentada,  estes  profissionais  provision ados  não  receberiam  um diploma de  curso  superior,  mas  podiam  ser  reconhecidos  e  continuariam  a  atuar  em  suas  respectivas  áreas  (agência  de  viagem,  hotelaria,  transportes,  eventos,  etc.),  tendo que  ser  cadastrados  na entidade de  classe representativa e  seguir as exigências  legais  para a categoria. Os demais artigos tiveram seu veto atrelado ao primeiro, já que o registro em  órgão federal competente só pode ser exigido para profissões regulamentadas por lei. Vale mencionar que, alguns  anos  antes, a  Lei Geral  do Turismo (BRASIL,  Lei  n°11.771, 2008), que dispõe  sobre a Política Nacional de Turismo, define as atribuições do  Governo  Federal  no  planejamento,  desenvolvimento  e estímulo  ao  setor  turístico,  já  havia  A Regulamentação da Profissão   de Turismólogo   Raquel Faria Scalco   _____________________________________________________________ 106    sido  sancionada  sem  fazer  qualquer  menção  aos  profis sionais  da área.  De  acordo  com  as  análises de Martoni, este equívoco se deve, em grande parte, pela falta de organização política  da  classe e da ausência de  conselhos e/ou  sindicatos atuantes em prol de questões  coletivas  destes profissionais. De acordo co m o autor:  Engenheiros  e  médicos  não  se  deparariam  com  leis  envolvendo  suas  respectivas  áreas sem menção aos profissionais devidamente formados, pois eles têm conselhos  profissionais. Ou,  caso  houvesse tal arbitrariedade do Estado,  contariam  com  força  cole tiva e  não  somente individual para os devidos enfrentamentos. Já os bacharéis  em  turismo  não  têm  um  conselho  representativo  de  categoria  e  o  mero  reconhecimento  da  profissão  não  lhes  conferem  exclusividade  de  atuação  em  atividades específicas da área, as quais são descritas em vários projetos de lei, como  o 290/01, o qual também norteia, nesse quesito, a 12.591/12. (MARTONI, 2021, p.  182).    Após  a  grande  frustação  gerada  pela  promulgação  das  leis  n°11.771/2008  e  n°12.591/2012 sem garantir a regulação da profissão, em 2015, foi apresentado ao Congresso  o  Projeto  de  Lei  nº  2.478,  de  autoria  do  Deputado  Adalberto  Cavalcanti,  propondo  modificações  na  Lei  nº  12.591.  Tal  proposta  visa  incluir  na  lei  os  profissionais  a  serem  considerados turismólogos, conforme prop osto no Projeto de Lei n°290/2001, incluindo além  daqueles  diplomados  em  cursos  superiores  de  Turismo  do  Brasil  e  do  exterior  (com  revalidação do diploma  no Brasil), os turismólogos provisionados, ou  seja, aqueles que  vêm  desenvolvendo a atividade  há mais  de  cinco anos. Esse projeto de  lei ainda  se encontra em  tramitação  no  Congresso  Nacional,  a guardando  parecer  do  Relator  na  Comissão  de  Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC).  Destacaremos na sequência alguns dos principais argumentos utilizados por q uem  defende e por quem ataca a regulamentação da profissão.     PRÓS  E  CONTRAS  DA  REGULAMENTAÇÃO  DA  PROFISSÃO  DE  TURISMÓLOGO    O principal benefício  citado pelos defensores da regulamentação da profissão de  turismólogo, assim  como de qualquer outra profissão,  se refere à criação de uma reserva de  mercado para atuação exclusiva dos profissionais formados em nível superior de bacharelado  na  área,  no  Brasil  ou  aqueles  provenientes  de  instituições  estrangeiras  com  diploma  revalidado  no  Brasil.  Ademais,  como  já  apontado,  é  imprescindível  que  no  processo  de  regulamentação  haja  respeito  pelos  profissionais  que  já atuam  na área,  incluindo ­os  como  turismólogos provisionados, para que a lei não ocasione desemprego em massa.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 107    Com  a  regulamentação  da  profissão,  as  áreas  de trabalhos  são  claramente  definidas e há uma tendência à maior valorização profissional dos mesmos, já que a atuação  no mercado  se torna mais restrita, diminuindo a  concorrência  com profissionais egressos de  outros cursos (superiores e/ou de nível técnico).   Vale  citar  ainda  que,  com  a  regulamentação  da  profissão,  seria  necessária  a  criação de  um  Conselho  Nacional de Turismólogos,  com a  função de  registrar,  fiscalizar e  disciplinar o exercício da profissão regulamentada e de defender os interesses profissiona is da  classe.  Assim, a  criação de  um  conselho profissional pode trazer diversos outros benefícios  para  a  categoria,  como  o  engajamento  nas  lutas  sociais  para  a  construção  de  espaços  democráticos, a defesa de políticas públicas para o setor, priorização de ações que estimulem  a qualificação dos profissionais, melhores condições de trabalho, democratização das relações  profissionais, entre  outros  aspectos  importantes  para  qualquer área de atuação profissional.  Para tanto, os profissionais filiados devem pagar  uma anuidade ao conselho para que o mesmo  consiga funcionar, fiscalizar e defender os interesses da classe e de seus integrantes.   A despeito de toda a luta pela regulamentação da profissão de turismólogo e dos  possíveis  benefícios  que  a  mesma  pode  trazer, é  preciso  considerar  que  existe  uma  forte  tendência  internacional  para  a  desregulamentação,  tanto  profissional  como  também  em  relação à forma como as empresas atuam no mercado. No contexto de expansão das políticas  neoliberais  no Brasil e em  vários outros  países do mundo,  vale ressaltar que as  chances de  uma nova profissão, como a turismólogo, ser regulamentada é muito pequena. Por outro lado,  recentemente algumas profissões foram desregulamentadas no Brasil como, por exemplo, a de  jornalista, em 2009. Ademais, destaca ­se que, de acordo com Trigo (2012, s.p), “as profissões ligadas ao turismo não são regulamentadas em nenhum país do mundo, nem no Brasil”. Assim, a tendência global  no mundo  capitalista  neoliberal é que,  cada  vez mais, o mercado  dite as regras  sobre quem pode exercer cada atividade, bem como de que forma as empresas  irão atuar  no mercado,  considerando a  livre  concorrência, o  livre exercício profissional e o  atendimento às demandas dos consumidores.   Martoni faz uma interessante análise sobre as  características da política neoliberal  e suas repercussões na vida das pessoas.    Dentre  outras,  o  neoliberalismo  é  concretizado  e  caracteriza ­se  pelas  seguintes  substituições:  do  público  pelo  privado;  da  cooperação  pela  concorrência;  da  coletividade  pelo  individualismo;  da  solidariedade  pelo  assistencialismo;  da  segurança  pela  insegurança; do  referencial  de  trabalho  para  viver  pelo  referencial  mais  alienante  da  vida  pelo  e  para  o  trabalho  precário;  da  regulamentação  pela  desregulamentação.  Tais  processos  de  exacerbação  mercantil  são  mediados  e,  ao  A Regulamentação da Profissão   de Turismólogo   Raquel Faria Scalco   _____________________________________________________________ 108    mesmo  tempo,  têm  dentre  seus  produtos  concretos  a  desigualdade  social  e  o  fundamentalismo religioso. (MARTONI, 2021, p.173  – 174)    Outro aspecto a ser ressaltado é que a regulamentação não garantirá que todos os  profissionais tenham reserva de mercado e garantia de bons empregos, e nem que as empresas  e órgãos públicos contratem esse profissional. Para Trigo:  O engodo foi simplesmente o erro sistemático de avaliação por parte de alguns, em  insistir em algo que é arc ico, inútil e que não resolverá os nossos problemas que é a  regulamentação de uma série de profissões ligadas a viagens e turismo que, por sua  natureza,  são  múltiplas,  complexas  e  sofisticadas,  logo,  impossíveis  de  serem  regulamentadas. (TRIGO, 2012, s.p)    O  mesmo  autor  destaca,  ainda,  que  o  mercado  de  trabalho  ligado  a  viagens  e  turismo  ficou  mais  exigente  nos  últimos  anos,  demandando  profissionais  cada  vez  mais  qualificados, exigindo habilidades e competências que muitos cursos técnicos e/ou superiores   não conseguem garantir, devido à qualidade de alguns desses cursos, ao despreparo de muitos  professores e à falta de dedicação dos alunos.  Assim, o  setor de  serviços  ligados ao turismo  tem contratado profissionais qualificados provenientes de diversas áre as, tais como: educação  física,  administração,  economia,  geografia,  gastronomia,  arquitetura,  urbanismo,  políticas  públicas, turismo, hotelaria, dentre outras.   Destaca ­se,  no  entanto,  que  os  bons  profissionais,  com  as  habilidades  e  competências  exigidas  pelo  mercado,  em  geral,  acabam  conseguindo  se  inserindo  como  profissionais contratados, autônomos ou concursados, seja em funções operacionais, táticas ou  estratégicas, tanto no setor público, como no privado ou no terceiro setor. Portanto, entende­s   que a regulamentação da profissão de  turismólogo, além de  ser  uma  utopia,  não garante a  melhoria da qualidade do profissional que atua no mercado, nem tampouco o reconhecimento  mercadológico  de  que  tanto  precisamos.  Assim,  entende ­se  que  mais  importante  que  lut ar  contra  a  corrente  para  conseguir  a  utópica  regulamentação  da  profissão  de  bacharel  em  turismo, faz ­se necessário melhorar a qualidade do ensino nos cursos técnicos e superiores da  área  e  entregar  ao  mercado  de  trabalho  profissionais  capacitados,  competentes  e  comprometidos  com  o  desenvolvimento  desse  importante  setor  no  Brasil.  De  acordo  com  Trigo (2016, s.p): Esses setores não precisam de “regulamentação”, mas sim de organização que garanta  um  alto  nível  de  formação  profissional,  segurança  e  qualidade  às suas  atividades. Algumas atividades podem ser regulamentadas de alguma  forma, porém  os  profissionais  precisam  de  competência  expressa  por  eficiência  e  eficácia  no  exercício de seu trabalho e não uma burocrática e ineficaz “regulamentação da profissão”. I nserção e sucesso profissional não são garantidos pela regulamentação e  nem mesmo exclusivamente por um curso superior.     Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 109    Fato é que a busca pela regulamentação da profissão não está somente relacionada  a uma restrição de mercado, mas está atrelada também a u a preocupação social e trabalhista  com os profissionais que atuam  na área e que gostariam de assegurar  seus direitos e ter  um  reconhecimento,  como  as  demais  profissões.  No  entanto,  para  que  isso  aconteça  é  imprescindível  uma atuação política dos estudan tes, professores e profissionais da área,  seja  por meio da ABBTUR, seja por meio de outra associação de classe que represente e defenda  os  direitos  desses  profissionais. Porém,  o  que  nos  parece é  que  não  somos  uma  categoria  politizada  e  unida,  e  esse  fato atrelado  às  tendências  trazidas  pelo  neoliberalismo  (de  precarização do trabalho, individualismo e desregulamentação) dificultam, ainda mais, a luta  por  condições de trabalho dignas e diferenciadas daquelas  condições mínimas preconizadas  pela CLT para a categoria de turismológos no Brasil.   Nesse  sentido,  vale  salientar  que  o  profissional  de  turismo,  que  deseja  ter  reconhecimento  pelo  mercado  deve  investir  em  sua  formação  profissional  em  instituições  educacionais de qualidade, buscando  constantemente  se atualizar, ter  visão de  futuro e estar  antenado às inovações  tecnológicas  na área (RIGOLDI et. al, 2020, p.176). Deve ainda  ter  conhecimentos  em  línguas  estrangeiras,  bagagem  cultural  e  compreensão  de  toda  a  complexidade da atividade turística.   A seguir, trataremos do papel da ABBTUR, tanto pa ra a garantia da qualidade do  profissional da área, quanto na defesa da regulamentação da profissão.    A AB BTUR E A REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO DE TURISMÓLOGO   A  ABBTUR é  uma  associação  civil  de  caráter  privado  e  sem  fins  lucrativos,  dedicada a defender os interesses da  categoria. Necessário  se  faz  frisar que ela  não exerce a  função de Conselho Profissional,  sendo que a afiliação dos turismólogos é  facultativa e  não  equivalente a um registro profissional em um conselho de classe de natureza autárquica.    Como  uma associação profissional, a  ABBTUR  tem  sido a principal  instituição  que  historicamente tem  se dedicado à luta pela regulamentação da profissão, desde a década  de 90. Assim, no entendimento da instituição, o reconhecimento da profissão foi um avanço,  mas é necessário caminhar ainda mais na luta pela regulamentação profissional.   Destaca ­se que a ABBTUR tem se dedicado a algumas pautas concernentes a este  tema, destacando  sempre  a  importância  dos  turismólogos/profissionais  de  turismo  para  o  desenvolvimento  e  crescimento  da  atividade  turística  de  forma  planejada,  organizada  e  profissionalizada,  visto  que  estes  possuem  qualificação,  formação,  experiência  e  expertise  A Regulamentação da Profissão   de Turismólogo   Raquel Faria Scalco   _____________________________________________________________ 110    para  realizar  atividades  que  integram  os  vários  segmentos da  cadeia  produtiva do  turismo.  Nesse  sentido,  uma  das  estratégias  adotadas é  lutar  para  reconhecer  a  profissão  como  de  interesse  público  e,  assim,  destacar  a  necessidade  de  qualificação  profissional  em  nível  superior,  dada  a  enorme  responsabilidade  daqueles  que  atuam  nos  setores  estratégicos  do  turismo, no planejamento, na criação de politicas públicas para o setor, dentre outra áreas. A  justificativa para a profissão  ser reconhecida  como de inte resse público se dá pela “atuação profissional na colaboração da prevenção da saúde da coletividade, na proteção do patrimônio  e como instrumento do desenvolvimento sustentável” (SILVA JÚNIOR, 2019, p.18)  Além  disso,  vale  destacar  que  a  Lei  Geral  do  Turism o  está  sendo  revisada  no  Congresso Nacional e houve uma proposta da ABBTUR de revisão do texto legal no sentido  de incluir aspectos  ligados ao profissional da área no artigo 21° da referida Lei, por meio da  caracterização  daqueles  profissionais  que  podem  s er  considerados  como  prestadores  de  serviços turísticos, bem  como a possibilidade de incluir  um artigo para exigir o  cadastro dos  turismólogos (bacharéis,  tecnólogos,  licenciados e provisionados)  no  CADASTUR além do  registro  legal de tal profissional. No entanto, todos esses apontamentos da  ABBTUR  foram  ignorados a partir do Governo Temer, e a reestruturação da Lei Geral do Turismo segue sem a  inclusão e discussão sobre o profissional que atua na área. De acordo com o ex ­presidente da  ABBTUR:    Até 2015,  haviam  propostas de alteração,  inclusões,  exclusões  e  nova  redação de  forma participativa  com membros do Conselho Nacional de Turismo. No governo  Temer,  fomos excluídos oficialmente da possibilidade de  sermos  contemplados  na  alteração da Lei Geral do Turismo no Artº21 (SILVA JÚNIOR, 2019, p.33)    Ademais, a ABBTUR tem destacado a necessidade de se estabelecer “um piso salarial referencial mínimo nacional como forma de valorização do profissional e a criação de  um Conselho Federal de Turismo, para a regulamentaç ão e fiscalização dos serviços prestados  pelos profissionais de turismo” (ABBTUR, 2022, p.1). No entanto, os conselhos autárquicos só são criados a partir de instrumentos legais (decretos e leis), pelos órgãos da administração  pública  federal, para aquelas profissões já regulamentadas.  A  ABBTUR destaca  no mesmo  documento a necessidade de se tornar obrigatória a contratação do turismólogo/profissional de  turismo em atividades ligadas aos vários segmentos do setor.  Por fim, vale ainda citar o empenho da ABBT UR em buscar o apoio do mercado  de trabalho, por meio de parcerias com empresas públicas, órgãos públicos e organizações do  terceiro  setor,  visando  à  melhoria  da  qualidade  dos  cursos  superiores  e  de  capacitação  profissional,  no  sentido de  se  atingir  a  excelência  na  prestação de  serviços  turísticos  e de  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 111    possibilitar  maior  desenvolvimento  social  e  econômico  a  partir  da  promoção  de  políticas  públicas na área.   Uma  das  estratégias  para  atingir  tais  objetivos  é  a  representação  atuante  da  ABBTUR  no Conselho Nacio nal de Turismo, órgão colegiado que  conta  com a participação  de representantes do governo federal e de entidades representativas dos diversos segmentos e  atividades  do  turismo  (tais  como  ABAV 11,  ABETA 12,  ABIH 13,  ABRASEL 14,  ANAC 15,  BRAZTOA 16, SENAC 17, etc). Este conselho tem por finalidade assessorar o Ministro da pasta  nas  tomadas  de  decisão,  na  formulação e execução da Política  Nacional  de  Turismo,  bem  como dos planos, programas, projetos e atividades dela derivados.   Além  disso,  a  entidade  ainda  preza  por  difundir  uma  imagem  positiva  do  profissional  no  mercado  de  trabalho,  zela  pela ética  profissional  e  ainda  visa  promover  o  intercâmbio de conhecimentos e a cooperação interna da categoria.  Para que a Associação consiga realizar suas ações e concretizar seus objetivos, ela  depende de recursos de seus filiados por meio do pagamento de anuidades, podendo se filiar à  mesma: “os bacharéis de turismo e/ou hotelaria; Tecnólogos (Eventos, Gastronomia, Gestão Desportiva e de Lazer, Gestão em Turismo e Gestão em Hotelaria); Licenciados em Turismo;  Técnicos do eixo Turismo, Hospitalidade e Lazer (agenciamento de viagem, cozinha, eventos,  guia  de  turismo,  hospedagem,  lazer, bar  e  restaurante);  profissionais  graduados  em  outras  áreas, futuro provisionados, que já atuam na área; profissionais que trabalham nas atividades  características do turismo, sem formação específica; estudantes; pessoas jurídicas que prestem  serviços a causa do turismo ou a entidade” (SILVA JÚNIOR, 2019, p.4).   Assim, a ABBTUR segue, há pelo menos três déca das se dedicando a defender os  interesses da  categoria junto aos órgãos públicos e ao trade turístico,  como apontado acima,  sobretudo  no  que  se  refere  à  regulamentação  da  profissão.  No  entanto,  como  apontado  anteriormente, existem diversos entraves e gargalos  nesse  processo,  o que  não impede que                                           11 Associação Brasileira de Agências de Viagens.   12 Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura.   13 Associação Brasileira da Indústria de Hotéis.  14 Associação Brasileira de Bares e Restaurantes.  15 Agência Nacional de Aviação Civil.   16 Associação Brasileira das Operadoras de Turismo.  17 Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial.   A Regulamentação da Profissão   de Turismólogo   Raquel Faria Scalco   _____________________________________________________________ 112    outras  lutas  sejam  encaradas  pelos  profissionais  da  área  para  sermos  reconhecidos  pelo  mercado de trabalho como um profissional  competente e insubstituível, como será tratado na  sequência.     O  QUE  FAZER  PARA  SERMOS  RECONHECIDOS  PELO  MERCADO  DE  TRABALHO?   Apesar  de  todos  os  entraves  legais  e  da  tendência  internacional  caminhar  contrariamente à regulamentação da profissão de turismólogo, os atuais e futuros profissionais  da área têm muitos aspectos a serem trabalhados para garantir o reconhecimento pelo mercado  e se mostrar como um profissional insubstituível.    O primeiro aspecto que merece atenção diz respeito à qualidade do ensino e do  profissional  que  está  chegando  ao  mercado.  É  urgente  a  necessidade  de  se  melhorar  a  formação  acadêmica  e  continuada  deste  profissional,  aliando  teoria  e  prática,  inovação  e  tecnologia, conhecimentos gerais e competências técnicas específicas para a atuação na área,  como apontado a seguir.  Nossa  preocupação  deve  ser  muito  mais  com  a  qualid ade  do  ensino  e  com  a  qualificação  das  pessoas  que  colocamos  no  mercado,  do  que  com  a  articulação  apenas  de  uma  fatia  privativa,  para  os  futuros  turismologos.  As  Instituições  de  Ensino  superior  precisam  buscar,  primeiro,  o  reconhecimento  do  mercado,  o  inte rcâmbio internacional, o aprimoramento docente, pois terão, assim, argumentos  fortes, para convencer os  legisladores, das  competências exclusivas de um bacharel  em turismo, que ensejam a sua regulamentação (BOITEUX; WERNER, 2005, s.p.).    Ademais,  faz ­se  ne cessário  que  os  docentes  e  discentes  tenham  orgulho  da  profissão que escolheram,  saibam  falar das  competências,  capacidades e diferenciais desses  profissionais,  bem  como  compreender  sua  área  de  atuação.  Neste  sentido,  é  possível  desenvolver ações e projetos  voltados à divulgação da importância desse profissional para o  desenvolvimento  turístico,  social  e  econômico  do  país,  além  de  defender  este  discurso  também nas relações informais.   Destaca ­se, ainda, a necessidade de um maior investimento na educação bás ica  e  superior pública e de qualidade, na pesquisa, na ciência, na ampliação da oferta de bolsas de  pesquisa, extensão, monitoria, manutenção, entre outras. Por outro  lado, é necessário que os  discentes  estejam  mais  engajados  e  comprometidos  com  sua  forma ção  acadêmica,  aproveitando todas as oportunidades de ampliação de conhecimentos, tanto dentro como fora  de  sala de  aula,  se dedicando às disciplinas,  participando de  projetos,  se  envolvendo  com  empresas  júniores,  aproveitando  oportunidades  de  estágios,  etc.  A  participação  em  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 113    congressos,  simpósios,  encontros  de  estudantes  e  outros  eventos  científicos  também  é  fundamental para estarem atualizados quanto às  novidades e tendências da área, os debates  sobre a atuação profissional da classe e o mercado de trabalho.   Outro aspecto que merece ser considerado é a atuação política da classe, desde os  estudantes, docentes até os profissionais do trade turístico, que precisam ter maior consciência  da luta de classes, da força que um coletivo pode ter para defender seus direitos. O fenômeno  turístico  não  pode estar descolado  das  questões  políticas  maiores,  como  se  o  turismólogo  fosse  uma simples  força de trabalho  submissa às  leis do Capital. É preciso entender também  que a educação e a política devem caminhar juntas  na luta para a formação de um indivíduo  crítico,  defensor  de  seus  direitos  e  consciente  de  seus  deveres.  Assim,  os  espaços  de  participação,  de  discussão  e  de  atuação  política  precisam  ser  ocupados,  desde  as  representações em colegiados de curso,  centros acadêmicos, diretórios acadêmicos, passando  pela participação em conselhos municipais e estaduais de turismo, instâncias de governanças  regionais, fóruns, até a filiação à ABBTUR, para que a mesma possa continuar exercendo seu  papel  no  sentido de defender os interesses profissionais da  categoria. Outra ideia é batalhar  pela organização política  sindical da categoria, para que possamos  ser ouvidos e respeitados  perante os órgãos públicos e o trade turístico. Sobre essa atuação política e coletiva, Martoni  argument a:  Sempre sob o mote da cidadania, o neoliberalismo vai tratar de substituir, objetiva e  subjetivamente, a  noção de  coletividade pela de individualismo; e a de  cooperação  pela  de  competitividade.  No  campo  das  discus sões  acerca  da  regulamentação  da  profissã o de turismólogo isso fica claro quando o referencial social (da sociedade de  classes e de  suas  necessárias  lutas) é menosprezado e  substituído pelo  referencial  individual,  ou,  de  forma  mais  direta,  quando  se  considera  cidadão  aquele  que  se  dedica e empreend , mas não aquele que busca se organizar politicamente a partir da  noção  mais  ampla  de  classe  social  como  amparo  à  atuação  no  mar  revolto  do  mercado (MARTONI, 2021, p.178).    Por  fim,  vale destacar que em  todos estes  momentos, de  formação acadêmica e  cont inuada, de atuação política e de atividades extraclasse é  necessário estar  comprometido  com uma atuação profissional ética, competente e humana, pois para além da própria carreira  que está em construção, os profissionais também carregam consigo o seu curso  de formação e  o nome das instituições de ensino por onde passaram. Estas são também oportunidades únicas  de construir uma rede de relacionamentos e contatos profissionais, que muito poderão auxiliar  para a sua efetiva entrada e permanência no mercado de trabalho.  Assim,  compartilhando da  opinião de Trigo  abaixo, entende­se  que  todos  estes  aspectos apontados anteriormente  neste tópico  são imprescindíveis para que os profissionais  A Regulamentação da Profissão   de Turismólogo   Raquel Faria Scalco   _____________________________________________________________ 114    da área,  nos  diferentes  níveis  de  formação,  sejam  mais  reconhecidos  pelo  trade e  tenham  maior  competência  para  atuar  e  competir  com  profissionais  de  outras áreas,  atuando  com  excelência, profissionalismo e ética no mercado de trabalho.   Se  almejamos  um  turismo  respeitado  neste  país,  temos  que  lutar  pela  qualidade  técnica  e  holística  de  nossos  estudantes  e  profissionais,  em  todos  os  setores  da  sociedade. Temos  que desenvolver  suas  habilidades e  competências, exercitar  sua  consciência e criticidade, enxergar os  verdadeiros desafios e os  caminhos  férteis do  futuro e abandonar as trilhas  estéreis de um passado distante. (TRIGO, 2012, s.p.).      Conclui ­se, portanto, que mais  importantes e  viáveis do que  lutar pela regulamentação da  profissão de bacharel em  turismo,  se  faz  necessário  lutar pelo  reconhecimento do mercado  sobre a importância desse profissional e de suas habilidades e competências exclusivas, como  argumentado por Trigo.    CONSIDERAÇÕES FINAIS   A apresentação sobre o tema de regulamentação da profissão de turismólogo em  evento do curso de turismo da UFVJM, assim como a redação dess e capítulo, atingiram seus  objetivos no sentido de difundir e de trazer à tona a discussão sobre esse processo, bem como  clarear para discentes e docentes  da área qual é a proposta atual  para a regulamentação da  profissão e porque ela vem sendo recorrentem ente vetada pelo Governo Federal.   Foram  discutidos  os  aspectos  centrais  das  características,  formação  e  competências desse profissional, o  histórico do processo de regulamentação da profissão  no  Brasil,  seus  prós  e  contras,  assim  como  apontamentos  sobre  a ções  que  devem  ser  empreendidas buscando o reconhecimento profissional por parte do mercado de trabalho. Esta  temática, quando abordada em eventos acadêmicos ou em sala de aula, deixa clara a falta de  conhecimento dos estudantes  sobre o tema e as discussõe s acabam  se  concentrando  sobre o  aspecto dos  profissionais  provisionados,  com  certa indignação por parte dos discentes,  sem  um entendimento da exigência  constitucional. Desta  forma, questões mais profundas  sobre a  tendência  global  à  desregulamentação  no  cenário  neoliberal,  os  desdobramentos  sócio econômicos desse processo, e atitudes que podem mudar a  forma  como o mercado de  trabalho enxerga e absorve estes  profissionais raramente são  discutidos e reconhecida s  como  ações viáveis, exequíveis e geradoras de maior resultado a curto e médio prazo.  Corroboramos, assim, com as ideias de Trigo, que destaca a necessidade maior de  reconhecimento  mercadológico  e  social  da  profissão  de  turismólogo  do  que  de  fato  da  regulamentação  em  si.  E  para  isso é  fundamental  a  melhoria  da  qualidade  do  ensino,  da  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 115    dedicação dos  estudantes, de  inovação e de  postura  profissional,  conforme  salientado  pelo  autor.  É disso que precisamos, de reconhecimento por parte da sociedade e do mercado e  não de uma „regulamentação‟ falsa e meramente formal,  dada  a  contragosto,  de  maneira  inócua,  estéril.  Não  precisamos  disso,  nosso  reconhecimento  social  e  profissional, político e cultural, se dará somente pelos esforços comuns em busca da  excelência  e  da  seriedade  profissional.  Com  ética,  fundamentos  co nceituais  e  metodológicos  sólidos,  com  visão  clara  e  inovadora  do  presente  e  do  futuro  (TRIGO, 2012, s.d.).    Assim, há muito que se fazer nesse sentido, tanto por meio de políticas públicas e  educacionais  fortes  e alinhadas  com a  realidade  local,  regional  e  nacional, envolvimento e  politização dos estudantes com causas coletivas, investimento em uma formação de qualidade  na área de  turismo,  aproveitando  todas  as  oportunidades  de  ampliação de  conhecimento  e  defesa  de  uma  imagem  positiva  desse  profissional  em  todos  os  lugares  por  onde  estejam  (estágios,  postos  de  trabalho,  relações  sociais,  etc.).  Só  assim  os  turismólogos  terão  o  reconhecimento  profissional,  mercadológico  e  social  como  profissionais  competentes  e  insubstituíveis.     REFERÊNCIAS   ABBTUR  – Associaç ão  Brasileira  de  Bacharéis  em  Turismo.  Quem  é  o  Bach arel  em  turismo  ou  turismólogo.  2011.  Disponível  em: https://www.abbtur.org.br/.  Acesso  em  05/06/2022.    ABBTUR.  – Associação Brasileira de Bacharéis em Turismo.  Missão.  2011. Disponível em:  https://turismologar.wordpress.com/abbtur ­associacao ­brasileira­de­turismologos ­e­ profissionais ­de­turi smo/ . Acesso em: 18/01/2023;    Fórum  Nacional  da  ABBTUR.  Carta  Aberta  à  Sociedade .  2022 ­  Natal/RN   Diretrizes  para  a  Sustentabilidade  Profissional .  Disponível  em:  https://www.abbtur.org.br/post/carta­abbtur­sociedade.html . Acesso em 13/02/2023.    BOITEUX,  Bayard;  WERNER,  Maurício.  O  Turismólogo  e  a  regulamentação  da  profissão.  2005.  Disponível  em: https://monitormercantil.com.br/o ­turismulogo ­e­a­ regulamentauuo ­da­profissuo/ . Acesso em: 05­06­2022.    BRASIL.  Constituição Federal Brasileira.  Brasília, 1988    BRASIL.  Lei  n°11.771, de 17 de  setembro  de 2008. Dispõe  sobre a Política Nacional de  Turismo,  define  as  atribuições  do  Governo  Federal  no  planejamento,  desenvolvimento  e  estímulo ao setor turístico; revoga a Lei no 6.505, de 13 de dezembro de 1977, o Decreto­Lei  n o 2.294, de 21 de novembro de 1986, e dispositivos da Le no 8.181, de 28 de março de 1991;  e dá outras providências. Brasília, 2008.    A Regulamentação da Profissão   de Turismólogo   Raquel Faria Scalco   _____________________________________________________________ 116    BRASIL.  Lei n° 12.591, de 18 de Janeiro de 2012. Reconhece a profissão de Turismólogo e  disciplina o seu exercício. Brasília, 2012.    BRASIL.  Parecer do Conselho Nacional de Educ ação/Câmara de Educação Superior  nº  8, de 31 de janeiro de 2007.  Dispõe sobre carga horária mínima e procedimentos relativos à  integralização e duração dos  cursos de graduação, bacharelados,  na  modalidade presencial.  Brasília, 2007.    BRASIL.  Projeto  de  Lei  n°290,  de  2001. Dispõe  sobre  regulamentação  do  exercício  da  profissão de turismólogo. Brasília, 2001    BRASIL.  Projeto de Lei nº 2.478, de 2015. Altera o art. 2º da Lei nº 12.591, de 18 de janeiro  de 2012, que "reconhece a profissão de Turismólogo e disciplina o seu exercício", para dispor  sobre a formação desse profissional. Brasília, 2015.    BRASIL.  CÂMARA  DOS  DEPUTADOS.  Razões  dos  Vetos.  2012.  Disponível  em;  https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2012/lei­12591­ 8­janeiro­2012­612300­veto ­ 134968­pl.html .  Acesso em: 18/01/2023.    BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO.  Resolução  nº 13, de 24 de  novembro de 2006 .  Institui as Diretrizes Curriculares  Nacionais do Curso de Graduação em Turismo e dá outras  providências. Brasília/DF, 2006.    JUNIOR, Elizário Pereira da Silva. A importância da  cadeia produtiva e da qualificação da  gestão para o desenvolvimento dos destinos  turísticos  sustentáveis. In.  Semin ário Nacional  de Governança para o Turismo.  Palestra proferida. Capitólio/MG, Jul/2019. Disponível em:  http://governancaparaoturismo.cnm.org.br/as sets/downloads/captolioMG/12.07_Elzario_ABB TUR.pdf  Acesso em: 18/04/2023.    MARTONI,  Rodrigo  Meira.  “Turismólogos” à Deriva:   as  lutas  pela  regulamentação  profissional  no  mar  revolto  do  mercado.  Revista  do  Centro  de  Pesquisa  e  Formação.  Junho/2021.    RIGOLDI,  Aracelis Gois Morales; CREMONEZI, Graziela Oste Graziano; SOLHA, Karina   Toledo; SPERS, Valéria Rueda Elias; VIEIRA, Marli Terezinha.  O Bacharel em Turismo e as  Políticas Públicas de Turismo: o caso das estâncias turísticas  no estado de São Paulo, Brasil.  In .  Revista Rosa dos Ventos Turismo e Hospitalidade,  12(1), 169­1 1. Caxias do Sul/RS,  2020.    TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi.  Regulamentação do turismólogo: enganos e engodos.  2012.  Disponível  em:  https://www.hoteliernews.com.br/luiz ­trigo­regulamentacao ­do­turismologo ­ enganos ­e­engodos/. Acesso em: 19­01­2023.    TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi .  Regulamentação profissional em turismo  –  um erro histórico.  2016.  Disponível  em:  http://luiztrigo.blogspot.com/2016/01/regulamentacao­profissional ­em ­ turismo.html .  Acesso em: 13/02/2023.      Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V. Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___       SERES EM TRÂNSITO: C IDADANIA, TURISMO E  RENDA EM UMA  PERSPECTIVA ORGANIZA CIONAL CRÍTICA             Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Doutorando e Mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais  rvccarvalho@gmail.com     Gabriel Farias   Alves Correia   Doutor em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais  correiagfa@gmail.com        INTRODUÇÃO    O  objetivo  deste  capítulo é  refletir  sobre  as  relações  entre  turismo,  cidadania,  renda e espaço, por meio de uma perspectiva organizacional  crítica. Os temas propostos  são  atravessados pelas reflexões  sobre a condição humana de transitar pelo mundo, pela questão  da renda,  seus impactos  na  cidadania e  nos espaços em  um  contexto do turismo. Rodrigues  (1997)  já  chamava  atenção  para  as  áreas  de  dispersão,  de  deslocamento  e  de  recepção  vinculadas  ao  turismo,  de  tal  modo  que  o  espaço  turístico  se  torna  objeto  de  estudo  nas  Ciências Sociais Aplicadas (CORIOLANO; LIMA, 2003; GOMES; MARCUSSO, 2022).   Compreendemos  a  complexidade  que  está  imbricada  nos  estudos  do  turismo,  considerando ­o  como  fenômeno  social  que  perpassa  as  dimensões  sociais,  econômicas,  culturais  e  ambientais  (BENI,  1998,  2007;  BORGES;  SILVA,  2016).  Os  autores  ainda  reforçam  que  o  turismo envolve, dentre  outras  questões,  fatores  culturais  e  científicos  que  interferem  na escolha de destinos,  os  meios de mobilidade, a permanência  nas  localidades,  objetivos  da  viagem  e  fatores  de  realização.  Entretanto,  cabe­nos  questionar:  a  quem  são  viabilizadas as  formas de vivenciar os atrativos das  localidades?  A quem  são viabilizadas as  experiências  da  vida?  A  quem  se  destina,  no  mesmo  sentido  colocado  anteriormente  por  Benjamin (1987), a redução das experiências? Sujeitos que  se deslocam  com  uma renda são  tratados como turistas, mas e sujeitos que se colocam em trânsito para as localidades, mas que  não possuem renda ou  condições materiais  necessárias para inclusão  no  sistema  capitalista,  são considerados da mesma forma? Existe, afinal, o turista deseja do e o indesejado? Os outros  modos de existir, tais como tratados em Pelbart (2016), amplificador de multiplicidades de ser  e estar no mundo, podem se manifestar no contexto turístico?    Ao  mesmo  tempo,  inserimos  as  discussões  aqui  propostas  no  contexto  dos   Estudos  Organizacionais,  conforme  Saraiva  e  Ipiranga  (2020),  refletindo,  a  partir  de  uma  Seres em Trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica       Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Gabriel Farias Alves Correia   _____________________________________________________________ 118    dimensão crítica, visões alternativas sobre práticas e poderes inseridos nos espaços do mundo.  Neste capítulo concordamos com a perspectiva anterior de Ipiranga et al . (2019, p. 5) de que a  adoção de uma perspectiva histórica “confere à cidade um referencial específico situado nos meandros  da  reflexão  sobre  o  tempo  e  na  construção  de  espaços  urbanos  de  história  e  memória”. Por isso, posicionar nosso trabalho como aquele  que  considera  as  influências  temporais em  uma espacialidade em que as  vivências (ou a ausência delas) dos  sujeitos  no  espaço  alteram  suas  próprias  condições,  sendo  transformado  em  território,  lugares,  mas  também em não­lugares (COIMBRA; SARAIVA, 2014; SA RAIVA et al., 2014; IPIRANGA;  LOPES, 2017).  Para  tanto,  este  capítulo,  a  partir  de  uma  revisão  de  literatura,  apresenta  uma  análise organizacional crítica transdisciplinar: ela combina contribuições teóricas de espaço e  lugar trazidas por Lefebvre e Certeau, bastante discutidas  nos Estudos Organizacionais,  com  elementos da geografia crítica de Milton Santos que pensa a cidadania também pela noção de  espaço.  Além disso, aliamos  tais aspectos  com a teorização política de Hannah  Arendt que  pensa a cidadania pela condição espacial do deslocamento: a ideia das pessoas deslocadas ou  expulsas do mundo ( displaced people ). Assim, partimos dos conceitos de espaço e lugar, para  pensar a  condição  humana do turismo  como aspecto da  cidadania decorrente da experiência  de  transitar  livremente  pelo  mundo.  Neste  sentido,  criticamos  o  olhar  organizacional  tradicional da Administração (management ) que reduz o turismo à ideia de negócio, passando  a  abordá­lo  como  uma  experiência  transformadora  pelos  espaços.  Esta  experiência  tran sformadora  estaria  diretamente  conectada  à  condição  humana  elementar  de  trânsito  (deslocamento)  e  da  transitoriedade  (brevidade)  no  mundo.  Tomando  este  elemento  existencial  de  ocuparmos  e  nos  movermos  pelos  espaços  como  algo  que é,  também,  um  direito, discut mos  as  relações entre  turismo e  cidadania  mediados  pela  condição da  renda  que,  a  um  só  tempo,  toma  o  turismo  em  um  objeto  de  luxo  (uma  visão  enaltecida  pelo  management ) e diminui a  sua percepção como parte da  cidadania,  como algo a que todas as  pessoas  têm direito. Para sustentar essa discussão e deixar aberto o seu potencial empírico, ao  final,  são  discutidos  dados  da  Organização  Mundial  de  Turismo  e  de  Centro  de  Monitoramento  de  Deslocamentos  Internos,  refletindo  sobre  a  dimensão  e  o  impacto  do  Turismo  no mundo contemporâneo.   Este capítulo está dividido, portanto, em seis partes, incluindo esta introdução. No  próximo  tópico,  trazemos  a  reflexão  crítica  nos  estudos  turísticos  com  base  nos  questionamentos à  sociedade do desempenho atual, a partir de  uma  c rítica organizacional à  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 119    visão  gerencialista  do  Turismo,  buscando  pensá ­lo  segundo  as  noções  de  espaço,  transitoriedade e  cidadania. Em  seguida aprofundamos  a discussão  sobre espaço e  lugar, e  logo após, no terceiro tópico, discutimos a centralidade das questões do trânsito pelos espaços  e da transitoriedade da vida como elementos da condição humana que não podem ser negados,  aproximando o turismo do debate sobre direitos e cidadania. No quarto tópico, detalhamos as  conexões  entre  turismo,  cidadania  e  renda a  partir  destes  conceitos  de  espaços,  trânsito  e  transitoriedade.  Feitas  essas  discussões,  apresentamos  nossas  considerações  que  encerram  (mas não concluem) o texto.      PENSANDO  O  TURISMO  POR  MEIO  DE  UMA  LENTE  ORGANIZACIONAL  CRÍTICA:  O  TURISMO  COMO  NEGÓCIO  (NEGOTIUM )  OU  COMO  EXPERIÊNCIA SUBJETIVA TRANSFORMADORA?   Uma das denúncias mais comuns realizadas pela crítica organizacional é a de que  o olhar da Administração tradicional, usualmente chamado de   management , se expandiu para  além das  fronteiras das empresas e  se tornou  uma  visão de mundo que tenta impor  sobre a  sociedade  as  técnicas,  a  linguagem  e  os  modos  de  existir  típicos  do  controle  gerencial  capitalista, guiados pelos critérios de competição e de produtividade. Autores como Gaulejac  (2005), Dardot e Laval (2016) e Han (2014, 2015), por exemplo, trataram essa questão como  algo que se intensifica com o advento do neoliberalismo como perspectiva social hegemônica  no  capitalismo  contemporâneo.  Vivemos  hoje,  portanto,  em  uma  sociedade  que  enxerga  e  mensura  o  mundo  sob  critérios  gerenciais  e  não  sob  perspectivas  das  experiências,  das  vivências, das sensações ou das emoções.  Gaulejac (2005) conceituou este fenômeno de “gerencialismo”, tomando­o  como  uma  doença  social  calcada  na  quantofrenia,  ou  seja,  na  obsessão  por  números  de  produtividade que representem o alcance de resultados, reduzindo a  subjetividade  humana à  métrica de indicadores de desempenho,  o que invisibiliza as  pessoas,  transformando ­as em  meros  recursos  empresariais  cumpridores de  metas.  Dar dot e  Laval  (2016,  p.151),  por  sua  vez, atribuem esse  fenômeno à própria racionalidade que guia o  neoliberalismo e que quer  apagar o animal político (zoon politikon ) da sociedade para, em seu lugar, instituir o “homem­ empresa”, que enxerga todas as relaçõe s  sociais  com base  na  lógica do empreendedorismo e  da  competição.  Han  (2014, 2015), de  modo  similar,  afirmou  anteriormente  que  este é  um  elemento  típico  da  sociedade de desempenho,  que  adotou  a  orientação  empresarial  para  a  produtividade  como  norte  social  a  ser  perseguido  por  todas  as  pessoas  em  todas  as  suas  Seres em Trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica       Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Gabriel Farias Alves Correia   _____________________________________________________________ 120    relações  sociais.  Nessa  sociedade  do  desempenho,  devemos  produzir  sempre  mais,  com  sucesso, e o ócio apenas existe  como  negação de si mesmo, pois  serve apenas para permitir  que as pessoas desempenhem c ada vez mais e produzam mais para o trabalho. Neste sentido,  o ócio serve ao trabalho (a negação do ócio).  As experiências e as  vivências  sociais  subjetivas, quando dominadas pela  lógica  empresarial,  distorcem  as  percepções  do  mundo  e  de  si  mesmo,  causando  sofrimentos  e  impedindo reflexões profundas  sobre  nossos  modos de existir e  sentir (GAULEJAC, 2005;  DARDO;  LAVAL,  2016).  Conforme  Safatle  (2021,  p.26)  discute,  isso  implica  uma  reconfiguração da “gramática social do sofrimento”, levando a uma psicopatologização da  vida em geral, em favor de uma devoção ao mundo do trabalho e a uma negação aos prazeres  do ócio e do lazer, o que leva a uma série de enfermidades de saúde física e mental (BOCCHI,  2018; ADAMS et al., 2019; DUNKER, 2021). Essa visão traria um impedimento, portanto, à  percepção do  Turismo  naquilo  que ele  teria de  mais  essencial: a  sua  perspectiva  subjetiva  transformadora.   O  turismo  dominado  pela  lógica  empresarial  neoliberal  cria  uma  contradição  interna  pelo  tensionamento  entre  aquilo  que  poderia  ser  – uma  experiência  subjetiva  transformadora (visão  crítica do  Turismo) – e a experiência  turística  tomada apenas  como  mais um elemento de competição e de ostentação (visão gerencialista do Turismo). Esta visão  gerencialista seria, indo além dos apontamentos de Gaulejac (2005), Dardot e Laval (2016) e  Han (2014, 2015), o turismo impulsionado pela dinâmica do desempenho que  se materializa  na  vida  compartilhada  em  redes  sociais.  Nesta  perspectiva,  as  pessoas  medem  suas  experiências turísticas pelas métricas de visualização de fotos  compartilhadas (quantofrenia),  definem seus roteiros  com base no que o mercado indica como relevante e tomam o turismo  como parte do negócio (da negação ao ócio ­ negotium ), pois, é apenas o respiro necessário ao  descanso para  se  conseguir produzir (trabalhar) mais. Esta  tensão  seria agravada quando as  vivências possíveis do turismo passam a  ser  condicionadas pela renda, impedidas de  serem  livremente usufruídas e construídas por quaisquer pessoas.    A  reflexão  tradicional  sobre  o  Turismo,  portanto,  conforme  Ateljevic  (2011),  Gibson (2021) e Mura e Wijesinghe (2021) discutem, parece ter seguido o mesmo percurso de  dominação  da  lógica  empresarial  da  Administração,  que  nega  o  ócio,  e  que  a  crítica  organizacional busca  enfrentar.  Isso  c ria,  porém,  uma  contradição  na  própria existência do  turismo que tem boa parte de sua vivência voltada justamente para o prazer do ócio, do tempo  livre, do não­trabalho, ou  seja,  um  lugar em que as metas de produtividade e de  competição  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 121    nunca deveriam esta r (se é que eles deveriam estar em algum lugar). Assim como nos Estudos  Organizacionais,  portanto,  a  pesquisa  sobre  o  Turismo  também  parece  se  ressentir  da  necessidade  de  apresentar  um  olhar  crítico  para  o  campo,  conforme  observamos  nas  publicações recentes  na área (ATELJEVIC et al., 2007; NETTO et al., 2011; SINGH, 2012;  NETTO;  NECHAR,  2014;  NETTO;  NECHAR,  2016;  GIBSON,  2021;  MURA;  WIJESINGHE,  2021).  Para  nós,  uma  das  maneiras  de  contribuir  para  esta  reflexão  seria  incorporar o olhar organizacional crítico  aos estudos de Turismo.   O modo que buscamos para promover essa reflexão, portanto,  seria por meio de  uma análise  organizacional  que parte de  três elementos  principais: a) pensar o  turismo  por  meio  de  uma  reflexão  sobre  os  espaços,  tal  como  tem  sido  feito na  literatura  crítica  organizacional;  b)  a  partir  desta  noção  de  espaço,  pensar  o  turismo  como  um  direito  ao  deslocamento  livre  e  pacífico  pelos  espaços  do  mundo  (trânsito  e  transitoriedade) e,  neste  sentido, olhar para o turismo também sob a ótica da cidadania; e,  c) ao olhar para o turismo  pelos espaços e pela  cidadania, refletir  sobre as  conexões entre  turismo,  cidadania e renda,  como forma de ir além da perspectiva gerencialista do Turismo. Para avançar nesta discussão,  teorizamos a seguir sobre as cont ribuições de espaços e lugares de modo que possamos situar  geograficamente os elementos da dinâmica cidadã humana.     ESPAÇOS E LUGARES: A DINÂMICA COTIDIANA DA CIDADANIA HUMANA   Os  trânsitos dados  nos espaços exigem de  nós reflexões que  conectem  turismo,  cidadania e renda com as reflexões que articulem estes elementos. Partimos das contribuições  de Lefebvre (2000), tendo em  vista que  consideramos o deslocamento  humano  nos espaços.   Estes para o autor, bem como para nós, se manifestam por serem engendrados por intermédio  das relações sociais, se caracterizando como meios de produção e de controle.   É no espaço, de acordo com as contribuições de Levigard e Barbosa (2010), que o  partic ular e o universal são intermediados na própria representação do cotidiano. Este último,  conforme  nos  exemplificou  Certeau  (2012),  é  o  entroncamento  de  diversos  lugares,  modificados pelas ações dos sujeitos. Considerar as ações dos sujeitos no olhar para otrânsito  nos espaços da vida, busca recuperar a humanidade dos seres que estão de passagem, seja em  localidades, seja na própria experiência na vida, contribuindo de fato para a concretização da  cidadania.   Recuperar  os  sentidos  das  práticas  que  são  desen volvidas  cotidianamente  nos  espaços  se  insere  nas  reflexões  de  Certeau  (2012)  no  ponto  de  que  são  as  próprias  ações  Seres em Trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica       Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Gabriel Farias Alves Correia   _____________________________________________________________ 122    humanas, práticas  cotidianas do homem ordinário, que condicionam o espaço a se tornar um  lugar. Este, nesse sentido, é o palco de estratégicas e táticas de sobrevivência, de manutenção  da  própria  humanidade,  do  conhecimento,  dos  negócios,  do  turismo  e  da  produção  de  significações  construídas  pelos  sujeitos  e  grupos  (FEDERICI,  2017).  Objeto  de  transformação,  o  cotidiano  se  insere  no  movimento  d a  própria  vida  por  ser  difuso,  dual,  dialético.   No cotidiano dos espaços, temos a possibilidade de visualizar os acontecimentos  não  sistematizados  e  que  não  são  captados  pelos  mecanismos  formais  (BARROS;  CARRIERI,  2015).  Desta  forma,  as  interações  dos  sujeitos  nos  espaços  podem  ser  visualizadas, por meio do cotidiano, como uma possibilidade de rever e repensar ações tidas  como “corriqueiras”, apresentando novas formas de aprender sobre a vivência nestes locais a partir de conhecimentos tidos como desqualif icados pela lógica dominante (CARRIERI et al.,  2015; CARRIERI et al. 2018).  A alteridade dos e  nos espaços, ou  seja, o movimento  necessário para a própria  humanidade  se  consolidar  como  tal  (SCAPP;  SEITZ,  2018),  vai  ao  encontro  de  questões  colocadas por Lyn ch (2018), quando o autor diz que a reutilização dos espaços das  cidades,  por meio das práticas sociais, são formas de construção diárias dos próprios sentidos da vida.  A produção das espacialidades, concretizadas nas interpretações dos (re)usos do território, dão  sentido às  movimentações  necessárias  ou  não  nas  localidades.  A  espacialidade,  que  pelas  relações  sociais, dão  sentido às diversas instâncias  humanas, possibilita, por exemplo, que o  turismo, a economia, as políticas e as histórias sejam dotadas de sentidos. Com isso, podemos  pensar que as movimentações humanas nos territórios, estimuladas no contexto do turismo, só  são possíveis  por estas  relações  que  vão  sendo desenvolvidas.  Lynch  (2018), portanto,  nos  chama atenção para a existência de diversas leituras, múltiplas e heterogêneas, da produção da  espacialidade. Os espaços são dotados de significações multifacetadas por meio dos lugares. E  é  só  por  meio de  um  olhar  atento  para  a diversidade  que  podemos  considerar  as  relações  infinitas nos espaços urb anos de sujeitos e sujeitas que ocupam, trafegam e passeiam por eles.   Castells  (2011) desenvolve  em  seus  estudos  que  são  nos  espaços  que  ocorre  a  chamada  cultura  urbana,  isto  é,  o  cruzamento  entre  valores  e  comportamentos.  Estes  relacionamentos transforma m os acontecimentos  urbanos em complexas redes, possibilitando  a compreensão dos mesmos em suas dimensões materiais e imateriais. São nas reflexões das  cidades  enquanto  ambientes  complexos,  portanto,  dotadas  de diversos  significados,  que  se  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 123    insere  a  consta tação de Portugali  (2012) de  que  há  um  constante  estado de  emergência  e  desequilíbrio, sendo, neste sentido, lugares de produções e organizações únicas.   Buscamos  suporte  em  Augé  (1994)  para  diferenciarmos  as  reflexões  que  se  referem aos espaços e aos  lugares. Os espaços podem  ser  considerados  como  formados por  vários  lugares  relacionais  e  diversos,  ou  seja,  existem  diversos  lugares  que  podem  existir  concomitantemente  em  um  mesmo  espaço,  com  significações  e  sujeitos  diferentes.  Já  os  lugares  coexistem em  fu nção dos diversos  significados que  são dados à  um mesmo espaço.  Eles  são caracterizados como parcelas dos espaços que são apropriados com vida. São, neste  sentido, produção e reprodução  humana  nas  relações entre espaço e  sociedade, indivíduo e  coletivo (PO RTUGALI, 2012). Tais relações não dizem respeito somente às dos sujeitos entre  si, mas destes com o próprio território e a natureza, de tal modo, que possam formar redes de  significações culturais e identitárias (LYNCH, 2018; CERTEAU, 2012).  Compreender no  cotidiano as noções de espaço e lugar nos remete a Tuan (2012;  2013) quando o autor aponta o lugar como aquele em que há uma integração no espaço pelas  relações estabelecidas por meio dele. Deste modo, compreendemos que o turismo pode alterar  as  noções de  spaço quando os  sujeitos  significam ou ressignificam os espaços de trânsito,  possibilitando,  então,  uma  significância  afetiva.  Temos  suporte  ainda  em  Dias  e  Miranda  (2015, p. 234) para refletirmos o espaço percebido a partir de uma interconexão entre sujitos  e a experiência, pois “os sentidos e as experiências de outras pessoas aguçam a imaginação e o desejo de mover­se por lugares conhecidos apenas mentalmente”. Por isso, a movimentação pelos espaços, sendo em nossa reflexão por meio do turismo, que se apresenta possibilidades  diversas de  conhecer o mundo, de retomar a própria  humanidade e  não apenas  servir  como  mais uma passagem.    Autores  como  Scherer ­Warren  (2006)  Lima  (2014;  2015)  e  Silva  (2017)  desenvolvem  que  no  cotidiano  das  cidades,  ambiente  em  qu e  o  turismo  e  as  emergências  cidadãs  se manifestam,  há  uma  crescente e diversa  luta pela transformação dos espaços em  lugares a partir de diversas  lutas pela  cidadania. Em todos os âmbitos das  cidades,  há  uma  demanda pela transformação dos espaços, que excluem e fazem excluir, por lugares  conexos  em aspectos como gênero, etnia e classes, como complementam Oliveira et al. (2020). Para os  últimos  autores,  há  a  insurgência  de  grupos  que  demandam  por  questões  cidadãs  e  de  pertencimento  nos  espaços  e,  portanto,  tais grupos “reivindicam novas possibilidades de leitura dos espaços urbanos em favor da solidariedade, proporcionando uma criação paralela e  Seres em Trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica       Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Gabriel Farias Alves Correia   _____________________________________________________________ 124    eficaz no território” (LIMA, 2014, p. 33). Portanto, no próximo tópico, nos dedicamos a refletir sobre as condições de ser e estar em trânsito no mundo.      O  SER/ESTAR  EM  TRÂNSITO  COMO  CONDIÇÃO  HUMANA:  SOMOS  TRANSITÓRIOS NO MUNDO EM QUE TRANSITAMOS   Seres humanos são seres em trânsito (SCAPP; SEITZ, 2018). Em trânsito porque  vagueiam pelo mundo modificando ­o ao mesmo tempo em que transformam a si mesmos. Em  trânsito porque, conforme discutiu Arendt (2007), a condição humana carrega em si o esforço  contemplativo ( vita  contemplativa ) de nos sabermos breves diante da sensação de perenidade  de eventos  naturais e  sociais  que  são maiores do que  nós. Somos, portanto,  transitórios  no  mundo  em  que  transitamos.  E  essa  transitoriedade  alcança  tanto  a  noção  da  permanente  transformação das  coisas e dos  seres  no tempo, quanto a sua incessante movimentação pelos  espaços naturais e soci ais. Na nobre lição de Milton Santos (2007, p.40), “tudo neste mundo é regido pela lei do movimento”, e assim, movimentarmo­nos  pelos  espaços  no decorrer do  tempo é o que define a nossa possibilidade de conhecer o mundo e a nós mesmos, permitindo  refletirm os sobre a nossa própria condição de transitoriedade.   Na visão de Scapp e Seitz (2018, p.6), portanto, “o movimento é uma condição do arco da subjetividade humana, da história antiga e da vida contemporânea”. E esse movimento pelos espaços,  como elemento  humano  fundamental que  vem da reflexão da  história antiga,  chega à  contemporaneidade  permitindo  unir  questões  que  aparentemente  não  se  tocariam,  como o Turismo e a Cidadania. Quando pensados  sobre a ótica da dignidade  humana, estes  dois  campos  convergem  e  passam  a  ser  mutuamente  relacionados,  pois  ambos  tratam  do  transitar dignamente pelo mundo. Ao mesmo tempo, a cidadania, como reflexo da luta social  pelos  direitos,  conforme  contribuição  de  Marshall  (1967),  é  um  estatuto  que  se  quer  permanente,  ou  seja,  qu e  ultrapassa  a  nossa  condição de  transitoriedade  no  mundo.  Neste  sentido,  Turismo  e  Cidadania  vistos  a  partir  deste  arco  da  subjetividade  humana  do  movimento,  se relacionam de duas  maneiras  fundamentais: a)  na  construção de direitos  ao  exercício  autônomo desta  condição  humana de  transitar  pelos  espaços;  e, b)  na busca  por  atribuir  ao  direito  ao  turismo  um  estatuto  de  perenidade – como  elemento  integrante  da  cidadania, algo que alcance a todas as pessoas e que as ultrapasse em sua condição transitória  pela v ida.  A  dignidade  humana  como  direito  fundamental  (ou  seja,  como  cidadania),  tal  como discutida por Ronald Dworkin (1978), Habermas (1997a; 1997b; 2002) e Robert Alexy  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 125    (2014), envolve o reconhecimento do direito a essa transitoriedade digna – de  vivermos, de  nos  mantermos  vivos(as)  e  de  termos  a  liberdade  de  deixarmos  de  viver  sem  ser  por  imposição  da  violência.  Essa  dignidade  se  funda,  portanto,  no  respeito  às  oportunidades  emancipatórias  de  autorrealização,  de  autonomia,  de  práticas  organizativas  e  de  ser  reconhecido  ou  reconhecida  como  pessoa  titular  de  direitos  igualitariamente  distribuídos.  Tratamos de uma noção de dignidade que também inclui o direito de transitar pacificamente  pelos  lugares, permitindo nos aprofundarmos  na  história dos povos e dos espa ços, ainda que  isto  ocorra  por  meio  de  resistências  no  cotidiano  (CERTEAU,  2012).  Neste  sentido,  a  cidadania  calcada  na  dignidade  humana  é  que  toma  o  Turismo,  enquanto  prática  social,  elemento  fundamental da autonomia  humana do  transitar pelo  mundo  contrib uindo para os  processos  de  produção  e  organização  dos  espaços  (LEFEBVRE,  2006;  BIANCHI;  STEPHENSON, 2013; BLANCHARD; HIGGINS ­DESBIOLLES, 2013).  Como  seres  em  trânsito,  por  conseguinte,  a  possibilidade  de  nos  deslocarmos  pelos  espaços,  conhecendo  pessoas  e  lugares,  é  mais  do  que  mero  passatempo,  é  um  elemento ­chave da humanidade para compreendermos o mundo e a nós, pois “é o espaço, isto é, os lugares, que realizam e revelam o mundo” (SANTOS, 2001, p.112). Não é por acaso, portanto, que a  construção  social a legórica da  vida errante,  na  história e  na  ficção,  voltada  para as grandes jornadas e aventuras, seja recorrente em vários povos e lugares. Tratamos de  uma experiência humana (BENJAMIN, 1987) comum que une o conhecimento e o viver em  uma única imagem, comp artilhada em várias culturas, da peregrinação filosófica e ascética, de  sábios  e  sábias,  e  da  viagem  aventureira,  de  heroínas  e  heróis  (KRAMER,  2018;  MONTIGLIO,  2000).  Ela  está  presente  nas  grandes  obras  literárias  e  em  contos  diversos,  como  nas  epopeias  d e  Gilgamesh  na  Mesopotâmia;  nas  gregas  homéricas  de  Ilíada  e  da  Odisseia e  na Eneida de Virgílio; e  na portuguesa dos  Lusíadas de Camões; bem  como  no  conto chinês do Rei Macaco; nas navegações do marujo árabe Simbad; nas mil e uma noites, e  na  Odisseia  mod erna  do  estadunidense  Ishmael  a  bordo  do  Pequod,  em  Moby­Dick,  de  Herman  Melville (MONTIGLIO, 2000; DOWLING, 2010; CHIARINI, 2018; BRANDÃO,  2019; FELIPE, 2020; REBEGGIANI, 2020).   Esses grandes movimentos  no espaço, porém,  nem  sempre são feitos pelo prazer   da  peregrinação,  muitos  são  forçados,  obrigando  um  deslocamento  que  também  impõe  a  reflexão  sobre a  violência do mundo.  Assim,  tocamos  o exílio e o êxodo – no  mundo das  ideias e  no mundo  fático – como elementos  constantes em  várias  histórias de  vida (reai s e  ficcionais)  de  pessoas  que  se  debruçaram  sobre  as  angústias  da  transitoriedade  humana  Seres em Trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica       Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Gabriel Farias Alves Correia   _____________________________________________________________ 126    quando o próprio transitar é  negado. Isso aproxima tanto a peregrinação budista de Takuan  Sōhō no Japão (NAGATOMO; LEISMAN, 1996), quanto o êxodo hebreu no antigo tes tamento (HOFFMEIER, 2021). Deslocarmos pela rejeição é uma condição que une Baruch  Spinoza (expulso da  comunidade judaica) ao autoexílio da  filosofia  cínica, em Diógenes  na  Grécia  antiga  e  em  Nietzsche  na  Modernidade  (KRAMER,  2018;  SLOTERDIJK,  2012).  Quand o a condição de transitar entre os espaços é proibida, portanto, proíbe­se mais que um  direito,  parte  da  humanidade  se  esvai,  como  se  apreende  com  Theodor  Adorno,  Max  Horkheimer,  Herbert  Marcuse,  e  Hannah  Arendt,  como  judeus  perseguidos  políticos  pelo  nazi smo,  exilados  nos  EUA;  ou  com  Walter  Benjamin,  que  não  teve  o  mesmo  êxito  (FINLAYSON,  2021).  Neste  sentido,  novamente,  Cidadania  e  Turismo  se  tocam,  pois,  quando o deslocar pacífico passa a  ser proibido,  não é apenas a experiência  turística que é  negada,  mas  a  própria  condição  humana  (ARENDT,  (1989)  do  transitar  pelos  espaços  (LEFEBVRE, 2006).  A  transitoriedade  e  o  trânsito,  portanto,  são  tanto  características  quanto  perplexidades da condição humana. Isso porque, de um lado, nos movimentamos pelo mundo  para compreendê ­lo, tal como Lefebvre (2000) e Milton Santos (2007, 2001) sugeriram, pois  é  típico  do  humano  ocupar  espaços  e  ser  afetado  por  eles.  De  outro,  também  nos  movimentamos, porque  somos obrigados pela exclusão  social, pelo desrespeito aos direitos,  pela  luta  para  sobreviver,  como  Arendt  (1989)  nos  alertou.  Deslocarmos  ou  sermos  deslocados, portanto, é uma etapa crucial da reflexão humanística. Estes deslocamentos que se  movem  pelo  prazer  ou  pela  vontade  livre  de  conhecer,  são  próprios  do  Turismo  e  da  Cidadania reconhecida. Os deslocamentos pela dor são as suas negações.   Os deslocamentos turísticos pelo mundo cumprem em parte os anseios de Santos  (2007, 2001), no  sentido de ampliar a compreensão social para além das  fronteiras políticas,  criando oportunidades de contato com povos, com o passado e com as perspectivas futura s da  própria humanidade. O próprio Santos (2007), porém, nos ensina que transitar com dignidade  pelos  espaços  é  um  elemento  da  cidadania,  este  conceito  moderno  que  se  volta  para  a  definição  de  direitos  e  deveres  em  sociedade.  Existe,  portanto,  uma  literatura  crítica  em  Turismo  que  permite  a  reflexão  sobre  essa  constituição da  prática  como  um  elemento  da  cidadania,  um elemento  que inclui a possibilidade de  transitar pacífica e dignamente pelos  espaços  como  um  direito  humano  fundamental  (ATELJEVIC  et  al.,  200 7;  NETTO  et  al.,  2011;  SINGH,  2012;  NETTO;  NECHAR,  2014;  NETTO;  NECHAR,  2016).  Esta  possibilidade  de  contato  entre  as áreas  de  Turismo  e  Cidadania,  porém,  esbarra  em  outra  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 127    mediação  além  da  questão  abstrata  do  ser  em  trânsito,  que  é  a  conexão  da  renda,  algo  inevitável ao vivermos em um sistema capitalista global que hierarquiza os modos de fazer e  existir  sociais  (PELBART,  2012)  e  que  delimita  os  espaços  como  prontos,  lineares  e,  consequentemente  mensuráveis  e  quantificáveis  (LEFEBVRE,  2000;  LOREA,  2013;  KOZ ENIESKI,  2021).  No  tópico  a  seguir,  exploramos  essas  relações  trazendo  dados  de  organismos  internacionais  que  monitoram  as  atividades  turísticas  e  os  deslocamentos  humanos pelo globo, debatendo  como essa odisseia  humana que  se inicia  com  um processo  ininte rrupto  de  ocupação  do  planeta  (a  Grande  Dispersão)  alcançou  o  nosso  tempo,  nos  deixando perplexos diante da imobilidade que a Grande Reclusão ocorrida  com a pandemia  do Covid ­19 provocou.  Usamos esses dois  pontos,  o grande deslocamento que espalhou  os  seres  humanos  pelo  mundo  e  a  grande  reclusão  que  nos  fez  temer  pelo  fim  da  própria  humanidade, para pensar como essa odisseia existencial de ocupação dos espaços tem deixado  de  ser  pensada  como  jornada  humana  fundamental  (passível  de  ser  usufruída  pelo  turismo   como direito) para  ser  capturada pela ambição escapista do  turismo de alto  luxo,  que quer  condicionar o turismo (e os direitos) à renda.    TURISMO,  CIDADANIA  E  O  DIREITO  A  TRANSITAR  PACÍFICA  E  DIGNAMENTE PELOS ESPAÇOS   Cidadania  e  Turismo:  a  Grande  Dispersã o  pelos  espaços  do  mundo  e  o  Direito  a  ter  Direitos   A humanidade surge, na história da evolução, com um grande deslocamento rumo  ao que  viria a  ser a ocupação de todos os espaços. Nossos ancestrais partiram,  há  cerca de  60.000 anos atrás, do  lugar que  hoje conhecemos  como  continente africano para  se espalhar  por todo globo. Assim, há cerca de 2.500 anos, após um longo processo de ocupação, o nosso  planeta passaria a ter  seres  humanos em praticamente todas as porções de terra (STANISH,  2017). Na paleoantropologia, como discutem Petraglia e Groucutt (2017), esse é o fenômeno  debatido  como  sendo a Grande Dispersão. Não é mera  questão de  retórica dizer,  portanto,  que, desde a  nossa  origem,  todas as  pessoas do mundo estão em  um  processo  contínuo de  movimento e oc upação, estão se deslocando ou sendo deslocadas, no espaço e no tempo; isso  é o que a física e a filosofia nos ensinam, entendimento para o qual convergem tanto o físico  contemporâneo Rovelli (2018) quanto o pai do existencialismo, Heidegger (2005). Mesmo as  pessoas  enclausuradas,  as  impossibilitadas  de  se  movimentar  livremente,  estão  presas  na  incessante  e,  até  onde  sabemos  irreversível  movimentação  da  transitoriedade  da  vida  em  Seres em Trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica       Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Gabriel Farias Alves Correia   _____________________________________________________________ 128    direção à morte – o  ser­para­a­morte  heideggeriano (HEIDEGGER, 2005). Só que  avida,  como discutem Scapp e Seitz (2018) não é só marcada pelas grandes dispersões e as grandes  distâncias, ela é tomada  também por micro­deslocamentos  cotidianos,  que  constroem  nossa  rotina  e  constituem  a  nós  mesmos  nos  espaços,  como  discute  Certeau  (201 2)  e  como  refletimos no tópico anterior.  “Todos neste extenso planeta experimentam o que pode ser caracterizado como micro trânsitos, formas de movimento tipicamente rotineiras e muitas vezes mundanas”, dizem ­nos Scapp e Seitz (2018, p.1). Deslocamo­nos  – por  conta própria ou  com auxílio –  para o trabalho, para a escola, para o divertimento, para eventos  culturais, para exercitarmo­ nos,  para  nos  tratarmos  em  centros  de  saúde.  Deslocamo ­nos  para  buscar  alimento,  para  visitar pessoas, para pedir ajuda. Deslocamo ­nos dentro de  casa,  vagamos pelas ruas, pelos  ares,  mares,  pelas  rodovias  e  ferrovias.  Deslocamo ­nos  para  velar  pessoas  queridas,  para  conhecer  lugares  e  pessoas,  para  buscar  conhecimento  ou  autoconhecimento.  Se  impossibilitados de  nos deslocarmos,  out ras  pessoas  se deslocarão por  nós e  para  nós. Por  outro lado, muitas pessoas  são deslocadas à força, expulsas de casa, de territórios, de países.  São perseguidas, exiladas, invisibilizadas. São impedidas de entrar em lugares ou obrigadas a  deixar lugares. São silenciadas, violadas e violentadas. Muitas pessoas têm sua vida marcada  por esta ideia do abandono à deriva, que na lição de Arendt (1989) – ela própria uma exilada –  foi  qualificada  como  a  rotina  dos  displaced  people  (pessoas  deslocadas).  Pessoas  cuj a  expulsão de  lugares e  cuja  perda de direitos  as  jogou em  lugar  nenhum,  como  povos  sem  Estado e sem proteção, sem emprego ou sem renda, situação em que “a perda do lar e da condição política”, pelo não reconhecimento ou pelo ódio, “pode equivaler à sua expulsão da  humanidade” (ARENDT, 1989, p.330).  Se  pela  paleoantropologia  e  pela  teoria  evolucionária  aprendemos  que  a  humanidade surge da cooperação para ir além de onde se está, como discutem Stanish (2017)  e  Petraglia  e  Groucutt  (2017).  Com  a  filosofia  política  aprendemos  que  alguns  se  movimentam para que outros  nunca  saiam de onde foram  colocados, ou que  sejam expulsos  para jamais  ocupar os espaços dominados  por eles,  como discute  Arendt (1989). Se  somos  seres transitórios e transeuntes, negar o deslocamen to livre e digno a quem nada fez de ilícito,  seria um impedimento à própria condição humana. Foi a partir desta ideia, da impossibilidade  do ir e vir, livre, para realizarmos no mundo e revelar o mundo, para usar os termos de Milton  Santos (2001), que Arendt (1989) cunhou anteriormente a sua definição de cidadania calcada  em um direito universal e nuclear: o direito a ter direitos. Uma definição que, à primeira vista,  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 129    pode aparentar nada ter a ver com a ideia de transitar pelo mundo, mas que tem justamente aí a sua origem.  Conforme  comenta Lafer (1988, p. 58), ex­aluno e estudioso da obra de Hannah  Arendt, “a experiência histórica dos displaced people  levou Arendt a concl uir que a cidadania  é o direito a  ter direitos [...] é esse acesso ao espaço público, o direito de pertencer a  uma  comunidade política”. Transitar pelos espaços públicos é, portanto, um ato político. É resistir à pressão pela  homogeneização dos espaços  cujas elites exercem (CARVALHO, 2010), que  criminalizaram  e  destruíram  espaços  de  encontro  dos  corpos,  dos  seres,  das  culturas,  das  identificações e da  coletivização dos  saberes  populares (FEDERICI, 2017). Transitar  pelos  espaços públicos é  nos permitirmos  criar  laços, pertencimentos,  conexões, é ter o direito de  nos direcionarmos  para  onde quer  que  seja pelos espaços  comuns do mundo, é o direito a  participarmos  da  vida e da  construção e  fruição destes  mesmos  espaços.  À época  em  que  Arendt (1989) escrevia  sobre isso,  sua preocupação era  com os displace d  people  excluídos  por  serem  apátridas,  imigrantes,  perseguidos  políticos,  inimigos  e  alvos  de  governos  autoritários de todos os tipos. Pessoas que não tinham seus direitos reconhecidos por nenhum  governo ou não possuíam qualquer Estado que as amparasse (COELHO, 2020). Pessoas sem  espaço e sem lugar no mundo. O tempo, sob capitalismo, reconfigurou as formas de exclusão,  e  hoje, para além das perseguições políticas, a renda (ou a ausência dela)  cumpre o mesmo  papel  de  criar  pessoas  deslocadas  da  humanidade,  esquecidas  ou  perseguidas,  expulsas  ou  impedidas de transitar livre e pacificamente pelo planeta em que vivemos. São os deslocados  pela  pobreza  e  pela  miséria,  expulsos  da  humanidade,  conforme  a  linguagem  de  Arendt  (1989).  O direito a ter direitos,  como  núcleo da cidadania, portanto, inclui a ideia  um direito ao trânsito livre, digno e pacífico pelos espaços a fim de participar de suas construções,  realizando ­os  e  revelando ­os  em  um  processo  político  de  autoconhecimento  e  de  reconhecimento.  A  efetivação  desta  noção  de  cidadania  seria,  portanto,  uma  etapa  fundamental  para  que  se  evite  a  perpetuação  do  processo  de  expulsão  de  pessoas,  por  quaisquer motivos, de nossa própria condição de humanidade. E é neste ponto que se tocam,  em  conjunto  com o  contexto organizacional, a  cidadania e o turismo, ao ent endermos que o  turismo  representaria  uma  possibilidade  de  pensar  e  refletir  sobre  as  várias  formas  de  se  cumprir essas jornadas transformadoras pelos espaços.   O  olhar  crítico  no  Turismo,  indo além da percepção positivista  que  o  reduz  ao  mundo  do  business  e do management  (NETTO  et  al.,  2011;  NETTO;  NECHAR,  2014;  Seres em Trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica       Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Gabriel Farias Alves Correia   _____________________________________________________________ 130    NETTO; NECHAR, 2016) pode se voltar para a ideia, inspirada por Hannah Arendt, de que o  turismo enaltece a  vivência  cotidiana em  comunidade e expressa a possibilidade de transitar  pelos espaços públicos do mundo, por comunidades e lugares diferentes, experimentando ­os,  transformando ­os  e  sendo  transformados  por  eles.    O  turismo  seria,  ao  mesmo  tempo,  a  antítese  dos  deslocamentos  da  dor  que  expulsam  pessoas  da  comunidade  humana,  e  a  afirmação dos deslocamentos do prazer, aqueles orientados pelo que  Arendt (2007)  chamou  de vita  activa ,  que  opera  simultaneamente  todas  as  condicionalidades  que  nos  tornam  verdadeiramente  humanos: a  nossa  capacidade de moldar o mundo pelo  trabalho ( work ), de  cuidar de  nossas  necessidades biológicas do  viver (labor ) e de agir  política e  socialmente,  interagindo  uns  com  os  outros  nos  espaços  públicos  ( action ).  O  turismo  traz  em  si  a  possibilidade de apreciarmos  nossas próprias  construções artísticas,  frutos do  nosso trabalho  (o work  arendtiano), de  nos tocarmos pelos marcos e eventos da natureza que  nos  conectam  diretamente  com  a  vida  biológica  (o labor  arendtiano),  e  por  permitir  ampliar  nossas  interações  cotidianas que  são, em essência,  sempre políticas porque  somos animais po líticos  (o action  arendtiano).  Não  por  acaso,  o  filósofo  contemporâneo  Byung ­Chul  Han  (2015)  recupera  o  conceito de  vita  activa  de  Arendt para  falar da  sociedade atual, esgotada de tanto trabalhar,  neurótica e exausta com suas metas e controles. Autodiscip linada e autocontrolada pelas redes  sociais, que aprisionam e fomentam metas de vida como metas de empresas, a “Sociedade do Cansaço” discutida por Han (2015) é essa em que o turismo é instrumentalizado como mais um elemento de uma frenética competição pelo sucesso. Ele passa a ser totalmente dominado  pela linguagem dos  negócios e se transforma em  uma maneira adicional de cativar os outros  para o trabalho. Ele não se pauta pela lógica da experiência transformadora, mas pela lógica  dos resultados, mais espec ificamente, de se exibir os resultados de uma vida profissional bem ­ sucedida, materializada em imagens compartilhadas de viagens, refeições, lugares ou eventos  pelo  mundo.  Segundo  Han  (2014,  p.70­ 5),  isso  ocorre  porque  a  sociedade  capitalista  neoliberal c ontemporânea conseguiu ir além do que ele chama de “manag ement  racional”, que buscava a produtividade pelo máximo  controle do trabalho dentro das empresas, e se tornou  uma sociedade do “capitalismo das emoções”, focada no “management  emocional”, que captur a as emoções que  vão muito além do ambiente de trabalho – com o prazer de poder  viajar pelo mundo. O management  emocional usa das redes sociais para incentivar sacrifícios  pessoais  cada vez mais intensos para o trabalho e a produtividade. Assim,  uma socie dade do  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 131    desempenho  é  uma  sociedade  gerencialista,  no  sentido  discutido  por  Gaulejac  (2005),  e,  portanto, pressiona para produzir um Turismo dominado pela mesma lógica gerencial.   Neste  sentido,  o ócio,  o  prazer  de  viajar,  de  conhecer  pessoas  e  lugares,  deve  existir somente como momentos de respiro para produzirmos mais. E, nada seria mais efetivo  para isso que usar as imagens compartilhadas em redes sociais de viagens paradisíacas, locais  exclusivos,  objetos  raros  ou  refeições  caras  e,  assim,  despertar  nas  pessoas  um  pouco  da  emoção de poder  fruir desses prazeres, exigindo em troca mais dedicação ao trabalho.  Isso  ocorre porque “a sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho”, e as pessoas que nela vivem são “sujeitos  de  desempenho  e  produção. São empresários de si mesmos” (HAN, 2015, p. 8). Nessa sociedade, tudo se reduz a  trabalhar  para  ostentar,  e  o  turismo  se  transforma  em  uma  fábrica  de  objetos  “instagramáveis” e compartilháveis, uma das principais ferramenta s  a  impulsionar  a  competição infinita por uma vida virtual que aparenta ser perfeita e invejável. Ao invés de ser  um direito,  um  componente da efetivação da  cidadania, o  turismo  passa a  ser  um dever, a  obrigação de falsear para os outros o resultado de um pretenso sucesso na vida.    A  vita  activa , então,  desaparece. O animal político (zoon polítikon)  que somos  se  encolhe,  diminuído  até  sobrar  apenas  um  animal  que  trabalha  ( animal  laborans )  sob  o  capitalismo, e que trabalha para negar a si mesmo o direito a usufruir da vida o que ela puder  lhe  oferecer,  em  troca  de  poder  fingir  gozar  de  uma  vida  virtualmente  irretocável  (HAN,  2015). Uma sociedade que retira do turismo a sua conexão com a cidadania, como um direito  ao  lazer e à possibilidade de explorar (no  sentido de  nos  aventurarmos e aproveitarmos)  o  conhecimento de  si  mesmo, de  nossa  própria  história, da  natureza  que  nos envolve, é  uma  sociedade que instrumentaliza o turismo  como mais  uma  ferramenta de exclusão.  É preciso,  portanto, redirecionarmos o turismo  para a sua  conexão com a cidadania,  como  componente  fundamental para a  vita activa .    2021,  uma  odisseia  no espaço:  contradições e  possibilidades do  turismo e da  cidadania  da Grande Dispersão à Grande Reclusão   Se a nossa origem demonstra que somos fruto de  uma Grande Dispersão, os dados  sobre deslocamentos diversos mostram que a humanidade tem se tornado, mais do que nunca,  uma  humanidade  cada  vez  mais  dispersa  e  em  trânsito.  Em  uma  existência  marcada  pelo  deslocamento,  porém, a grande maioria das  pessoas  não  transita definitivamente para além  Seres em Trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica       Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Gabriel Farias Alves Correia   _____________________________________________________________ 132    das  fronteiras políticas de seus países,  são as micro­movimentações  cotidianas que dominam  os deslocamentos da humanidade.    De acordo  com  os dados do Relatório  Mundial  sobre  Migração, elaborado pela  Organização  das  Nações  Unidas,  em  2020,  apenas  um  em  cada  trinta  pessoas  migrou  internacionalmente de modo definitivo (IOM, 2020). De toda  forma, os  volumes gerais têm  aumentado, pois  os dados  indicam que,  no ano de 2000, 2,8% da população mundial eram  migrantes  internaciona is,  cerca  de  150  milhões  de  pessoas,  ao  passo  que,  em  2020,  essa  proporção  aumentou  para  3,6%,  algo  em  torno  de  272  milhões  de  pessoas.  A  estimativa  global atual é de que  se  chegue,  no pós­pandemia de Covid­19, a  cerca de 281 milhões de  migrantes internaci onais  no mundo (IOM, 2020). Quando observamos os dados das pessoas  que  migram  dentro  de  seus  próprios  países,  vemos  um  volume  mais  expressivo  de  movimentações, sendo que, em 2009, já tínhamos cerca de 740 milhões de migrantes internos,  2,6  vezes mais pesso as do que os migrantes internacionais de 2020,  sem termos mais dados  atualizados após esse levantamento (IOM, 2020).   O  que  chama  a  atenção  nestas  migrações é  que  elas  são  parte de  uma  grande  contradição que pode ser mais bem compreendida a partir da noção arendtiana da cidadania.  As  grandes  movimentações  humanas  atuais  oscilam,  em  quase  a  sua  totalidade,  entre  os  deslocamentos pela dor (em função da falta de renda e de direitos) dos displaced people , e os  deslocamentos  por  necessidade  de  renda  (pelo  trabalho)  ou  para  usufruir  da  renda  (pelo  prazer), respectivamente, do turismo de negócios e do turismo de lazer. Permeando estes três  fenômenos encontramos, portanto, a renda: a total ausência de renda dos  displaced  people , a  luta  pela  renda  que  fomenta  o  turis mo  de  negócios,  e  o  dispêndio  de  renda  auferida  que  impulsiona o turismo do ócio, do lazer. A conexão entre turismo, cidadania e renda, portanto,  se  torna  plenamente  visível  neste  ponto.  E  os  aspectos  que  também  unificam  a  natureza  contraditória desses deslocamentos atuais são a sua intensidade e o seu crescimento.   Neste  sentido,  temos  um  volume  crescente e preocupante dos  displaced  people ,  obrigados – pela violência humana ou pela tragédia natural  – a saírem de seus lares. Segundo  dados  do  Centro  de  Monitoramento  de  Deslocamento  Interno  (IDMC,  2022)  ( Internal   Displacement  Monitoring  Centre  – IDMC),  em  2017,  havia  68,5  milhões  de  pessoas  forçadamente deslocadas (forcibly  displaced )  no  mundo  todo. Em 2020,  porém,  houve  um  aumento deste contingente para 82,4 milhões de pessoas, um crescimento de 20% em somente  três  anos.  Apenas  de  deslocamentos  forçados  internamente  nos  países,  saímos  de  26,4  milhões, em 2012, para alcançarmos  um triste recorde histórico de 59,2 milhões de pessoas,  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 133    em 2021, algo próximo à população inteira da Itália ou da  África do Sul e bem mais que o  dobro de pessoas que estavam nesta situação nove anos atrás (NRC, 2022). São pessoas  sem  lares, sem renda, sem direitos. Pessoas cuja cidadania lhes foi negada.  Embora  seja expressivo esse  volume de pessoas  que  se desloca definitivamente  pelos lugares, atualmente, a maior parte dos deslocamentos realizados passa a se associar com  a  intermitência  das  visitas  ocasionais  – do  trabalho  e  do  lazer.  Quando  olhamos  para  as  informações globais  sobre turismo, portanto, é que  vemos a intensidade  crescente de  nossos  deslocamentos  pelo  mundo.  Segundo  informações  da  Organização  Mundial  do  Turismo  (UNWTO, 2022), órgão  vinculado às Nações  Unidas,  somente  na  França, em 2021,  foram  registradas as  chegadas de 141 milhões de turistas. Na Espanha, em 2019, quase 68 milhões  de  pessoas  foram  registradas  em  estabelecimentos  de  hospedagem.  Na  Argentina,  foram  recebidos 4,8 milhões de hóspedes,  uma quantidade de pessoas que é equivalente a cerca de  10% da população do país (IOM, 2022). Como  levantado por Behsudi (2020),  Abbas et al.  (2021)  e  Hoarau  (2022),  não  só  o  volume  de  pessoas  em  trânsito  aumentou,  mas  a  dependência econômica do turismo também, pois, em 1950, quando os voos comerciais a jato  começavam a  se  consolidar, 25 milhões de pessoas  faziam  viagens ao exterior, ao passo em  que, em 2019, alcançou­se a cifra de 1,5 bilhão de pessoas em viagens internacionais. Neste  mesmo ano de 2019, a contribuição do turismo para a economia mundial teria sido estimada  em US$3,5 trilhões,  cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Como se explica,  porém, um mundo em que as pessoas se deslocam tanto, com tanta intensidade e por motivos  tão diversos, pela dor e  pelo  prazer?  Uma  maneira de  pensarmos  sobre  isso é exatamente  relacionarmos turismo, cidadania e renda.   Esses  dados  demonstram  que  essa  humanidade  em  movimento  é  altamente  contraditória. Em  um mesmo momento da  história, em 2021,  nós  tivemos entre as imagens  mais emblemáticas do ano duas relacionadas a deslocamentos que aproximam o mágico e o  trágico  da  humanidade.  O  mágico  da  ficção  científica  e  o  trágico  do  empobrecimento  desesperador  do  mundo.  Em  18  de  setembro  de  2021,  a  empresa SpaceX  comple tou  o  primeiro  voo  espacial  cuja  tripulação  não  se  compunha  de  astronautas  profissionais.  Esta  missão, chamada de Inspiration  4 , foi a primeira missão orbital na história dos voos espaciais  a  ser  composta inteiramente por turistas.  É o  turismo espacial  sen do apresentado, de  forma  autônoma, para milionários do mundo todo dispostos a pagar quantias exorbitantes para viver  esta experiência única e exclusiva – típica de ficções  científicas  como as do livro, de Arthur  Seres em Trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica       Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Gabriel Farias Alves Correia   _____________________________________________________________ 134    C. Clarke (CLARKE, 1968), “2001 – uma odisse ia no espaço”, escrito simultaneamente ao filme de mesmo nome, roteirizado por Clarke e Stanley Kubrick, e dirigido por este último.   Em 17 de Janeiro, daquele mesmo ano de 2021, forças de segurança da Guatemala  bloquearam  um  movimento  de  7.000  pessoas  vin das  de  Honduras  com  destino  aos  EUA,  desesperadas,  pela  miséria,  pela  violência  e dispostas  a  caminhar  milhares  de  quilômetros  para encontrar em outro país os direitos que tanto  lhes  são  negados em  seu país de origem.  Um dos maiores fluxos migratórios já oc rridos  na região foi motivado, entre outros  fatores,  pela  ausência  ou  pela  precariedade  de  renda  para  sobreviver,  pelo  descumprimento  dos  elementos mais básicos da cidadania.  De um  lado, portanto, temos a ostentação máxima do turismo de luxo financiado  pelos 1% mais ricos da humanidade, insinuando suas possibilidades de se deslocar para além  deste mundo, como bilionários em fuga, os  escaping  billionaires  dos quais a literatura crítica  começa a falar com mais constância nos últimos anos (MARX, 2021). É a  ampliação máxima,  para  além  das  fronteiras  terrestres,  da  odisseia  de  que  falamos  no  início  deste  texto  que  sintetiza uma das mais antigas aspirações humanas: o fascínio com o cosmos, com a aventura  da jornada sem limites pelo pouco conhecido. De outro, o  deslocamento desesperador de uma  massa de  pobres,  representada  pelos 99%  que  amargam a  penúria das dívidas, da  falta de  direitos, da violência. O que explica essa contradição entre os displaced people  e os escaping  billionaires ?  Uma  forma  de  tentar  reorientá­la  passa  pela  compreensão  das  conexões  improváveis entre  turismo,  cidadania e renda que  fazem  com que o  turismo  hoje possa  ser  apenas  uma engrenagem para ostentação de poucos, extirpada da cidadania como um direito  de  todos e inteiramente  condicionado à obtenção de renda. Turismo e  cidadania  são,  neste  caso,  para  quem  possui  dinheiro.  A  jornada  humana  que  se  inicia  na  Grande  Dispersão é  impedida  pela  materialidade  da  renda,  restrita  a  quem  pode  pagar.  O  sonho  das  grandes  odisseias, como impulsos intrínse cos à condição humana, de profundo caráter existencialista,  passa  a  ser  um  sonho  de  poucos  enquanto  muitos  apenas  lutam  para  conseguir  existir,  revivendo as jornadas do êxodo e do exílio, e não a do turismo. É preciso reposicionar o lugar  do turismo nos de slocamentos humanos e na ocupação dos espaços pelo mundo (e além dele).  É preciso preocuparmo ­nos com o turismo como elemento da cidadania, capaz tanto de gerar  renda para estes 99% quanto de permitir que eles possam usufruir do turismo como direito a  goza r de sua própria jornada, de viver a sua própria odisseia da vida.  O  fenômeno  recente  da  pandemia  da  Covid­19  reforçou  ainda  mais  estes  componentes  contraditórios  na  relação  entre  turismo,  cidadania  e  renda.  A  pandemia  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 135    escancarou  como estamos  conectados e  como dependemos da construção de saídas  coletivas  para os  nossos desafios. Em um mundo cujos deslocamentos pelo turismo e pelas migrações  são  tão  intensos,  a  dispersão  dessa  doença  foi,  ao  mesmo  tempo,  impulsionada  pela  intensificação dos deslocamentos  tur ísticos  e  responsável  por  uma  queda brutal do  próprio  faturamento  do  segmento  do  turismo.  Algumas  pesquisas  começam  a  apontar  o  papel  do  turismo internacional como difusor da pandemia do Covid ­19. Trabalhos  como os de Hoarau  (2022)  identificaram  correlações  positivas  entre  a dispersão do  vírus  e  as  economias  mais  dependentes da atividade turística. Essa análise valida o que se tem chamado de “tourism ­led  vulnerability hypothesis” (hipótese de vulnerabilidade liderada pelo turismo). Assim, de uma  só  vez,  o mundo assistiu  a  um esforço global de redução da mobilidade,  chamada aqui de  Grande  Reclusão  que,  por  sua  vez,  afetou  mais  negativamente  os  mais  pobres,  reduziu  os  deslocamentos pelo trabalho e pelo lazer e aumentou o rol de calamidades que impulsionou o  cr escimento de  displaced  people  por todo o globo.  Os  impactos  da  Grande  Reclusão  para  o  turismo  foram  avassaladores.  Behsudi  (2020) – este relatando estimativas feitas pelo Fundo Monetário Internacional  – e Abbas et al.  (2021), discutem que os levantamentos  realizados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI),  pelo Banco Mundial e pela OMT indicavam que, em  função da pandemia, em 6 de abril de  2020, 96% de todos os destinos mundiais haviam introduzido restrições de viagem, sendo que  cerca de 90 destinos  fecharam  total  ou  parcialmente  suas  fronteiras  para  turistas, enquanto  outros  44  o  fizeram  apenas  para  turistas  de  determinados  países  cuja  origem  estava  relacionada a epicentros da pandemia. As estimativas apresentadas por estes autores e órgãos  é a de que  o  turismo  internacional  teria  caído 73%, em 2020, algo  que  a  OMT  qualificou  como  catastrófico para o  setor.  É estimado, ainda, que o PIB real – o  valor em dinheiro do  PIB  retirando  o  efeito  da  inflação – de  países  africanos  e  caribenhos  cuja  dependência  econôm ica do turismo é mais acentuada, encolherá 12% nos cinco anos seguintes à pandemia.  Segundo Behsudi (2020), durante a pandemia já se estimava que nações insulares do Pacífico,  como Fiji, poderiam ver o PIB real encolher 21% em 2020. Segundo a pesquisa realz da por  Abbas  et  al.  (2021), o turismo de lazer e o turismo interno registraram uma queda econômica  no valor de 2,86 bilhões de dólares norte­americanos, gerando perdas de receitas maiores que  50%.  O que os dados apresentados demonstram é que, da Grande Dispersão à Grande  Reclusão, a nossa interdependência global, em termos de deslocamentos e movimentações, se  intensificou e se avolumou de modo irreversível. Isso está na nossa constituição humana e n as  Seres em Trânsito: cidadania, turismo e renda em uma perspectiva organizacional  crítica       Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho   Gabriel Farias Alves Correia   _____________________________________________________________ 136    relações econômicas que construímos ao longo do tempo. A falta de compreensão do impacto  político  desta  intensificação  instrumentalizou,  porém,  o  turismo  como  algo  totalmente  dependente de renda,  reduzindo  o  seu  caráter  mais essencial  como  um direito extensível  a  todos, expurgando ­lhe a sua conexão com a cidadania. É preciso, portanto, reorientá­lo para a  cidadania (TOMASSINI et al., 2021).    CONSIDERAÇÕES FINAIS: PARA ENCERRAR SEM CONCLUIR   Partindo do objetivo de refletir sobre as relações entre turismo, cidadania, renda e  espaço a partir de  um olhar organizacional  crítico, apresentamos a imbricação das questões  com a  condição  humana de deslocamento  pelo  mundo. Discutimos,  neste  capítulo,  sobre a  necessidade  de  encontrarmos  alternativas  que  possibilitem  r eorientar  o  turismo  para  a  cidadania e a  necessidade de  conectarmos a discussão, em  um  viés organizacional,  com as  perceptivas mais inclusivas e que  considerem a condição humana do direito. Ao realizarmos  este movimento de modo  histórico e memorialístico, reforçamos a  necessidade de diretrizes  de  pensamento  que  possibilitem  as  alterações  das  condições  turísticas  e  cidadãs,  que  considerem  a  existência  da  diversidade  de  formas  de  ser,  estar,  vivenciar,  experienciar  o  mundo a partir das condições materiais de tempo e de espaço.  As discussões aqui trazidas, reforçam e atualizam Gaulejac (2005) e sua proposta  de estudo do gerencialismo a partir da expressão “quantofrenia”, que se traduz nos dias atuais no  usufruto do deslocamento para o ócio a partir de uma fábrica de likes  “instagramáveis” e  compartilháveis, ao mesmo tempo em que nega o deslocamento para uma parcela importante  da população mundial. A competição infinita da vida virtual se reflete no mundo real em uma  desconexão  do  turismo  com  a  questão  cidadã,  amplificada  por  uma  ausência  de  renda  daqueles que não possuem condições de deslocamento ao ócio, restando ­lhes o deslocamento  (cotidiano ou  não) para a  sobrevivência.  A  sociedade atual,  capitalista, enquanto aquela que  instrumentaliza  tudo  e  todos  torna  o  t urismo  como  mais  uma  ferramenta  de  exclusão.  A  questão  é  simples:  ou  você  tem  renda  para  se  deslocar  e  ser  bem  recebido,  com  toda  hospitalidade disponível, ou você não acessa tais lugares.    Han (2015), ao afirmar que em nossa sociedade, chamada por ele de sociedade de  desempenho, o  ser  humano (que deve  ser empresa), precisa encontrar meios de competir, de  empreender (DARTO; LAVAL, 2016) a partir de critérios estabelecidos por um norte global  (e  que  nunca  alcançaremos).  A  transitoriedade  que destacamos  nest e  trabalho  envolve  um  afetar e ser afetado pelos espaços, tornando­ s lugares, incentivando a experiência. Mas cabe  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 137    para  nós,  mais  uma  pergunta  reflexiva:  estaria  o  turismo  preparado  para  transformar  os  espaços  em  lugares  para  todos?  Ou  só  para  uma  parcela  da  humanidade  que  realiza  os  movimentos de trânsito  nos espaços  com renda disponível para  ser desembolsada?  A estes,  serão facilitadas as transformações dos espaços em lugares ou continuarão sendo não lugares?  O  lugar, dotado de significância e experiências  humanizantes,  só podem ser  vivenciados por  aqueles que dispõem de uma renda mínima de exercício da cidadania?   Por fim, turismo, cidadania e renda por uma lógica organizacional deve considerar  exatamente  os  movimentos  nos  espaços  (que  quem  sabe,  um  dia,  possam  ser  lugares),  considerando  uma  inerente  subjetividade  humana  nesta  condição.  É  preciso,  enfim,  um  movimento conjunto dos Estudos Organizacionais e da área de Turismo em busca do reforço  (ou infelizmente construção) de direitos para exercício pleno da condição humana de transitar.  Além  disso,  movimentos  em  bases  alternativas  organizacionais  podem  contribuir  para  o  alcance  da  cidadania  a  alcance  de  todas  as  pessoas.  Mas,  em  nossa  lógica  atual,  todos  os  humanos são considerados pessoas para usufruir da s experiências do mundo?     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Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___       TURISMO E  METAVERSO: DA CRÍTIC A SOCIOLÓGICA A SUA  APLICAÇÃO NA  ATIVIDADE TURÍSTICA     Alan  Faber do Nascimento   Professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   alan.faber@ufvjm.edu.br     Eu estava  num jantar  na  casa de  um amigo diretor. Estávamos acompanhados dos  seus  filhos de 13, 15 e 17 anos. Eles  não tinham  visto o  filme  Matrix . Então, meu  amigo disse: por que você não conta sobre o que é o filme? Bom, tem esse cara que  está  em  um  tipo de  mundo  virtual,  e  ele  descobre  que  tem  um  mundo  real,  e  questiona o que é real e o que não é ... E, então, a mais  nova disse: Por quê? E eu:  Como assim? E ela: Quem se importa se é real? Espera, você não se importa com o  que é real? Não.  – Trecho de en trevista com  Keanu Reeves 18.       INTRODUÇÃO     A proposta deste ensaio é efetuar um panorama, uma visão geral, sobre a relação  entre o turismo e o metaverso, haja vista as implicações, também para as  viagens, quando se  torna  possível  mesclar  o  mundo  físico  com  o  mundo digital.  Ou  melhor, amparando ­se  no  próprio  significado  etimológico  da  palavra,  que  é  resultado  da  junção  do  prefixo  grego  “meta”, que sugere aquilo que está além, com a palavra “universo”, pergunta­se: o que esperar  do futuro do turismo em fac e do metaverso?   A nosso ver, essa questão é pouco explorada na literatura do turismo  – sobretudo  em âmbito nacional. São escassos os estudos teóricos mais sistematizados acerca do tema, ao  passo  que  as  investigações  empíricas  ainda  estão  em  estágios  muito iniciais  de  desenvolvimento.   O  texto  está  organizado  em  duas  partes.  Na  primeira,  busca­se  entender  o  significado  sociológico do  metaverso,  seja do  ponto de  vista de  uma abordagem  histórico­ materialista quanto daquela situada na chamada teoria da pós­modernidade. Na segunda parte,  são  explorados  alguns  conceitos  que  ajudam  a  explicar  o  turismo  no  metaverso,  caso  das  noções de Cyber ­tourism  e Pós­turista, bem  como exemplos de aplicações do metaverso em  setores turísticos.   Os métodos de investigação incluem  revisão bibliográfica e pesquisa documental  em portais de notícias e revistas eletrônicas, em blogs  e em canais do YouTube .                                            18  Entrevista  concedida  em  10  de  dezembro  de  2021.  Disponível  em:  https://www.youtube.com/watch? v=0OK80eljWrs . Traduzido pelo autor.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 145      O QUE É O METAVERSO? UMA EXPLICAÇÃO PELA SOCIOLOGIA     Não há um conceito definido sobre o que é metaverso. Em rigor, quando se estuda  o assunto, o que  se descobre primeiro é que existem diversas ideias e  noções do que  seja o  metaverso. Para alguns autores, o metaverso já é uma realidade presente em diversos  setores  da vida social e econômica, ao passo que, para outros, o metaverso é uma utopia tecnológica  do futuro.   No  senso  comum,  tem ­se dito  que  o  metaverso é a  internet  do  século  XXI.  À  diferença  da  anterior,  que  é  sobretudo  bidimensional,  a  nova  rede  se  distinguiria  pela  possibilidade de  seus  usuários atuarem  como  se estivessem  dentro dela, em ambientes  que  podem ser tanto uma cópia fidedigna do mundo físico quanto uma realidade virtual inventada.  Daí a razão de o metaverso ser concebido, vulgarmente, como uma “internet encorpada”.  De forma mais precisa, segundo a  Encyclopedia  Br itannica  (2023), o metaverso é  uma rede de mundos  virtuais imersivos, por onde,  hoje, adentra ­se pela  via de smartphones ,  tablets  e óculos de realidade  virtual, em  que  se  transacionam bens  e  serviços  por  meio de  criptomoedas,  Blockchain  e non ­fungible  tokens  (NFTs ), e onde as pessoas, comumente e pelo  menos por ora, interagem­se por avatares em jogos eletrônicos em três dimensões 19.   Já  a Wikipédia  (2023)  define  o  metaverso  como  uma  experiência  imersiva  e  multissensorial, que adiciona diversas capas vir tuais ao mundo físico, cujo acesso ocorre pelo  uso de diferentes dispositivos digitais, e que se tornou  factível, haja vista a evolução da rede  mundial de computadores, de que são exemplos a  Web  3.0 e as conexões em 5G.   Mas há aqueles que defendem que o m etaverso, simplesmente, não existe. E isso  porque  não  se  tem  exemplo  de  um  ambiente  que  seja  todo renderizado  (digitalmente  processado)  em  tempo  real  e  em  grande  escala  (TANNI,  2022).  O  que  poderia  acontecer  somente  quando  todos  os  (proto)metaversos,  do  Descentral and  ao Roblox ,  da Meta  ao  Sandbox , estiverem abertos a quaisquer usuários e forem interoperáveis. Nesse caso, pense ­se  em uma partida de futebol, em que dois times se enfrentam à distância; cada equipe jogando  em seu respectivo estádio e com a su a própria torcida, e onde a bola é metaversada, para que a  jogada feita em um estádio leve a outra igual em outro estádio. Eis aí uma ilustração do que é  o metaverso, segundo Meira (2022).                                            19 Grosso modo, os  tokens  não­fungíveis  (NFTs)  são ativos digitais únicos, indivisíveis e inigualáveis, que geram  valor  para  quem  os  detém e  cuja  verificação de  autenticidade é  feita  pela B lockch ain .  A B lockch ain  é  uma  grande  cadeia de  dados,  como  se  fosse  um  livro  contábil  digital,  capaz  de  registrar  propriedades  digitais,  informações, NFTs  etc., sem que isso possa ser alterado, fraudado (CABRERA, 2022).  Turismo e  M etaverso: da crítica sociológica a  s ua  aplicação na  atividade turística   Alan Faber do Nascimento    _____________________________________________________________ 146    A despeito da  falta de  consenso,  fato é que experimentamos  uma dil uição  cada  vez  maior  entre  os  mundos  offline  e online ,  de  modo  que  a  perspectiva  de  se  operar  simultaneamente neles já não é algo restrito a filmes de ficção científica, como Matrix , ou da  Ciberliteratura, a exemplo de Snow  Crash , de Neal Stephenson, roman ce de ficção científica  tido como precursor da ideia de metaverso.   Habituamos a viver sob a égide de um espaço­tempo de natureza físico ­digital. Os  filtros de s martphones , a gamificação do cotidiano, o sucesso dos reality  shows , as fake  new s   são expressões de que não é mais instransponível o que se passa nas telas digitais daquilo que  se vive concretamente (SIBILIA, 2016)  – ainda mais para o público das gerações Z e Alpha ,  que nasceram na esteira das primeiras redes sociais, como o  Orkut  e o Facebook . Com efeito,  para muitas crianças, o desejo de “virar um astronauta”, algo corriqueiro no imaginário infantil dos  Baby  Boomers ,  foi  substituído pela  fama  futura  no  YouTube ,  como demonstrou  pesquisa encomendada pela fabricante de brinquedos  Lego  (NOGUEIRA,  2019).   Do ponto de vista da crítica sociológica, há alguns  caminhos para entender o que  está na essência do metaverso. Um primeiro indicativo é dado pelo estágio atual da economia  capitalista.  A  cada dia, torna­se evidente o quanto os algoritmos  são esse nciais para o  lucro  corporativo. Trata­se de  um  capitalismo baseado em dados em que o tagueamento (trabalho  em clique) para alimentar bancos informacionais é tão ou mais importante que os tradicionais  meios  de  manipular  a  mente  dos  consumidores,  como  a  pub licidade  e  a  obsolescência  programada dos produtos – e,  também, os mais  recentes,  como o marketing  viral em redes  sociais. Nesse sentido, o metaverso configura ­se como a última fronteira a ser vencida para a  desrealização da própria realidade:   As técnicas  de perfilização de plataformas como Instagram talvez parecerão arcaicas  e rudimentares perto das possibilidades do trabalho  virtual em projetos  conceituais  de  metaverso.  Seria  possível  identificar  reações  a  músicas  ambientes,  estímulos  visuais  (e  mensuraç ões  por  tempo  de  eyeball),  transformando  a  vivência  em  laboratório  permanente de  mensuração. Para  mercados  centrados  em  perfilização,  produção  de  subjetividades  e  governança  algorítma,  trata­se  de  um  prato  cheio  (MACHADO, 2021, p. 10).     Sem  dúvida,  isso  ajuda  a  explicar  por  que  não  apenas  as Big  Techs ,  caso  do  Facebook ,  que,  recentemente,  mudou  o  nome  da  empresa  para Meta ,  como  empresas  dos  diversos setores da economia têm investido no metaverso. Por exemplo, a Nike , considerada a  marca de roupa mais valio sa do mundo, adquiriu a empresa RTFKT , especializada em NFTs ,  autenticação na Blockch ain  e realidade aumentada, com objetivo de criar uma interface entre  os lançamentos físicos da marca e suas versões digitais, no que é visto como “mais um passo Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 147    que  aceler a  a  transformação digital  da Nike (...)  na  intersecção entre  esporte,  criatividade,  jogos e cultura” (MARIN, 2021, n. p.). A indústria fonográfica é outra ilustração de como o metaverso  transformará  a  maneira  como  se  comercializa  música  pelos  mercados.  Emb lemático disso foi o show do rapper Travis Scott no ambiente virtual do  Fortnite , em um  evento que foi visto por 14,8 milhões de usuários, segundo dados da desenvolvedora do jogo,  a Epic Games , e isso porque “nesses eventos, o público não enfrenta problema s inerentes ao  mundo físico, como ficar longe do palco, não conseguir enxergar o show ou  não ter dinheiro  para ir a uma apresentação em outro país” (ROSA, 2022, n. p.). E até mesmo ramos da economia,  como  os  da  alimentação  e  da  cosmética,  cuja  imersão  no  metaverso  ainda  dependem  do  progresso  de  dadas  tecnologias,  ainda  primevas  quando  não  inexistentes,  já  investem em  pesquisa e desenvolvimento  para  que  tão  logo  se  possa  passar de  uma etapa  visual  do  metaverso  para  uma  sensitiva,  corpórea  e  tátil.  É  o  que  pretendem  os  projetos  Nourished  e Realfeel ,  que,  por  meio  de  impressões  3D  de  ingredientes  e  de  simuladores  multissensoriais,  buscam  permitir  que  as  pessoas  experienciem  até  um  Big  Mac   no  metaverso 20. Na figura abaixo, observa­se uma dessas iniciativas sensit ivas, o “aromaverso”.     Figura 1  ­  Tecnologia de “aromaverso”, que permite sentir cheiros em realidade virtual, sendo testada por um cadeirante, possivelmente num espaço virtual em que se pode não apenas a ndar, mas voar,  teletransportar ­se, etc.    Fonte: STONE, 2022.  Entretanto,  esses  exemplos  não  nos  autorizam  imaginar  um  capitalismo  imaterializado,  em  que  a  exploração  do  trabalho  deixe  de  ser  o  ponto  central  do  sistema                                           20 Em rigor, as cadeias de fa st  food  já estão no metaverso. Para citar um exemplo, tanto o B u rg er King  como o  McDonald ´ s  e a Pizza Hut  têm promovido campanhas  no metaverso, sobretudo baseadas em aquisição de NFTs  em  lanchonetes  virtuais  instaladas  nos  diferentes  metaversos  hoje existentes.  Ocorre,  porém,  que  se  trata,  na  maioria das vezes, de imersões estereoscópicas, baseadas  no  sentido da visão, e não de uma imersão completa,  em que todos os sentidos humanos são estimulados.    Turismo e  M etaverso: da crítica sociológica a  s ua  aplicação na  atividade turística   Alan Faber do Nascimento    _____________________________________________________________ 148    econômico. Pelo  contrário,  o que  se observa é que a  criação de  um  mundo  cada  vez  mais  virtual  implica  a  degradação  dos  recursos  naturais,  indispensáveis  para  a  produção  de  microchips, semicondutores, cabos de fibra ótica, etc., e infraestruturas fabris que sustentam o  trabalho “criativo” em polos de alta tecnologia, mas onde o trabalho loca l é precário e análogo  à escravidão. É o que ocorre com as empresas do Vale do Silício, que dependem da produção  material feita em fábricas na China, caso da Foxconn , notabilizada no noticiário por episódios  de suicídio dos seus funcionários (SIBILIA, 2015 ; ANTUNES, 2012).   Outro caminho possível para entender sociologicamente o metaverso é interpretá ­ lo  como  resultado  daquilo  que  Lipovetsky  (2016)  chama  de  busca  pela  leveza  na  era  da  hipermodernidade.  Nessa  acepção,  o  metaverso  é  mais  um  meio,  ao  lado  da  filosofi de  autoajuda,  do  estilo  de  vida  ecológico  exibido  nas  redes  sociais,  e  de  toda  espécie  de  modismos psicoterápicos, para o homem encontrar alívio em seu cotidiano  – porque este, não  obstante  cada  vez mais inundado por objetos  leves (nanotecnológico s), transformou ­se  num  fardo, em algo pesado e beirando o insuportável:   A  novidade do mundo  hipermoderno é justamente essa.  A  modernidade do  século  19, por exemplo, tinha  um  contramodelo que era  sociedade burguesa de então. Ela  sonhava  com o  socialismo e  a revolução. Hoje,  não  temos  um  outro  modelo para  contrapor. Sabemos apenas que amanhã  haverá ainda mais  competição.  É por isso  que o desejo de revolução não tem mais consistência e o que domina, ao contrário, é  o desejo de  leveza.  As pessoas procuram,  cad a  uma à  sua maneira,  uma  forma de  aliviar o peso da vida. (LERINA, 2017, n. p.).   Ademais,  apoiando ­se em Bauman (2005),  para  quem  os  tempos  pós­modernos  são definidos  pela  liquidez das  identidades  sociais,  que  há muito deixaram de  ser impostas  pelo trabalho, pela comunidade ou pela religião, o metaverso fun cionaria, idem, para aplacar a  angústia que nos aflige diante de todas as possibilidades de “eu”   para  as  quais  somos  convidados a ser todos os dias  – o que, em essência, é uma solução ilusória. Afinal, o que nos  oprime é a própria efemeridade do processo, e  não a possibilidade de realizá­lo a  cont nto,  plenamente:   Estar em movimento, antes um privilégio e uma conquista, não é mais portanto, uma  questão de escolha: agora se tornou um “must”. Manter­se em alta velocidade, antes  uma  divertida  aventura,  transforma ­se  em  uma  tarefa  exaustiva.  O  que  é  mais  importante,  aquela  incerteza  desagradável  e  aquela  confusão  conflitiva,  das  quais  você  pensava  ter  se  livrado  graças  à  velocidade,  se  recusam  a  abandoná­lo. A  facilidade  do  desengajamento  e  do  rompimento  não  reduz  os  riscos,  apenas  os  distribui,  junto  com  as  ansiedades  que  exalam,  de  modo  diferente.  (BAUMAN,  2005, p. 38).      Seja como for, não haveria mais  limites para essa tarefa de Sísifo, seja corpóreo,  de tempo ou de espaço. O que, por  consequência, tornaria  factível a  velha obsessão humana  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 149    pelo  super ­humano,  pela  imortalidade,  fazendo do  metaverso  uma  nova  transcendência,  só  que não mais espiritual, posto que virtual.      A TURISTIFICAÇÃO DO METAVERSO:  ALGUMAS POSSIBILIDADES   Tão  diversas  quanto  suas  definições  têm  sido  as  aplicações  possíveis  do  metaverso. Pode­se  citar diversos  setores  para os  quais  o metaverso  tem  sido  utilizado. Na  medicina,  a  ubiquidade  proporcionada  pelo  metaverso  permitirá  que  cirurgias  possam  ser  acompanhadas  por especialistas  situados em diferentes  partes do  mundo, ao  mesmo  tempo  que possibilitará novas  formas de tratamento, até então inimagináveis, caso de curativos  sem  analgesia,  obtidos  por  simulação  em  ambientes  frios,  para  pacientes  com  queimaduras  (NETO, 2022). Na arquitetura e na engenharia civil, a chance de imergir em réplicas virtuais  de ambientes físicos, os chamados gêmeos digitais, tornará possível que todos os aspectos de  uma obra possam ser visualizados antes mesmo d e sua construção (LAM, 2022). E no direito,  em países  como Japão e Reino  Unido, já amadurecem experiências de julgamentos  virtuais  imersivos, para  casos relacionados à propriedade autoral, à proteção de dados, ao direito de  personalidade, etc. (3MIND JURÍD ICO, 2022).   A  atividade  turística é  outra área  que  tem  sido  impactada  pelo  metaverso.  De  hotéis a companhias aéreas, multiplicam ­se propostas e projetos de uso do metaverso, a ponto  de nos autorizar a intuir que o próximo “espaço” a ser explorado pela indústria do turismo não  ser  exatamente  o  espaço  sideral,  como  fazem  crer  as  recentes  missões  e  voos  suborbitais  organizados  por Elon  Musk e Jeff  Bezos, e,  sim,  viagens  virtuais,  igualmente  por astros  e  estrelas, mas, também, por sítios históricos recriados, lugares geográficos fantásticos e outros  mundos possíveis pela imaginação.   A  título  de  ilustração,  a  companhia  aérea Emirates  Airlines ,  recentemente,  investiu mais de 10 milhões de dólares para incluir experiências de metaverso em  viagens a  bordo dos modelos  A380 e Boeing 777 de  sua  frota de aeronaves, ao passo que as  cadeias  hoteleiras  CitizenM  e Millennium  Hotels  & Resorts  adquiriram terrenos, respectivamente, no  Sandbox  e  na Descentra land , para explorar o mercado de NFTs  de  suvenires, obras de arte,  se los turísticos, etc. (ONFLY, 2022; CAMPOS, 2022).   De imediato, é importante destacar que, teoricamente, as viagens virtuais  não são  uma  novidade.  Ainda  nos  anos  2000,  Molina  (2003,  p.  73)  tratou  do  tema,  com  base  no  conceito  de  pós ­turista. Para  ele,  as  tecnologias  do  novo  século  tendiam  a  revolucionar  a  forma como as viagens seriam feitas:  “a tecnologia está em condições de lançar na moda e no  Turismo e  M etaverso: da crítica sociológica a  s ua  aplicação na  atividade turística   Alan Faber do Nascimento    _____________________________________________________________ 150    mercado uma nova geração de produtos que podem afetar sensivelmente os deslocamentos”. Entre os exemplos  citados  pelo autor, figuravam desde atrações digitais da Disneyworld , que  seria um exemplo paradigmático de empresa pós­turística, à simulação de ambientes naturais  visando passeios de ecoturismo, bem  como experiências de digitalização do trade  turístico,  caso de agências virtuais de turismo e viagens.   Do conceito, o que é mais importante destacar é que o pós­turismo  não deve  ser  interpretado  como  um  turismo  convencional,  só  que  com  mais  tecnologia. Pelo  contrário,  trata­se de  um  novo modelo de  viagens, que  supera  o anterior – diga­se, aquele baseado  no  espaço físico, de que as antigas viagens aristocráticas e o turismo de massas fazem parte:   Na atualidade existe  um amplo  conjunto de  tecnologias denominadas de imersão.  Favorecem  o  acesso  a  cenários  ou  mundos  virtu ais  através  da  percepção  visual,  auditiva e táctil – separadamente ou de  forma  combinada – com a qual é possível  recriar experiências que o mundo turístico real  não pode oferecer em alguns  casos  (MOLINA, 2003, p.74).    Outro autor que intuiu o ingresso do turismo  no metaverso  foi Prideaux (2005).  Apostando, igualmente, que o desenvolvimento tecnológico e,  sobretudo, a revolução digital  iniciada no novo século ensejariam uma nova experiência turística, o autor propôs o co nceito  de cyber ­tourism .   Em  definição,  o cyber ­tourism  é “uma simulação eletrônica da experiência turística  que  substitui  a experiência  turística  física  (...).  Esse  tipo de  turismo  permite  uma  viagem  livre  das  restrições  de  tempo,  distância,  custo  e  das  fr gilidades humanas” (PRIDEAUX, 2005, p. 5)21.   Note­se, então, que o cyber ­tourism  seria uma  consequência dos próprios  limites  do turismo físico  – que, na época, estava sendo colocado em xeque, tanto na academia quanto  no debate público, devido a seus impactos  sociais, econômicos e ambientais, e que, em anos  recentes, tem gerado movimentos “antituristas” pelo mundo, como os vistos nas cidades de Barcelona e Veneza. Com efeito, pode­se inferir que as viagens cibernéticas, paradoxalmente,  figurariam  como a co ncretização dos objetivos de um turismo, enfim,  sustentável,  haja  vista  que  esse  modelo,  também,  revelou ­se  frágil  e  passível  de  ser  cooptado  por  instituições  e  empresas que agridem o meio ambiente e oprimem as comunidades locais.    Em comparação a essas antecipações teóricas, é digno de nota observar que, à luz  do  ainda  primário  debate  teórico  sobre  o  tema,  o  metaverso  não  vem  sendo  pensado  em                                           21 Traduzido pelo autor. No texto original, lê­se em inglês: “cyber­tourism  as  a n   electronically  simulated  tr ave l  experience that is a substitute for a physical tourism experience (…) This type of tourism  will  a llow participants  to travel to places via new technologies free of the usual restrictions of time, distance, cost and human frailty”.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 151    termos de substituição da viagem física, mas, sim, sob o prisma do complemento e da sinergia  – o que  se explica, talvez, pelo  fato de o metaverso  ser  caracterizado pela relação recíproca  entre  o  mundo  físico  e  o  mundo  digital,  uma  ideia,  portanto,  que  não  estava  ao  alcance  daqueles autores quando das suas investigações.    Por ora, o  consenso é que o metaverso terá,  sim,  um  forte impacto  nas  viagens,  mas no que se refere aos pontos frágeis e aos gargalos das viagens físicas, como a informação  e  a  comunicação  turística.  Segundo  Portela  (2022),  o  metaverso  criará  um  ecossistema  informativo integrando os diversos destinos t urísticos, que possibilitará ao turista todo tipo de  informação, inclusive experienciais, dos  lugares  que pretende  fisicamente  visitar, e isso em  todas as etapas da viagem, antes, durante e depois dela22.  A esse propósito,  chama a atenção o  caso da  cadeia  hoteleira Marriott , que, por  meio da plataforma RendezVerse , tem  utilizado a realidade  virtual para transacionar quartos  da rede para operadores e turistas, num exemplo de “teste antes de viajar”. E, aqui no Brasil, destaca ­se  o  caso  da  agência  de  viagens L oumar .  Em  ação  organizada  pela  equipe  de  marketing digital da empresa, possíveis clientes puderam conhecer digitalmente, por meio da  plataforma  de  videoconferência  imersiva  Bubbl e ,  as  dependências  dos  empreendimentos  hoteleiros comercializados pela agência  da cidade de Foz de Iguaçu23.   De modo geral,  setores  turísticos  como a  hotelaria, o agenciamento e a área de  M.I.C.E  tendem a  ser amplamente beneficiados  pelo  uso do metaverso.  Afinal,  são  setores  que  dependem  muito  de  dados  para  perfilar  consumidores  e  que  se  caracterizam  por  um  número elevado de touchpoints  – expressão utilizada para demarcar os diversos momentos em  que o cliente entra em contato direto, interage, com dada marca, produto ou serviço prestado.   Esses  pontos  de  contato  são  de  fundamental  im portância  para  que  se  avalie  a  satisfação  do  cliente  e  a  empresa  turística  possa,  então,  tomar  decisões  e  definir  suas  estratégias de mercado. Estima­se, por exemplo, que, no intervalo de um dia, um hóspede seja  confrontado com até dois mil  touchpoints  – o que inclui desde a temperatura da água que sai  do  chuveiro do quarto ao estado de  humor do recepcionista do  hotel ao recebê­lo (OTTO;  SALVADOR, 2022b). Do que resulta uma situação em que a coleta de dados do cliente não                                           22 Cumpre lembrar que o próprio conceito de pós­turista sugeriria um novo tipo de comunicação entre turistas e  empresas, que deixava de ser vertical, para assumir uma forma horizontal, no qual o viajante faria suas próprias  escolhas, à semelhança do que ocor re, atualmente, por meio das plataformas como o  Trip Advisor  e o Booking .   23 Esses  exemplos  reforçam  a  tese  segundo  a  qual,  no  campo  da  hotelaria,  o  metaverso  será  utilizado  preferencialmente  para  comercializar  hotéis  aos  operadores em  feiras  de  negócios. Calcula ­se  que  a área de  M.I.C.E  (Meetings,  Incentives,  Congress  e Exhibitions ) responderá  por  40%  da  aplicação  do  metaverso  na  hotelaria (OTTO; SALVADOR, 2022a).    Turismo e  M etaverso: da crítica sociológica a  s ua  aplicação na  atividade turística   Alan Faber do Nascimento    _____________________________________________________________ 152    tenha nenhum equivalente ao que se  espera quando isso passar a ser feito, não mais de forma  intermitente, porém em algo constante, onipresente, à medida que o hóspede for se movendo  pelo metaverso.   Outro impacto aguardado pelo desenvolvimento de produtos e serviços turísticos  no metaverso  diz respeito à interoperabilidade entre os sistemas de transporte, agenciamento e  hospedagem. Não obstante, os avanços  verificados  nos últimos anos, obtidos especialmente  pelo  investimento  na  digitalização  de  processos  operacionais,  ainda  há  entraves  para a  formação  de  um  sistema  turístico  totalmente  interoperável.  O  que,  por  seu  turno,  seria  possível  num  espaço  físico ­digital,  que  é  um  ambiente  descentralizado  e  onde  as  comunicações entre  os  diferentes  setores do  tra de  turístico  podem  ser  realizadas de  forma  simultânea (OTTO; SALVADOR, 2022a).    Soma ­se a isso as virtualidades da natureza ubíqua do metaverso. Escusado dizer  que, no caso de uma feira de negócios, não haverá mais interdições quanto ao quantitativo de  pessoas  que  poderão  participar  dela,  bem  como  não  será  necessário  que  palestrantes e  expositores de diferentes países precisem efetuar grandes deslocamentos para participar de um  congresso, uma exposição.   Deve ­se esperar, também, que o reconhecimento  facial  substituirá as tradicionais  sessões de credenciamento, que cada participante ser á acompanhado de assistentes virtuais, do  tipo chatbots ,  usados,  por  exemplo,  para  traduzir  o  idioma  oficial  do  evento,  e  que  seus  idealizadores poderão se beneficiar de mapas de calor que permitam recolher dados, tais como  os  locais de maior  fluxo de  visi tação ou  qual  o  tempo médio gasto  pelos  turistas em  cada  estande (CABRERA, 2022).   E  há,  inclusive,  possibilidades  menos  divulgadas,  talvez  porque,  para  muitas  pessoas, ainda incompreensíveis ou mesmo absurdas, caso do consumo virtual de pornografia  em qua rtos de hotéis, conforme se observa na figura abaixo:                       Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 153    Figura 2  ­ Em Las Vegas, hotéis estão utilizando recursos de realidade ampliada em seus quartos para o  consumo de pornografia no metaverso.     Fonte: TECNO, 2022.    Malgrado a factibilidade ou não do que se está a aventar pelo seu uso, o metaverso  tende a revolucionar o turismo de lazer. Afinal, por meio das viagens virtuais, é facultado ter  absoluto  controle  sobre  o  que  se  vai  encontrar  no  destino;  visitar  lugares  inacessíveis  e  independentes  d o  tempo  cronológico;  resgatar  a  memória,  a  cultura,  a  arquitetura,  etc.  de  povos que não existem mais; propiciar completa acessibilidade para portadores de deficiência  física, bem como conhecer territórios ambientalmente protegidos e de acesso proibido para o  turismo físico (SUSSMANN; VANHEGAM, 2000; TAUFER, 2020; TOLEDO et al., 2013)   Decerto, essas  vantagens ajudam a explicar por que o turismo virtual tem atraído  cada  vez  mais  pessoas  interessadas  em  fazê ­lo.  Em  pesquisa  realizada  pela  plataforma  de  reserv as  Booking.com ,  com base  num  universo de 24.179 pessoas de 33 países,  verificou­se  que 43% delas pretendem explorar destinos  virtuais,  sendo que, para 35% dos entrevistados,  aceita­se passar vários dias no metaverso em viagem de lazer (REVISTA EXAME, 2022) .   É  difícil  crer,  no  entanto,  que  se  alcance  uma  etapa  da  evolução  histórica  do  turismo em que  não  haja mais  viagens  físicas a  lazer  – a própria pesquisa da Booking.com   apontou  que,  para  60%  dos  inquiridos,  o  virtual  não  oferece  aquilo  que  pode  ser  experienciado  pela  viagem  física.  Na  realidade,  a  literatura  do  tema  mostra  que  as  visitas  virtuais  acabam  funcionando  como  um  preâmbulo  para  a  viagem  física,  principalmente  quando se reconstrói, ampliando ­os, fantasiando ­os, aspectos da realidade física dos lugares a  serem visitados (GOMES; ARAÚJO, 2012; SUSSMANN; VANHEGAM, 2000).    Turismo e  M etaverso: da crítica sociológica a  s ua  aplicação na  atividade turística   Alan Faber do Nascimento    _____________________________________________________________ 154    E mesmo que se advogue que essas viagens tenham vantagens de que não mais se  poderá prescindir, fato é que é prematuro afirmar que o futuro do turismo está definitivamente  traçado no metaverso.     CONSIDERAÇÕES FINAIS   Assim como toda tecnologia que promete revolucionar a vida social, o metaverso  descortina  possibilidades,  mas,  também,  desperta  medos  e  aflições.  No  caso  do  uso  do  metaverso pelo turismo, pode ­se vislumbrar alguns deles.   Uma  questão  é  sobre  como  o  investimento  turístico  no  metaverso  tem  sido  majoritariamente feito pelas grandes empresas do setor. Talvez  se esteja a assistir a um novo  momento  da  concentração  monopolista  do  setor.  A  novidade  em  relação  ao  passado  consistiria  na  fusão,  na incorporação e  na aquisição de empresas  turísticas pelas Big  Techs .  Por  consequência,  o  metaverso  poderia  aprofundar  a  desigualdade  existente  nos  fluxos  turísticos  globais,  privilegiando  aqueles  lugares  que  dispõem  de  recursos  financeiros  e  tecnológicos para promover ações e campanhas físico ­digitais, em detrimento de comunidades  de países periféricos, interessadas no desenvolvimento do turismo.    Ademais,  malgrado  a  ideia  de  um  turismo  sem  impactos,  sabe­se  que  a  imaterialidade  desse  capitalismo  virtualizado  supõe  a  transformação  de  países  pobres  em  repositórios  de  lixos  eletrônicos – muitos  deles  vivendo  a  dualidade  entre  a  pressão  internacional pela proteção da natureza, tendo em vista inclusive o seu consumo turístico, e a  absorção da degradação ambiental promovida pelos países mais industrializados. Adicione ­se  a isso a precarização  laboral embutida em  formas de trabalho  virtuais, digitais. Certamente,  alguns  postos  tradicionais  do  turismo  deixarão  de  existir,  outros  serão  criados,  novas  com petências e qualificações serão exigidas dos turismólogos, e, também, das universidades e  escolas, e dos professores que os formam. Do que não se pode excluir da miragem o aumento  do  desemprego,  da  informalidade  e  o  adoecimento  psíquico  e  físico  dos  trabalhadores  do  turismo.    E, para os  turistas, enfim, resta o risco que já  se observa  no  uso indiscriminado  das redes  sociais, a saber: a manipulação algorítmica. Há indicações  científicas de que o uso  de óculos  3D  possui  propriedade  ainda  mais  viciante do  qu e  os  dispositivos  por  ora  mais  usados para acessar o mundo  virtual, os  smartphone s e os tablets . O que, decerto,  vai afetar  nos  casos  de  ansiedade,  depressão,  transtornos  obsessivo ­compulsivos  etc.,  cada  vez  mais  expressivos e amplamente associados pela li teratura científica às tecnologias digitais.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 155    Desnecessário  dizer  que  tudo  isso  pode  atualizar  a  crítica  mais  comum  que  diferentes  orientações  teóricas  da  sociologia,  do  marxismo  aos  estudos  pós­modernos,  endereçam ao turismo  convencional,  físico, a de que  se trata de  uma experiência de  viagem  essencialmente oculocêntrica, posto que baseada no consumo de imagens. A diferença agora é  que  isso  seria  potencializado  pela  transformação  imagética  dos  demais  sentidos  humanos,  todos “metaversados”.     REFERÊNCIAS     A NTUNES, R. As ameaças que vêm da Ásia. Folha de São Paulo . São Paulo, 23 mai. 2012.  Disponível  em:  https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/44424 ­as ­ameacas ­q ue ­vem ­da­ asia.shtml . Acesso em: 19 abr. 2023.     BAUMAN, Z.  Identidade. São Paulo: Zahar, 2005.     CABRERA,  A.  M.  El   Metaverso  como  herramienta  para  eventos  corporativos  internacionales . 47f. Monografia (Especialização em Marketing e Publicidade) – Facultad  de  Ciencias  Sociales  y  Comunicación,  Universidad  Europea,  Madrid,  2022.  Disponível  em:  https://titula.universidadeuropea.com/handle/20.500.12880/2013. Acesso em: 10 abr. 2023.    CAMPOS,  P.  Empresas  dos  segmentos  aéreo  e  hoteleiro  já  testam  as  possibilidades  e  a  interação  no ambiente  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Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___       COMO TRANSFORM AR UM DESTINO TURÍST ICO CONVENCIONAL EM  INTELIGENTE SEM GAST AR MUITO?   ANÁLISE EXPLORATÓRIA   DE DIAMANTINA/MG     Hugo Rodrigues de Araújo   Professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   hugo.araujo@ufvjm.edu.br     Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   guilhermefdcv@ufvjm.edu.br       Ramon Duarte Araújo   Estudante da Univ ersidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   ramon.duarte@ufvjm.edu.br        INTRODUÇÃO   Na  atual  era  digital,  inteligente  se  tornou  uma  palavra  para  descrever  desenvolvimentos  tecnológicos,  econômicos  e  sociais  alimentados  por  tecnologias  da  informação  e  comunicação  (TICs)  que  envolvem  novas  formas  de  conectividade,  dados  abertos  e  troca  de  informações,  bem  como  habilidades  para  inferir  e  raciocinar  (BENCKENDORFF; SHELDON; FESENMAIER, 2014).    Höjer  e  Wangel  (2015)  argumentam  que  não  são  os  avanços  tecnológicos  individuais, mas sim a interconexão, sincronização e uso combinado de diferentes tec nologias  que  constituem  o  que  hoje  é  denominado  inteligente.  Harrison  et  al .  (2010)  conceituam  inteligente  como  a  exploração  de  dados  do  mundo  para  obter  informações  instantâneas,  através de análises, modelagens, otimizações e visualizações complexas, que permitem tomar  melhores decisões.   Em geral,  o  termo  inteligente,  quando  associado a  cidades  (cidade  inteligente),  descreve os esforços voltados para o uso de tecnologias de forma inovadora, com o intuito de  alcançar a otimização de recursos, governança eficaz e justa,  sustentabilidade e qualidade de  vida  para  os  cidadãos  (GUO;  LIU;  CHAI,  2014).  Em  conexão  com  infraestruturas  físicas  (casa inteligente, fábrica inteligente, entre outros), o foco está em confundir os limites, entre o  físico e o digital, e em promover a integração de tecnologias, que possibilitam o avanço de  soluções  em  IoT  (Internet  of  Things  /  Internet  das  Coisas)  (LU;  PAPAGIANNIDIS;  ALAMANOS, 2018).  Quando  somado  a  tecnologias  ( smart  phone,  smart  card,  smart  TV ,  Como transformar um destino turístico convencional em inteligente sem gastar muito?   A nálise   exploratória de  D iamantina/ MG   Hugo Rodrigues de Araújo  Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Ramon Duarte Araújo   ____ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ _     160    entre  outros),  o  termo  inteligente  descreve  multifuncionalidades  e  altos  níveis  de  conectividade  (NEUHOFER;  BUHALIS;  LADKIN,  2015).  Já  no  contexto  de  economias  (economia  inteligente),  o  termo  refere­s   a  tecnologias  que  apoiam  novas  formas  de  colaboração e criação de valor que levam à inovação de mercados, ao empreendedorismo e à  maior competitividade (WERTHNER  et al ., 2015).  No  turismo,  por  sua  vez,  a  palavra  inteligente  é  usada  para  descrever  um  amálgama  complexo de  todos os itens acima (HUNTER  et  al ., 2015). Mariani, Bresciani e  Dagn ino  (2013)  argumentam  que  o  turismo  inteligente  utiliza  a  tecnologia  para  mudar  fundamentalmente  as  relações  que  os  turistas  têm  com  o  destino.  O  turismo  inteligente  envolve a implementação de tecnologias e  sistemas inovadores que apoiam a administração  de recursos,  marketing eficaz,  organização eficiente e  serviço  superior (KOO  et  al. , 2015).  Buhalis  e  Amaranggana  (2015)  descrevem  a  orientação  estratégica  do  turismo  inteligente  voltada  para  a  competitividade,  o  empreendedorismo,  a  inovação  e  o  desenvolvimento  de  capital  humano e social. A aprendizagem e a gestão do conhecimento são resultados a serem  alcançados  com a implementação do turismo inteligente (DEL CHIAPPA; BAGGIO, 2015).  Lamsfus  et  al .  (2015)  ressaltam  a  compreensão  profunda  da  mobilidade  humana como  o  propósito  maior  do  turismo  inteligente.  Para  autores  como  Gretzel et  al .  (2015),  o  aprimoramento da experiência turística deve ser a finalidade de todos os esforços de turismo  inteligente. De  fato, entende­se que o aumento dos  níveis de  cocriação de experiência é  um  resultado importante do turismo inteligente (BUONINCONTRI  et al ., 2017).   Em termos conceituais, a Sociedade Mercantil Estatal para a Gestão da Inovação e  as  Tecnologias  Turísticas  (SEGITTUR),  da  Espanha,  foi  a  primeira  instituição  a  nível  internacional  a  definir  um  destino  turístico  inteligente  (DTI)  como  um  destino  inovador,  construído  sobre  uma infraestrutura de tecnologia de ponta, que garante o desenvolvimento  sustentável dos espaços turísticos acessíveis a todos; o que facilita a int eração e integração do  visitante  com  o  seu  entorno,  aumenta  a  qualidade  da  experiência  no  destino  e  melhora  a  qualidade de vida dos próprios moradores (SEGITTUR, 2023).  Contudo,  Boes,  Buhalis  e  Inversini  (2016)  alertam  que  ainda  não  há  uma  definição de DTI amplamente aceita e mundialmente adotada como referência. Harrison  et  al.   (2010) alertam que o  uso descomedido da palavra inteligente  fez  com  que  seu  conceito  se  tornasse difuso e,  frequentemente,  utilizado para impulsionar agendas políticas em torno de  inovações tecnológicas banais.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 161    No  caso específico do turismo, observa ­se o  uso exagerado do termo inteligente  no contexto de iniciativas de dados abertos, ou para projetos triviais, como a promoção de wi ­ fi gratuito  em áreas  públicas,  ou  o  desenvolvimento  de  aplicativos  móveis.  Embora  essas  tecnologias e novas abordagens de coleta, gerenciamento e compartilhamento de dados sejam  importantes  iniciativas, elas  não abrangem a dimensão  completa do  significado de  turismo  inteligente (HARRISON  et al. , 2010).  Diante da importância dos destinos turísticos em todo o mundo acompanharem as  mudanças  que  estão  em  voga  na  sociedade,  para  se  manterem  competitivos  no  mercado,  várias investigações científicas e documentos institucionais já apontam formas de promover a  transformação de  um destino turístico  convencional em inteligente. Porém, o que  se propõe  com  este  estudo é encontrar  soluções  mais  adequadas  à realidade da  maioria dos  destinos  turísticos  brasileiros,  que  convivem  diariamente  com  uma  série  de  dificuldades,  como  a  desarticulação do trade turístico  local, o acesso  tardio à tecnologia de ponta e,  sobretudo, a  insuficiência  de  recursos  públicos  para  realizar  investimentos  (COUTINHO;  NÓBREGA,  2019). O desafio, portanto, é encontrar soluções que possam ser implementadas pelos destinos  brasileiros,  sem  que  para  isso  seja  necessário  investir  vultosa  quantidade  de  recursos  financeiros.    À vista disso, um estudo exploratório foi realizado na cidade de Diamantina, que  fica  situada  na  Mesorregião  do  Jequitinhonha,  em  Min as  Gerais.  Diamantina  possui  um  conjunto  paisagístico  singular,  Patrimônio  Cultural  da  Humanidade,  e  está  inserida  na  Reserva  da  Biosfera  da  Serra  do  Espinhaço,  reconhecidos  pela  Organização  das  Nações  Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO . A atividade turística já ocorre em  Diamantina,  porém  ainda  de  forma  pouca  expressiva,  muito  aquém  do  seu  potencial  (MOREIRA;  DA  SILVA,  2020).  Sendo  assim,  o  desenvolvimento  do  turismo  de  forma  inteligente  pode  contribuir  para  tornar  Diamantina  um  destino  turístico  mais  atraente  e  competitivo  no  mercado  nacional  e,  ao  mesmo  tempo,  melhorar  a  qualidade  de  vida  dos  residentes.  Este estudo  foi realizado de outubro de 2021 a  setembro de 2022, tendo o apoio  financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – FAPEMIG (bolsa  de Iniciação Científica) e contou  com a participação de um discente bolsista e dois docentes  do Curso de Turismo da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri ­UFVJM.       Como transformar um destino turístico convencional em inteligente sem gastar muito?   A nálise   exploratória de  D iamantina/ MG   Hugo Rodrigues de Araújo  Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Ramon Duarte Araújo   ____ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ _     162    METODOLOGIA   O  presente  estudo  caracteriza ­se  como  uma  pesquisa  aplicada,  de  caráter  exploratório,  com  abordagem  qualitativa.  A  pesquisa  qualitativa  preocupa ­se  com  fatos  da  sociedade que estão  centrados  na intepretação e explicação da dinâmica das relações  sociais  (MINAYO, 2010). Para Bogdan e Biklen (1994), o  universo dos  significados dão o tom da    pesquisa  qualitativa,  porque está  centrada  na  perspectiva dos  participantes,  cuja  análise de  dados ocorre de modo indutivo.   Para  atingir  os  objetivos  propostos, foi   utilizad a  uma  combinação  de  proce dimentos,  técnicas e instrumentos de investigação, empregados  sobretudo  nas  ciências  sociais,  como  revisão  da  literatura,  estudo  de  caso,  observação  direta,  entrevistas  semiestruturadas e notas de campo ( BECKER , 1994).  O estudo iniciou  com  uma pesquisa bib liográfica, investigando as mudanças  que  vêm ocorrendo no setor de turismo, do ponto de vista do uso da tecnologia, e os fundamentos  que  levam  os  destinos  a  serem  considerados  inteligentes.  Além  disso,  foi  necessário  identificar  se, atualmente,  há incentiv os  públicos  e/ou  privados  para  o desenvolvimento de  DTIs  no  Brasil.  Distintas  fontes  de  informação  serviram  de base  de  conhecimento,  desde  publicações  científicas  (livros,  artigos  e  teses)  a  publicações  não  científicas,  mas  de  reconhecido  valor  e  rigor  inf ormativo,  tais  como  documentos  de  órgãos  públicos  e  de  instituições  privadas  envolvidas  diretamente  no  planejamento  e  na  gestão  de  destinos  turísticos (relatórios,  normas técnicas, boletins, entre outros) e notícias de cunho jornalístico  publicadas em jorn ais e revistas.  A próxima etapa deste estudo envolveu a realização de um diagnóstico situacional  de  Diamantina,  utilizando  os  critérios  de  avaliação deum  destino  turístico  que  almeja  se  tornar  inteligente  (governança,  inovação,  tecnologia,  acessibilidade  universal  e  sustentabilidade), de acordo com a norma espanhola UNE 178501 ­ Sistema  de  gestión  de  los  destinos  turísticos  inteligentes  (AENOR, 2016).  A escolha desta  norma  como referência  se  deve ao  fato de a Espanha ter  sido pioneira  na  criação de um regulamento que especifica os  requisitos  para  estabelecer,  implementar,  manter  e  melhorar  um  sistema  de  gestão  de  um  destino turístico inteligente.  Além disso, esta  norma é aplicável a todos os tipos de destinos  turísticos,  independentemente  da  sua  vocação  (cultural,  natural,  religioso,  entre  outros),  dimensão e natureza do seu órgão gestor.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 163    As  informações  necessárias  para  realização  do  diagnóstico  situacional  de  Diamantina  foram   levantadas,  primeiramente, através da análise de documentos de órgãos  públicos e de instituições privadas. Em seguida, foram  realizadas 15 entrevistas com diversas  partes  interessadas,  sendo:  1  representante  da  Prefeitura  Municipal ,  2  vereadores,  5  empresários do setor de turismo, 1 representante do IPHAN, 1 guia de turismo e 5 gestores de  atrativos turísticos públicos e privados.   As  entrevistas  foram  previamente  agendadas  e  realizadas  de  forma  presencial,  entre  os  meses  de  março  e julho  do  ano  de  2022.  Para  a  realização  das  entrevistas,  foi  utilizado um roteiro semiestruturado, composto por perguntas abertas elaboradas com base na  norma  espanhola  UNE  178501  (AENOR,  2016),  que  especifica  os  requisitos  para  implementar  e  gerir  um  DTI,  tendo  em  conta  os  cinco  eixos  fundamentais:  inovação,  tecnologia, acessibilidade, sustentabilidade e governança. A ordem e a redação das perguntas  permaneceram  invariáveis  para  os  entrevistados,  a  fim  de  que  as  informações  obtidas  pudessem ser comparadas  entre si. As entrevistas foram gravadas com o prévio consentimento  dos  entrevistados.  Os  entrevistados  não  são  identificados  nesse  artigo  por  sigilo  e  compromisso  ético  assumido  pela  pesquisa,  conduzida  de  maneira  a  atenuar  possíveis  constrangimentos dos  participantes.   Posteriormente,  as  entrevistas  foram  transcritas  e  procedeu ­se  uma  análise  de  conteúdo  proposta  por  Bardin  (2010),  que  se  estrutura  em  três  fases:    1)  pró­análise;  2)  exploração  do  material,  categorização  ou  codificação;  3)  tratamento  dos  rsul ados,  inferências e interpretação. Na primeira etapa, realizou­se   leitura e organização do material,  que  permitiu  fazer  levantamentos  hipotéticos  e  gerar  ideias  preliminares  relacionadas  aos  objetivos da investigação.  A próxima etapa envolveu a elaboração de  um quadro  categorial  das  potencialidades e deficiências de Diamantina, atribuídas aos  cinco eixos  que  sustentam  um DTI (inovação, tecnologia, acessibilidade, sustentabilidade e governança). A partir disso,  assinalou ­se em  cada resposta as palavra s e, ou termos  utilizados para designar a percepção  dos  agentes  sobre  os  temas.  A  última  etapa  teve  como  finalidade  apresentar  reflexões  analíticas, que vêm aprofundar o estudo, orientado  pelas   hipóteses   e   referenciais   teóricos  (MOZZATO; GRZYBOVSK I, 2011). Por fim, para manter a riqueza das informações obtidas  com as entrevistas,  optou ­se  por apresentar os  resultados do diagnóstico de Diamantina de  forma discursiva, considerando o contexto de atuação de cada agente entrevistado, ao invés de  utiliza r tabelas e gráficos, por exemplo.  Como transformar um destino turístico convencional em inteligente sem gastar muito?   A nálise   exploratória de  D iamantina/ MG   Hugo Rodrigues de Araújo  Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Ramon Duarte Araújo   ____ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ _     164    Com  o  intuito  de  aprofundar  a  discussão  dos  resultados,  foi  realizado  um  levantamento  de  projetos  desenvolvidos  em  outros  destinos  turísticos  nacionais  e  internacionais que  servem de referência, para solucionar questões i dentificadas no diagnóstico  que  impedem  ou  dificultam  Diamantina  a  se  tornar  um  DTI.  Com  base  nisso,  ao  final,  apresentou ­se  um  conjunto  de  propostas  para  transformar  Diamantina  em  um  DTI,  organizadas em tabelas com o seguinte escopo: O que fazer? Por que  fazer? Como fazer?      ANÁLISE EXPLORATÓRIA DE DIAMANTINA    A apresentação e discussão do diagnóstico de Diamantina, bem como as propostas  de baixo custo para solucionar os entraves que, atualmente, dificultam ou impedem a cidade  de  se  tornar  um DTI, encontra m ­se divididas  nos  cinco eixos estratégicos que precisam  ser  trabalhados  pelos  gestores,  que  são:  governança,  tecnologia,  inovação,  acessibilidade  universal e sustentabilidade (SEGITTUR, 2023).    Governança   O  turismo é  um  setor  da  economia  que  envolve  múlti plas  inter ­relações  entre  diferentes atores que intervêm  na produção de bens e  serviços  consumidos pelos  visitantes.  Nesse  sentido,  a  governança  se  apresenta  como  uma  forma  de  liderar  os  processos  de  inovação,  fortalecimento e mudança das dinâmicas do  setor de  turismo, reunindo  os atores  públicos e privados, com a intenção de tomar decisões coletivas em relação ao planejamento e  à gestão do destino (LI et al. , 2016).  A governança estabelece  um direcionamento  comum  aos  interessados do  setor,  fornece  uma estr utura  para discussões  públicas  sobre  os  rumos  da atividade  turística, bem  como define o papel de cada grupo social, facilitando o consenso de estratégias e objetivos de  desenvolvimento.  Portanto,  pode ­se  afirmar  que,  sem  uma  governança  consolidada,  é  impro vável que o destino consiga avançar no processo de transformação em destino turístico  inteligente (HODŽIĆ; ALIBEGOVIĆ, 2019).  Em Diamantina, a principal  forma dos agentes públicos e privados  contribuírem  para  o  planejamento  e  para  a  gestão  do  turismo é  por mei   da  participação  no  Conselho  Municipal  de  Turismo ­COMTUR.  Trata ­se  de  um órgão de  caráter  normativo,  consultivo,  deliberativo e propositivo,  vinculado à Prefeitura Municipal de Diamantina e à Secretaria de  Cultura, Turismo e Patrimônio Histórico.  O COMTUR é composto por sete representantes do  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 165    poder público, quatro da iniciativa privada e cinco da sociedade civil organizada. As reuniões  do COMTUR ocorrem mensalmente e o mandato dos membros do  conselho é de dois anos  (DIAMANTINA, 2016). Os empresário s entrevistados,  que  não  fazem parte do COMTUR,  alegaram que  não  são informados das  notícias e  se  sentem excluídos do processo decisório.  Essa insatisfação é compartilhada pelos demais moradores locais, principalmente em relação à  falta de informação sobre os eventos que ocorrem na cidade.   Atualmente,  o  órgão  municipal  gestor  do  turismo  divulga  informações  relacionadas  ao  calendário  de  eventos  da  cidade  em  sua  página  do  Instagram,  além  de  imprimir anualmente um folder. Por enquanto, nenhuma outra TIC é util izada para facilitar a  sensibilização  e  participação  dos  agentes  do  turismo  local. Os  empresários,  por  exemplo,  ressaltaram  que  não  recebem auxílio  e/ou orientação  por  parte  do  poder  público  sobre  possibilidade de ampliar a acessibilidade de  seus empreendimentos,  inovar  seus  produtos e  serviços e/ou melhorar a sustentabilidade de seus negócios . Segundo a servidora da Diretoria  de Turismo ligada à Prefeitura de Diamantina, ainda há uma  confusão das responsabilidades  do poder público e da iniciativa privada em relação ao desenvolvimento do turismo  local, o  que justifica o atraso na evolução da atividade turística.  Por meio do depoimento de diferentes atores, é notório que a governança local do  turismo  em  Diamantina  apresenta  lacunas  estruturais.  A  existência  d o  COMTUR  não  é  suficiente  para  criar  sinergias  e  estabelecer  um  processo  de  realização  de  atividades  coordenadas  entre  atores  públicos,  privados  e  os  demais  interessados .  Sendo  assim,  o  fortalecimento  da governança  local  deve  ser  pautado  como  prioridade  para  Diamantina  se  transformar em um DTI e impulsionar a sua competitividade no mercado turístico. Na tabela 1  são apresentadas medidas de baixo custo, que podem ser adotas para fortalecer a governança  do turismo na cidade.    Tabela 1. Propostas de  fortalecimento da governança do turismo em Diamantina.   O que fazer?    Estabelecer mecanismos de governança para decidir e conduzir o processo de transformação em DTI.  Por que fazer?    O princípio da  cooperação torna­se  condição essencial  no  DTI,  na qual  poder público, empresários,  sociedade  civil e instituições de ensino compartilham a escolha de prioridades e a participação na tomada de decisões. Isso  também possibilita contornar os problemas que nascem das diferenças de interesses entre os agentes; lemb rando  que  a  comunicação  clara  e  adequada é  fundamental,  podendo  significar  o  sucesso  ou  o  fracasso  de  uma  de  governança.  Como fazer?     Identificar e convidar as partes interessadas para contribuir com o processo de desenvolvimento do DTI. É  essencial contar  com o envolvimento do poder público, empresários, sociedade civil e instituições de  ensino do destino;     Mobilizar, sensibilizar e capacitar os atores do destino (poder público, empresários, sociedade civil e  Como transformar um destino turístico convencional em inteligente sem gastar muito?   A nálise   exploratória de  D iamantina/ MG   Hugo Rodrigues de Araújo  Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Ramon Duarte Araújo   ____ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ _     166    instituições de ensino);    Estabelecer uma  organização social de gestão do DTI, podendo ser um fórum, um conselho, um comitê ou  outro tipo de colegiado;    Estabelecer uma dinâmica de papéis e interações entre os membros da organização, de maneira a  desenvolver a participação e o engajamento de todos no processo de decisão;    Estabelecer processos de tomada de decisão democráticos, nos quais todos tenham o direito de propor,  conduzir e executar ações; a institucionalização de uma organização de gestão do DTI deve ter como base a  transparência e a representatividade dos setores.  O que fazer?    Estabelecer, implementar, manter e melhorar continuamente o sistema de gestão do DTI.   Por que fazer?    É  importante observar, a todo momento, os princípios administrativos de gerenciamento, o estabelecimento de  metas, a coordenação de pessoas e recursos financeiros e o fortalecimento da participação social.  Como fazer?     Realizar o planejamento, o acompanhamento, a monitoria e a avaliação das estratégias de desenvolvimento  do DTI;    Articular parcerias e negociar re cursos técnicos e financeiros com as diferentes esferas do poder público,  empresários e organismos nacionais e internacionais para apoiar a implementação do DTI.  Fonte: Elaborado pelos autores.    Tecnologia   Os avanços tecnológicos mudaram a maneira como as viagens acontecem, e esses  novos desenvolvimentos  proporcionam aos  turistas  uma experiência ainda mais  interativa e  emocionante. A tecnologia refere ­se a um conjunto de atributos incorporados no destino par a  melhorar a experiência dos  visitantes e a qualidade de  vida dos  próprios  moradores  locais.  Nesse sentido, a implementação de projetos com infraestruturas tecnológicas inovadoras deve  auxiliar a mobilidade, a informação, a comunicação e a interação das pessoas com os atrativos  turísticos (BUHALIS; AMARANGGANA, 2015).    É  sabido  que  o  setor  de  turismo,  em  geral,  está  passando  por  profundas  transformações. Existem muitos  fatores influenciadores, mas as  novas  soluções tecnológicas  são  sem dúvida  um  dos  princip ais agentes desse  processo.  Vale  ressaltar  que,  apesar  de  diversos estudos  sobre DTIs  se concentrarem no elemento tecnológico, a tecnologia deve ser  vista  como  um  suporte  para  o  alcance  de  informações  e  direcionamento  da  tomada  de  decisões dentro do ambient  inteligente,  não somente  um produto  singular que  se desprenda  dos  outros  instrumentos  técnicos  (CASADO ­ARANDA ;  SÁNCHEZ ­FERNÁNDEZ;  BASTIDAS ­MANZANO , 2021).  A partir da análise das informações obtidas com as entrevistas, verificou ­se que o  turista  que  vis ita Diamantina ainda  não encontra infraestruturas e dispositivos  tecnológicos  que  fornecem  informações de  qualidade  sobre  o destino,  como: aplicativos,  guias  digitais,  totens e/ou telas táteis, realidade aumentada, realidade virtual, entre outros. Diversos  destinos  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 167    turísticos já adotaram essas  ferramentas para satisfazer as  necessidades atuais dentro de seus  territórios.   Segundo a Diretoria de Turismo, estavam  sendo instalados  beacons 24  em alguns  pontos  turísticos da  cidade para  fornecer informações  por meio de  conexão Bluet oth  com  dispositivos  móveis.  Esse  sistema  fornecerá  informações  sobre  os  atrativos  e,  ao  mesmo  tempo, coletará informações dos  usuários. Além dos beacons,  havia um p rojeto que previa a  instalação de placas de QR code em alguns pontos turísticos da cidade. Tais propostas foram  implementadas após o encerramento desta pesquisa, não sendo possível sua avaliação.   Quando se faz referência ao desenvolvimento tecnológico para  a consolidação de  um DTI, o amplo acesso à internet deve ser visto como ponto de partida (BOES; BUHALIS;  INVERSINI, 2015). Apesar disso,  verificou ­se que ainda  não  há um projeto  com o objetivo  de oferecer aos turistas e moradores locais de Diamantina aces so gratuito à internet em pontos  estratégicos  da  cidade,  além  do  serviço  de  telefonia  celular  ser  instável,  com  locais  sem  recepção e lento em comparação com outras cidades.   Quanto  ao  uso de  tecnologias  para a gestão do  relacionamento  com  os  turistas  ante s,  durante  e  após  sua  viagem,  foi  identificado  pela  pesquisa  que  não havia  nenhuma  iniciativa neste sentido . As informações mais relevantes para os turistas eram disponibilizadas  exclusivamente por meio do site “Viva Diamantina” e das páginas institucionai s da cidade no  YouTube, Facebook e  no  Instagram.  O poder público  não dispunha de  uma equipe  técnica  composta por  profissionais  capacitados para desenvolver esse tipo de relacionamento com os  visitantes, assim  como  não estava prevista a  contratação de  uma a ssessoria  de  comunicação  terceirizada para suprir essa carência .   Segundo  Buhalis  e  Amaranggana  (2015),  as  pessoas  são  os  principais  componentes que movimentam as atividades turísticas e aquelas que devem  ser inteiramente  beneficiadas pelas propostas de um  DTI. Logo, é necessária a compreensão do que os turistas  desejam,  mas  também  os  desejos  dos  moradores  locais,  a  fim de  oferecer experiências  de  melhor qualidade. O destino que busca  se tornar inteligente precisa, portanto, implantar  um  sistema de coleta e processamento de dados automatizado para conhecer e fazer a análise do  perfil dos  visitantes em  tempo real e, assim, otimizar as estratégias de marketing,  vendas e  atendimento.                                           24 O Beacon é um dispositivo de geolocalização que  utiliza  uma tecnologia denominada  B lu etoo th  Low Energy   (BLE), que emite um sinal intermitente de ondas de rádio. Com isso, ele consegue localizar um  smartphone  em  um determinado raio e enviar notificações. Para que essas ações aconteçam, o usuário precisa ceder a permissão  pelo seu  smartphone  e também é necessário estar com o B lu etooth  ligado.  Como transformar um destino turístico convencional em inteligente sem gastar muito?   A nálise   exploratória de  D iamantina/ MG   Hugo Rodrigues de Araújo  Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Ramon Duarte Araújo   ____ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ _     168    Em  Diamantina,  não  foram  identificados  esforços  para  conhecer  melhor  o  visitan te e suas  características de consumo. Assim como em vários destinos turísticos, há  em  Diamantina  um  Centro  de  Atendimento  ao  Turista ­CAT,  que  funciona  de  segunda ­feira  a  sábado,  das  08 às  17  horas  e  domingo,  das  09 às  13  horas.  No  CAT  o  turista encontra   es tagiários para auxiliá­lo com informações sobre a cidade e distribuir panfletos  c merciais e  institucionais.   Por  parte  dos  empresários  e  gestores  de  atrativos  turísticos  de  Diamantina,  somente  aquele  que desenvo lve  serviços  de  contratação de  transporte  urbano  por  meio de  aplicativos  digitais  alegou  que  consegue  coletar  informações  sobre  o comportamento  dos  turistas .  Com base  nesses  dados,  o  empresário  toma decisões  mais  estratégicas  para  o  seu  negócio, como enviar  mensagens  promocionais para os clientes em  momentos oportunos.   Em  alguns  atrativos  turísticos,  tradicionalmente,  é  feita  a  contabilização das   visitas  e o levantamento de certas características dos visitantes por meio de um “livro de visitas”. Contudo, as informações obtidas são básicas, como: o nome, a origem e a data da  visita . Já os empresários do setor de hospedagem por determinação do Ministério do Turismo,  em  princípio,  são  obrigados  a  apresentar  e  solicitar  aos  hóspedes  que  preencham  a  Ficha  Nacional de Registro de Hóspedes  no momento do chec k ­in . Entretanto,  nenhum empresário  entrevistado afirmou que utilizava dessas informações para identificar o perfil de seus clientes  e desenvolver estratégias comerciais.   Em geral, os gestores associam projetos de inovação tecnológica a altos custos de  investimento,  bem  como  de  manutenção.  Porém,  na  tabela  2  estão  sendo  apresentadas  propostas de uso de tecnologias de baixo custo que poderiam ser aplicadas em Diamantina.     Tabela 2. Propostas de uso da tecnologia no turismo de Diamantina.   O que fazer?   Conhecer e analisar continuamente o perfil dos turistas de Diamantina.   Por que fazer?   Conhecer o perfil do turista que frequenta o DTI é fundamental, pois auxilia na tomada de decisões em diversas  questões, como se posicionar corretamente no mercado e oti mizar as estratégias de preços e promoções. Além  disso, com base nas análises dos dados é possível iniciar um processo contínuo de melhoria do turismo.   Como fazer?     Disponibilizar aos turistas e residentes acesso livre à internet em pontos estratégicos do  destino, mediante  o preenchimento de um formulário de cadastro;     Implementar um sistema de coleta, organização e tratamento de dados dos turistas, para identificar seus  gostos, costumes, atividades, avaliações, etc.;    Criar formas de incentivo para motivar o s turistas a participar da pesquisa;    Compartilhar e permitir o acesso livre às informações geradas sobre o perfil dos turistas, com exceção dos  dados pessoais;  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 169      Apontar aspectos observados nas pesquisas que contribuem com a inovação e a melhoria dos produto s e  serviços turísticos do destino.   O que fazer?   Criar  canais de  comunicação à distância que permitam aos turistas interagir diretamente  com o destino antes,  durante e após a viagem.  Por que fazer?   Criar uma interação mais  forte entre o destino e os turistas, estabelecendo um laço que vai além de compras e  vendas. As principais características dessa estratégia são interatividade, personalização, receptividade, suporte e  acompanhamento.   Como fazer?     Disponibilizar recursos técnicos e financeiros para a  criação de canais de comunicação diretos com os  turistas, como: telefone, e ­mail, WhatsApp, SMS e rede sociais digitais (Facebook, Instagram, Twitter,  YouTube, etc.);    Definir o(s) agente(s) responsável(is) por gerir esses canais de comunicação;    Estabelece r métodos padronizados de comunicação do destino com os turistas nos diferentes canais;     Definir a periodicidade e o tipo de postagens a serem realizadas nas redes sociais virtuais que o destino  está presente.  O que fazer?   Desenvolver  um  site  responsivo  com  conteúdo  interativo,  traduzido  em diferentes  idiomas,  que  permita  ao  turista  conhecer o destino e todos  seus  componentes (história,  curiosidades, atrativos, infraestrutura,  serviços  turísticos, etc.).  Por que fazer?   Criar um  site é essencial para promover o destino, obter o interesse e a confiança das pessoas e, assim, atrair  mais  turistas.  O  conteúdo de  um  site é  responsável  por  agregar  maior  valor,  tornando  o  site  não  somente  atrativo, mas também inteligente e enriquecedor para os leitores. Já um site responsivo é aquele que adapta seu  design ao tamanho dos vários tipos de telas para permitir uma visualização mais facilitada e adaptada.  Como fazer?     Contratar uma empresa especializada e com  know ­how  para a criação e manutenção do site do destino;   Defi nir o(s) agente(s) responsável(is) pela produção de conteúdo e atualização do site. Fonte: Elaborado pelos autores.    Inovação   A  inovação  surge  como  um  fomento à  competitividade do destino  no  mercado  através de ações e recursos estabelecidos, para a atualização e avanço das atividades turísticas  (MENDES  FILHO;  SILVA;  DA  SILVA,  2019) . Porém,  embora  a  inovação apareça  frequentemente  vinculada  às  novas  TICs,  ela  se  qualifica  melhor  como  um  fenômeno  de  aperfeiçoamento dos  serviços  ou  produtos  independente de  conceitos  tecnológicos  (BOES;  BUHALIS; INVERSINI, 2015).   Miskalo da Cruz  et  al.  (2020)  consideram que a inovação  na gestão de  um DTI representa abordagens inovadoras de gestão que  se traduzem em melhorias  significativas  na  experiência dos turistas antes, durante e após a estadia no destino. Todavia, vale ressaltar que,  para a configuração de um DTI através de inovações, é necessário que haja uma governança  do  turismo  consolidada,  ou  seja,  uma  organização  administrativa  de  colaboração  público­ privada que forneça as ferramentas necessárias para o desenvolvimento de produtos e serviços  turísticos  inovadores  (BUONINCONTRI; MICERA, 2016) .  Como transformar um destino turístico convencional em inteligente sem gastar muito?   A nálise   exploratória de  D iamantina/ MG   Hugo Rodrigues de Araújo  Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Ramon Duarte Araújo   ____ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ _     170    Em se tratando de Diamantina, observou ­se através das entrevistas que ainda não  havia a disponibilização de recursos humanos, técnicos e financeiros para o desenvolvimento  de estratégias de inovação do turismo, tanto por parte do poder público quanto da iniciativa  privada.  O  poder  público  tem  desenvolv ido ações  pontuais  que  contribuem  para  o  aperfeiçoamento e melhoria da atividade turística, porém  não  há  uma atuação  contínua  com  esse foco por meio de um escopo de projeto ou plano. Da mesma forma, os empre sários, em  geral,  apesar  de  reconhecerem  a  importância  da  inovação  do  turismo,  alegam  não  haver  recursos disponíveis para manter uma rotina de investimento em inovação de seus produtos e  serviços.  Por  conseguinte,  os  procedimentos  de  vigilância  tecnológica  e  inteligência  competitiva para detectar novas ideias, que permitem guiar inovações do turismo, acontecem  de forma isolada e s m planejamento.  Gretzel  et  a l.  (2015) afirmam que um DTI configura ­se  pela  soma  das  ações  inovadoras,  alinhadas  ao  rápido  processamento  das  tecnologias  de  sensores,  banco  de  dados  virtuais  e  as  mais  variadas  trocas  de  informações  por  meio  da  internet.  Tais  aplicações  permitem,  por  meio de plataformas  online,  a  comercialização  de  pacotes de  viagens personalizados, melhoria das experiências  no atendimento e  na interação  com  os  visitantes,  além do  esclarecimento  de dúvidas  pertinentes  ao  destino,  entre  outros  benefícios.  A  cidade  de  Barcelona,  por  exemplo,  ao  longo  dos  últimos  anos,  vem  se  consolidando  como  um  dos  principais  modelos  de  DTI  que  investe  em  seus  atrativos,  proporcionando um ambiente inovador. Os agentes governamentais de Barcelona perceberam  a importância do acesso democrático à internet e aos dados dos  usuários para que pudessem  criar formas de atender melhor tanto os turistas como a população local. A partir disso, criou ­ se  plataformas  que possibilitam acesso a bicicletas em qualquer parte da  cidade através de  dispositivos  móv eis,  melhorando  a  mobilidade  e  a  sustentabilidade  ambiental.  O  fluxo  de  transporte público  na  cidade passou  a  ser  controlado por meio de  sensores  que  calculam  a  demanda real, entre outras ações desenvolvidas nesse sentido (GRETZEL  et al. , 2015).    Tabela 3.   Propostas de inovação para o turismo de Diamantina.   O que fazer?   Incentivar a reflexão para detectar novas ideias que permitam guiar o desenvolvimento de produtos, serviços,  ou projetos de inovação do turismo.  Por que fazer?   Os destinos que investem em  inovação estão sempre oferecendo produtos e serviços mais atualizados e de  melhor qualidade; por conseguinte, aumentam sua competividade no mercado e atraem mais turistas.   Como fazer?   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 171      Criar campanhas de incentivo para a geração de novas ideias, visando que o setor abandone as maneiras  de pensar habituais e promova a inovação do turismo local, como, por exemplo, através de concursos que  premiem as melhores ideias de inovação;    Criar parceria com instituições de ensino e pesquisa para realizar de maneira sistemática a coleta, a  análise e a difusão de informações científicas e técnicas úteis para incorporar processos contínuos de  inovação do turismo.  Fonte: Elaborado pelos autores.      Acessibilidade universal   A  acessibilidade  universal  representa o direito de ir e  vir de  todos  os  cidadãos,  inclusive  daquelas  pessoas  com  deficiências  permanentes  ou  necessidades  especiais,  quer  sejam  cadeirantes,  deficientes  visuais,  auditivos  ou  surdos,  gestantes  ou  idosos.  Em  um  destino a acessibilidade universal precisa  ser  u m esforço amplo e contínuo para garantir que  os produtos e  serviços  turísticos  sejam acessíveis a todas as pessoas, independentemente de  suas  limitações  físicas  ou  intelectuais,  deficiências  ou  idade  (FERNANDES;  BERNIER,  2021).  Isso implica em ações que buscam melhorar de  forma gradativa a acessibilidade  universal de  toda oferta  turística existente (MISKALO  DA  CRUZ  et  al. , 2020). Para isso,  assim  como  ocorre  com  os  projetos  de  desenvolvimento  tecnológico  e  de  inovação  do  turismo,  a  acessibilidade  universal  precisa  fazer  parte  de  um  processo  colaborativo  envolvendo o poder público, as empresas  turísticas e a  comunidade em geral,  sobretudo os  usuários finais (MENDES FILHO  et al. , 2019).  No  caso  de  Diamantina,  o  desafio  da  acessibilidade  universal  pode  ser  maior,  visto que o conjunto arquitetônico da cidade é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico  e  Artístico  Nacional ­IPHAN  (IPHAN,  2014),  além  do  reconhecimento  da  paisagem  como  patrimônio  cultural  da  humanidade  pela  UNESCO.  Diante  disso,  qualquer  projeto  de  intervenção arquitetônica externa aos imóveis do perímetro urbano tombado precisa antes ser  avaliado  e  aprovado  pelo  IPHAN.  Por  outro  lado,  medidas  como  colocar  barras  de  acessibilidade em banheiros, dispor  locais de exposição em museus em altura adequada aos  cadeirantes, adequar larguras de portas internas para passagens de cadeirantes, disponibilizar  informações  em  braile,  são  adequações  arquitetônicas  para  atender  o  preceito  da  acessibilidade universal, mas não precisam de autorização do IPHAN.  Apesa r  disso,  atualmente,  o  poder  público  não  dispõe  de  um  plano de  acessibilidade  universal para Diamantina  visando a melhoria  contínua, tanto para os turistas  quanto para os moradores locais. A justificativa  apontada pelo poder público foi justamente a  Como transformar um destino turístico convencional em inteligente sem gastar muito?   A nálise   exploratória de  D iamantina/ MG   Hugo Rodrigues de Araújo  Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Ramon Duarte Araújo   ____ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ _     172    necess idade de  autorização do  IPHAN. Por  sua  vez,  em  entrevista,  o  servidor  do  IPHAN  esclareceu  que a acessibilidade  universal  não é mais  uma opção para os gestores  públicos,  mas  um  direito das  pessoas  previsto  em  lei .  O  IPHAN,  enquanto órgão  responsável  pela  proteção  do  patrimônio  nacional,  exige  que  os  projetos  de  acessibilidade  universal  de  Diamantina compatibilizem a acessibilidade com a  conservação dos bens tombados.   Os  gestores  de  atrativos  e  os  empresários  do  setor  de  turismo  confirmaram,  durante as entre vistas, a percepção de que a acessibilidade universal de Diamantina está longe  de  ser  uma realidade.  Até os  meios de  hospedagem, em  sua maioria, ainda  não dispõem de  quartos e áreas comuns adaptadas , apesar de frequentemente hospedarem idosos que visitam a   cidade, com o intuito de assistir a Vesperata25, e da obrigatoriedade legal26.  Diante disso,  na  tabela 3,  são apresentadas propostas de acessibilidade de baixo  custo  para  Diamantina  começar  a  investir  em  projetos  e  ações  que  façam  com  que,  aos  poucos,  toda s  as  pessoas  se  sintam  inseridas  no  turismo,  independentemente  de  qualquer  limitação.    Tabela 4. Propostas para a acessibilidade universal do turismo de Diamantina.   O que fazer?   Firmar um compromisso para a melhoria da acessibilidade universal do destino e  zelar pelo cumprimento dos  requisitos, tanto por parte da gestão pública como da iniciativa privada.  Por que fazer?   A acessibilidade do destino é importante porque garante que pessoas com mobilidade reduzida e, ou com  necessidades especiais tenham o dire ito de ir e vir sem prejudicar a sua segurança e integridade física.  Como fazer?     Estabelecer parceria com a Associação das Pessoas com Deficiência e Mobilidade reduzida de  Diamantina/MG.      Realizar um diagnóstico de todos aqueles aspectos que intervém na c adeia do turismo (desde a  informação promocional até as próprias infraestruturas, serviços e produtos turísticos), com o objetivo de  determinar em que medida satisfazem os requisitos contemplados na legislação vigente em matéria de  acessibilidade universal ;    Elaborar um plano de ação para melhoria da acessibilidade universal e garantir, com o apoio do IPHAN,  que qualquer intervenção, modificação, reposição, restauração ou criação de elementos da cadeia do  turismo leve em consideração os princípios do acesso  para todos.    O plano de ação deve ser acordado entra as partes interessadas, tanto públicas como privadas, em seus  âmbitos de competência.  O que fazer?   Planejar roteiros acessíveis e criar um manual (vídeo e/ou texto) para informar sobre a acessibilidade do  destino.  Por que fazer?   O turismo acessível, além de promover a incl usão, é uma ótima oportunidade econômica. Estima ­se que, no  Brasil, 17% da população tenha algum tipo de deficiência, isso seria mais de 32 milhões de pessoas.                                           25 A  Vesperata é  um  concerto  noturno,  realizado a  céu aberto,  composto  por  músicos  que  se apresentam  nas  sacadas dos casarões coloniais da Rua da Quitanda, no centro histórico de Diamantina.   26 A  Lei Brasileira de Inclu são da Pessoa com Deficiência, Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, determina que  todos os meios de  hospedagem devem oferecer, ao menos, 10% de  seus apartamentos adaptados para pessoas  com deficiência ou mobilidade reduzida.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 173    Como fazer?   Estabelecer  parceria com a Associação das Pessoas com Deficiência e Mobilidade reduzida de Diamantina/MG,  bem como com instituições de ensino e pesquisa e a Associação de Guias e Condutores de Turismo de  Diamantina  – ASGUITUR.   Fonte: Elaborado pelos autores.    Sustentabilidade   A  sustentabilidade  contempla  a  gestão  racional  e  eficiente  dos  recursos  (ambientais), a qualidade de vida dos turistas e moradores (socioculturais) e a competitividade  empresarial atrelada ao  vetor econômico. Portanto, em  um DTI  todo os agentes do turismo  precisam  estar  empenhados  em  encontrar  o  equilíbrio  entre  as  atividades  econômicas,  o  desenvolvimento social, a preservação da cultura e os elementos da natureza necessários para  a  sobrevivência  e  o  conforto  da  sociedade  em  geral.  Do  ponto de  vista  empresarial,  esse  cuidado com a sustentabilidade ainda pode se tornar um diferencial  competitivo no mercado,  considerando  as últimas  tendências  no  comportamento  dos  consumidores  (MISKALO  DA  CRUZ  et al. , 2020).  Em  setembro de 2022,  Diamantina  foi reconhecida  pela  organização  holandesa  Green  Destinations  como  um dos 100 destinos mais  sustentáveis para o turismo  no mundo.  Essa organização seleciona anualmente as 100 melhores boas práticas que servem de exemplo  para lideranças do turismo responsável a nível mundial (GREEN DESTINATION, 2022). No  caso de  Diamantina,  a ação  premiada  foi  a  revitalização do  carnaval,  que  sempre  foi  uma  referência  cultural  da  cidade,  mas  que  sofreu  descaracterizações  nos  últimos  anos  e,  por  conseguinte,  afastou  a  população  l ocal  dessa  festa  popular.  Atualmente,  o  evento  oferece  atrações destinadas mais para famílias, com destaque para o retorno dos blocos caricatos.  Além  da  revitalização  do  carnaval,  outras  medidas  citadas  pelo  poder  público  contribuem  para  a  preservação  da  cultura  local  e  a  melhoria  da  qualidade  de  vida  dos  moradores,  como  a  formação e a capacitação da mão­de­obra  local  para atuar  no setor de  turismo.  O  poder  público  também  afirmou  que  desenvolve  ações  em  parceria com  as   associações  de  bairro  para  compreender m lhor  as  demandas  da  comunidade  local  e  a  percepção sobre temas relacionados ao turismo .  Em  relação  às  questões  ambientais,  o poder  público  ainda não  implementou  medidas para incentivar os agentes do setor de turismo a adotar ações como o uso de energias  renováveis, a reutilização de materiais, a reciclagem e a compostagem. A  limpeza, a coleta e o  tratamento  de  resíduos  urbanos  é  realizado  por  uma  empresa  terceirizada  e,  em  geral,  acontecem de forma satisfatória,  na  visão do representante do poder público entrevistado. Já  Como transformar um destino turístico convencional em inteligente sem gastar muito?   A nálise   exploratória de  D iamantina/ MG   Hugo Rodrigues de Araújo  Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Ramon Duarte Araújo   ____ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ _     174    coleta seletiva na cidade é feita pela Associação dos Catadores de Recicláveis de Diamantina  – ACORD.  Além disso, o poder público destaca que semestralmente é feito o monitoramento  da balneabilidade das águas das cachoeiras mais visitadas.  Por parte do empresariado e gestores de atrativos turísticos, a maioria demonstrou  um compromisso com a correta destinação e tratamento dos resíduos que são gerados em seus  empreendimentos. Dentre as  principais  medidas  citadas está o apoio a  ACO RD, através da  separação de plástico, papel, metal e  vidro.  Alguns empresários do  setor alimentício  fazem  compostagem aproveitando a sobra de alimentos para produzir o adubo que, posteriormente, é  utilizado na própria horta.  Quanto  à  geração  de  emprego  e  renda,  muitos  empresários  disseram  que  dão  preferência  para  a  contratação  de  mão­de­obra  local .  Além  disso,  procuram  desenvolve r  atividades que contribuam  com o bem ­estar da população local, como a isenção ou redução do  valor  da taxa de entrada dos atrativos turísticos para os moradores da cidade. Não obstante, a  sustentabilidade  do  turismo  depende  de  um  conjunto  de  ações  mais  amplas  envolvendo  diferentes áreas  da  sociedade. Em  geral,  percebeu­se  que  há  uma  conscientização  sobre  a  importância de promover medidas de  sustentabilidade, a despeito das iniciativas ocorrem de  forma isolada, tanto por parte do poder público quanto da iniciativa privada. Nesse sentido, na  tabela 5 estão  sendo descritas  propostas de baixo  custo  para ampliar  a  sustentabilidade do  turis mo  de Diamantina .    Tabela 5. Propostas para a sustentabilidade do turismo de Diamantina.   O que fazer?   Promover a integração étnica e social, bem como a igualdade de gênero no destino.  Por que fazer?   A integração étnica e social e a igualdade de gênero se traduzem na garantia de direitos e oportunidades iguais  para todos; além disso, a diversidade étnica ajuda a  construir  um ambiente mais integrado e a  valorização da  mulher estimula a produtividade e o crescimento econômico.   Como fazer?     Promover debates e eventos sobre a importância da promoção da integração étnica e social e a igualdade  de gênero;     Criar um canal de diálogo com órgãos públicos e movimentos sociais para estruturação de uma rede de  combate ao racismo e à intolerância religosa no destino;     Incentivar as empresas turísticas a oferecer salários iguais para homens e mulheres que exercem as  mesmas funções e estimular maior presença de mulheres em cargos de liderança;    Conscientizar as empresas turísticas da importância de respei tar os direitos das colaboradoras, acabar com  o preconceito com as mães, combater o assédio sexual e moral, além de garantir o reconhecimento e  oportunidades iguais na carreira.  O que fazer?   Impulsionar a responsabilidade social do turismo  com o intuito d e beneficiar a comunidade local, respeitando  todas as diferenças.  Por que fazer?   O  destino  deve  oferecer  oportunidades  de  acesso  a  todos  os  tipos  de  benefícios  gerados  com  a  atividade  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 175    turística.  Como fazer?     Utilizar as redes sociais virtuais para a divulgação de eventos e informações sobre os atrativos turísticos;    Desenvolver uma política tarifária dos atrativos turísticos específica para os residentes;     Estabelecer parcerias com associações de moradores para apoiar pessoas e famílias de baixa renda a  usufruir dos atrativos turísticos do destino;     Oferecer periodicamente cursos de capacitação e formação de mão­de­obra qualificada para atuar no setor  de turismo, assim como cursos de empreendedorismo no turismo.   O que fazer?   Encorajar o setor de turismo  a equilibrar o crescimento econômico com a preservação da natureza.  Por que fazer?   O destino precisa assegurar o melhor manejo dos recursos naturais de forma que eles não se esgotem.   Como fazer?     Instalar coletores de resíduos recicláveis em locais  estratégicos do centro­histórico e nos atrativos turísticos  mais visitados, com o apoio do IPHAN.     Criar campanhas para incentivar as empresas turísticas a adotarem medidas de eficiência energética, gestão  do consumo de água, coleta e tratamento de resíduos, gestão de ruídos, etc.;   Sensibilizar as empresas turísticas a dar preferência ao consumo da produção local; diminuir a distância  entre o produtor e o consumidor significa menos poluentes liberados na atmosfera.   O que fazer?   Criar uma certificação para os empreendimentos turísticos que desenvolvem ações sustentáveis.   Por que fazer?   A  certificação de sustentabilidade incentiva as empresas a desenvolver práticas que proporcionam  uma  forma  diferente de economia, que  se baseia  no gerenciamento eficiente dos recursos  naturais, o respeito aos direitos  humanos e a igualdade de oportunidades para todos.  Como fazer?   Criar uma parceria com instituições de ensino e pesquisa para elaborar e implantar um processo sistemático de  certificação de sustentabilidade.  Fonte: Elaborado pelos autores.    Uma  proposta  que  não  foi  incluída  nesse  primeiro estágio de desenvolvimento,  mas  que  pode  ser  pensando  nos  próximos,  é  um  projeto  de  implementação  de  passes  eletrônicos  de  acesso  a  diversos  atrativos  turísticos  e  pontos  de  interesse  da  cidade,  para  moradores e turistas. O ideal é que os atrativos  sejam distribuídos em rotas temáticas e que  inclua  atrativos  com diferentes  potenciais de atração.  Além de incentivar a distribuição do  fluxo  turístico  pelo  d estino,  o  registro  eletrônico  da  entrada  dos  turistas  nos  atrativos  permitiria aprofundar as análises sobre seu perfil.  Deve ­se registrar que Diamantina ainda tem grande parte dos seus efluentes sendo  despejados in  natura  nos  córregos e rios, apesar das denúncias e processos  contra a empresa  responsável pelo  fornecimento de água e pelo tratamento do esgoto. O Ribeirão das Pedras,  que tangencia o Parque Estadual do Biribiri, possui  várias  corredeiras e poços que serviriam  c omo atrativos turísticos e áreas de lazer, não fossem os efluentes despejados em suas águas.  Esse é  um exemplo, dentre  várias outras  situações análogas.  Abordar a  sustentabilidade em  um destino com esses problemas torna ­se paradoxal.     Como transformar um destino turístico convencional em inteligente sem gastar muito?   A nálise   exploratória de  D iamantina/ MG   Hugo Rodrigues de Araújo  Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão   Ramon Duarte Araújo   ____ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ _ __ __ _     176    CONSIDERAÇÕES FINAIS   Os DTIs  surgem  com a perspectiva de  utilizar as TICs para antecipar e resolver  problemas gerados  pelas atividades  turísticas, estimular e desenvolver o empreendedorismo  no  setor  turístico dentro da região, entre outras  utilidades  que podem  ser adquiridas sem a  necessidade de investimentos vultosos (MENDES FILHO  et al. , 2019).   O  objetivo  principal  deste  estudo  foi  propor  soluções  de  baixo  custo  para  Diamantina,  em  Minas  Gerais,  de  modo  a  superar  os  principais  entraves  que  impedem  o  desenvolvimento do  turis mo de  forma  mais  inteligente. Para  isso,  foi  preciso  aprofundar a  compreensão  sobre  as  mudanças  que  vêm  ocorrendo  no  comportamento  dos  viajantes  em  decorrência  das  TICs,  bem  como  investigar  os  fundamentos  que  diferenciam  os  destinos  turísticos  convencionai s  dos  DTIs.  A  partir  disso,  foi  possível  analisar  as  limitações  de  Diamantina e apresentar propostas para transformá ­la em um destino turístico inteligente. Este  trabalho  teve  como  base  a  experiência  espanhola,  tendo  como  referência  cinco  pilares:  governan ça,  inovação,  tecnologia,  acessibilidade  universal  e  sustentabilidade.  De  maneira  prática e objetiva, por meio de tabelas, foram elencadas propostas para desenvolver o turismo  em Diamantina dentro dessas cinco dimensões.   Depreende­se que as medidas propost as para transformar Diamantina em um DTI,  em  sua maioria, dependem basicamente de articulações da  sociedade e de parcerias entre o  setor  público  e  a  iniciativa  privada.  A  governança,  sendo  um  dos  principais  gargalos,  independe de grandes investimentos e/ou  de soluções tecnológicas de ponta. As parcerias com  instituições de ensino e de pesquisa foram apontadas em diversas propostas como importante  alternativa para a análise dos dados a  serem  coletados,  também  sendo  fundamentais  para a  formação  de  recursos  hu manos,  dando  maior  qualidade  aos  produtos  turísticos,  além  de  possibilitarem colaborações para melhorar os canais de comunicação e implementar processos  de certificação e inovação.   Os  investimentos  tecnológicos  propostos  para  outras  dimensões  podem  ser  im plementados  utilizando  os  serviços  oferecidos  por  plataformas  digitais.  Alguns  desses  serviços são gratuitos. Embora outros serviços sejam pagos, estima­se que possuem um custo  acessível,  considerando  os  benefícios  que  são  gerados.  Um  dos  entraves  para  a  c idade  estudada é a disponibilidade de internet wi ­fi pública e o fornecimento de melhor conexão de  dados móveis pelas companhias telefônicas.    Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 177    Portanto,  observa ­se  que  ainda  são  muitas  as  demandas,  que  se  traduzem  em  desafios para Diamantina avançar como DTI.  Os usos das novas TICs são fundamentais para  Diamantina  alcançar  altos  níveis  de  desenvolvimento  e  gerar  novos  recursos,  sejam  eles  sociais  ou econômicos.  A mudança  necessária  vai muito além de melhorar os processos de  gestão ou a experiência turística; implica transformar o próprio  sistema de turismo,  visando  prever  tendências,  reduzir  custos,  melhorar  o  atendimento  e  o  relacionamento  com  os   visitantes e identificar novas oportunidades de negócio.     REFERÊNCIAS     AENOR  – Asociación Española de Normalización y Certificación.  Sistema de gestión de los  destinos  turísticos  inteligentes.  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Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  _ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___       ARTE, ASTROLOGIA E T URISMO: UMA NOVA PRO POSTA  DE  ASTROTURISMO     Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani   Professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri   mclaudia.magnani@ufvjm.edu.br        INTRODUÇÃO   Quando se fala em astroturismo,  nos  vem à mente, invariavelmente, a relação do  turismo  com  os  astros.  De  fato,  são  diversas  as  possibilidades  de  abordagem  desse  tema.  Ainda que definições teórico­c nceituais sejam condições de possibilidade para a ciência, elas  portam, inegavelmente, desafios e limitações. Assim, a própria definição de astroturismo não  é  consensual.  Existem  já  grandes  dificuldades  e  insuficiências  quando  se  trata  de  obter  definições  unívocas  e incontestes do próprio  turismo. Podemos  afirmar que é efetivamente  reducionista,  até  mesmo  a  tão  citada  e  amplamente  difundida definição elaborada  pela  da  OMT  – Organização  Mundial  do  Turismo  – em  1999,  tendo  como  critério  tempo  e  motivações:   O turismo compreende as atividades realizadas pelas pessoas  durante suas viagens e  estadias  em  lugares diferentes  de  seu  entorno  habitual,  por  um  período de  tempo  consecutivo inferior a um ano, tendo em vista lazer, negócios ou outros motivos não  relacionados  ao  exercício  de  uma  atividade  remunerada  no  lugar  visitado  (apud   PAKMAN, 2014, p. 13).     Longe do objetivo de formular definições teóricas, aqui ressaltamos a importância  de  compreender o turismo  como  um  fenômeno moderno, próprio do  capitalismo, produzido  na  tessitura de  uma malha  societária  complexa e multifa cetada em  sua  inter­relação  com a  dinâmica  da  sociedade  pós­industrial,  com  discursos  e  políticas  permeados  de  interesses  econômicos (MAGNANI, 2012). Vale a pena recordar,  neste  sentido, o peso do turismo  no  cenário  mundial,  do  ponto  de  vista  econômico.  São  bastante  eloquentes  os  números  fornecidos pelo Conselho Mundial de Viagens e Turismo (World Travel and Tourism Concil ­ WTTC),  segundo  o  qual,  até  2019,  a  atividade  turística  foi  responsável  por  1  a  cada  10  empregos  no  planeta  (compreendendo  os  impactos  di retos,  indiretos  e  induzidos)  e,  representou 1 em cada 4 dos novos empregos criados no mundo inteiro. Representou também  10,6% de todos os empregos (334 milhões), e ainda 10,4% do PIB global (WTTC, 2020).   Se definir o turismo é desafiador, não é diferente com os seus possíveis segmentos  e modalidades, especialmente o astroturismo, por  ser  uma atividade recente.  A  forma mais    Arte, Astrologia e   Turismo: uma nova proposta de Astroturismo   Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani   _____________________________________________________________ 182    comum de abordagem dessa modalidade tem sido aquela que procura aliar práticas turísticas  com  conscientização  ambiental  e  associada  ao  turismo  de  experiência  (MELLO,  2023).  Todavia, existem também outras possibilidades de compreensão, que se efetivam em práticas  turísticas  recentes:  há  estudos  de  perfil  dos  turistas  com  base  em  elementos  astrológicos  (SANTIN,  2015);  há  ainda  o  incipiente e  ultra  elitizado  turismo  espacial  (AZEVEDO,  2013/2014); existe também a análise das melhores  fases da  lua e posições dos planetas para  viajar, a partir da astrologia (LAURA, 2018); e finalmente, a sugestão que aqui fazemos, uma  associação  entre  arte,  turismo  e  astrologia/astronomia,  a  partir  do  evento Itinerários  Astronômicos  Capitolinos  entre  o  Renascimento  e  Barroco , projeto que  foi  selecionado em  um  concurso municipal para divulgação e comunicação científica em Roma, no ano de 2019  (LEONE, et. al., 2019). Para fundamentar a sugestão, abordamos a relação da astrologia com  a arte a partir dos trabalhos de  Aby Warburg (2019 e 2021) e a  sobrevivência dos  símbolos  astrológicos e zodiacais nas igrejas católicas.  A  metodologia  do  trabalho  consistiu  em  pesquisa  bibliográfica  sobre  o  tema  abordado e ainda observação das representações da astrologia e dos símbolos do zodíaco nas  igrejas in  loco ,  no Brasil e  na Itália. Foram  feitos  também registros  fotográficos  nas igrejas  visitadas.    ASTROTURISMO: ABORDAGENS EM CU RSO   Mello (2023) aborda o astroturismo  como  uma  forma de turismo de experiência,  associado ao ecoturismo e ao  turismo  científico.  As  práticas  dessa  modalidade,  segundo  o  autor,  implicam  em  explorar  destinos  turísticos  que  apresentem  boas  condições  para  a  observação e a contemplação dos astros. Matos (2017) faz coincidir a origem do astroturismo  com o nascimento da astrologia, afirmando que sua gênese remonta a muitos séculos, desde a  infância  da  humanidade,  quando  os  homens  olhavam  os  astros  e  buscavam  sign ificados,  associando ­os  a deuses.  No  século  XX,  o  interesse  pela astronomia e a predisposição para  viajar e  observar  eventos  astronômicos  aumentaram  com  o  sucesso  da  literatura de  ficção  científica  e  o  apelo  popular  dos  pioneiros  da  ciência  ligados  aos  avanços  da  exploração  espacial da década de 1950. Entretanto,  Mello (2023) informa que  sua difusão, de maneira  sistemática,  ocorreu  somente  no  século  XXI,  promovendo  uma  efetiva  ligação  entre  astronomia e turismo, duas áreas que estavam até então, aparentemente distanciadas.  A  sua  visão extremamente positiva dessas práticas, se justifica pelo fato de gerarem potencialmente  conscientização  ambiental,  respeito  e  valorização  dos  espaços  geográficos  e,  ainda,  por  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 183    incentivarem a difusão de  saber  científico por meio da promoção de atividades inovadoras.  Entretanto,  a  dificuldade  de  se  observar  as  estrelas  nas  grandes  cidades  põe  em  xeque  a  poluição luminosa, que é o ofuscamento provocado pela excessiva iluminação artificial.     Nas atividades desse subnicho as pessoas  normalmente se reúnem em grupos que  viajam  com  o  objetivo  de  observar  determinados  eventos  astronômicos,  como  eclipses  lunares, eclipses  solares, estrelas  cadentes, e passagens de  cometas.  A observação pode  ser  feita com dispositivos ópticos, como telescó pios ou binóculos, ou a olho nu. Para uma melhor  observação, foram construídos, em diversos países, observatórios fixos para fins turísticos, ou  telescópios móveis que  são  usados durante excursões em espaços rurais abertos. Os  turistas  podem  ir  a  observatórios,  centros  espaciais  ou  observar  auroras.  Razvan ­Gheorghe  (2017)  inclui, ainda, neste subnicho, cursos de astronomia, visitas guiadas a museus de astronomia e  outros elementos complementares como cursos de astrofotografia ou jantares sob as estrelas.    O s estudos  feitos por Matos (2017) mostram que a motivação majoritária para a  busca das práticas de astroturismo é a intelectual, pelo desejo de alargar os  conhecimentos.  Mostram ainda  uma alta  satisfação dos  turistas  no  tocante aos  pontos de  vista  psicológ ico,  educativo e estético e o desenvolvimento da economia dos  locais  nos quais as atividades  se  desenvolvem. Além disso, as atividades aumentam a consciência da necessidade de minimizar  os  impactos da poluição  luminosa (e  suas  consequências), e o debate  so bre a promoção da  energia sustentável.   Existem já roteiros  consolidados  no tocante à observação de astros e  fenômenos  astrológicos.  O  site  do  SEBRAE  – Serviço  Brasileiro  de  Apoio  às  Micro  e  Pequenas  Empresas  – apresenta  um artigo de 2022,  com o  título: Ast roturismo:  uma  opção  luminosa  para  oferecer  a  seus  clientes .  O  artigo,  não  assinado,  apresenta  os  seguintes  roteiros  de  astroturismo  no Brasil e  no exterior: Serra da Mantiqueira (com o  Laboratório Nacional de  Astrofísica,  localizado  em  Itajubá,  Minas  Gera is  e  o  Observatório  Pico  dos  Dias,  em  Brazópolis, também em Minas Gerais); Vale do Paraíba (com a unidade do Instituto Nacional  de Pesquisas Espaciais ­ INPE, de São José dos Campos, em São Paulo, que recebe os turistas  com  visitas guiadas); o Deserto do At acama,  no Chile, que tem o  céu mais  limpo e puro do  mundo; Noruega, Islândia, Finlândia, Suécia, Canadá e  Alasca (nos Estados Unidos),  como  destinos  ideais  para  a  apreciação  da  aurora  boreal;  Baixa  Califórnia  (no  México,  com  o  Observatório  Astronômico  Naci onal);  Wadi  Rum  (na  Jordânia,  que  além de  ter  uma  visão  privilegiada do  céu, recebe  visitantes  por  ter  se prestado a panorama de diversos  filmes de  ficção  científica,  dentre  eles Star  Wars,  Rogue  One  e  Prometheus ;  e  Tenerife  (nas  Ilhas    Arte, Astrologia e   Turismo: uma nova proposta de Astroturismo   Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani   _____________________________________________________________ 184    Canárias, Espanha,  de onde se pode observar o que é ali chamado de “atrações espaciais”: a Nebulosa de Roseta, Orion, Canis Major e Minor). 27   Outra possibilidade de compreensão e de prática do astroturismo é aquela que nos  apresenta  Santin  (2015).  Nesta  abordagem  o  astroturismo  vem  a  ser  uma  ferramenta  de  identificação do perfil dos turistas a partir de suas  características  supostamente determinadas  pelos signos zodiacais. Nos seus estudos, a autora propõe a identificação de comportamentos  e motivações do turista como consumi dor, a partir da percepção do que ela chama de padrões  básicos, que se ligam aos quatro elementos da astrologia: fogo, terra, ar e água. Ela discute a  possível influência que a astrologia exerceria sobre os desejos, preferências e deliberações dos  consumid ores de atividades e serviços turísticos, apresentando, também, atividades turísticas  supostamente correspondentes a cada um dos quatro elementos. Na sua metodologia, um dos  instrumentos é o mapa astral, e um dos objetivos é identificar motivações conscien tes (a partir  da  predominância  de dois  dos  elementos  básicos)  e  ainda  inconscientes  (a  partir  dos  dois  elementos  não  predominantes).  Na  conclusão,  a  autora  apresenta,  por  exemplo,  a  predominância de gostos  voltados à beleza, às artes, ao divino e à gastronomia,  como  sendo  determinados pelo perfil terra e água.   Em  consonância  com  a  abordagem  acima  proposta,  resguardando  as  suas  diferenças,  o  blog C arpe  Diem  publicou  uma  matéria  com  o  seguinte  título:  Astrologia  e  viagens: como aproveitar  as  fases  da  lua  pra   viaj ar  (LAURA, 2018). Nesse veículo, a autora,  partindo  do  pressuposto  de  que  os  ciclos  lunares  influenciam  o  humor  e  o  dia ­a­dia  das  pessoas,  sugere que os  viajadores  se deixem guiar pela  lua.  Isso é, deixar que a astrologia  ajude  na escolha de datas e  locais de  viagens a partir das  fases do  ciclo  lunar.  Assim, para  cada uma das  fases da lua  – nova,  crescente, cheia e minguante  – a autora, que é astróloga e  terapeuta holística, sugere tipos de viagens e suas características determinadas pela influência  lu nar.  Cláudio  Miguel  José  Martínez  (2017)  publicou  na  Argentina  um  Manual  do  Astroturismo . Ali o autor afirma que o turismo astronômico ou astroturismo é uma disciplina  que  aproxima  as  pessoas  das  sensações  de  espanto  e  admiração  que  nossos  ancestrais  experimentavam  diante  do  céu:  do  espetáculo  das  chuvas  meteóricas,  dos  eclipses,  das  conjunções entre os planetas e a Lua, ou meramente perante a grandiosidade do céu noturno.  O autor faz, ainda, uma associação do astroturismo com o turismo rural, pelo fato de  que este                                           27  Artigo  disponível  em: https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/astroturismo­uma ­opcao ­luminosa ­ para­oferecer­a­seus ­clientes,91b58265afe13810VgnVCM100000d701210aRCRD Acesso em 05 mai. de 2023.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 185    último reuniria  condições básicas de conforto e serviços, além de um  céu  sem poluição, que  permite ver as estrelas com nitidez. Sugere, também, atividades correlatas como jantar sob as  estrelas,  fotografar  e  filmar,  e  projeções  em  telas  gigantes. O  autor  traz  informações  no  sentido de afrontar o desconhecimento que,  segundo ele,  faz pressupor que essas atividades  sejam  muito  complicadas,  o  que  redunda  no  fato  de  que  sejam,  ainda,  escassamente  desenvolvidas.    Já  Azevedo  (2013/2014),  ao  abordar  duas correntes  de  investigação  que  aproximam  astronomia  e  turismo,  acrescenta,  para  além  das  viagens  com  intuito  de  observação de astros, o turismo espacial  como astroturismo. Ou  seja, os deslocamentos para  aventura e recreação, realizados a mais de 100 km de altura a Terra, considerando o limite da  órbita  do  planeta.  Esse  tipo  de  turismo,  altamente  elitizado,  implica  na  extrapolação  das  iniciativas  governamentais  dos  transportes  espaciais,  marcada  pelos  primeiros  passos  da  iniciativa privada neste sentido.   Também  Krohne  (2013),  ao  analisar  a  regulação  jurídica  do  turismo  espacial,  afirma que essa prática é uma possibilidade que tem sido amplamente considerada, apesar do  grande  custo  e  preparação  necessária.  Assim,  um  número  considerável  de  pessoas  estaria  disposto  a  pagar grandes  somas de dinheiro  para  viajar  no  espaço  como  turistas.  Segundo  Ramírez  e  Lineros  (2014),  o  primeiro  turista  espacial  foi  o  americano  Dennis  Tito,  ex­ engenheiro  da  NASA,  que  em  2001  pagou  aproximadamente  vinte  milhões  de  dólares  à  Agênc ia Espacial Federal Russa para ir ao espaço sideral, a bordo da aeronave Soyuz. No ano  seguinte, em 2002, o sul­africano Mark Shuttleworth tornou ­se o segundo turista espacial em  missão à Estação Espacial  Internacional. Os debates acerca da temática do turismo espacial  como segmento turístico tiveram início quando a denominação de “viagens turísticas” foi aplicada  às  viagens  espaciais  feitas  por  civis.  A  expressão  foi  usada  por  veículos  de  comunicação  on  line  e  empresas  privadas  para  esse  tipo  de  viagem,  especificamente. Foi  muito recentemente, somente no princípio do século XXI, que apareceram empresas privadas  dedicando­se  à  criação  de  veículos  espaciais  com  alojamentos  turísticos  (GONÇALVES;  TOMAZZONI, 2018).     ASTROLOGIA,  ARTE  E  TURISMO:  UMA  NOVA  PROPOSTA   DE  ASTROTURISMO     A nova abordagem do astroturismo que aqui propomos é  uma prática  ligada ao  turismo  cultural  e  religioso.  Trata ­se  da  observação,  não  dos  astros  em  si,  mas  de    Arte, Astrologia e   Turismo: uma nova proposta de Astroturismo   Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani   _____________________________________________________________ 186    representações  artísticas  da  astronomia/astrologia  e  dos  símbolos  zodiacais  nas igrejas  católicas.  Uma  surpresa  que  costuma  acompanhar  os  atentos  observadores  das  pinturas  e  outros adornos nas igrejas católicas europeias é aquela em relação à presença de símbolos do  zodíaco e da astrologia. Sendo esses símbolos ligados ao paganismo, imagina ­se, à princípio,  que  fossem  distantes  das  figurações  religiosas.  Entretanto,  ao  contrário  disso,  a  astrologia  esteve presente  na Igreja desde os  seus primórdios.  A astrologia e as questões divinatórias e  proféticas  foram  elementos  sempre  presentes  e   peculiares  no  intricado  quadro  de  relacionamentos  da  nova  mensagem  religiosa  que  o  cristianismo  representou  no  ocidente.  Essa complexidade se explica, em certa medida, pelo panorama multiforme (mas homogêneo  na  sua essência) das  civilizações que afluíam d entro do Império Romano, onde  surgiu e  se  afirmou a nova religião. Nessa realidade multifacetada, tanto da parte da cultura pagã, como  da judaica e da cristã que surgia, houve uma sede ávida de conhecimento do futuro, composta  de esperanças e amedrontamento (GASPARRO 1999).   Neste ponto, é preciso deixar clara a concepção de arte na qual nos apoiamos aqui.  O autor escolhido para esse percurso é Aby Warburg (2019 e 2021), porque abordou de forma  especial a astrologia e os símbolos do zodíaco em sua relação com a arte figurativa. Poder­se ­ ia dizer  que  sua  ideia de  fundo  a este  respeito é  que  a  astrologia é  parte dos  esforços  do  homem ao longo dos séculos, para se orientar no mundo. Partindo das pinturas alegóricas de  Botticelli,  no renascimento, ele  chegou à h istória do símbolo astrológico. Porém,  foi a partir  de 1907 que Warburg iniciou estudos intensos  sobre a  história da mitologia e da astrologia,  privilegiando  a descrição de divindades  pagãs  em  textos  medievais  e  na  sobrevivência do  imaginário  astrológico  da  antiguidade  até  os  tempos  modernos.  Ele  se  dedicou  sistematicamente aos estudos astrológicos a partir da leitura de um livro de Franz Boll (1867­ 1924). Este professor de filologia clássica na Universidade de Heidelberg publicou, em 1903,  a obra Sphaera.  Neue  griechische  T exte  und  untersuchungen  zur  geschichte  der  Sternbilder .  O  autor  abordou  ali  o  tratado  de  Teucro  (século  I  a.  C.)  sobre  o  céu,  que  teve  grande  influência  na  Antiguidade  Clássica.  A  partir  de  Teucro,  Boll  reconstitui  a  migração  da  astrologi a e da astronomia grega por meio de  suas  transmissões  na  Ásia e  na  Idade Média  Latina.  Na época  helenística,  o  céu  foi  acrescido  de  figuras  advindas  da  tradição egípcia,  aramaica  e  babilônica.  Ele  abordou  também  a  mistura  de  elementos  gregos  e  orientais,  indianos e persas. O que Boll recuperou  na  sua obra  foi, portanto, a  história de  uma grande  compilação impetrada por Teucro, e de como essa mescla migrou na Antiguidade e na Idade  Média, entre  culturas distintas de Oriente a Ocidente (WARBURG, 2021). Boll a rgumentou  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 187    que a astrologia é uma tentativa secular para criar uma imagem unificada do mundo que surge  por  leis  tão  indecifráveis  quanto  inelutáveis  da  natureza.  Ao  refazer  os  estágios  do  desenvolvimento da história da astrologia, o estudioso alemão destaco u  como até à virada do  século  XVII  a  astrologia  havia  dominado  o  mundo  com  uma  capacidade  expansiva  que  nenhuma outra fé jamais conseguira ter (GHELARDI, 2011).    A complexidade do pensamento  warburguiano  com relação à arte e à astrologia  que aqui  nos  inter essa,  parte de  uma  compreensão anterior:  sua  concepção do  homem. Na  introdução à  obra F Antropologia e Storia Dell’arte saggi, conferenze e frammenti, de  Warburg,  Maurizio  Ghelardi (2021) mostra  como aquele autor  considera  o  homem  um  ser  cinético,  cheio  de  dores,  lutos,  paixões,  que  tenta  se  apropriar  e  transformar  a  realidade,  primeiro  incorporando ­a  de  forma  antropomórfica,  depois  objetivando­a  em  formas.  Desta  maneira, Warburg concebeu a vida humana de forma cinética, como fluxo de energia, e a arte  co mo  um  produto  orgânico  e  equilibrado  que  brota  de  um  processo  vital  marcado  pela  polaridade entre ethos  e pathos .  A  tarefa da arte é acolher a dor (que ressurge  sempre) e a  dilaceração da vida. A arte representa, assim, o reflexo humano de agarrar e dominar a vida e,  ao mesmo tempo, reflete o desejo de se distanciar de seu imediatismo construindo um objeto  de representação mental ou  visual.  A arte  figurativa é geralmente definida  como  um espaço  intermediário  entre  sujeito  e  objeto  ou  entre  sujeito  e  mundo. Os  objetos  que  são  ali  reproduzidos  são aqueles já ordenados, padronizados ideal ou praticamente e que, portanto,  não devem mais ser temidos. A arte tem, pois, a tarefa de afastar o medo e or enar o mundo.  O  fio  condutor  da  obra  de  Warburg é,  como  nos  aponta  Ghelardi,  a  relação  entre  vida  e  orientação no mundo (GHELARDI, 2021).   Warburg nunca foi, de fato, um especialista em astrologia, nem um acadêmico no  sentido estrito, mas sempre se propôs a investigar como o homem veio a se orientar no mundo  objetivando as causas de suas fobias. Nessa concepção as estrelas aparecem como hieróglifos  para o futuro. O surgimento e a persistência da astrologia na história da humanidade remetem  a  uma  necessidade  psíquica de enfrentamento do  medo do desconhecido e do  futuro,  mas  também  do  imperativo  de  ordenar  o  mundo  para  esta  defrontação  (GHELARDI,  2019).  Assim,  compreende ­se  que  arte  e  astrologia  se  aproximam  enquanto  instrumentos  de  enfrentamento dos medos do ser humano e da sua tentativa, ao longo do tempo, de afrontar e  ordenar o mundo.   Nos  diferentes  momentos  da  história  da  humanidade  nos  quais  as  questões  proféticas e divinatórias  surgiram e ressurgiram com fervor, foi frequente o aparecimento de    Arte, Astrologia e   Turismo: uma nova proposta de Astroturismo   Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani   _____________________________________________________________ 188    diferentes estirpes de profetas e adivinhadores,  com de maior ou menor sucesso, ao  lado da  astrologia  com  a  sua  prática divinatória do  zodíaco.  É  legítimo  pensar  que efetivamente  a  astrologia  não  saiu  completamente  de  cena  com  a  chegada  do  cristianismo.  Pode ­se  compreender que, de  uma  forma ou de outra,  os astros estavam aind a presentes  no  mundo  cristão. Dentro e fora da Igreja, em distintos períodos, eruditos se dividiram entre o apoio e a  condenação à astrologia, sua concepção como ciência ou como crendice (VERARDI, 2011). Não  sendo  o escopo deste  trabalho  um  enfoque  exaust ivo  deste  tema, deve­se,  entretanto,  ter  em  mente  que  a  fé  nas  estrelas  não  foi  um  consenso  no  universo  cristão. Todavia,  para dar  um breve  exemplo  da  perseverança da  influência da  religião dos  astros  relembramos que a Igreja, em meados do século IV, de certa forma substitui Cristo pelo Deus  Sol, compreendido como Sol da Justiça, na medida em que mudou a data do seu  nascimento  para 25 de dezembro. Este é o dia em que, para os pagãos,  se  comemorava o aniversário do  sol.  Isso  significa que a partir daí o dia se estendia e o  novo  sol dava início a  um período  anual. Segundo Eduard Norden (2013), a fórmula Lux  crescit  que já existia na liturgia pagã, e  também  no  calendário grego,  passou  a  comparecer de  maneira  literal  na  prédica  cristã do  Natal. Se  papas  praticaram  a astrologia e  contrataram  astrólogos  em  seus  apostolados  (VESCOVINI,  2015),  ao  mesmo  tempo,  a  Igreja  lutou  contra  uma  grande  quantidade  de,  assim  consideradas,  superstições,  desde  os  primórdios  do  cristianismo  (HEBERMANN,  2005). Sendo uma religião essencialmente profética, na qual a profecia é uma “ gracia  grátis  data ” (PARERA, 1999, p. 176), houve a tentativa de estabelecer, no que se refere às profecias, o que era de inspiração divina e o que não era. Nesse clima de imprecisão entre as  categorias  natu rais  e  sobrenaturais,  que  pode  ser  notada  nos  testemunhos  gentios  para  as  verdades  cristãs,  tornaram ­se  extremamente  importantes  os  depoimentos  não  cristãos  que  anunciavam a doutrina cristã (MAGNANI, 2019). E é neste sentido que se pode compreender  a permanência da representação da astrologia e dos símbolos do zodíaco nas igrejas católicas.  Ajunte ­se  a  isso,  o  que  já afirmamos  de  acordo  com  Warburg: a  astrologia  compreendida  como  o enfrentamento dos  medos  e  um  modo de  orientação do  homem  no  universo.  Esta  c ompreensão  coincide,  em  certa  medida,  com  os  propósitos  das  religiões  em  geral.  Compreende ­se,  assim,  as  inúmeras  representações  astrológicas  e  do  zodíaco  nas  igrejas  católicas da Europa desde a Idade Média, como nos mostram Fritz Saxl (2016) e Saxl e Erwin Panofsky (2016).    Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 189    Figura 1:  Criação do Mundo. Giusto de' Menabuoi, 1370 ­78. Batistério do  Duom o  de Pádua.    Fonte: https://www.museionline.info/tipologie ­museo/battistero ­di­san ­giovanni ­padova   Acesso em 05 de maio  2023.     É pois,  na interseção entre arte, religião e turismo, que propomos aqui  uma nova  modalidade  de  astroturismo:  a  observação  das  obras  artísticas  que, nas  igrejas  católicas,  representam a astrologia e o  zodíaco. Para isso,  nos baseamos em  uma experiência ocorrida  em Roma, na Itália, em 2019. O Projeto Itinerari  Astronomici  Capitolini  tra Rinascimento  e  Barocco  (Itinerários  Astronômicos  Capitolinos  entre   o  Renascimento  e  Barroco)  foi  selecionado em um concurso municipal para eventos de divulgação e comunicação científica  na cidade eterna (LEONE et .  al ., 2019). Foi proposta a um público adulto e variado, uma série  de  visitas guiadas  com temática astronômic a/astrológica em palácios e em igrejas de Roma,  com  o  objetivo  de  valorizar  o  patrimônio  cultural  e  científico  da  cidade.  O  projeto  foi  promovido através da Associação Cultural Calipso, com o patrocínio do Instituto Nacional de    Arte, Astrologia e   Turismo: uma nova proposta de Astroturismo   Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani   _____________________________________________________________ 190    Astrofísica  (INAF),  da  Socie dade  Italiana  de  Arqueoastronomia  (SIA)  e  o  Movimento  de  Cooperação Educacional (MCE). A sua elaboração partiu do desejo de divulgar a história da  astronomia em Roma  nos anos 1500 e 1600, através de roteiros  científicos  conduzidos  por  palestrantes  especial izados,  a  fim  de  estimular  uma  abordagem  inovadora  para  os  bens  culturais e aumentar as oportunidades de crescimento e coesão entre os cidadãos romanos.     Uma das igrejas envolvidas no projeto de visitação foi a Basílica de Santa Maria  degli  Angeli  e  dei  M artiri . No  transepto direito daquele  templo,  implantado  no esplêndido  pavimento  de  mármore  policromado da basílica,  estende­s   uma  linha  meridiana de 44,89  metros que faz parte de um grande relógio de sol inaugurado em 6 de outubro de 1702 e ainda  em  funci onamento.  O  meridiano  permite  prever as  posições da elipse  luminosa durante  os  principais eventos astronômicos: solstício de inverno e solstício de verão.     Figura 2 ­  Linha meridiana da Ba silica de Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, Roma     Fonte: foto de J.P. Grandmont. Disponível em: http://www.instoria.it/home/meridiana_santa_maria_angeli_I.htm   Acesso em 05 de maio 2023.    Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 191    Ao  longo de toda a  linha meridiana pode­se observar as diferentes  constelações  zodiacais reproduzidas através de mármore incrustado, feitas majoritariamente com materiais  de origem arqueológica. À direita da linha estão as constelações de verão e outono, à esquerda  estão  as  constelações  de  primavera  e  inv rno.  Câncer  e  Capricórnio,  coincidindo  com  os  solstícios,  são colocados  nas duas extremidades do relógio de sol.  As  figuras estão inseridas  em espaços quadrangulares com cerca de 90 centímetros de lado, com exceção do Escorpião,  que se encontra num espa ço triangular na base de uma coluna do transepto.    Figura 3: Símbolos zodiacais do pavimento da Ba silica de  Santa Ma ria   d eg li Ang eli  e  dei  Ma rtiri , Roma     Fonte: foto de J.P. Grandmont. Disponível em: http //www.instoria.it/home/meridiana_santa_maria_angeli_I.htm   acesso em 05 de maio 2023.    No Brasil, encontramos  um único  caso de igreja  católica  com representação dos  símbolos  do zodíaco e, ainda, uma com a representação dos elementos: ar, água, terra e fogo.  Na Igreja de São José, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, existem representações do  zodíaco, bastante raras,  se não únicas  no Brasil.  A igreja teve o seu  conjunto arquitetônico e  paisagístico tombado em 10 de novembro de 1994 pelo Conselho Deliberativo do município    Arte, Astrologia e   Turismo: uma nova proposta de Astroturismo   Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani   _____________________________________________________________ 192    de Belo Horizonte. O tombamento  se justificou pela  sua importância  como marco  simbólico  para a cidade (CALDEIRA, 2012, p. 81).    Figura 4: Nave Central da  Igreja de São José em Belo Horizonte     Fonte: Foto da autora, 2022.    A data de  fundação da  cidade de Belo Horizonte,  uma  cidade planejada por  um  esforço institucional da elite mineira, é 12 de dezembro de 1897.  Mas,  foi em 1891 que o  Congresso  Constituinte  Mineiro  decidiu  pela  transferência  da  capital  do  estado  que  se  localizava em Ouro Preto. Já no início do século XX, a Congregação do Santíssimo Redentor  e a Igreja de São José iniciaram  suas atividades  na  nova  capital. O então bispo de Mariana,  Dom  Silvér io  Gomes  Pimenta,  convidou  os  missionários  redentoristas  para  assumirem  os  trabalhos  religiosos  na  capital  nascente,  que  naquela  altura  possuía  apenas  uma  paróquia.  Tratou ­se de uma missão holandesa que, segundo Araújo (2013), intentava promover um tipo  de fé, distante de práticas e ritos populares e pagãos. Entretanto, juntamente com a figuração  da Santíssima Trindade; de anjos e santos; Nossa Senhora e o menino Jesus; dos antepassados  de  Jesus  desde  Abraão  até  São  José,  estão  os  símbolos  pagãos  do  zodíaco. O  pintor  responsável  pela  ornamentação  da  igreja  foi – segundo  a  História  da  Igreja  de  São  José  afixada dentro do templo e assinada pelos missionários redentoristas – o alemão Guilherme  Schumacher. Ali está também a informação de que os símbolos do zodíaco pintados nas naves  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 193    laterais indicam que Deus é o Senhor da história e do tempo. Na abside28 daquele templo, bem  como  no  Santuário  de  São  Geraldo,  em  Curvelo,  Minas  Gerais  – criado  também  pelos  redentoristas  no  início  do  século  XX  –há  pinturas  parietais  c om  os  quatro  elementos  do  zodíaco: ar, água, terra e fogo (DUTRA NETO, 2007).    Figura 5: Símbolos zodiacais da Igreja de São José em Belo Horizonte     Fonte: Foto da autora, 2022.      CONSIDERAÇÕES FINAIS   Como esta é uma investigação ainda em andamento, é possível que se encontrem  outras igrejas no Brasil com representações da astrologia e que ainda não foram identificadas  pela presente pesquisa.   O  astroturismo,  como  já  compreendido  e  executado  em  diversos  países,  traz  prontamente ganhos em diferentes aspect os: conscientização do uso  sustentável do planeta e  da  necessidade  de  uso  responsável  da  energia;  valorização  do  meio  ambiente;  fruição  do  encantamento  causado  pela  observação do  céu  (desde  tempos  imemoriais);  valorização de                                           28  Abside é o termo arquitetônico que define  um anexo,  nas igrejas, aberto para o interior  (capela ­mor) no seguimento do eixo da nave, situ ando ­se na extremidade.    Arte, Astrologia e   Turismo: uma nova proposta de Astroturismo   Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani   _____________________________________________________________ 194    espaços  geográficos,  incentivo  à  economia  de  comunidades  locais;  acesso  prazeroso  ao  conhecimento  científico,  dentre  outros.  A  nova  proposta  que  aqui  abordamos  inclui  as  representações da astrologia e sua  conexão com a arte e religião. Enquanto as  concepções já  existentes  se  ligam ao tu rismo de experiência, ao turismo rural, ao ecoturismo e ao turismo  científico,  o  astroturismo  ora  proposto  se  liga  ao  turismo  cultural  (especialmente às  artes  plásticas) e ao turismo religioso.   As representações da astrologia e dos símbolos do zodíaco no universo cristão são  motivos  de  encantamento  e  admiração.  Extremamente  numerosas  na  Itália  católica  e  em  outros  países  da  Europa, desde  a  Idade  Média,  só  foram  encontradas  em dois  templos  no  Brasil, já do século XX. Tão distintos tempos e espaços comprovam a energia de permanência  desses elementos.   Arte  e  astrologia  comungam  o  lugar  intermediário  entre  a  atitude  mágica  e  a  racional,  sendo que a astrologia é ao mesmo tempo ciência e idolatria. Arte e astrologia são,  pois,  intermediárias entre o medo  humano diante do mundo (e da  sua própria  finitude) e a  linguagem matemática; entre religião e ciência.  O caráter preditivo da astrologia atende a algumas  necessidades essenciais do ser  humano  como  a  de  se  comunicar  com  o  transcendente  e  de  saber  dos  acontecimentos   porvindouros,  na  tentativa  de  dominá ­los.  Por  serem  essenciais,  essas  necessidades  e  características  ultrapassam  tempos  e  espaços,  como  mostra  Warburg  ao  abordar  as  transmissões  do  legado  antigo  na  arte  moderna.  Assim,  a  sobrevivência  dos  símbolos  da  astr ologia  no mundo  cristão representa a  sobrevivência da atitude essencialmente  fóbica do  homem diante do universo e de uma tentativa de seu enfrentamento.   Toda essa riqueza de elementos pode ser ressignificada e explorada pelo turismo,  como  uma outra maneira  de  se  conceber o astroturismo. Valorizar a  cultura e o patrimônio;  dar  acesso  à  ciência  e  à  religião,  no  sentido  da  sua  compreensão  mais  profunda  pela  historicidade; conhecer e valorizar os espaços arquitetônicos e arte visual; incentivar o deleite  estético  e  o  afinamento  do  olhar  para  a  arte;  satisfação  dos  turistas  do  ponto  de  vista  psicológico  e  espiritual;  são  objetivos  que  se  podem  atingir  por  meio  dessa  atividade.  A  astrologia  possui  um  grande  potencial  de  integração  entre  as  pessoas,  porque  remete  à essência do ser humano. Associar sua representação ao turismo, pode envolver todos os  seus  atores e, ainda, promover a sustentabilidade do ponto de vista cultural.    Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   ______________________________________________________ 195    Agradeço ao Padre José Cláudio, da Paróquia de São José de Belo Horizonte, pela  permissão de uso das imagens.    REFERÊNCIAS    ARAÚJO, J.T. Cidade Moderna, Igreja Persuasiva: A Legitimação de uma Nova Capital para  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                     Não basta um queijo artesanal ser bonito e gostoso. Ele deve ter história! De todas  as variedades produzidas no mundo, o Queijo Minas Artesanal (QMA) merece destaque, pois  a sua produção esteve correlacionada ao ciclo da mineração, ambientado na região dos atuais  estados de Goiás,  Mato Grosso,  Bahia e, especialmente,  Minas Gerais, a partir do  final do  século XVII.    Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   _____________________________________________________ 200    Durante a época do extrativismo mineral muitos povoados surgiram dando origem às famosas cidades históricas mineiras, como Diamantina e Serro. No decorrer do ciclo da mineração estas cidades receberam muitos imigrantes vindos de outras regiões do Brasil e também de outras partes do mundo, estimulando, desta forma, a produção local de alimentos.   Nos primórdios da mineração, devido aos grandes desafios para escoar o leite cru das roças para as cidades, a produção de queijos foi a principal estratégia para se conservar os nutrientes do leite e também para distribuí­los para o mercado consumidor. Gradativamente o „saber fazer‟ dos queijos se disseminou para diversas regiões, nas quais, dia a dia, foi sendo incorporado à sua cultura, gastronomia e ao estilo de vida do seu povo.                     Possivelmente um dos  relatos  históricos  mais  fidedignos  da  produção  e  da  comercialização do QMA tenha sido aquele feito pelo Botânico e Naturalista Frances  August  de Saint­Hilaire (1779 – 1853), em  sua obra Viagem às Nascentes do Rio São Francisco e  pela Provincia de Goyaz:  [...] Fazem­se, em geral, muitos queijos na comarca de S. João d‟El Rei; mas a zona do  Rio  Grande é a  que  produz  mais deles,  que  constituem,  mesmo,  um dos  seus  artigos de exportação. Eis a maneira por aqui se fabricam. Logo que se extráe o leite,  adiciona ­se ­lhe a presura, e ele se  coagula instantaneamente; dá­se preferência á de  capivara  quando  é  possível  obtel ­la.  Existem  formas  de  madeira  de  cerca  de  2  pollegadas  de  altura,  cujo  meio  apresenta  um  espaço  circular  inte iramente  vazio,  mais ou menos do tamanho de um prato. Estes moldes se collocam sobre uma mesa  estreita de plano inclinado, enche ­se ­os de leite coalhado, que  se teve o cuidado de  separar em pequenos pedaços; comprime­se com a mão o coalho assim grumoso; o  leitelho  escorre  vae  cahir em  uma gamela  colocada á extremidade  mais baixo da  mesa. A‟ medida que a coalhada se comprime no molde, ajunta­se mais e continua ­ se a comprimir até que este fique cheio de coalho bem compacto. Cobre­se de sal a  parte superior do queijo, e deixa­se ­o assim até á tarde; então volta­se ­o e aplica­se ­ lhe o  sal do outro  lado. No dia  seguinte  se expõe o queijo ao ar em  local  sombrio,  tendo ­se o cuidado de volta­lo de tempos a tempos, e está feito antes do prazo de 8  dias. Estes queijos , ao que não se dá outro nome mais do queijo de Minas, são muito  afamados:  sua  substancia  é  compacta;  a  côr  assemelha ­se  aos  dos  queijos  de  Gruyéres,  mas  é,  eu  creio,  de  um  amarelo  mais  carregado;  seu  gosto  é  doce  e  agradável.  Quando  se  quer  transportar  os queijos  para  o  Rio  de  Janeiro,  são  colocados  em  cestos  jacás  quadrados  e  achatados,  feitos  com  lascas  de  bambú  grosseiramente  trançadas;  cada  jacá  contém  cincoenta  queijos,  e  dois  deles  constituem a carga de um jumento.” Relato de August de Saint­Hilaire.,  (1779 –  1853) feito em sua obra Vi gem às Nascentes do Rio São Francisco e pela Provincia  de Goyaz.    A  fabricação do QMA  seguiu,  sem grandes ameaças, até os anos de 1950, sendo  ela fundamental para garantir a geração de riqueza e ocupação em muitas  localidades após a  decadência  do  ciclo  da  mineração.  Entretanto,  este  cenário  de  tranquilidade  mudou  drasticamente  devido  aos  processos  de  reorganização  do  mundo  após  a  segunda  guerra  A Produção d o Queijo Minas Artesanal  e o   Turismo   Cleube Andrade Boari   Cynthia Regina Fonte Boa Pinto   _____________________________________________________________ 201    mundial,  quando  o  Brasil  teve  que  instituir  as  legislações  sanitárias  para  a produção  de  alimentos (BRASIL, 1952).  Havia,  até  este  momento,  dois  modelos  de  legislação  sanitária  laticinista  no  mundo. Nos Estados Unidos já era instituída a produção de lácteos com leite pasteurizado, em  modelos industriais, utilizando utensílios e eq uipamentos manufaturados com aço inoxidável.  Os queijos artesanais feitos com o leite cru nos Estados Unidos apenas eram tolerados quando  maturados  por,  no  mínimo,  60  dias,  o  que  tornava  o  produto  pouco  atraente  ao  cliente  americano, que já tinha  caído  nas graças dos  queijos  industriais mais  frescos e  suaves. Por  outro  lado,  em  países  da  Europa,  preconizava ­se  também  a  produção  artesanal,  sendo  permitido  o  uso  do  leite  cru,  tendo  em  vista  o  histórico  regional  secular  de  produção  de  algumas variedades de queijos (ARIAS ­ROTH et al., 2021)  Talvez  o  fato de os  Estados  Unidos  terem emergido  como  rica  potência após a  segunda  guerra,  em  detrimento  a  uma  Europa  arruinada,  fizeram  o  Brasil  lhes  reconhecer  como  cliente  prioritário  e,  desta  forma,  optou  pelo  modelo  sanitário  americano.  Como  consequência  foi  publicada  a  Lei  N° 1.283 (BRASIL, 1950)  pela  qual  não  se  valorizou  a  produção  dos  queijos  artesanais  no  Brasil,  negando  a  nossa  realidade  que  mais  estava  sintonizada ao princípio europeu.   A  partir  deste  momento,  inic iou ­se  uma  série  de  conflitos  e  desentendimentos  entre  os  produtores de  queijos  e  os órgãos  responsáveis  pela  inspeção, envolvendo  muitas  apreensões e muita publicidade negativa. Anos se seguiram e muitos produtores desistiram do  queijo artesanal e  várias propriedades encerraram este  tipo de atividade.  Alguns  para  nossa  sorte, no entanto, persistiram!   A  partir do ano de 2002 iniciou­se  um  processo diferente do que até então era  observado,  com  mais  valorização  da  agricultura  familiar.  Com  isto,  a  produção  doQMA  começou a recobrar a sua importância, a qual também foi propulsionada pelo  fortalecimento  do turismo cultural em Minas Gerais, principalmente relacionado à gastronomia e a produção  rural associada ao turismo.   Em  Minas  Gerais,  a  produção do  QMA é  reconhecida  pela  legislação estadual  desde  o  ano  de  2002,  sendo  por  ela  instituídos  requisitos  mínimos  obrigatórios  a  sua  fabricação, de acordo com as boas práticas agropecuárias e de fabricação (MINAS GERAIS,  2002). As regiões tradicionalmente produtoras de quijo foram diretamente beneficiadas com  este  reconhecimento  e  outras  regiões  começaram  a  investir  na  produção  do  QMA  e  em  diversificar e associar este produto a outras atividades, dentre elas o turismo.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   _____________________________________________________ 202    Desde o ano de 2002 diversos regulamentos técnicos s obre a produção de queijos  artesanais foram publicados, seja em âmbito estadual ou federal. Destaca ­se, neste contexto, a  publicação da Lei Federal N° 13.680, de 14 de junho de 2018, que alterou a Lei Nº 1.283, de  18 de dezembro de 1950 para dispor sobre o processo de fiscalização de produtos alimentícios  de origem animal produzidos de forma artesanal (BRASIL, 2018).   Pois  bem,  foram  necessários  praticamente  68  anos  para  que  as  questões  relacionadas à fiscalização sanitária deste  valioso produto  fossem acer tadas. Parece­nos  uma  imensa  tragédia  o  que  aconteceu,  pois  foram  muitos  anos  sem  investir  oficialmente  nesta  cadeia produtiva. Entretanto,  na medida em que os produtores  foram aderindo às exigências  sanitárias  muitas  evoluções  foram  observadas  nas  queijar ias.  Os  animais  ficaram  mais  saudáveis,  o  leite  cru e  o  queijo  melhoraram e as  roças  ficaram  mais  organizadas,  limpas,  bonitas  para  exatamente  poder  usufruir  dos  benefícios  do  turismo.  Que  turista gostaria de  visitar uma propriedade com problemas sanitários?   O QMAque começou a ser produzido no início do ciclo da mineração é, em essência, feito da mesma forma até hoje. Para a sua produção são utilizados como ingredientes o leite cru de vacas pertencentes ao rebanho da propriedade onde está instalada a queijaria, além de coalho, sal e „Pingo‟, que é definido como um soro­fermento contendo microrganismos naturais e típicos da propriedade. Com exceção da possibilidade de se realizar a ordenha mecânica, na sua fabricação não se emprega outro tipo de mecanização. O local de produção – a Queijaria, consiste em uma edificação de alvenaria, com portas e janelas teladas, localizada adjacente à sala de ordenha das vacas.  O  fluxograma  para  a  fabricação  do  QMA  é  formado  por  várias  etapas.  Inicialmente, realiza ­se a ordenha do  leite  cru das  vacas, as quais devem  ser produzidas  na  mesma  propriedade  onde  está  instalada  a  Queijaria.  Para  esta  variedade  de  queijo  não é  permitida a utilização do leite cru proveniente de outras propriedades.   Posteriormente à ordenha,  o  leite  cru é  transferido para a  sala de  fabricação da  Queijaria,  momento  em  que  também  será  filtrado  para  remoção  de  partículas  estranhas.  Adiciona ­se ao  leite  cru o Pingo e depois o  coalho, aguardando­se a  formação da  coalhada.  Uma  vez  obtida,  a  coalhada  é  cortada  e  colocadas  em  formas  cilíndricas.  Durante  a  enformagem  se  faz a prensagem para a expulsão do excesso de  soro.  Algumas propriedades  realizam  prensagem  com  a s  mãos  e em  outras  a  massa é espremida  com  o  auxílio de  um  tecido próprio a este fim, „chamado de volta ao mundo‟.    A Produção d o Queijo Minas Artesanal  e o   Turismo   Cleube Andrade Boari   Cynthia Regina Fonte Boa Pinto   _____________________________________________________________ 203    Figura 2: Rebanho Gir cujo leite é utilizado pelo Produtor Túlio Madureira (Serro  –   MG) para a  produção do Queijo Minas Artesanal do Serro Q ueijo do Gir     Fonte: Arquivo pessoal dos autores     As  formas  contendo a  massa  são dispostas em  mesas  ou bancadas  ligeiramente  inclinadas para  facilitar o escorrimento do  soro que  se desprenderá por algum tempo após a  enformagem. Em determinado momento o  soro que se desprende da massa será coletado para  a  fabricação da próxima batelada de queijos – est  é o Pingo.  Ainda  nas  formas os queijos  recebem a adição de sal, geralmente na granulometria de pedra. Os queijos enformados devem  ser periodicamente virados para que se tenha uma dessoragem uniforme.     Figura 3: Queijo Minas Artesanal produzido na Queijaria Braúnas (Diamantina  –   MG) em sua s  variedades „casca florida‟, com fungos filamentosos brancos em sua casca, e „casca lisa‟ (amarelo).     Fonte: Arquivo  pessoal dos autores.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   _____________________________________________________ 204    Quando o queijo se torna estável ele deve ser desenformado. Feito isto  se realiza  uma etapa conhecida por grosagem ou toalete, na qual o queijeiro, utilizando lixas, pequenos  ralos e água, trabalha a  casca do queijo para  lhe  conferir aspecto  liso. Os queijos  seguem, a  partir daí, para a maturação, etapa na qual acontecem diversas transformações físico­qu micas  e  sensoriais, principalmente mediadas pela atividade de enzimas  naturais do  leite  cru e pela  ação dos microrganismos inoculados  pela adição do Pingo. Os queijos finalizados são, então,  embalados, rotulados e expedidos para a comercialização.    Figura: Queijo Minas Artesanal em processo de salg a  e estabilização     Fonte: Arquivo pessoal dos autores     O emprego de técnicas  simples e advindas da sabedoria dos produtores, ao longo  dos  séculos,  proporcionou a  utilização do Pingo para a  fabricação do QMA. Este  fermento  natural é  obtido  após  a  enformagem  da  massa  coagulada  e  durante  seu  descanso  e  salga,  realizadas em mesas ou bancas. O nome de Pingo decorre do fato de que o soro que deixa a  massa enformada escorre pela bancada, propositalmente construída com ligeira declividade, e  goteja em um recipiente. O Pingo dos queijos em fabricação é utilizado para a fabricação de  novos  lotes.  Este  soro ­fermento  contém  cloreto  de  sódio  e  elevada  contagem  de bactérias  A Produção d o Queijo Minas Artesanal  e o   Turismo   Cleube Andrade Boari   Cynthia Regina Fonte Boa Pinto   _____________________________________________________________ 205    láticas desejáveis, que são em grande parte responsável pela cor, sabor, aroma e textura típicas  dos queijos.  A maturação, tão praticada atualmente, pode ser definida  como  um processo  no  qual os queijos são mantidos em condições locais de temperatura e umidade relativa do ar, por  tempos  variáveis.  Estes  parâmetros  podem  ser  controlados  na  sala  de  maturação  com  climatizadores específicos, mas a critério do produtor ele também pode preservar as condições  climáticas naturais da propriedade.  Durante  a  maturação  acontecem  diversas  transformações  microbiológicas  e  bioquímicas  nos  queijos,  resultando  na  formação  e  sabores,  aromas,  texturas  e  aparências  bastante pec uliares e apreciados. Com o passar do tempo, os queijos começam a expressar em  si os efeitos da propriedade e da Queijaria onde  foi produzido, especialmente em  função de  sua altitude, do solo, da água, das raças e do manejo dos animais, do saber fazer e da receita  de  cada  produtor,  bem  como  dos  microrganismos  ali  existentes  e  da  forma  como  eles  se  desenvolvem. Tudo isto  faz  com que os queijos  sejam muito especiais e peculiares, repletos  de manifestação do seu terroir de origem.   Todo  este  processo,  sua  hist ória  e  sua  relação  com  os  territórios  de  produção  brindam  ao  visitante,  em  localidades  de  produção  associada  ao  turismo,  uma  experiência  memorável.    O TURISMO “QUEIJEIRO” EM MINAS GERAIS    Uma  atividade  importante  na  atualidade é  turismo.  Sua  evolução bem  como  a  busca  por  experiências  diversas  pelos  visitantes  e  a  criatividade  dos  planejadores  e  empreendedores  do  turismo  tem  propiciado  o  desenvolvimento  de  diversos  setores  correlacionados, tanto em meio urbano quanto em meio rural. Um dos potenciais da ativi dade  turística é a geração de emprego e renda, principalmente, quando a atividade é implementada  de forma planejada. Segundo Mário Carlos Beni (2003 p. 144), “atualmente a consideração do turismo  no  que  concerne  as  políticas  públicas  e ao  processo de  orden amento do  território,  enquanto  crescente  atividade  produtiva  e  importante  instrumento  coadjuvante  de  desenvolvimento  sócio  econômico,  vem  merecendo  em  alguns  países  planejamento  e  programas específicos.” A prática do turismo em meio rural proporciona a criação  de  diversificados  produtos  e  serviços  turísticos.  O  potencial  empreendedor  e  a  criação destes  produtos  favorecem destinos turísticos e possibilitam a criação de novas rotas e manutenção  dos turistas e visitantes por mais tempo na região. Balanzá e Nadl (2003, p.10) afirmam que:   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   _____________________________________________________ 206    A medida em que cresce o número de turistas que chegam a uma região, aumentam  as necessidades de diversos itens, aumenta o consumo de bens e serviços, e se reflete  em  maior  produção  e  em  maior  crescimento  econômico.  Em  resumo ocorre  um  efeito dinamizador, um crescimento econômico”.     A  produção  rural  de  produtos  especiais  como  queijos  associada  a  atividade  turística,  permite  uma  série de possibilidades,  transformando áreas  rurais em destinos  para  turistas  e  visitantes,  ampliando  as  possibilidades  e  geração  de  renda  para  áreas  tradicion almente  rurais  (PINTO  2018).  O  planejamento  destas  atividades é  essencial  para  garantir o mínimo impacto ao processo  produtivo das  fazendas, para garantir aos  turistas e  visitantes uma experiência positiva e para que o destino seja valorizado e tenha uma imagem  positiva e competitiva.   Na região da Serra da Canastra, sudoeste do estado de Minas Gerais, cerca de 800  famílias  são envolvidas  com a produção de queijo nos municípios de Tapiraí, Medeiros, São  João Batista do Glória, São Roque de Minas, Delfinópolis, Vargem Bonita e Piunhí, Bambuí.  Para  organizar  a  atividade  foi  criada  a  Associação dos  Produtores  de  Queijo  da  Canastra  (APROCAN).  Com  a  criação  desta  associação  diversas  ações  foram  implementadas  para  fomentar esta tradição secular da região. Um dos passos importantes para o desenvolvimento  do  processo  de  produção  queijeira  associada  ao  turismo  foi  a  organização  local  para  o  reconhecimento  da  Indicação  de  Procedência  dos  Queijos  da  Serra  da  Canastra.  Esta  indicação de procedência, obtida em 2012, fez que com o ueijo Canastra fosse reconhecido e  garantidas  as  tradições,  saberes  e  fazeres  deste  importante  produto.  È  possível  que  este  reconhecimento induza resultados como a quantidade de premiações obtidas pelos produtores  e com isso visibilidade para o produto e para região.    Em  todo  o  mundo  os  reconhecimentos  através  de  processo  de  certificação,  indicações de procedência e geográficas são importantes para a valorização dos produtos. Esta  valorização ajuda a  fomentar a atividade turística pois  leva o  visitante a  conhecer a  história  das áreas de produção e, consequentemente, procurar visitar estas regiões para experenciar e,  na maioria das vezes, adquirir os produtos. Na Serra da Canastra foi criada a Rota Turística do  Queijo Canastra.  Aproveitando o poten cial  natural da região que está localizada, em área de  transição  de  Mata  Atlântica  e  Cerrado,  e  pela  presença  de  atrativos  importantes  como  o  Parque  Nacional  da  Serra da  Canastra esta  Rota  Turística  com  a  finalidade de  fomentar  a  atividade turística.  Atualmente a rota envolve diversos empreendimentos  turísticos e recebe  visitantes do Brasil e de outros países. Existe sinalização turística específica da rota, agências  de  turismo  que  comercializam  pacotes  de  viagens  para  a  região,  realização  de  eventos  A Produção d o Queijo Minas Artesanal  e o   Turismo   Cleube Andrade Boari   Cynthia Regina Fonte Boa Pinto   _____________________________________________________________ 207    turísticos  com  a  temática  do  queijo  artesanal  e  roteiros  interativos  onde  os  visitantes  têm  informações sobre a rota através de placas com diversas informações.  Já  em  Diamantina,  no  Vale  do  Jequitinhonha,  por  mais  que  a  região  produza  queijos desde seus primórdios, existe, atualmente, um investimento em pesquisa, tecnologia e  apoio técnico para a produção de queijos artesanais. Diamantina é um município mineiro que  abriga um vasto patrimônio natural, histórico e cultural. Possui, pela presença de um extenso  casar io  colonial protegido e pela Serra dos Cristais, o título de Patrimônio da Humanidade,  concedido pela UNESCO em 1999. O município é circundado por  unidades de  conservação  como  o  Parque  Estadual  do  Biribiri,  o  Parque  Nacional  das  Sempre  Vivas  e  outras  impor tantes áreas que aliam a  conservação, a preservação e o  turismo. Estes  fatores  fazem  com  que  turistas  e  visitantes  procurem  Diamantina  como  destino  turístico.  O  município é  servido  por  universidade,  faculdades  e  institutos  de  excelência  em  ensino,  pesquisa  e  extensão, diversificada  oferta de atrativos  e de  serviços  turísticos.  Várias  são as  atividades  econômicas realizadas em Diamantina. A produção rural é bastante diversificada e acontece,  principalmente, nos distritos e áreas rurais do município.   A  produ ção de queijos em Diamantina é antiga. Desde os  primórdios,  fazendas  beneficiam o  leite  fazendo  laticínios, principalmente o queijo. Desde 2015, a partir de  uma  intervenção do  curso  de  zootecnia  da  Universidade  Federal  dos  Vales  do  Jequitinhonha  e  Mucuri   e da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais, os  produtores  identificaram  uma  nova  forma de  maturar  os  queijos  diamantinenses  e  o  valor  agregado ao produto  foi  substancial a ponto de  ser  criada  uma associação de produtores, a  Associação dos Produtores de Queijo da Região de Diamantina (APRODIA), e de se iniciar o  processo de formalização da forma artesanal da produção do queijo  local. Vários produtores  foram  premiados  e  a  qualidade do  queijo  artesanal  de  Diamantina  está  sendo  reconhecida  nacional  e  internacionalmente.  Recentemente,  em  março  do  ano  de  2022,  a  região  de  Diamantina foi reconhecida como “Produtora de Queijo Minas Artesanal”, um marco para produtores,  instituições  relacionadas  e  para  os  consumidores.  (MINAS  GERAI S,  2022)  O  recente reconhecimento aponta a  necessidade de ações de  fomento a este produto. Existem  duas  queijarias  em  Diamantina  que  se  despontam  pela  qualidade  de  seus  queijos  e  por  oferecer atividades para turistas e visitantes. Estas recebem grupos organizados para visitas às  dependências  das  queijarias.  Antes  da  pandemia  ofereciam  roteiros  e  refeições  a  beira  do  fogão à lenha e atualmente recebem grupos organizados com agendamentos prévios, somente  para  a  visita  e  vivência  dos  processos  produtivos.  Uma  das  queijarias  é  um  dos  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   _____________________________________________________ 208    empreendimentos de uma Rota Turística Artesanal que agrega também visitas à cervejaria e à  vinícola. Algumas agências de turismo receptivo e guias da cidade já comercializam pacotes  para  as  queijarias.  Não  existe  sinalização  indicatva  para  as  queijarias  e  as  ações  para  o  fomento do turismo associado a produção rural ainda são incipientes.    CONSIDERAÇÕES FINAIS   O potencial para a prática da produção rural associada ao turismo é inegável. O  estado  de  Minas  Gerais  é  conhecido  internaci onalmente  pelo  seu  potencial  cultural,  principalmente relacionado à gastronomia. A  cachaça, os quitutes e quitandas, a  criatividade  da  culinária mineira e  sua diversidade  fazem  com que as possibilidades de  criar produtos e  roteiros turísticos sejam imensur áveis. Os novos produtos, que surgem ao longo dos tempos e  para  os  mais  diversos  gostos  como  as  cervejas  artesanais,  o  vinho  mineiro  também  fazem  parte deste arcabouço de possibilidades.  A produção rural de alimentos especiais, associada  ao  turismo,  benefi cia  turistas,  visitantes  e  produtores  e  é  uma  tendência  mundial.  O  reconhecimento  desta  nova  forma  de  fazer  turismo  já  um  grande  passo  para  o  desenvolvimento  da  atividade  no  estado.  A  criação  de  políticas  públicas  sugere  este  reconhecimento  tanto  para  o  pr oduto  queijo  como  para  os  demais  produtos  artesanais  importantes para o estado.   Na  Serra  da  Canastra  o  potencial  turístico  da  região,  o  associativismo  e  a  qualidade do queijo, induzem o fluxo de visitantes e a Rota do Queijo gera impactos positivos  para a região.  É importante manter as ações e avaliar os  impactos de mais de dez anos de  implementação da a rota do queijo para traçar novas estratégias e garantir a plena manutenção  da  atividade.  A  atração de  novos  empreendimentos  bem  como de  recursos  para  melhorias  infra  estruturais  como  acesso  e  comunicação  pode  potencializar  ainda  mais  a  produção  associada ao turismo.   Já em Diamantina, parcerias com instituições de ensino e de fomento à produção e  ao  turismo  podem  ajudar  a  implementação  de  diversas  atividades nas  queijarias  que  já  recebem  turistas  e  em  outras  que  ainda  não  recebem.  É  importante  também  garantir  a  qualidade  dos  queijos  e  apoiar  a  criação  de  leis  que  possam  fomentar  o  pleno  desenvolvimento da produção associada ao turismo, em queijarias e em outr as unidades rurais  produtivas como vinícolas, cervejarias, fazendas de produção de mel, azeite e outros produtos.   Por fim, é importante ressaltar que há ainda longo caminho para que a produção queijeira seja de fato reconhecida por todo seu valor e importância, mas muitas iniciativas, A Produção d o Queijo Minas Artesanal  e o   Turismo   Cleube Andrade Boari   Cynthia Regina Fonte Boa Pinto   _____________________________________________________________ 209    como as expostas acima, têm acelerado este processo. O sucesso dos queijos mineiros e sua qualidade tem sido atestada pela grande quantidade de medalhas que os produtores têm conquistado em diversos concursos de relevância internacional, como na terceira edição do Mondial du Fromage et des Produits Laitiers (TOURS, FRANÇA, 2017), na quarta edição do Mondial du Fromage et des Produits Laitiers (TOURS, FRANÇA, 2019), Prêmio Queijo Brasil e Mundial do Queijo de Araxá.     Figura 4:   Divulgação do „Mondial du Fromage‟ (Tours –   França), edição 2017    Fonte: Arquivo pessoal dos autores     O sucesso do turismo no estado tem sido atestado pelo aumento constante do número de visitantes e pela busca de novas e memoráveis experiências. Certamente a associação eficiente da atividade turística à produção rural será uma tendência no Estado de Minas Gerais.     REFERÊNCIAS     ARIAS ­ROTH,  E.,  BACHMAN,  H.P.,  FRÖHLICH ­WYDER,  M ­T,  SCHMIDT,  R.S.,  WECHSLER, D., BEUVIER, E., BUCHIN, S., DELBÈS, C.  Encycloped of Dairy Science:  Raw milk cheeses .  3°ed., p. 299­308, Cork: Academic Press, 2022.    BALANZÀ, Isabel, Nadal, Mônica.  Marketing e Comercialização de Produtos Turísticos .  São Paulo: Pioneira Thompson Learning, 2003.    BENI,  Mario  Carlos.  Globalizaç ão do  Turismo:  Megatendencias  do  setor  e  a  realidade  brasileira . São Paulo: Aleph, 2003.    BRASIL.  Lei Nº 1.283, de 18 de dezembro de 1950. Dispõe  sobre a inspeção industrial e  sanitária dos produtos de origem animal. Rio de Janeiro. RJ, 1950.    Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:    Debates na UFVJM   _____________________________________________________ 210    BRASIL.  Decreto  Nº  30.691,  de  29  de  março  de  1952. Aprova  o  novo  Regulamento  da  Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal. Rio de Janeiro. RJ, 1952.    BRASIL.  Lei  Nº  13.680,  de  14  de  junho  de  2018. Dispõe  sobre  a  inspeção  industrial  e  sanitária dos produtos de origem animal. Altera a Lei Nº 1.283, de 18 de dezembro de 1950  para  dispor  sobre  o  processo  de  fiscalização  de  produtos  alimentícios  de  origem  animal  produzidos de forma artesanal. Brasília. DF: Diário Oficial da União, 2018.     MINAS GERAIS . ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE MINAS GERAIS.  Lei  nº 14185 de 31 de janeiro de 2002. Processo de Produção do Queijo Minas Artesanal. Diário  do Executivo, Belo Horizonte, 01 de fevereiro de 2002.    MINAS GERAIS. INSTITUTO MINEIRO DE AGROPECUÁRIA.  Porta ria  nº   2.129 de 22  de  março  de  2022. Identifica  a  região  de  Diamantina  como  produtora  de  Queijo  Minas  Artesanal.  Belo Horizonte, 22 de março de 2022.      PINTO,  Cynthia Fonte Boa.  Desarrollo  del  Enoturismo  en  América  del  Sur.  Su  estudio  desde la  geografía y   los  sistemas de información  geográfica.  Universidad Nacional del Sur  –  Argentina.  Tesis  de  doctorado  en  geografía,  2018. Acesso  em  03/05/2021.  https://repositoriodigital.uns.edu.ar/bitstream/handle/123456789/4630/Tesis_Cynthia_Fonte_ Boa.pdf?sequence=1& isAllowed=y     SAINT ­HILAIRE,  Auguste  de.  Viagem  às  nascentes  do  Rio  São  Francisco  e  pela  província de Goyaz.  São Paulo:  Companhia Editora Nacional, 1937.                         Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.   Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.                SOBRE OS AUTORES         Scalco. R.F.; Varjão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V. Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.        Alan  Faber do Nascimento     Graduado  em  Turismo  pela  Pontifícia  Universidade  Católica  de  São  Paulo  e  doutor  em  Geografia  Humana  pela  Universidade Estadual Paulista do campus  de  Rio  Claro.  Atualmente,  é  professor  Associado  II  do  curso  de  Turismo  e  do  mestrado  em  Estudos  Rurais  da  UFVJ M.  Tem atuado e escrito  trabalhos  sobretudo  nas  áreas  de  História  do  Turismo  e  Sociologia do Turismo.       E­mail: alan.faber@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/0185442935600199      Ana Paula Ribeiro Manduca       E­mail: anaribeiropsi@gmail.com   Lattes: http://lattes.cnpq.br/8563407037205932  Mestre  em  Psicologia  Social  pela  Universidade  Federal  de  Minas  Gerais  (UFMG).  Especialista  em  Gestão  de  Instituições  Federais  de  Educação  Superior  pela  Faculdade  de  Educação  da  UFMG.  Graduada  em  Psicologia  pela  Pontifícia  Universidade  Católica  de  Minas  Ger ais.  Atualmente, é  Assistente  em  Administração  da UFMG. Atua como psicóloga clínica, com  ênfase  em  Orientação  Profissional  e  de  Carreira.    Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023. 213    Ana Flávia Andrade de Figueiredo      Pós  doutora  em  Antropologia  Social  pela  UnB.  Doutora  e  Mestre  em  Antropologia  pela  UFPE.  Possuo  como  linhas  de  estudo  centrais a política do Encontro de Saberes, as  teorias da dádiva e descoloniais.  Atualmente  Professora  Adjunta  na  Universidade Federal  dos  Vales do Jequitinhonha e Mucuri.  Líder  do  Grupo de Pesquisa  NELAS  ­ Núcleo de  Estudos  em  Literaturas,  Artes  e  Saberes  ­  UFVJM,  no  qual  também  coordena a  Linha  de  Pesquisa  Corpo,  Memória,  Oralituras,  Ancestralidade  e  Complexidade.  Integrante  da  Comissão  Encontro  de  Saberes  na  UFVJM.       E­mail: ana.figueiredo@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/1377011399174025    Camila Teixeira Heleno         E­maiil: camila.heleno@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/4396875037220514    Psicóloga,  Mestra e Doutora em Psicologia pela  Universidade Federal de  Minas  Gerais (UFMG)  com estágio doutoral  na Universidade de Oviedo  e  pós­doutoral  na  UFMG.  Atualmente,  é  professora  adjunta  da  Universidade  Federal  dos  Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), uma  das  líderes do Núcleo de Pesquisa em Turismo:  Patrimônio,  Territórios  Descoloniais  e  Trabalho  da  UFVJM,  pesquisadora  do  Laboratório  de  Estudos  sobre  Trabalho,  Sociabilidade  e  Saúde  da  UFMG,  membro do  GT Psicossociologia do  Trabalho da ANPEPP e mãe.   Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  214    Cleube Andrade Boari       Zootecnista  e  Professor  Associado  do  Departamento de Zootecnia, da Universidade  Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri  (UFVJM).  Tem  Mestrado  e  Doutorado  em  Ciências  dos  Alimentos  pela  Universidade  Federal de Lavras – UFLA. Tem experiência  na área de  ciência e tecnologia dos produtos  de  origem  animal,  especialmente  com  a  produção de queijos artesanais.      E­mail: c.boari@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/2685875786267997       Cynthia  Regina Fonte Boa Pinto       E­mail: cynthia.fonteboa@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/4862382903424962  Possui  graduação  em  Turismo ­ Unicentro  Newton Paiva (2001), Mestrado em Turismo  e  Meio  Ambiente  pelo  Centro  Universitário  UNA  (2006)  e  Doutorado  em  Geografia ­  Universidad  Nacional  del  Sur  (2019).  Atualmente, atua  como Professora do Curso  de  Turismo  da  Universidade  Federal  dos  Vales  d o  Jequitinhonha  e  Mucuri.  Tem  experiência  na área de Turismo,  com ênfase  em Planejamento, Gestão e Desenvolvimento  Local.       Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023. 215    Gabriel Farias Al ves Correia       Doutorando,  Mestre  e  Bacharel  em  Administração pela Universidade Federal de  Minas  Gerais  (UFMG).  Foi  professor  substituto da Universidade Federal dos Vales  do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) . Possui  interesses  de  pesquisa  em  temas  como  histórias  e  memórias,  cotidiano  e  gestão  ordinária        E­mail: correiagfa@ gmail.com   Lattes: http://lattes.cnpq.br/8983727420038399        Georgina Maria Véras Motta         E­mail: georginavmotta@gmail.com   Lattes: http://lattes.cnpq.br/5600307305238435    Doutora  e  Mestre  em  Psicologia  Social  (UFMG),  pós ­graduada  em  Saúde  Mental  e  Trabalho  (ICNPF).  Membro  do  Laboratório  de Estudos sobre Trabalho, Sociabilidade e Saúde/UFMG, do Fórum Sindical e Popular  de Saúde e Segurança do Trabalhador e da  Trabalhadora  de  Minas  Gerais  (FSPSST/MG) e do OSAT ­UFMG/PBH.               Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  216    Guilherme Fortes Drummond Chicarino Varajão     Graduado  em  Turismo  pela  Universidade  Federal de Ouro Preto, Mestre em Geografia  (Tratamento  da  Informação  Espacial)  pela  Pontifícia  Universidade  Católica  de  Minas  Gerais  e  Doutor  em  Geografia  (Análise  Ambiental)  pela  Universidade  Federal  de  Minas  Gerais.  Atualmente,  é  professor  associado  do  Curso  de  Turismo  e  Coordenador do Programa de Pós­Graduação  em  Ciências  Humanas  da  Universidade  Federal  dos  Vales  do  Jequitinhonha  e  Mucuri .      E­mail: guilhermefdcv@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/1327402082703038        Hugo Rodrigues de Araújo         E­mail: hugo.araujo@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/9305503365859375      Possui  graduação  em  Turismo  pela  Universidade Federal de Ouro Preto (2007),  especialização  em  Ecoturismo  pela  Universidade  Federal  de  Lavras  (2009),  mestrado  em  Sustentabilidade  pela  Universidade Federal de Ouro Preto (2014),  doutorado em Turismo pela Universidade de  Lisboa  (2019).  Atualmente  é  professor  do  curso  de  Turismo  da  Universidade  Federal  dos  Vales  do  Jequitinhonha  e  Mucuri  ­  Campus JK..   Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023. 217      Maria Cláudia  Almeida Orlando Magnani     Graduada  em  Filosofia  pela  Universidade  Federal  de  Minas  Gerais  (UFMG),  Mestra  em História da Ciência pela Fiocruz, Doutora  em  História  da  Arte  pela  UFMG,  fez  pós­ doutorado  em  História  da  Arte  na  Scuola  Normale Superiore di Pisa e em História da  Arte  ­  Elementos  Decorativos  na  Falsa  Arquitetura,  na  Università  degli  Studi  di  Firenze.  Atualmente, é  professora  associada  de História da Arte no curso de Turismo e no  Programa  de  Pós­Graduação  em  Ciências  Humanas da Universidade Federal do s Vales  do Jequitinhonha e Mucuri.       E­mail: mclaudia.magnani@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/1858387591943845    Ramon Duarte Araújo         E­mail: ramon.duarte@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/9305503365859375      Estudante  do  curso  de  Turismo  da  Universidade  Federal  dos  Vales  do  Jequitinhonha  e  Mucuri  (UFVJM/Diamantina ­MG).  Estagiário  no  Museu do Diamante (IBRAM).      Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  218      Raquel Faria Scalco     Doutora  em  Geografia  pela  UFMG  (2019);  mestre  em  Geografia  pela  UFMG  (2009);  especialista em Turismo e Desenvolvimento  Sustentável pela UFMG (2004); bacharel em  Turismo  pelo  Centro  Universitário  Newton  Paiva  (2002).  Atualmente,  é  Professora  Adjunta do  curso  de  Turismo da  Faculdade  Interdisciplinar  em  Humanidades  da  UFVJM. Tem experiência na área de turismo  e  docência,  atuando  principalmente  nos  seguintes  temas:  turismo,  meio  ambiente,  educação,  sustentabilidade,  unidades  de  conservação, legislação aplicada ao turismo.        E­mail: raqu el.scalco@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/1858387591943845      Ricardo Vinicius C. dos Santos e Carvalho           E­mail: rvccarvalho@gmail.com   Lattes: http://lattes.cnpq.br/9303320671941400    Doutorando  e  mestre  em  Administração  pela Universidade Federal de Minas Gerais  (UFMG).  Especialista  em  Gestão  Pública  pela  Fundação  João  Pinheiro/MG.  Economista  pela  UFMG  e  Administrador  pelo  Centro  Universitário  Newton  Paiva.  Atualmente, é analista do Banco Central do  Brasil.    Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023. 219    Rodrigo  Burkowiski     Doutor  em  Administração  pela UFLA  (2013),  com  estágio  pós­doutoral  na  UniCEUMA  na  área  de  Meio  Ambiente,  M estrado  em  Hospitalidade,  pela  Faculdade  Anhembi ­ Morumbi  (2004), Especialização em  Gestão de  Negócios  e  Empreendedorismo  pela  UFJF  (2001) e Graduação em Turismo pela Faculdade  de  Turismo  de  Santos  Dumont   (1999).  Atualmente,   é  Professor  Associado  I I  da  Uni versidade  Federal  de  Ouro  Preto.  Tem  experiência na área de Turismo, Meio Ambiente  e Patrimônio. Atua principalmente nos seguintes  temas:  Áreas  Protegidas,  Valoração  e  Serviços  Ecossistêmicos Culturais e Políticas Públicas .            Email: rodrigo@ufop.edu.br  Lattes: http://lattes.cnpq.br/0696724444875444     Valéria Rodrigues Neves       E­mail: valeria.rodrigues@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/3454194445542428    Administradora  pela  Universidade  do  Norte  do  Paraná,  Especialista  em  Administração  Pública pela Universidade Cândido Mendes e  Mestre  em  Saúde,  Sociedade  e  Ambiente  pela  Universidade  Federal  dos  Vales  do  Jequitinhonha e  Mucuri (UFVJM).  Ocupa  o  cargo  efetivo  de  Tecnóloga  em  Gestão  Pública  na  UFVJM  e,  há  cerca  de  5  anos,  também  atua  na  função  de  Procuradora  Educacional  Instituc ional  gerenciando  os  sistemas  de  avaliação  externa  promovidos  pelo  MEC.  Atualmente,  também  é  Coordenadora Local da Comissão Própria de  Avaliação (CPA) de Diamantina.    Scalco. R.F.; Varajão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V.  Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.  220    Virgi nia Martins Fonseca     Professora Adjunta no Curso de Turismo e  no  Mestrado  em  Estudos  Rurais  da  UFVJM.  Doutora  em  Geografia  (UNS  ­  Argentina).  Especialista  em  Educação  Ambiental (CRHEA  ­ USP) e Bacharel em  Turismo (Unicentro Newton Paiva). Líder  do  Núcleo  de  Pesquisa  em  Turismo:  Patrimônios,  Territórios  Descoloniais  e  Trabalho.  Pesquisadora  Associada  do  Observatório  de  Parcerias  em  Áreas  Protegidas  (OPAP).  Pesquisadora  colaboradora  na  Red  Cientifica  Latinoamericana  Territorios  Posibles,  Praxis  y  Transformación,  no  projeto  Territórios  Posibles,  Utopias  Reales. Mãe  de duas crianças, um a de nove anos e outra  de sete anos.                E­mail: virginia.martins@ufvjm.edu.br   Lattes: http://lattes.cnpq.br/0844500125867329      Scalco. R.F.; Varjão, G.F.D.C; Heleno, C.T.; Martins Fonseca, V. Perspectivas Interdisciplinares em Turismo:  Debates na UFVJM   Diamantina: UFVJM, 2023.